A fada que o escreva
20 A fada está liberta
Notas iniciais

A biblioteca continuava sendo o meu lugar favorito da mansão, pois era facilmente três vezes maior que o meu quarto e todas as paredes eram cobertas por estantes abarrotadas de livros do mundo inteiro. Respirei fundo, sendo acolhido pelo cheiro das páginas antigas e ficando minimamente feliz por algumas coisas nunca mudarem na casa Whitlock.
Escolhi uma história sobre piratas e acomodei-me no sofá verde-musgo, permanecendo assim por uma hora até ser incomodado pelas duas últimas pessoas que eu imaginava ver ali.
— Sabemos o que você fez na noite passada. – disseram ao mesmo tempo.
Subi o olhar lentamente e exclamei:
— Não sabem não.
— É claro que sabemos. – Manjiro escondeu sua risada e sentou-se ao meu lado.
— Nós vimos. – Kenjiro jogou-se no sofá e puxou meu livro, fechando-o.
Franzi as sobrancelhas, bufei e tentei recuperar o livro, entretanto, Kenjiro ergueu-o no alto, divertindo-se ao comparar nossas alturas. Desisti da humilhação e cruzei os braços e pernas, fazendo um gesto para que eles prosseguissem.
— Viram o quê?
— Você entrando no quarto do paciente do papai. – os dois contaram em uníssono.
— Não podem provar nada. – rebati.
— E essa mordida no seu pescoço pode? – Manjiro afastou um pouco a gola de minha camisa.
Instantaneamente, senti o calor se alastrar por meu rosto e puxei minha gola de volta.
— E o que tem isso? – tive a total noção de que até minhas orelhas ficaram vermelhas.
— Ah, nada demais. – Kenjiro bocejou. – Mas o papai não vai ficar muito contente em saber que é só ele sair que você fica todo atiradinho.
Torci a boca e olhei para os feixes de luz que atravessavam as janelas e iluminavam as partículas de poeira no ar.
— Aonde querem chegar? – indaguei a contragosto.
— Você sabe que nós ficamos com a beleza, não é? – o loiro jogou suas madeixas para trás.
— E você com a inteligência. – o ruivo cutucou minha testa.
— E então? – revirei os olhos.
Os gêmeos se entreolharam, abriram grandes sorrisos e cada um retirou um pergaminho do bolso, batendo-os na mesa de centro. Pisquei os olhos lentamente e analisei os papéis amarelados com algumas escrituras.
— O que é isso? – fiz uma careta.
— Queremos entrar para a guilda daqui de Hasi. – Kenjiro contou.
— Mas já reprovamos no exame de admissão três vezes. – Manjiro explicou chateado.
— Por isso pensamos que talvez nosso irmãozinho gênio possa fazer o exame para nós. – o ruivo afagou meus cabelos.
Dei uma curta risada sarcástica, afastei sua mão de minha cabeça e respondi certeiro:
— Posso ser muitas coisas, mas desonesto não!
— Então o papai vai ter um longo, detalhado e talvez um pouco inventado, relatório sobre o que aconteceu durante o tempo em que ele esteve fora. – Kenjiro avaliou suas unhas.
Aquilo foi o cúmulo e pude sentir o sangue ferver dentro de mim.
— Reprovaram três vezes, como é que o papai ainda não expulsou vocês de casa? – cerrei os dentes.
— Já viu o tamanho desse lugar? É muito grande para se morar apenas com os empregados. – o ruivo bateu o braço no encosto do sofá.
— Certo, vou fingir que vocês não são um caso perdido. – alfinetei.
— O mini Suichiro pode ser bem cruel. – Manjiro cruzou os braços e fez um biquinho. – Mas para cada coisa feia que nos disser, vamos adicionar uma mordida no relatório. – provocou.
Levantei-me subitamente, girei nos calcanhares e encarei-os, analisando até o canto mais fundo de suas almas. Estalei os dedos, coloquei as mãos na cintura e franzi o cenho.
