A fada que o escreva
1 A nova lei da guilda
Notas iniciais

Hibisc (capital), Enginóvia
“Todos os exploradores da Guilda de Hibisc com menos de 40 anos devem estar acompanhados de pelo menos um exorcista durante suas viagens por questões de segurança. Tenham cuidado com o surto de demônios.”
Era o que a voz feminina que saia de minha insígnia dizia repetidas vezes. Retirei-a de meu peito, quase espetando o dedo em uma de suas quinas douradas que representavam os pontos cardeais e guardei-a no bolso do sobretudo azul-céu.
— Dá para acreditar nisso?
Apoiei o braço no balcão de vidro que expunha diversas bugigangas (cujo algumas eu não fazia ideia de para que serviam) e curvei-me para encarar o rapaz de cabelos brancos que apertava os parafusos de sua mais nova invenção: um montador de tortas com forno embutido.
— Hã? Dá. – ele ergueu o rosto sujo de fuligem e semicerrou os olhos. – Até porque estão anunciando isso há um mês. Você não presta atenção nas notícias?
Desviei o olhar e tamborilei os dedos no balcão. Eu prestava, apenas havia colocado algumas atividades na frente. Ou talvez me esquecido de fazer aquilo. Olhei para minha maleta ao lado da porta e depois conferi meu relógio de bolso preso por uma corrente de bronze. Faltavam 20 minutos para meu trem partir.
— Quanto tempo demora para conseguir uma dupla na guilda? – sorri nervosamente. – Uns quinze minutos?
— Quinze dias. – Gaspar respondeu certeiro e agarrou uma chave de fenda que estava jogada aos seus pés.
Meu queixo foi ao chão e eu apertei o relógio bruscamente para que se fechasse.
— Não tenho como esperar quinze dias. – rangi os dentes, apreensivo. – Essa é minha única chance de viajar para as Terras Brancas. Sabe o quanto eu gastei nessa passagem. – choraminguei.
— Eu sei. Tanto que você não tem o dinheiro da passagem de volta. – ele disse duramente. – Mas já falei, você teve um mês para solicitar um exorcista. Não vai poder embarcar no trem sem um. Pelo menos, não enquanto esse surto de demônios não acabar.
Criaturas de olhos vermelhos, dentes pontiagudos e mau odor vagavam por Enginóvia há alguns meses, dando início a criação de toques de recolher para os moradores, lendas sobre alguma delas puxando seu pé à noite e a medida protetiva de exploradores terem uma dupla, já que éramos poucos e muitos haviam sido atacados pelos demônios nos últimos tempos. Ninguém sabia como aquela onda começou e nem quando iria acabar.
— Por que demora tanto para arranjar uma dupla? – cruzei os braços.
— Precisam ver se são compatíveis. – Gaspar limpou o suor da testa. – Com sorte, você foi o último cabeça de vento a esquecer de solicitar uma dupla. Existem mais exorcistas do que exploradores, você vai conseguir um fácil. Talvez em uma semana.
Soprei uma das mechas de cabelo cor verde-folha que caía sobre meus olhos e fiz um biquinho. Segui com o olhar a forma cinza e gorda que adentrou a sala, mais conhecida como Alicat, a gata de Gaspar. A felina passou por entre minhas pernas e atravessou a porta, provavelmente indo encontrar seus companheiros de bigode.
— Minha passagem é para hoje. – abri o sobretudo e ignorei os diversos apetrechos que carregava nos bolsos internos, focando-me apenas no bilhete de trem. – E é hoje que eu vou.
— Whitlock, me escute ao menos uma vez na vida! – o azul de seus olhos encontrou o verde dos meus. – É perigoso ir sozinho. Não quero perder meu melhor amigo. – imitou meu biquinho.
— Você nunca vai me perder. – dei um sorriso sincero. – Sabe que vou dar um jeito, não é?
Ambos olhamos para a moldura na parede entre as diversas ferramentas e cintos de couro pendurados. No papel gasto, os riscos precisos de carvão formavam o desenho de dois garotinhos sorridentes e travessos, um maior do que o outro. Tínhamos por volta dos 10 ou 11 anos quando o pai de Gaspar, vulgo meu professor de artes e mestre de explorações, nos presenteou com aquele retrato. Mesmo que Gaspar fosse um ano mais velho, fazíamos aniversário no mesmo dia.
— Eu sei. – ele suspirou e limpou as mãos em um pano já encardido. – E é isso que me assusta.
Exploradores sempre arriscavam suas vidas, aquela não seria a minha primeira vez. Além disso, eu corria mais perigo na casa que dividia com Gaspar do que na rua com os demônios. Afinal, sua invenção começava a soltar uma fumaça cinzenta.
— Gaspar, isso vai explodir. – arregalei os olhos e recuei um passo, boquiaberto.
