A exceção
9 Capítulo 9.
Notas iniciais
— Você gosta desse lugar? – Ouço uma voz doce e familiar perguntar. Eu não respondo. De repente, uma garota aparece, a alguns metros de mim. O lugar é completamente plano e sem nenhuma construção ou sinal de vida, havia apenas uma espessa camada de neve sob o solo. Quando ela se aproxima, consigo ver seu rosto mais nitidamente. É Marjorie.
— Que lugar é esse? – Pergunto. Apesar da neve, não sinto frio.
— Você não o reconhece? – Ela sorri. Não respondo, então prossegue: – Tudo bem, eu mesma levei um tempo para reconhecer. – Ela atira uma bola de neve em mim e ri, eu continuo estática. Me encara seriamente, um pouco melancólica. Então começa a construir um boneco de neve. Eu me animo para começar um também.
Uma forte tempestade de neve começa, então não conseguimos fazer os bonecos de neve. É difícil até me manter em pé. Perco-a de vista. Será que ela se machucou? Preciso encontrá-la!
Quando acordo, eu levo um susto com o despertador. Que raio de sonho foi esse?
Ainda meio atordoada, estico o braço e sacudo a Mirian na cama de baixo. Com esforço, levanto-me, lavo o rosto para acordar, visto a blusa do uniforme, uma calça jeans claro e all star branco. Não estou com fome, então só escovo os dentes. Prendo o cabelo em um rabo de cavalo de qualquer jeito porque estou com preguiça de ajeitá-lo. Pego minha mochila já arrumada e o celular.
Mirian ainda está se arrumando, então fico esperando sentada no sofá da sala. Fico pensando um pouco no sonho que tive hoje. Bem estranho. Provavelmente é só saudade. De qualquer forma, isso não é bom.
Em alguns minutos, Mirian está pronta e então vamos para o colégio. Ainda falta um pouco para a aula começar e tenho que esperar no pátio.
Justamente quando eu estava lembrando do sonho de novo, acabo cruzando o olhar com Marjorie e demoro cinco segundos para desviar. Torço para ela não vir, e ao mesmo tempo anseio que venha, mas não vem. Me sinto observada e tenho quase certeza que ela ainda está olhando. Talvez ela quer mesmo que eu perceba isso.
Enfim o sinal toca e vamos para nossas respectivas salas. Quando Pedro chega, eu digo “oi”, ele responde, e só. Fico pensando na Marjorie durante a aula mais que o normal. Quando estamos no quarto tempo e falta pouco para sermos liberados para o intervalo, pego meu celular na mochila e há uma notificação na tela. Uma nova mensagem.
— Por favor, só responde minha mensagem. Preciso saber o que aconteceu, aí te deixo em paz para sempre se quiser. – De: Marjorie. Enviada às 9:07.
Me sinto uma idiota por fazer mal a ela e começo a digitar, mas depois penso que se eu respondesse, ela com certeza iria falar comigo, e ia tornar tudo mais difícil de novo, – se é que estou melhorando alguma coisa – então apago o que eu ia enviar e guardo o celular.
Se eu não responder essa mensagem, eventualmente ela vai cansar de tentar. Se eu responder, ou seremos amigas de novo, ou ela me deixará em paz para sempre. E não sei qual das alternativas eu prefiro. Estou tão irritada, e para piorar, meu estômago dói e se revira o tempo todo.
O professor nos libera para o intervalo e Pedro e eu ficamos no pátio dessa vez, porque, sei lá, estou cansada de ficar me escondendo.
Marjorie passa ao nosso lado com a Elisa, ambas rindo. Repentinamente, me sinto ainda mais triste. Essa risada tão bonita, agora só escuto de longe. Eu deixo uma lágrima escapar, mas logo me recomponho.
— Você devia voltar a falar com ela. – Aconselha Pedro, observando tudo.
— Para quê? Ficar sofrendo escondendo o que sinto?
— Conte a ela! O máximo que ela irá dizer é um não. Duvido que ela seria grosseira. – Ele com certeza está se fazendo de bobo.
— Eu não sei nem o que seria pior, levar um fora dela ou ficarmos juntas e eu ter de enfrentar todo o preconceito.