— Quantas namoradas vocês têm? – perguntei.
— Duas. – o ruivo deu de ombros. – Para cada. – desviou o olhar.
— E quantas noivas? – torci o nariz.
— Uma. – o loiro ergueu o indicador. – Para cada. – massageou sua nuca.
— E elas sabem que “dividem” vocês umas com as outras? – cruzei os braços e ergui o queixo.
— Não podem nem sonhar. – arregalaram os olhos.
— E o papai? – arqueei uma sobrancelha.
— Claro que não. – responderam perplexos.
Xeque-mate.
— Se ele não sabe, quer dizer que não aprova esse tipo de comportamento. – sorri convencido. – E estar compromissado com três mulheres é tão promíscuo quanto se deitar com um único homem. – argumentei vigoroso.
— Uau, ele é bom. – o ruivo assoviou admirado.
— Óbvio, é o Suichiro. – o loiro revirou os olhos.
Respirei fundo, agarrei os pergaminhos raivosamente e os atirei em seus rostos sem piedade.
— Então larguem de ser folgados e comecem a estudar! – ordenei.
— Igualzinho a quando era criança. – Manjiro esfregou seu nariz. – Apesar de que era mais fofo quando nos acertava com seus bichinhos de pelúcia.
Ignorei seus protestos e caminhei a passos pesados para fora da biblioteca, tinha perdido toda a vontade de continuar a ler, além de que havia algo muito mais importante para fazer naquele dia.
Assim que alcancei o corredor, avistei a porta do quarto de Dante a abrir-se, revelando o rapaz completamente revigorado e com suas roupas de costume. Ele não me viu a princípio, parecia imerso em seus próprios pensamentos e carregava um semblante profundamente reflexivo.
— Está pronto? – aproximei-me e sorri cúmplice.
Dante agitou a cabeça como se afastasse o que quer que estivesse em sua mente e depositou sua atenção em mim, retribuindo o sorriso e assentindo.
O sol brilhava forte quando nos dirigimos até o jardim e nos ajoelhamos entre os arbustos, sendo recebidos pelo canto alegre dos pássaros e a brisa fresca que balançava as folhas das árvores.
— Chegou a hora. – puxei de dentro do sobretudo a esfera de Sybelle, cujo vidro estava inteiramente trincado.
— Ela vai ficar bem? – Dante questionou preocupado.
— Uau, quem diria que um exorcista como você ficaria todo paternal com uma fada má? – brinquei e segurei a esfera nas duas mãos.
Ele emitiu um muxoxo, desviou o olhar e murmurou:
— É só que ela nos ajudou muito.
Dei uma risada abafada e observei a fadinha que se mostrava ansiosa. Ela também sabia que havia chegado a hora.
— Você tem razão. – suspirei com o coração partido. – Obrigada por tudo, Sybelle.
A fada colocou as mãos no vidro e fitou-me assustada como eu nunca imaginei que a veria. Seus minúsculos olhos tremeluziram e ela engoliu em seco.
— Fique tranquila, vai dar tudo certo. – sussurrei.
Ela torceu a boca e semicerrou os olhos, ameaçando derramar algumas lágrimas. Senti meu nariz arder ao respirar fundo e esfreguei a esfera no rosto, esperando que ela assimilasse aquilo a um abraço.
Ao escutar o barulho de algo partindo-se, afastei-a imediatamente. Nós três arregalamos os olhos ao ver o vidro transformasse em uma poeira brilhante e sumir no ar. Sybelle então tinha os pés nas palmas de minhas mãos e suas asas cintilantes batiam freneticamente.
— Ai, meus deuses, você está livre! – abri um sorriso. – Acho que... Você pode ir agora. – funguei contendo a vontade de chorar.
— E deixe de ser má ou vai acabar em uma esfera novamente. – Dante cutucou de leve as costas de Sybelle, empurrando-a.