— Talvez eu não devesse ter ligado o forno embutido antes de terminar de aparafusar… – o rapaz bateu as costas no balcão, assustado.
O primeiro andar tornou-se o próprio forno, fazendo-me quase arrancar o sobretudo. Gaspar correu para abanar a fumaça na esperança de dissipá-la, o que apenas a aumentou. Cobri a boca e o nariz, agitando a mão em frente ao rosto. Aquela era uma cena comum.
— Tudo bem! – Gaspar berrou e virou-se para mim rangendo os dentes. – Vai!
Abri um sorriso, dei-lhe um breve abraço por cima do balcão e fui em direção a porta, agarrando minha maleta assim que saí. Corri pela rua de paralelepípedos cinzas, prendi minha insígnia no peito e ao virar a esquina, escutei o som da explosão e a voz de Gaspar gritando meu nome.
Aquilo também era uma cena comum.
***
Apenas parei de correr quando cheguei à estação de modo ofegante. Me escondi atrás de um pilar e observei os passageiros que embarcavam no trem com destino para as Terras Brancas. Todos entravam de dois em dois, exceto uma mulher baixa de longos cabelos escarlates que discutia com um homem uniformizado.
Arregalei os olhos ao perceber que a conhecia. Tratava-se de Efebeth Fanning, uma grande exploradora que devia estar no auge de seus 28 anos. Todos a temiam por ter matado tudo que tentou atacá-las em suas viagens, até mesmo um demônio.
— Como assim não posso embarcar sem um exorcista? – ela bradou irritada. – Eu sou melhor lidando com demônios do que qualquer um deles!
— Sinto muito, senhorita Fanning, apenas sigo as leis. – o homem respondeu ajeitando seu quepe. – Por favor, queira deixar os outros passageiros passarem.
— Isso é um insulto! Estão dizendo que exploradores não sabem se cuidar sozinhos? – Efebeth bufou e agarrou sua mala. – Pois saiba que dançaremos na cova dos exorcistas!
— Senhorita, isso é para a segurança de todos. – ele acanhou-se um pouco.
Efebeth empinou o nariz e marchou pela plataforma na direção oposta à da entrada do trem. Se não haviam deixado sequer Fanning entrar, quem diria um Whitlock como eu.
Ponderando quanto ao que fazer, virei-me para deixar meu esconderijo, todavia, meu rosto bateu em algo macio, obrigando-me a voltar alguns passos e chocar as costas no pilar.
— Ah, desculpe. – falei ao contemplar o peitoral de alguém que carregava uma insígnia de exorcista. – Uau, seu rosto está mais para cima… – ergui a cabeça, enxergando um rapaz de cabelos castanhos escuros presos em um rabo-de-cavalo e olhos azuis cobalto.
Foi aí que tive um estalo na cabeça e voltei a olhar para sua insígnia prateada em formato de cruz, a qual exibia uma pedra preta em seu centro, diferente da dos exploradores que continha uma azul. Quando pensei em dizer alguma coisa, o rapaz moveu-se para fora de meu caminho.
— Ei, espera! – arregalei os olhos e agarrei sua mão enluvada, fazendo-o me olhar por cima do ombro. – Você está desacompanhado? Vi que você é um exorcista e eu sou um explorador, então pensei que…
O rapaz franziu as sobrancelhas e sua voz grave soou séria:
— Eu não escuto nada do que você diz.
Ruborizei de vergonha e levantei as sobrancelhas, sem jeito. Realmente, a plataforma estava cheia naquele dia, as pessoas andavam apressadas para lá e para cá e o burburinho crescia sem parar.
— Eu posso falar mais alto. – aumentei o tom de voz. – Sabe, nós dois podíamos…
Minha frase foi interrompida por sua mão enorme cobrindo minha boca. Um gosto de fuligem impregnou-se em meus lábios e eu fiz uma careta.
— Eu literalmente não consigo ouvir. Uma bruxa me amaldiçoou. – ele afastou-se de mim, andando pesadamente até a entrada do vagão.
Pisquei os olhos lentamente e comecei a me corroer de vergonha por dentro. Mordi o lábio inferior e verifiquei meu relógio mais uma vez, vendo que me restavam apenas cinco minutos para embarcar naquele trem. Franzi as sobrancelhas em um ato de determinação e agarrei um apetrecho dentro de meu sobretudo.
Movido pelo meu impulso, corri ao encontro do rapaz que preparava-se para entrar. Faltando poucos centímetros para nossa colisão, saltei e joguei-me de braços abertos em seu tronco, derrubando-o no chão da plataforma e ignorando completamente os olhares alheios.
Meus joelhos acertaram o piso de pedra, mas minhas mãos foram amortecidas sobre as roupas escuras do peito do rapaz. Ele ergueu o torso e apoiou-se nos cotovelos, encarando-me de maneira furiosa.
