A fada que o escreva

28 Extra IV: Uma família de exorcistas - Parte I


Notas iniciais
Olá! Postando mais tarde porque fiquei ocupada ontem. E serei breve nas palavras porque estou usando os dados móveis kkkk. Boa leitura ♥

Hibisc

Eu já havia enfrentado um demônio, uma vampira possuída, um doutor psicopata, um louco dos caixões e até minha governanta pirada, porém, aquilo era demais para mim. E talvez fosse por isso que eu estivesse escondido debaixo de minha cama tendo como única visão as botas de Gaspar.

— Francamente, rapaz, ele só te pediu para conhecer os pais dele! – o inventor bateu um dos pés.

— E isso não é amedrontador? – rangi os dentes.

— Bem, é. – ele pigarreou. – Mas você vai conseguir. Todos amam o Suichiro. – ajoelhou-se e estendeu-me a mão.

Pressionei os lábios e desviei meu olhar para as tábuas do chão. O nó em meu estômago dizia completamente o contrário.

— Suichiro, o que foi que eu lhe falei quando você entrou na guilda?

Respirei fundo e arrastei-me para fora de meu esconderijo, mas ainda permaneci deitado no piso, sem a mínima vontade de levantar-me ou de encarar meu melhor amigo.

— Que eu devia manter distância dos magos porque eles eram exibidos e dos exorcistas por serem assustadores. – torci a boca.

— Exatamente. E o que você fez? – Gaspar sentou-se ao meu lado.

— Achei que isso só valesse dentro da guilda. – fiz uma careta.

— Foi um conselho para a vida toda. – ele deu um peteleco em minha testa. –Lide com as consequências.

Fechei os olhos por um instante, todavia, os abri assim que escutei as batidas na porta do andar debaixo. Quis voltar para debaixo da cama, entretanto, Gaspar que já sabia prever todos os meus movimentos, puxou-me pelos braços e obrigou-me a ficar de pé.

— Agora você vai lá conhecer o casal que deu a vida ao seu noivo! – arrastou-me escada abaixo.

— Não é justo, ele não tem que passar por isso, já que meu pai mora em uma ilha. – protestei.

— Ele conheceu seu pai. E sua... Ah, melhor deixar para lá. – sua voz vacilou.

— É, mas quando fomos para Hasi, ainda não tínhamos um noivado. Meu pai o tratou como trata qualquer um.

— Convenhamos que estar no mesmo ambiente que seu pai já é um desafio, com ou sem noivado. – o inventor assentiu.

Assim que Gaspar abriu a porta, nos deparamos imediatamente com a expressão de nervosismo de Dante. Se nem ele que era da família estava tranquilo, por que eu tinha que estar?

— Boa sorte, rapazes! – meu amigo acenou. – Só voltem aqui com uma bênção, entenderam?! – e bateu a porta mais forte do que eu esperava.

Dante deu uma risada abafada, colocou-se diante de mim e segurou minhas mãos.

— Acha que é tarde demais para eu lhe dar um anel de noivado? – desviou o olhar.

Meu coração quis falhar uma batida e eu engoli em seco. O exorcista sorriu, buscou por algo no bolso de seu sobretudo e retirou de lá uma caixinha de madeira escura.

— Agora que não existe mais a necessidade de duplas entre exploradores e exorcistas, dificilmente vão te deixar entrar em Saintenia. Porém, conjugues têm passe livre.

Ele abriu a caixinha, revelando um par de alianças de prata que possuíam uma pedra vermelha em seu centro e pequenos cristais cintilantes por seu aro. Senti algo explodir dentro de mim, fosse amor, euforia ou outra coisa, eu só sabia que estava prestes a sair dando pulinhos e desmaiar.

— B-Bom, muitas pessoas devem fingir ser conjugues para entrar na cidade, não é? – disparei sem graça e massageei minha nuca.

Como eu podia ser incapaz de calar a boca?

Dante piscou os olhos lentamente, esboçou um sorriso amarelo e primeiramente ajeitou o anel em seu dedo e depois no meu, dando um beijo nas costas de minha mão ao final.

— Por favor, casa comigo. – balbuciei admirado.

— Eu vou casar, é por isso que estou colocando um anel no seu dedo, garoto. – ele revirou os olhos. – E o motivo de ter demorado tanto é que essa aliança leva tempo para ser forjada.