A fadinha bufou, empinou o nariz e saltou de minha mão, voando livremente e tornando-se apenas um pequeno ponto amarelo que por onde passava transformava as folhas e flores em formas murchas e ressecadas. Balancei a cabeça em sinal de desaprovação e enxuguei os olhos.
— Quanto tempo até ela ser presa outra vez? – o exorcista bateu as mãos em suas pernas.
Fiquei em silêncio por um instante, permitindo que meu coração fosse esmagado pela saudade precoce. Uma pequena parte de mim estava indo embora, mas eu sabia que as grandes lembranças permaneceriam.
— Quem sabe? – encolhi os ombros. – Apenas espero que o próximo a encontrar sua esfera seja gentil com ela.
Meu olhar focou-se nas duas figuras que atravessaram o jardim conversando animadamente e carregando longas e grossas espadas prateadas nos ombros e livros debaixo dos braços. Movido por minha curiosidade, gritei:
— Aonde vocês vão?
— Aonde mais? – Kenjiro mostrou a língua e deu meia volta para aproximar-se de nós.
— Nossas namoradas vão nos ajudar a estudar. – Manjiro meneou sua espada.
— Para que as armas? – Dante estranhou.
— As garotas adoram. – o ruivo riu convencido. – E nunca se sabe quando vamos ter que matar alguém, não é mesmo?
Dante arregalou os olhos e ficou estático.
— Por que ele acreditou nisso, hein? – Kenjiro franziu as sobrancelhas e me encarou confuso.
— Porque vocês parecem doidos. – revirei os olhos.
— Deixa isso para lá. – o loiro inclinou seu corpo, encurtando a distância entre ele e Dante. – Até que o exorcista é bonitão, não acha? – exclamou impressionado.
— É mesmo. – Kenjiro concordou surpreso. – Quanto o Suichiro te pagou para ficar com ele?
Rangi os dentes, apontei para o portão e berrei:
— Vão embora!
Os gêmeos gargalharam, trocaram piscadelas e voltaram para o caminho de pedras.
— Ei, quando se cansar do pirralho, sabe onde encontrar os caras mais legais de Hasi! – o ruivo apontou para si mesmo.
— Ah, talvez não voltemos para casa hoje. Tchauzinho, garotos. – Manjiro acenou graciosamente.
Bufei desacreditado e mostrei a língua para suas costas enquanto cruzavam o portão.
— Se te consola, você não se parece nem um pouco com seus irmãos. – Dante comentou. – E Calíope também implicava comigo.
— É bom saber disso. – penteei meus cabelos para trás.
Dante deu uma risada abafada e olhou ao redor, fixando-se na estátua de anjo que guardava o túnel de mamãe. Ele levantou-se como se estivesse hipnotizado por aquela direção e indagou:
— Onde aquilo vai dar?
— Em um túmulo. – ergui-me. – O da Peach Whitlock. Você... Quer ir lá? –questionei acanhado.
O rapaz franziu as sobrancelhas, engoliu em seco e agachou-se para colher algumas flores, dando preferência às que Sybelle não havia envenenado. Com um buquê improvisado em mãos, seguimos para a escada e adentramos o túnel.
Controlei minha respiração, dizendo a mim mesmo que estava tudo bem e que eu conseguia fazer aquilo.
— É aqui que o corpo dela está. – toquei suavemente o retângulo de pedra.
— Não está não.
Demorei para entender sua frase. Na realidade, eu não entendi uma única palavra sua. Soltei uma risada nervosa, imaginando que aquilo fosse uma brincadeira. Uma brincadeira muito estranha e sem graça.
— O que quer dizer? – franzi as sobrancelhas.
— Que não tem nenhum corpo nesse túmulo. – ele afirmou seriamente.
— Mas é claro que tem… Minha mãe… – balbuciei em choque.