— Ai, meus céus, desculpa, desculpa, desculpa! – percebi o que fiz.
Levantei a mão que segurava uma esfera de vidro. Ali dentro estava guardada uma minúscula criatura amarela de cabelos flamejantes: uma fada. Ela cruzou os pequenos braços e torceu o nariz brilhante.
— Por favor, Sybelle, escreva tudo o que eu disser. – pedi apressadamente.
Sybelle empinou o queixo, virou-se para o rapaz a contragosto e esperou por minha fala.
— Eu realmente preciso de você para embarcar nesse trem.
Conforme eu falava, Sybelle usava sua magia para escrever minhas palavras no ar em um tom de dourado.
— Por quê? – ele arqueou uma sobrancelha, um tanto impressionado com a capacidade da fada.
— Porque exploradores não podem viajar sozinhos. – falei choroso. – Esqueci de solicitar uma dupla na guilda. – resmunguei desviando o olhar.
Gaspar tinha toda razão, eu era um cabeça de vento.
— E o que eu ganho com isso?
Engoli em seco e encolhi os ombros. Eu não deveria esperar ser ajudado sem dar algo em troca. Pensei no que era bom e a resposta saiu sem que eu notasse:
— Posso te ajudar a recuperar sua audição. Se foi uma maldição, deve haver uma cura. Sou explorador, vou procurar uma.
Sua dura expressão aliviou-se um pouco ao ler o que Sybelle escreveu. Ele fitou-me, parecendo avaliar-me e por fim exclamou:
— Aceito, contanto que saia de cima de mim.
Meus dedos permaneciam em seu peito e meu corpo estava curvado sobre o seu. Afastei-me subitamente, sentando-me sobre os joelhos e afundando o rosto que queimava em vermelho nas mãos.
— Espero que ele não pense que eu fico me jogando em rapazes e…
Virei a cabeça tão rápido que pensei que fosse quebrar o pescoço, vislumbrando as últimas palavras que Sybelle havia escrito. O rapaz ficou de pé, bateu as mãos em sua roupa para retirar a sujeira e encarou-me de cima com certo estranhamento.
— Sybelle, não era para ter escrito isso! – minha voz saiu esganiçada. – Eu juro que não faço isso sempre! – defendi-me.
— Vamos logo. – ele ajeitou a alça da bolsa em seus ombros e passou por mim.
Ergui-me desajeitadamente, agarrei minha maleta e corri atrás dele, parando em frente ao homem de quepe e uniforme que havia barrado Efebeth.
— Sou Suichiro Whitlock e ele é meu exorcista, o… – apresentei-me animadamente, porém, fui abaixando o tom de voz ao perceber uma coisa.
Eu não sabia o nome dele.
— Dante Vulpecula. – respondeu sem muita importância.
— Onde está o documento de dupla de vocês? – o homem perguntou calmamente.
Dante abaixou-se um pouco, balbuciando para mim:
— O que ele disse?
Observei a esfera de Sybelle, vendo-a bocejar de tédio e pedi baixinho:
— Por favor, escreva o que os outros disserem também.
Ela mostrou-me a língua, insatisfeita por receber mais trabalho.
— Documento… De dupla? – inclinei a cabeça para o lado e dei um sorriso amarelo.
— Sim, aquele que a guilda emite toda vez que a dupla é oficializada. – ele subiu seu quepe, demonstrando seus olhos cansados.
Paralisei no lugar e cerrei os punhos, procurando rapidamente por uma desculpa. Mas ela veio de uma boca que não era a minha.
— Eu não acredito que você esqueceu o documento. – Dante rangeu os dentes.
Encarei-o por um segundo, imaginando que ele estava brigando comigo, entretanto, o estalo em minha cabeça me fez entender tudo. Franzi as sobrancelhas e torci a boca, rebatendo:
— Isso era tarefa sua.
— Não era não, eu disse para você trazer o documento.
— Tsc, você é a pior dupla que a guilda poderia me dar. – cruzei os braços e virei o rosto.
— Que seja, agora não podemos embarcar. – o exorcista falou irritado.
— Se acalmem, rapazes. – o homem balançou as mãos em frente ao corpo. – Podem embarcar dessa vez.
— Mas estamos sem o documento, senhor. – fingi minha melhor expressão de tristeza.
— Tudo bem, com esse comportamento vocês são realmente uma dupla. – ele revirou os olhos. – A pior ideia daquela guilda foi juntar exploradores e exorcistas. Os dois são de mundos completamente diferentes.
Dante terminou de ler as palavras de Sybelle e nós nos fitamos de soslaio, estudando um ao outro com feições contrariadas. Aquilo só podia dar muito errado.
Ou muito certo.
Fale com o autor