— Por quê? – analisei-a reparando em como sua pedra emanava uma luz brilhante. – U-Uau...

— Exatamente por isso. Porque as pedras só reluzem se o casal que as estiver usando... – Dante observou sua mão também. – Ah, bem... – fechou os olhos e mordeu o lábio inferior. – Se amem de verdade.

O rubor se espalhou por todo o meu rosto e pescoço. Ouvindo-o falar daquele jeito, lembrei-me de uma história que contava sobre um tipo de aliança excepcional para exorcistas.

— Aliás, espero que não se importe de eu ter dado o dente daquele coelho-de-luxo para compor o aro. – apontou para os cristais. – Era necessário um objeto que nos unisse.

— Hum, se Sybelle ainda estivesse conosco, a usaria no aro? – brinquei.

— Um anel de fada não seria nada mau. – Dante sorriu de canto. – Mas o dente caiu melhor. Você me presenteou depois de gritar comigo e ali eu percebi que definitivamente queria passar o resto da vida com você.

Não soube o que responder. Não tinha como responder. Somente o encarei fixamente e aceitei que minha boca aberta só serviria para engolir mosquitos, ao invés de dizer algo à altura do que o exorcista merecia ouvir.

— Certo, já estamos atrasados. – ele pigarreou. – Podemos ir?

Cumprimentei a égua Victória com um afago e Dante prontamente me ajudou a montá-la, subindo em seguida e batendo as rédeas para iniciar o galope até Saintenia.

Foi quase como a primeira vez em que pisei ali: os guardas fiscalizaram a insígnia de cruz de Dante e o deixaram passar, contudo, barraram-me ao ver minha insígnia dos pontos cardeais.

— A menos que tenha sido mandado aqui pela Guilda de Hibisc, não podemos deixá-lo entrar. – o primeiro guarda bateu o cabo de sua lança no chão.

— Na verdade, ele é meu noivo. – Dante ergueu minha mão para exibir a aliança.

Preciso confessar que senti uma pontada de orgulho.

Os guardas se entreolharam perplexos, todavia, ainda não abriram a passagem. Dante suspirou e mostrou sua aliança que brilhava como a minha, fazendo-os arregalarem os olhos de vez e rapidamente liberarem os portões.

Enquanto entrávamos em Saintenia, posso jurar que ouvi os guardas sussurrarem:

— Aquele não é o filho dos Vulpecula?

— É, o que ele pensa que está fazendo?

Cerrei os punhos levemente e fitei minhas botas, afundando-me em constrangimento. Dante não pareceu se importar, apenas passou o braço por meus ombros e levou-me até o que eu tinha certeza não ser a casa dele, pois tratava-se de um quiosque branco no meio da praça.

E Calíope estava ali.

— Vocês demoraram. – ela disse de braços cruzados. – Ei, baixote, quem diria que nos encontraríamos novamente? Você laçou mesmo o Dan. – apontou para mim com o queixo.

Ri sem jeito e estendi a mão para um aperto, mas Calíope não quis apertá-la, pelo contrário, somente arregalou os olhos e ficou nas pontas dos pés.

— Você cresceu. – gesticulou para a diferença de altura entre nossas cabeças.

Parando para notar, ela estava certa. Calíope que antes devia ser 1cm maior do que eu, estava 2cm ou 3cm menor. Comemorei e agradeci mentalmente por ainda estar em fase de crescimento.

— É bom se preparar, porque algum dia eu vou ser maior do que você. – provoquei Dante.

— Sim, é só começar a usar botas de salto. – ele zombou.

— Ah, querem parar de flertar na minha frente? – Calíope revirou os olhos. – Temos que conversar sobre o duelo de Suichiro contra o papai.

Levei meio segundo para registrar a informação e soltar um grito esganiçado. A exorcista apoiou-se na cerca do quiosque com o rosto entre os braços e o rapaz balançou a cabeça em sinal de derrota.

— Me trouxe aqui para um duelo?! – arregalei os olhos. – E para piorar, com o seu pai?! Por que não me contou antes?

— Se eu te contasse, você nunca mais pisaria em Saintenia. – o exorcista segurou-me pelos ombros.

— Escute, Suichiro, só se casa com um Vulpecula se vencer um duelo com o chefe da família. – Calíope franziu o cenho.

