A fada que o escreva
15 A cerveja de fruta do dragão
Notas iniciais

Mai aproximou-se como se flutuasse em suas sapatilhas marrons e todos que ainda desembarcavam a admiraram, exceto Dante. Faíscas surgiram no ar quando seus olhares se cruzaram e eu imaginei que a próxima luta de karmas afundaria o navio.
— Ei, que tal irmos para esse tal de Quimera? – ri nervosamente me colocando entre os dois. – Ex-noiva? – resmunguei para Dante.
De todas as pessoas, Dante era o que eu menos imaginava ter um noivado e preciso dizer que me senti sem jeito sob a presença de Mai porque convenhamos, ela era incrível tanto em aparência quanto em força.
— Então os boatos de que você ficou surdo eram verdade? – ela fitou as palavras de Sybelle com certa perplexidade.
Dante soltou um muxoxo e virou o rosto.
— E o bonitinho aqui é… – seu olhar caiu sobre mim, entretanto, suas sobrancelhas ergueram-se em sinal de surpresa. – Vulpecula! Não me diga que compartilhou uma das maldições do exorcismo com ele!
— Consegue ver isso? – arregalei os olhos. Ninguém havia tocado naquele assunto antes.
— É claro que eu consigo. – Mai deu um peteleco na insígnia em seu peito. Possuía um formato diferente da cruz com a qual eu estava acostumado, talvez mais detalhado e exibia uma pedra verde em seu centro.
O rapaz inclinou-se um pouco e sussurrou para mim que aparentemente os deuses a presentearam com aquele dom porque a família dela era muito devota.
— E então, quando foi que isso aconteceu? – ela fez um meneio com a cabeça, indicando-me.
— Em um trabalho, precisávamos encontrar um lugar. – Dante murmurou incomodado.
— E ele ainda está vivo. – Mai comentou admirada. – Gostei dele. É explorador? – segurou seu queixo e levou o rosto na altura de minha insígnia.
Ruborizei fortemente e recuei alguns passos, acabando por bater as costas no peito de Dante. Ergui a cabeça para conferir sua feição, vendo que ele havia abaixado o rosto para me encarar e assim ficamos por alguns segundos.
Até que Mai pigarreou, fazendo-nos desviar nossos olhares rapidamente e voltar nossa atenção para ela.
— Pois bem, posso saber o que fazem em meus domínios? – a mulher cruzou os braços e sorriu convencida.
— É uma parada obrigatória. Estamos indo para Hasi. – o rapaz respondeu impaciente.
Mai concordou devagar, aparentemente avaliando a situação dentro de sua cabeça. Seu sorriso aumentou e suas mãos passaram para a cintura.
— Vamos para o Quimera, tem um quarto sobrando. – ela exclamou. – Continuaremos nossa luta à meia-noite.
— Por que tanta enrolação? – Dante perguntou desconfiado.
— Quero ter um tempinho com o explorador. Você sabe, não tem muitos por aqui e eu acho aventureiros algo fascinante. – Mai agitou a mão. – Qual o seu nome?
Eu não tinha voz para responder aquilo, a atmosfera criada por aqueles dois ia me esmagar a qualquer momento, já que a tensão era tão palpável que seria possível cortá-la com uma faca.
— Suichiro Whitlock. – balbuciei.
— É um lindo nome. E... Isso me dá uma ótima ideia! – ela estalou os dedos. – Quem vencer a luta, leva o Suichiro para Hasi.
Demorei um pouco para registrar sua fala, mas assim que o fiz, berrei em uníssono com Dante:
— O quê?!
— A regra da Guilda de Hibisc é que pelo menos um exorcista deva acompanhar um explorador, não é mesmo? – Mai levantou um dedo.
— Não sou eu quem está levando Suichiro para Hasi. Ele quem está me levando. – Dante disse rispidamente. – Além de que a formação das duplas com karmas compatíveis existe por um motivo. Não pode ser qualquer um. – argumentou.
Mai soltou uma gargalhada tão grave e longa que nos assustou, jogou seus cabelos para trás e inclinou seu corpo para frente.
— Como se vocês tivessem sido unidos pela guilda. – tocou a ponta de meu nariz com o indicador. – Podem se dar bem, mas está claro que se uniram por acaso. Talvez seus karmas nem sejam compatíveis.
Congelei no lugar e meus olhos arregalaram-se tanto que eu julguei impossível voltá-los a fechar algum dia. Ela sabia demais. O exorcista afastou-me de Mai, colocou-se diante dela e olhou-a de cima, o que não a intimidou nem um pouco.
— O que foi? Eu não vou contar para ninguém. – Mai gesticulou indiferente. – A menos que você negue meu desafio. – avaliou suas unhas compridas.
Juro que Dante estava a ponto de jogar aquela mulher no mar. Ele bufou, apertou a alça de sua bolsa e cuspiu as palavras:
— E qual será o prêmio já que você não luta sem um?
— Se eu vencer, vocês me levam para Hasi com vocês, porque eu sempre quis conhecer aquela ilha.