— Não tem nenhuma névoa em volta dessa cova. – Dante estudou o local. – Mesmo que só houvesse ossos aí, deveria haver uma névoa preta. Mas não há nada.
Não conseguia me mexer, meu coração havia pulado uma batida e o ar faltava em meus pulmões.
— E-Então onde está minha mãe? – a voz saiu falha.
— Não consigo responder isso agora. – ele olhou para sua mão enluvada. – Mas eu sei quem pode.
— Quem? – indaguei aflito.
— A governanta. – os olhos de Dante chegavam a ser frios de tão sérios.
Um arrepio percorreu minha espinha e eu recuei um passo. Não podia acreditar naquilo, não dentro do túnel da mamãe. Como ele podia dizer aquilo com tanta convicção? Engoli em seco e subi o primeiro degrau de costas, desejando fortemente sair dali.
— Suichiro, me escute, por favor.
— Como se você está dizendo esse tipo de loucura? – rangi os dentes.
— Te contei sobre a sexta maldição. Eu consigo ver a névoa púrpura em volta da Amy. Desde o primeiro dia em que pisei aqui, eu consegui ver. – ele deu um passo em minha direção.
Subi mais um degrau e coloquei as mãos em frente ao corpo como se estivesse preparado para me defender. Dante entreabriu os lábios e observou-me incrédulo. Sabia que ele não me machucaria, porém, fui tomado por uma súbita insegurança.
— E por que não disse nada antes? – mordi o lábio inferior.
— Porque eu precisava ter certeza. – o exorcista colocou a mão sobre seu peito. – E agora, vendo esse túmulo vazio, as coisas começaram a se encaixar. A névoa púrpura significa que um ambiente ou pessoa tem ligação com possessões ou na pior das hipóteses, mortos-vivos.
Cobri minhas orelhas, abaixei a cabeça e agitei-a em negação.
— Está mentindo. – acusei fracamente. – Só pode estar mentindo. Amy nunca faria algo assim, ela está na nossa família antes mesmo de eu nascer e sempre foi amiga da mamãe.
— Fique calmo. – Dante pediu. – Vamos resolver isso juntos, prometo que Amy não se machucará. – estendeu-me a mão.
Todavia, eu não quis segurá-la. A queria o mais distante possível. Um suspiro trêmulo escapou e eu me vi obrigado a subir outro degrau, afastando-me cada vez mais de Dante. Ele arregalou os olhos e recuou sua mão.
— Suichiro, o que somos?
— Eu não sei. Eu estou confuso. – arfei.
Meu coração batia nos ouvidos e minha cabeça torturava-me com todos aqueles pensamentos rodopiando dentro dela.
— Uma dupla. De explorador e exorcista. – Dante respondeu. – Mais que isso, inclusive. Mas agora você precisa se lembrar por tudo que passamos, estamos vivos e as pessoas que encontramos também. Por que acha que agora vai ser diferente?
Porque agora tratava-se de alguém da minha casa. Da minha família. Da minha história. Aquela atmosfera era insuportável demais para mim e as palavras de Dante já não me alcançavam mais. Gritei frustrado e corri escada acima, atravessando o jardim o mais rápido que pude.
“Seu âmago.”, as palavras dos gêmeos voltaram a minha mente com a mesma intensidade de um soco no estômago.
Escancarei a porta de casa e disparei pelos corredores em busca de Amy e assim que a encontrei conversando com uma empregada, joguei-me em seus braços e afundei o rosto em seu peito. A outra empregada assustou-se com meu choro compulsivo, pediu licença e deixou-nos a sós.
— O que foi, pequeno Suichiro? – Amy perguntou serenamente e acariciou meus cabelos.
— É o Dante. O túmulo da mamãe. Meu peito que não para de doer. Você. – respondi com a voz embargada. – Quando foi que tudo se tornou tão confuso? – fechei os olhos fortemente.
— Eu não sei quando, meu bem. – ela abraçou-me. – Mas está prestes a acabar. Eu prometo.
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