Encarei a exorcista por um longo e tortuoso minuto, ainda com a esperança de que ele falasse que era brincadeira, mas pela expressão de Dante, era totalmente verdade. Respirei fundo, dei-lhes as costas e exclamei:

— Eu estou voltando para Hibisc.

— Ei, ei, ei! – Dante agarrou minha mão. – É por isso que Calíope está conosco, ela nos dará apoio. Ou pelo menos tentará.

Virei a cabeça por cima do ombro, torci a boca e estudei cada um daqueles rostos, focando-me principalmente no de Dante e sabendo que estava perdido demais naqueles olhos azuis para desistir deles.

Soltei o ar e afirmei com a cabeça.

***

Um portão de finas grades brancas guardava a casa de dois andares pintada em um tom de cinza-azulado com janelas de molduras claras. A grama do jardim chegava a cintilar de tão verde e exalava beleza com as violetas que a enfeitavam.

Desde que entramos, Dante não largou minha mão um segundo sequer. Demos a volta pela casa e chegamos ao quintal dos fundos de onde vinha um som de lâminas se chocando e grunhidos.

Ah, ótimo, o pai de Dante devia estar matando algum outro pretendente.

Entretanto, a primeira coisa que enxerguei foi uma elegante mulher sentada em uma cadeira a sombra de uma árvore enquanto folheava um livro. E a segunda coisa foi um homem da altura de Dante, com o cabelo mesclado por mechas azuis e grisalhas e um cavanhaque preto, meneando uma espada contra alguém que eu conhecia.

Consegui sentir o cheiro de tabaco de longe e avistar a cicatriz que se repuxava com seu sorriso desafiador, por mais que ele estivesse caído na grama com a lâmina do adversário em seu pescoço.

— Vamos ver se você aguenta meu karma, Gaiden! – Roy exclamou.

E ali estava um touro de tamanho mediano formado por uma silhueta azul escura que cedeu com um soco de Gaiden. Engoli em seco porque karmas raramente se desfaziam daquele jeito.

— É, aguentou. – o fumante rangeu os dentes e seus olhos pararam em nós. – Opa, crianças na área.

— Ora, ora, ora, a que devo a visita do meu filho que nunca aparece? – a voz de Gaiden era tão grave que me fazia tremer.

— Pai... – Calíope começou.

— Eu vim apresentar o meu noivo. – Dante respondeu de queixo erguido e entrelaçou seus dedos aos meus.

Congelei no lugar, pois definitivamente não esperava que o exorcista fosse tão direto. Quis puxá-lo para um canto e perguntar se não seria melhor desenvolver o assunto com calma, mas 1) ele já havia dito e 2) minha voz sumiu por completo.

— Seu o quê? – Gaiden franziu as sobrancelhas.

A mulher que antes estava sentada, levantou-se com a mais perplexa das expressões e aproximou-se lentamente. Observei-a por um momento, assustando-me com o quanto Dante se parecia com ela.

— Pai, se acalme, o Dante apenas... – Calíope ergueu as mãos.

— Apenas o quê? – o homem bradou irritado. – Apenas estragou o próprio noivado com a Mai, depois estragou o seu com Dereck e agora você está tentando protegê-lo ou algo parecido?

Isso foi o suficiente para Calíope engolir suas palavras, abaixar a cabeça e recuar um passo. Cerrei os dentes e mesmo com as pernas bambas, quis seguir em frente.

— Não precisa falar assim com ela! Somente estou tentando me casar com alguém que eu escolhi, não que você escolheu ou vá escolher. – Dante rebateu.

Antes que Gaiden respondesse alguma coisa, uma gargalhada alta cortou toda a tensão que havia se espalhado pelo jardim. Vinha de Roy que continuava deitado na grama e agora mantinha uma mão na testa e outra na barriga.

— Do que está rindo? – Gaiden rosnou.

— Nada, é que eu sempre disse que esse garoto não gostava de mulher. – continuou a rir. – Ah, Gaiden, vamos lá, pare de discutir com seus filhos e duele com esse coitado.

— Roy. – a mulher o repreendeu.

— Desculpe, Solar. – ele agitou a mão. – Muito bem, parece que o nosso treinamento acabou.

— Acabou. Vá embora e leve os dois com você. – o homem deu-nos as costas.

— Querido, você vai duelar com esse jovem. É a regra da casa Vulpecula. – apesar de ser uma ordem, o tom de Solar era sereno. – Você tem um nome, afinal? – fitou-me curiosa.