— Se você realmente gosta dela, a resposta deveria ser óbvia. Claramente não está feliz assim. – O silêncio se instaura.
Não estou nada feliz sem ela, isso é verdade. Mas não quero nem pensar na possibilidade de piorar. E se me proibirem de vê-la? E se me expulsarem de casa? Da forma que meus pais falam, eu não duvido é nada.
Eu dormi durante os três tempos de aula inteiros. Parecia que eu ia surtar se não fizesse isso. Tudo me irritava. A sala de aula, os alunos, o professor, a matéria, o colégio, porque eu estou irritada com a minha vida. Eu só queria dormir para me anestesiar de tudo. Estou vivendo em um poço de dúvida, saudade e culpa, no qual eu não paro de afundar. E meu estômago não me dá um descanso dessa dor, preciso parar de sentir tudo isso, mas não consigo.
As salas do ensino médio ficam no mesmo corredor, e coincidiu da minha turma e a turma mil e um serem liberadas no mesmo momento. Eu vi a Marjorie saindo da sala com um olhar triste, aquilo partiu o meu coração, e me deixou um vazio só de imaginar se eu podia ter um pouco de culpa nisso. E provavelmente eu tenho.
Ela nem falou com a Mirian antes de ir embora, que também percebeu isso. Fui para casa me sentindo um monstro. Eu sou um monstro. Merda. Queria que ela não se importasse comigo. No caminho, ouço meu celular tocar, e pela música, sei exatamente quem é. Reviro a minha mochila até encontrar, então para de tocar. Eu me xingo mentalmente por ser tão lerda. Era Majorie. Ela não liga de volta.
Mirian vai fazer um trabalho na casa de alguém, que não faço questão de prestar atenção, o importante é que eu posso ter uma tarde completamente tranquila e ler meu livro clandestino e “desajustado”. Will & Will, um nome, um destino. Vi um blog de resenhas falando sobre ele e eu fiquei interessada, então, sem contar a ninguém, fui à livraria sozinha ontem e comprei.
Em duas horas, leio até o capítulo nove. Por enquanto, estou adorando o livro. Durmo por algumas horas. Eu sempre fui uma pessoa que dorme demais, a minha vida não é muito interessante, afinal. Não que isso seja ruim. Eu raramente tinha problemas, até agora. Mas hoje dormi para me anestesiar, parar de me preocupar por um tempo. Olho em volta e a Mirian está sentada em frente à escrivaninha, usando o computador.
— Mirian? – Chamo-a sonolenta. – Que horas são?
— Seis e vinte e dois. – Diz, sem desviar os olhos do computador.
— Como foi o trabalho?
— Não conseguimos terminar porque ninguém estava concentrado, mas a Beatriz vai terminar por nós. – Acho que todo mundo tinha que fazer o trabalho junto, então um silêncio segue, pois acho melhor omitir minha opinião. Não tenho muita vontade de conversar com ela.
Estico o braço para pegar o controle em cima do criado mudo, ligo a TV pensando em assistir qualquer merda que me entedie o suficiente para dormir novamente e não ter que me preocupar, mas, está passando Os Simpsons, uma anestesia também. Uma anestesia melhor, na minha opinião, porque é divertido, enquanto os sonhos nem sempre são.
Depois de alguns episódios, acabei dormindo. Já é quase onze da noite, e estou completamente sem sono. Na cama de baixo, Mirian já está dormindo. Levanto-me, pensando em fazer um lanche. Passando pelo corredor escuro, noto a luz acesa no quarto do Marcelo. Bato na porta e ele me diz para entrar.
— O que está fazendo? – Pergunto.
— Tenho um trabalho para amanhã. – Explica ele, desviando a atenção do monitor para mim.
— Falta muito?
— Não. Na verdade, faltam só alguns detalhes e depois vou passar para o pen-drive e imprimir no computador da sala. – Quando diz isso, percebo as olheiras escuras debaixo de seus olhos. Ele chegou da faculdade e ficou aqui o tempo todo. Foge da minha capacidade de imaginação um trabalho tão extenso.
— Às vezes eu penso que preferiria que você fosse o irmão mais novo, que pudesse ficar em casa mais tempo e estudasse na mesma escola que eu.