Dante torceu a boca e fez um sinal para que ela prosseguisse.
— Agora se você vencer, nunca mais implico com sua presença em Dragonean. – ditou.
Podia não conhecer Mai, porém, tinha quase toda a certeza do mundo que ela não entrava em brigas que não podia vencer, principalmente tendo em vista o tamanho do leão que ela invocou. Não que eu tivesse algo contra ter mais parceiros de viagem, mas uma hora ou outra aqueles dois iam acabar se matando. Apesar disso, Dante suspirou pesadamente e concordou.
— Sabia que Vulpecula não fugiria de uma luta. – Mai afastou sua franja para o lado. – Vamos, há muita coisa para fazer até meia-noite.
***
Quimera era uma construção vermelha de três andares cujo primeiro funcionava como bar e os outros dois como pousada. Uma luz amarelada escapava pela janela do térreo e o barulho das vozes e dos tilintares era quase capaz de quebrar o vidro.
Assim que Mai abriu a porta, a confusão cessou por completo e os bêbados paralisaram no lugar, deixando suas canecas pela metade e brindes por fazer. A mulher deu uma risada abafada e agitou sua mão, permitindo que a bagunça continuasse.
— Olhem só quem a Mai trouxe! – um homem riu. – O que foi, resolveram voltar atrás e se casarem?
— Não diga bobagens. – ela negou com a cabeça e chamou uma garçonete. – Leve eles para o quarto vago. São meus convidados dessa noite. – olhou-nos de soslaio.
— E essa gracinha de cabelo verde? – uma mulher questionou.
— Vou ocupá-lo um pouco. – Mai espreguiçou-se. – Assim que se acomodarem, desçam aqui. – mandou-me uma piscadela.
Dante foi o primeiro a mover-se, puxando-me pela mão escada acima. Os degraus rangeram sob nossos passos e o pessoal do bar gritou extasiado, assoviando e pedindo por nossa volta.
O quarto era definitivamente melhor do que nosso cubículo no navio: havia duas camas forradas por cobertores carmesins e separadas por uma pequena cômoda que amparava um incensário, além disso, alguns quadros davam ainda mais vida às paredes laranjas. A diária ali devia ser cara, então agradeci por sermos convidados.
— Por que não me contou que consegue fazer magia? – passei a mão pela pintura de um pavão.
— Todos conseguem, não é? – Dante jogou sua bolsa no chão e retirou o sobretudo.
— Todos tem o karma, mas nem todos conseguem, sabia? – fiz um biquinho e franzi as sobrancelhas. – E então?
— Você nunca perguntou. – ele desabou na cama.
— Também nunca perguntei se tinha uma noiva. – alfinetei. – Porque você nunca deu sinais dessas coisas.
— Ex-noiva. – o rapaz corrigiu.
— O que aconteceu para desmancharem?
— Isso não importa agora. – Dante suspirou cansado. – Vamos descer. Parece que ela gostou de você.
— E vai me entregar assim de bandeja? – indaguei incrédulo.
Dante revirou os olhos, passou por mim e atravessou a porta fazendo um gesto para que eu o seguisse. Respirei fundo, joguei meu sobretudo na cama e desci as escadas junto ao rapaz para sermos recebidos por uma salva de palmas e mais assovios.
Mai estava sentada com os cotovelos apoiados no balcão e o rosto fino sendo sustentado pelas mãos. Havia três canecas em sua frente e ao nos ver, ela deu um sorriso ladino e acenou para que nos aproximássemos.
Dei um passo à frente, contudo, percebi que Dante não se mexeu, pelo contrário, encostou-se à parede e cruzou os braços, imóvel.
— Você não vem? – sussurrei acanhado.
— Não gosto da bebida daqui. – ele conferiu a esfera de Sybelle em sua mão, nos fazendo reparar o quão extasiada ela estava. – Não fique com medo, eu estou aqui se precisar. – subiu seu olhar para o meu rosto.
— Medo? – soltei uma risada esganiçada.
Medo. Eu com medo? É claro que estava, quem vocês pensam que eu sou?
Como não era de fazer desfeitas, andei endurecidamente até o balcão e sentei-me em um dos bancos de madeira, mantendo as mãos entre os joelhos e os ombros encolhidos.
— Não precisa ser tímido. – Mai brincou.
— Ah, bem... – pigarreei e arrumei-me no banco. – Sua magia é surpreendente. – puxei assunto.
— Você gostou? – seu semblante brilhou. – Na Guilda de Serpens, aprendemos magia em conjunto com a área que escolhemos. Então ao mesmo tempo em que estudava para ser exorcista, me tornava uma maga.
Levantei as sobrancelhas, impressionado.
— Quando eu tinha dezesseis anos, fiz parte da turma de exorcismo da Guilda de Hibisc, já que meu pai resolveu passar uma temporada em Enginóvia e me levou com ele. – ela suspirou e passou o indicador pela borda de sua caneca. – Depois desse intercâmbio, fiquei atrasada no quesito magia em Serpens, mas consegui me reestabelecer.
