A exceção

5 Capítulo 5.


Notas iniciais
Como estou inspirada hoje e esse estava quase pronto, resolvi postar hoje mesmo já que ando demorando a postar, considerem um presente de desculpas fhsdufhus

Ontem cheguei em casa e me joguei na cama. Geralmente eu me importaria em comer alguma coisa, trocar de roupa antes de dormir e essas coisas que eu faço quando chego em casa à noite, mas não me pareceu importante. Só queria que aquela náusea fosse embora, junto com o nojo.

Eu também queria ver se talvez eu ficando deitada na cama eu de repente acordava no domingo de novo, então Mirian me chamaria para ir ao Starbucks e eu não iria, e não conheceria Marjorie, e eu estaria de volta à minha vida sem graça, porém feliz. Mas ao invés disso, só percebi que era idiotice e que não há como voltar. Só o que posso fazer é afastar esses pensamentos. O que é muito, muito difícil.

Eu não quero pensar em uma garota da forma que tenho pensado. Quero ser uma garota normal, que conversa sobre garotos com as amigas. Quero ser motivo de felicidade para os meus pais pelo menos uma vez. Se eu não sou uma garota inteligente, sociável e exemplar, que pelo menos eu case com um homem e tenha filhos, que pelo menos eu não seja uma “pecadora”. Meus pais veem a homossexualidade como pecado.

A religião é algo muito ruim às vezes. Não sigo nenhuma, mas, eu acredito em Deus. E esse que acredito, prega apenas o amor, o respeito, a solidariedade... Por que amar alguém do mesmo sexo seria um pecado? Eu não estaria fazendo mal a ninguém. Bem, mas isso é só o que eu acredito.

E como isso não tem nada a ver com o colégio e não tive a sorte de pegar um resfriado, tive que vir à aula hoje.

Estou agindo da mesma forma de sempre, não quero que o Pedro perceba que estou triste, embora eu ache isso difícil. Em algum momento da aula de matemática, o professor começou a discutir com alguns alunos sobre homossexualidade, o que não é tão surpreendente, já que o professor Renato sempre fala sobre assuntos polêmicos. Me senti um pouco desconfortável com a quantidade de argumentos preconceituosos e até insultos, mas houve quem defendesse também. Isso me dá uma esperança momentânea, mas sou forçada a me lembrar de que meus pais não são assim.

No intervalo, Pedro e eu dividimos meu pacote de biscoitos e ficamos escondidos na biblioteca, na mesa do canto.
— Você anda esquisita. – Comenta ele.
— E onde está o Pedro que não se importa com nada? – Perguntei, na esperança que ele só dissesse “tanto faz”.
— Você não entende. – Suspira. – Não é que eu não me importe com nada, eu só não me importo com nada que não seja importante para mim.
— Isso soa um tanto egoísta.
— Que seja. Estou dizendo que você é importante para mim e é assim que fala comigo?
— Sou é? – Pergunto, convencida.
— Francamente. Você só está tentando me distrair.
— Tudo bem. Por que acha que eu ando esquisita? – Digo, finalmente.
— Essa coisa com a Marjorie. Você não costuma ser dramática assim.
— Você não se importa com muita coisa, então todo mundo deve parecer dramático.
— Deixa para lá. – Desiste.

Nesse momento eu lembro que ele é o cara que não riu de mim quando eu vomitei no meio da aula na terceira série e me ajudou a ir até o pátio ligar para os meus pais, e que, apesar de todas as coisas ridículas que eu já fiz, ele sempre continuou ao meu lado. Eu olhei em volta para me certificar de que não tinha mais ninguém ali, então disse:
— Pedro, eu gosto da Marjorie. – Suspiro pesado. – Você não vai me odiar por isso, vai?
— Não. Afinal, eu não tenho nada a ver com isso, a não ser que estivesse interessado em você ou nela, e não estou. – Diz ele. – Mas se gosta dela, porque está se escondendo?
— Primeiro, por causa da Elisa. Segundo, por causa do que aconteceu ontem. – Falei. Dei uma pausa, e então prossegui: – eu fui a uma festa com a Marjorie, e ela disse que gosta de meninas. Mas, eu não pude dizer o que sinto por ela, por causa dos meus pais. Eu não faço nada errado, mas também não faço nada que poderia deixá-los felizes. Eu queria pelo menos ser uma filha que pudesse casar com um homem, formar uma família, e não ser a filha “pecadora”. – Fiz aspas com as mãos.
— Entendo. Mas você não pode viver escrava das vontades dos seus pais. Adolescência é isso, descobrir o que você quer para a sua vida, é quando você começa a formar sua própria opinião, sua própria visão.
— Não consigo deixar de ver isso como algo muito egoísta. E, meus pais não andam muito satisfeitos comigo. Minha mãe então, que já não está muito bem... Ela não queria que eu soubesse, mas, sei que ela anda tomando uns remédios fortes.
— Isso nem é culpa sua.
— Eu sei, mas, não quero piorar. – Ele não diz mais nada.