— Por quê?
— Sei lá, para passarmos mais tempo juntos. Eu acho que eu e você nem parecemos mas aqueles dois irmãos que éramos, mesmo que fosse brigando, a gente sempre se falava.
— Você pode falar comigo. Eu achei que não quisesse.
— Tenho receio de te atrapalhar. – Digo. – E, a Mirian é meio irritante às vezes, preferia passar mais tempo com você. Não, não tem nada a ver com isso, na verdade, esquece. Estou sendo injusta. – Ele me olha confuso, respiro fundo e começo a arriscar:
— O que você pensa sobre os gays? – Eu já tinha escutado algumas vezes ele falar sobre o assunto, quando meus pais resolvem tomar conta da vida dos outros, ele sempre diz para deixá-los em paz.
— Acho que é uma forma de amor que deve ser respeitada. – Responde. – Por que isso agora?
— Não sei se sabe quem é a Marjorie, mas estou gostando dela. Tipo, mais que como amiga. É isso. – Eu nem acredito que consegui! Estou tremendo um pouco, mas pelo menos falei.
— O que isso tem a ver comigo e a Mirian? – Ele parece preocupado.
— Estava conversando com ela um dia desses, ela disse que tinha uma garota na sala dela e que por essa garota ser lésbica, elas não podiam ser amigas, e que é nojento e tal. Isso foi como uma flecha apontada diretamente para o meu coração. Não sei se me entende, mas, eu sinto como se tudo fosse falso agora, é como se a nossa amizade não valesse. Porque se ela soubesse sobre a Marjorie, poderia nem querer me ver mais. Eu me sinto desconfortável. – Ufa. Um grande peso saiu dos meus ombros, eu precisava desabafar com alguém.
— Posso imaginar. Que merda. – Diz ele. Dá para ver que realmente se imaginou no meu lugar. Parece estar procurando no ar o que dizer, e finalmente encontra: – Mas você já falou com essa Marjorie?
— Ela gosta de meninas, mas não sei se de mim. Somos amigas, mas eu me afastei dela, não quero sentir isso por ela. Não adiantou nada, e, acho que deixei ela triste.
— E pelo visto, você também está triste. – Eu assinto. – Se resolve com ela. E se ficar com ela, ninguém tem que saber disso agora. Olha, ninguém se assume hétero para os pais, você não é obrigada a se assumir lésbica.
— E se ficarem sabendo?
— Fala a verdade, eles devem aceitar com o tempo, ou sei lá. Olha, você tem de escolher entre viver triste com uma mentira ou viver livremente com uma verdade. – Diz ele. – E, seja o que acontecer, estou aqui. – Ouvir isso me acalmou um pouco. Pelo menos sei que posso contar com o Marcelo e o Pedro. Embora não sei se as coisas entre Pedro e eu andam muito boas, sei que se eu precisar, ele ainda estará aqui por mim.
— Obrigada. Eu vou pensar mais nisso. – Sorrio. Ele levanta e vem na minha direção, me dando um abraço apertado.
— Seja honesta consigo mesma, ok?
— Ok. – Asseguro. Ele sorri. – Bem, eu vou te deixar terminar seu trabalho agora.
— Não hesite em me procurar se precisar.
— Pode deixar.
Volto para o meu quarto. Quem diria, meu irmão chato se tornou esse cara incrível e maduro. Agora me falta é coragem para pôr esses conselhos em prática. Não vai ser fácil, fico enjoada só de pensar. E ainda nem sei se Marjorie sente o mesmo por mim. Ai, meu Deus! Marjorie! Tenho de responder suas mensagens! Espero que ela ainda queira falar comigo.
— Me desculpe. Mesmo! Eu tive alguns problemas. A gente precisa conversar pessoalmente.— Enviada às 22:53.
Responde, responde, responde. Por favor. Tudo bem, é justo. Estou pagando na mesma moeda. Ela deve ter ficado esperando minha mensagem também.
00:34. Nenhuma mensagem ainda, ela deve estar chateada comigo. No lugar dela, eu estaria. Ou está apenas dormindo. Essa ansiedade vai acabar comigo, ainda por cima não estou com sono nenhum. A noite hoje vai ser longa.
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