— Você conheceu o Dante na Guilda de Hibisc? – apoiei as mãos no balcão.
— Sabia que ficaria curioso quanto a isso. – Mai deu uma risada abafada. – Foi basicamente assim. E você? Como o conheceu?
O rubor se espalhou por meu rosto, batuquei os dedos no balcão e desviei o olhar. Céus, só tive coragem de contar isso para Gaspar.
— Posso pular essa pergunta?
A mulher arqueou uma sobrancelha, entretanto, resolveu deixar para lá.
— Nessa época, Dante costumava ir muito para o castigo por não fazer as coisas direito. Mas todas as meninas o achavam bonitinho por causa do charme sombrio.
— Charme sombrio? – cobri a boca para evitar uma risada.
— É, algo como: “só me relaciono com as trevas”. – ela tentou imitar uma voz masculina. – Além do cabelo médio e as roupas escuras.
— Então Dante era bem requisitado. – imaginei a cena.
Eu não era tão popular assim na guilda nesse tópico e considerando a diferença de 5 anos de idade entre mim e Dante, nunca ouvi falar sobre ele pelos corredores, talvez porque quando comecei meus estudos ele já estava terminando os seus e passado dessa fase.
— Sim, porém, não dava atenção para nenhuma. – Mai penteou sua franja para trás. – Por que as meninas gostavam daquele jeito dele? – revirou os olhos.
— Você não gostava? – inclinei a cabeça, confuso. – Quero dizer, por que noivaram?
— Não tem graça eu contar tudo. – apertou uma de minhas bochechas. – Aqui, experimenta. Aposto que nunca tomou uma dessas. – empurrou-me a caneca de líquido rosa brilhante.
— O que é isso? – cheirei aquilo, desconfiado.
— Cerveja de fruta do dragão. – ela terminou a sua e pediu outra para o garçom. – Você parece ser novinho, então vai com calma.
Antes que ela terminasse sua frase, eu já havia virado a caneca em minha boca e acabado com a bebida em um único gole que passou direto por minha garganta. Parecia água com açúcar, todavia, tinha um toque refrescante de hortelã no final. Bati a caneca vazia no balcão, arrancando um olhar abismado de Mai.
— Até que é boa. – peguei a caneca que devia ser de Dante e tomei-a em um despejo. Ficava melhor na segunda vez quando o álcool começava a queimar um pouco a língua.
— É uma das nossas especialidades. – a mulher ajeitou seus cabelos sobre o ombro. – Me conta, você é mesmo de Enginóvia ou...
— Me vê mais uma dessa, por favor! – balancei o braço.
— Hã, que tal beber outra coisa? – Mai juntou as sobrancelhas, preocupada. – Sério, pode parecer fraca, mas isso tem muito álcool, você vai ficar derrubado rapidinho.
— Que nada, eu estou bem. – animei-me ao ver o homem atrás do balcão encher outra caneca e me entregar.
— Você é mesmo interessante. – ela riu fascinada.
Fui mais devagar naquela, terminando-a em três goles e pedindo pela quarta rodada. Meu peito começava a se agitar e um calor crescia dentro de meu estômago.
— Ei, você! – Mai bateu a mão no balcão e lançou um olhar autoritário para o homem. – Pare de dar cerveja do dragão a esse rapaz!
— Poxa… – fiz um biquinho e analisei minha caneca pela metade.
Meu olhar percorreu todo o bar, centralizando-se no rapaz alto que me observava de sobrancelhas franzidas encostado na parede. Senti meu coração pulsar na garganta.
— Eu vou ali falar com o Dante, já volto! – saltei do banco e levei a caneca comigo, deixando que Mai discutisse à vontade com seu funcionário. – Dan, isso é demais! – sorri de orelha a orelha.
Engoli um soluço, notando que havia o chamado pelo apelido. Meu sorriso ganhou um tom travesso e as bochechas esquentaram.
— É, eu estou vendo. – ele arqueou uma das sobrancelhas. – Não acha que bebeu demais?
— Eu nem comecei. – levei a caneca a boca, contudo, Dante a puxou para si. – Ei, devolve isso! – estiquei meu braço para recuperá-la.
— Não, eu já estou prevendo a hora que você vai cair. – Dante passou a mão por minha cintura e ergueu-me, encaixando-me debaixo de seu braço como se eu fosse uma mala.
— Me solta! – choraminguei e tentei alcançar a caneca.
— Vamos voltar para o quarto, está na hora de garotos dormirem. – ele começou a subir as escadas.
Enquanto eu tentava retomar minha bebida, Dante levou-a a boca e terminou-a em uma única virada, aproveitando para depositar a caneca pesadamente na bandeja de uma garçonete que descia por ali.
— Você tem um charme sombrio. – fixei o olhar nos degraus que passavam por baixo de mim.
— E você fala muita besteira. – ele emitiu um muxoxo e ajeitou meu peso em seu braço.
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