Sinto vontade de chorar então quase derrubo a cadeira quando levanto para abraçá-lo. Consigo sentí-lo sorrir em meu ombro.

Quando o sinal tocou, nos levantamos e fomos para a sala.

Nas três últimas aulas não teve nada muito interessante e nada de polêmicas. Eu quero acreditar que tudo agora será exatamente como antes, e que eventualmente eu vou me apaixonar por um carinha qualquer, então eu nunca mais me lembrarei da Marjorie.

Na saída, eu vi a Marjorie e a Mirian conversando. Eu tentei não olhar muito para Marjorie, mas ela ficou falando comigo, e sorrindo, seria grosseiro ignorá-la. Não quero ter um caso de amor com ela mas também não quero tratá-la mal, ela ainda é uma pessoa adorável.

Mirian a chamou para vir à nossa casa. Marjorie ligou para seus pais, que concordaram com a ideia. Ótimo, agora eu vou ter de me esconder na minha própria casa.

Chegando em casa, nós almoçamos e eu termino depressa para que ninguém perceba quando eu saio da mesa. Vou para o quarto do Marcelo, meu irmão. Ele está fazendo faculdade de química, então é meio difícil vê-lo em casa, e quando está, fica estudando.

Penso por alguns instantes o que eu poderia ficar fazendo no quarto do meu irmão, olho em volta e os livros não parecem ser do tipo que me interessariam, além disso, só vejo uma cama, um guarda-roupa e um notebook. Torço para que não tenha senha, mas tem. De repente me lembro que o celular está no meu bolso, então fico vendo qualquer coisa no facebook.

Alguns minutos depois, ouço a porta abrir e vejo Mirian e Marjorie.
— O que está fazendo aqui? Te procuramos pela casa toda, mas eu nunca ia imaginar que estaria aqui. – Estranha Mirian.
— Eu sinto falta do Marcelo, só isso. – Pelo menos não é uma completa mentira.
— Eu também. Mas, ficar aqui não vai fazer com que ele apareça de repente. Sabe que ele só chega tarde.
— Sim. Eu quero ficar esperando ele.
— Mas não precisa ficar aqui desde agora. Venha só um pouco antes, enquanto isso, fique conosco.
— Eu não quero!
— Pare de palhaçada, Nina! – Reclama Mirian. – Anda, sai daí. – Bufo. Me levanto da cama e sigo-as até o nosso quarto.
— Alguém aqui gosta muito dos Beatles. – Comenta Marjorie passeando os olhos pelo quarto.
— É, sou eu. – Resmungo.
— Então, vamos assistir alguma coisa?
— Hã, claro. Podem escolher algum filme enquanto eu preparo uma pipoca. – Digo. A verdade é que quero sumir dali pelo menos por alguns minutos.
— Eu posso ir com você para te ajudar. – Oferece Marjorie.
— Ah, não precisa.
— É claro que precisa. – Ela me encara de uma forma um tanto assustadora. Vindo dela, é surpreendente.
— Então tá. – Quando chegamos à cozinha, pergunto: – O que você quer?
— Quero saber porque parece infeliz com minha presença. – Você disse que aquilo não mudaria em nada a nossa amizade.
— Dou um risinho nervoso.
— Hm? Não estou infeliz com sua presença.
— Está tudo bem?
— Uhum, claro. – Minto. – Prefere pipoca de manteiga ou temperada?
— Manteiga. – Colocamos a pipoca no microondas por dois minutos. Dois minutos de silêncio e desconforto. Então voltamos para o quarto.

Mirian escolheu Juno para assistirmos. Nós três nos aconchegamos na cama de baixo, Marjorie faz questão de ficar bem perto de mim. Ela olhava para mim várias vezes, hesitante. Eu fingia completa indiferença, e isso fazia seus olhos parecerem tristes. Ela segura minha mão, tentando obter uma reação minha. E consegue. O toque dela em minha mão é mágico, parece causar um arrepio macio. Não consigo disfarçar o efeito que isso tem em mim, e ela agora sorri. Tem essa aura encobrindo ela, que agora invade a mim. Com um simples tocar de mãos. Uma aura leve, pura e bonita, ainda que invisível.

Quase não presto atenção ao filme, minha mente está uma explosão de dúvidas. O que eu devo fazer? Talvez isso nem seja real, talvez ela nem esteja a fim de mim. E se estiver? Eu vou ter de evitá-la até o colégio acabar? Ou direi meus sentimentos a ela e ela não corresponder e perderei sua amizade? Ou ela vai corresponder e perderei minha família?

Notas finais
E aí, galerinha, o que acharam? Espero ter suprido suas expectativas. Beijos! :3