— Suichiro Whitlock. – balbuciei.

— Esse nome me é um pouco familiar... – ela segurou seu queixo.

Calíope que havia se calado até então, respondeu afobada:

— Ele é o explorador que ajudou a resolver o caso dos demônios junto com o Dante!

— Ainda por cima é explorador?! – Gaiden resmungou.

— Ah, aquele que você estava mantendo em segredo. – Solar ignorou o marido. – Eu estava realmente curiosa quanto a pessoa misteriosa que acompanhou Dante. Agora eu entendo o suspense.

Cabisbaixo, lembrei-me que nem todos em Saintenia sabiam que nós dois fomos os responsáveis por encontrar a fonte do problema.

— Quanta conversa, o que esse garoto quer? Uma medalha? – o Sr. Vulpecula bufou.

— Querido, você prometeu ser mais educado com as pessoas. – Solar franziu levemente o cenho.

O homem apoiou-se em uma bancada repleta de armas, respirou fundo e ficou em silêncio durante alguns segundos. De repente, agarrou alguma coisa e jogou-a em minha direção, o que teria acertado meu rosto, caso Dante não a pegasse no ar.

— Claro, bons modos para quê? – a mulher revirou os olhos.

— Vamos duelar. – Gaiden cuspiu as palavras.

Avaliando aquela coisa de perto, tratava-se de três cilindros azul-cobalto com detalhes dourados, cujo as extremidades eram ligadas por uma corda. Meu noivo arqueou uma sobrancelha e entregou-o para mim. Com as mãos trêmulas, ousei manuseá-lo, transformando os três cilindros em um bastão parecido com o que algum dia eu já tive.

— Há, ele te deu a pior arma! – um braço passou por meu pescoço e outro pelo de Dante. – Meus mares, eu sabia que vocês tinham alguma coisa desde que os vi no porto. – Roy sorriu animado.

— Sabia? – perguntamos em uníssono.

— Sim. Vocês são burros ou o quê? – Roy deu um tapa na nuca de cada um. – Por que não se casaram lá em Hasi e deixaram para contar para o Gaiden só quando já tivessem adotado três crianças e cinco cachorros? – empurrou-nos.

Dante revirou os olhos, deu batidinhas em seu sobretudo e explicou:

— Porque Suichiro queria morar aqui em Saintenia.

— O q-quê? – ruborizei.

— Acha que eu não percebi o jeito como você disse que eu poderia morar aqui se quisesse? – Dante sorriu presunçoso. – Foi uma indireta para casar, eu entendi.

Encolhi os ombros, sorri e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. Talvez tivesse sido uma indireta mesmo.

— Ah, que doçura, deixem isso para a lua de mel, sim? – Roy mostrou a língua. – Agora vai lá, cabeção, o importante não é vencer, porque você não vai. O importante é dar tudo de si.

Agradeci pelo grande apoio, inspirei e expirei algumas vezes, ajeitei minha postura e caminhei até o centro do quintal onde Gaiden e Roy estavam treinando anteriormente.

O homem finalmente resolveu sair de perto da bancada de armas carregando uma grossa espada que devia ter metade de meu tamanho e deu os passos necessários para ficar diante de mim.

Solar suspirou calmamente e olhando para o rosto de cada um, ditou:

— Uma única rodada, perde aquele que desistir ou for ferido primeiro.

Gaiden estudou-me e esboçou o mais sádico e desdenhoso dos sorrisos, sendo imediatamente repreendido pelo semblante de sua esposa.

— Em três...

Segurei o bastão nas duas mãos, franzi as sobrancelhas e coloquei-me na posição de defesa, porque não fazia a mínima ideia de como atacar aquele homem sem sua lâmina cortar minha arma e depois fazer picadinho de mim.

— Dois...

O pai de Dante estalou o pescoço e girou o cabo da espada em apenas uma mão quando aquilo devia ter pelo menos o peso de duas Alicat. Olhei brevemente para a plateia composta por um noivo muito sério, uma moça apreensiva e um homem eufórico.

— Um. Comecem!

Continua na parte II...

Notas finais
Resolvi dividir em duas partes porque o capítulo deu 20 páginas. Então semana que vem temos a segunda parte! Não se esqueçam de me contar o que acharam! Até semana que vem. Beijos. —Creeper.