A exceção
11 Capítulo 11.
Notas iniciais
Estou me sentindo um pouco irresponsável por ter deixado a Mirian em casa dormindo. Se eu a acordasse, ela viria comigo e ficaria chateada se eu dissesse que preciso conversar com a Majorie sem a presença dela. Mas, eu coloquei o despertador, espero que ela tenha acordado e esteja se arrumando a essa hora. Nem ligo dela reclamar depois, eu segurei tudo para mim por tempo demais e agora me sinto pronta.
Já estou na escola, esperando a Marjorie. Torço que não demore muito, ou algum conhecido pode chegar e terei vindo cedo à toa. E sei que Elisa não vai nos deixar em paz durante o intervalo.
Quando a vejo no portão, é como se meu coração quase não estivesse batendo antes e agora acelera desenfreadamente, eu me sinto viva. Sem ar, mas viva. Ela me vê. A cada passo dela, fico mais nervosa. É, não estou mais pronta. Não sei como vou conseguir falar, apenas sei que preciso.
— Oi. – Diz ela sorrindo.
— Oi. – Respondo. Espero que ela pergunte o que eu queria falar mas fica em silêncio. Então começo: – Eu não parei de falar com você simplesmente porque estava triste, é que, eu gosto de você. Muito mesmo. Queria impedir esse sentimento, mas não funcionou. E estou te falando isso agora porque não quero mais negar, nem guardar para mim mesma.
— Nossa, eu nunca ia imaginar que você se sentia assim. Pensei que tinha parado de falar comigo pelo que eu te contei na festa, que me considerava uma ameaça. Ontem cheguei a desconfiar, mas sei lá, achei que era coisa da minha cabeça. – Meu Deus, o que eu falo agora? Não posso ficar em silêncio, seria estranho.
— Ei, por que você não respondeu minha mensagem?
— Eu só vi de manhã. Pensei que não tinha necessidade de responder, já ia te ver no intervalo mesmo.
— Podia ter respondido! Eu fiquei preocupada, tá? – Ela ri.
— Olha só quem está reclamando! – Começo a rir junto com ela. Pego o meu celular e a tela me mostra que falta cinco minutos para a aula começar.
Sou surpreendida com um selinho. Ela fica tão bonita tímida, tão bonita de qualquer jeito, mas esse eu ainda não tinha visto. Não preciso de um espelho para saber que estou corada. Queria mais, porém os alunos estão começando a chegar. Não é justo, depois de tudo ainda vou ter de me esconder.
— Eu acho que sei porque a Elisa implica comigo. – Digo.
— Também acho. – Ela solta um suspiro pesado.
— E o que você vai fazer?
— Vou falar com ela, claro. – Espero que isso não me arrume problemas. – Ela tem ciúmes, e por isso faz essas cenas na sua frente. Mas fora isso, ela é uma boa pessoa.
— Imagino que sim. Se você é amiga dela, deve ter motivos. – Ela sorri de leve.
Conversamos um pouco até o sinal bater. Pouco depois que entro na sala, Pedro chega e sentamos nos mesmos lugares de sempre.
Fico lembrando de ontem e me pergunto se ele está silencioso porque ele é assim mesmo ou se é porque está chateado. Ele quase nunca se irrita comigo, não é a cara dele ficar assim por causa de uma brincadeira idiota. Isso quase me deixa irritada, mas acabo é ficando preocupada. No fundo, ele é um cara sensível. Andei ocupada demais com o meu drama e talvez não tenha prestado muita atenção nele. Não foge da minha mente a ideia de que alguma outra coisa aconteceu. E eu sei que ele nunca vai dizer se eu não perguntar.
Quando chega a hora do intervalo, decido conversar com ele.
— Você está chateado comigo ou alguma coisa? – Pergunto.
— Não, não tem nada a ver com você. – Responde, com o pensamento distante.
— Tem a ver com o quê?
— Nada demais. Finja que eu não fui um imbecil ontem.
— Ei. Não seja um imbecil agora. Eu sei que não é apenas “nada demais”, pode me falar.
— Não quero.
— Então eu não quero esquecer que você foi um imbecil ontem e está sendo agora.
— Que seja. – Era a primeira vez que essas duas palavras me soavam profundamente irritantes.
— Ah, quer saber? Foda-se. – Digo afastando-me dele.
Me senti pesada depois disso, mas não, eu não ia pedir desculpas. Ele quem não quer me dizer o que está acontecendo. Talvez se eu o fizer sentir minha falta, resolva falar.
Voltando à sala, tenho que passar pelo constrangimento de estar sentada ao lado de alguém com quem estou brigada. Temos aula de português agora, o que significa que as garotas vão ficar babando por causa do professor, como sempre. “Fala sério, ele nem é tão bonito, só é jovem.”, penso em voz alta.
Os alunos não costumam falar comigo, mas uma garota que estava na carteira à minha frente se vira e diz:
— Claro que acha isso, você é lésbica.
— Eu não sou...
— Nem adianta, todo mundo já sabe. – Ela ri e volta a prestar atenção na aula.
Como estão sabendo? Eu não contei a ninguém, e, não é possível que eu deixe tão óbvio! Espera, eu contei.
Pedro. Não posso acreditar nisso. Claro, ele está com raiva de mim. Isso é tão bosta. Ele não dá a mínima para mim. As lágrimas começam a se formar nos cantos dos meus olhos.
— Você é o maior filho da puta que eu já conheci. – Murmuro.
— O que eu fiz? – Cínico!
— Você contou.
— Não fui eu.
— É, foi a minha mãe. – Digo irônica.
— Estou falando sério, não fui eu!
— Você é o único que sabe, além da Marjorie.
— Então tá, acredite no que você quiser. – Resmunga, impaciente.
— Eu te odeio. – Ele não responde, parece completamente alheio.
As lágrimas descem queimando meu rosto. Começo a ficar enjoada, e parece que vou vomitar. Eu percebo que algumas pessoas estão mesmo falando de mim e até fazendo cara feia. Nunca senti uma vontade tão grande de sumir.
Ele não se importa. Eu não o odeio, odeio o que ele fez, e é por isso que dói. Esse não é o Pedro que eu conheço, será que eu o conheço? Nada que acontecesse poderia justificar isso, e eu tenho certeza que não fiz nada tão grave. A não ser confiar nele.
Enxugo minhas lágrimas e tento parecer indiferente durante essas três últimas aulas. Mas eu nunca vou ser tão profissional como o Pedro, porque ele nem precisa fingir, ele está realmente indiferente.
Na hora da saída, deixo a sala sem nem me despedir dele. Mirian está sozinha no pátio principal, me esperando.
— Por que saiu de casa antes de mim? – Pergunta ela.
— Eu tive de resolver uma coisa.
— Que coisa?
— Tinha que terminar um trabalho em grupo, a apresentação era no primeiro tempo.
Depois disso não falamos mais nada. Estou irritada demais para pensar em qualquer assunto. Muita gente sabe que a Mirian é minha irmã, o boato poderia facilmente chegar aos seus ouvidos.
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