A estranha garota
24 Fim - Brisa da primavera
O sol batia no meu rosto e acariciava minha pele com um banho de luz, isso era muito bom, é quente mas quase não dá para sentir o calor. Realmente algo confuso.
Mas o que realmente me intrigava era o fato de conseguir sentir isso já que eu estou... morta? Não creio nisso, achava que não poderia mais ter consciência ou qualquer percepção e sentidos, principalmente coisas aleatórias desse tipo. Deve ser algum delírio antes do total falecer e desintegrar da minha alma, algo que me deixe calma para não sentir o fim em seu total potencial.
Ou estão de brincadeira comigo em um momento tão sério. Uma possibilidade que não existe, creio eu.
Deveria aproveitar esse momento que estão me dando ao invés de começar a reclamar disso tudo, devo cortar esses pensamentos e relaxar.
A sensação de lugar está aumentando, além do sol sinto o peso do meu corpo e com isso meu coração batendo. Batendo em um ritmo lento e confortável. Sinto a grama me envolvendo e me dando uma leve coceira na superfície da pele. Algo que me traz lembranças, de um tempo muito distante, tanto que eu nem sabia de sua existência.
Um tempo em que eu não falava, que eu tinha uma pele sensível e era iniciante na vida, um mero bebê que dormia calmamente em um mundo desconhecido.
Uma mão veio até mim e acariciou minha cabeça lentamente e com muito cuidado, um toque familiar.
–Durma bem Samanta. – uma doce voz sussurrou suavemente.
Meu coração se esquentou, eu desejava saber quem era essa pessoa, mas eu não podia me mover, estava lá só como espectador.
Mas tudo bem, para que eu iria precisar saber de alguma coisa se estou morrendo? Iria ser inútil.
Até que morrer assim não é tão ruim afinal... Não achava que a morte era tão gentil.
Espero que o Seitaro também esteja bem, sentindo algo tão bom como eu, tenho que desejar coisas boas para ele, afinal eu o coloquei no meio disso tudo, eu sou a culpada, eu o amo...
Eu o matei. Admito isso, mas eu acho que faria isso de novo, tudo por puro egoísmo.
Por pura idiotice.
Por ser eu.
Me desculpe.
Você não vai ter que me aturar mais, mesmo que eu queira te irritar por muito tempo, acabou.
Agora só o que me resta é esperar pela morte.
(...)
Seitaro pov’s on:
Acordo confuso e com a respiração acelerada. Eu estou vivo...?
Sinto grama debaixo de mim, causa até uma certa coceirinha em minhas mãos suadas, uma brisa vem e empurra alguns fios de cabelo para trás, o que me faz olhar para frente. Vejo uma mulher adulta sentada ao pé de uma árvore – — incrivelmente ela é muito parecida com a Sammy – na sua frente há uma pequena criança, um bebê. Ele dorme enquanto a mulher acaricia sua pequena cabeça.
Estranho, por que estou vendo isso? Eu não a conheço. E se estou morto como posso ter sentidos e visão?
Me levantei, tirando o cabelo de meus olhos desacostumados com essa claridade, caminhei com passos lentos até a mulher, tinha que tomar cuidado para que o bebê não acordasse.
A mulher notou minha aproximação e levantou a cabeça, estava me olhando nos olhos, lia minha alma. E então deu um sorriso, um belo sorriso terno.
– Estive te esperando, Seitaro. – Disse ela.
Como ela sabia meu nome?
– Te observei por bastante tempo. – estava respondendo minha pergunta mental – Obrigado por cuidar da minha filha.
– Quem? Sua filha...
– A Samanta. — falou e desviou seus olhos para o pequeno bebê.
– Sammy... Mas eu vi a mãe dela, não é você. – aquela mulher estava brincando comigo, como poderia ser a mãe da Sammy, aquela que me matou?
– Aquela que viu era minha irmã. – suspirou pesadamente – a Sammy te falou certo? Que eu tinha morrido.
– M-Mas.
– Minha irmã ela... faria de tudo para tomar meu lugar. E fez. Me matou para ficar com tudo que eu tinha. Tudo. Roubou até as memorias daqueles que eram próximos de mim, ela destruiu minha existência, completamente.
Meu coração ficou em um ritmo pesado enquanto refletia sobre as palavras dela, eu poderia crer no que me disse?
A mulher pegou o bebê em seu colo e o abraçou.
– Adeus, minha querida Samanta. – beijou a testa do bebê.
Ela começou a brilhar muito forte, e então pequenas bolhas de luz foram sendo liberados dela, eles voavam para longe enquanto ela desaparecia, até que no meio de todas aquelas bolhas brancas uma verde surgiu e veio até mim. Era um verde do mesmo tom que os olhos da Sammy. Ele se aproximou e então me atravessou, entrou dentro de mim. Fez surgir uma sensação de calor em meu interior, como se tivesse explodido em várias emoções.
Meu coração bateu mais forte, eram os sentimentos da Sammy. Coloquei minha mão direita sobre meu coração e apertei minha blusa. Meus olhos estavam se enchendo de água, eu desejava vê-la, toca-la, só mais uma vez.
Foi então que algo caiu do outro lado da árvore, o tilintar do pequeno colar chamou minha atenção.
Andei até o outro lado, me abaixei e peguei o objeto. Era um belo colar de ouro com uma graciosa pedra no pingente, quando me levantei o pingente se abriu mostrando duas fotos. Um era uma criança de uns três anos – provavelmente a Sammy – agarrada ao dedo de sua mãe, a mulher que tinha encontrando agora a pouco.
A outra foto era...
(...)
Tia da Sammy Pov’s on:
Não creio que aquela criança conseguiu me matar, não com aqueles olhos. Mesmo depois de tantos anos sendo sua mãe ela continua igual a minha irmã.
Víbora, aquela mulher odiosa, mesmo morta ainda continua me atrapalhando. Ela acha que é superior, mas não é, ela está caída no chão, beijando meus pés. Quem é superior sou eu, aquela que a matou.
Aquela garota, ela é igual, me matando assim. Eu a odeio.
Ela destruiu meu orgulho, ela não era capaz, não era.
– O que você está fazendo aqui? – disse uma voz familiar.
Suspirei aliviada, ainda bem que eu ainda tenho essa pessoa, vou poder continuar vivendo.
– Olá. – me viro para ele com um belo sorriso – como vai?
– Oi Haruka. – fala frio.
– O que foi? Tem alguma coisa de errado? – chego mais perto – Você está estranho.
Ele suspirou, chegando mais perto. Ele estava ameaçador, a cada passo que ele dava eu recuava um pouco para trás, até que bati na parede. Ele estava querendo me encurralar.
– O que foi? – digo pensando em alguma possibilidade de fuga.
Antes que pudesse pensar em algo válido ele coloca suas mãos na parede, dos dois lados, para que não pudesse sair.
– Estou cansado sabe... – ele olha fixamente para meus olhos – Não quero mais ser usado por você.
Isso me dá uma pontada de surpresa.
– Agora quem vai mandar sou eu. Vai ser minha serva aqui nesse mundo.
– M-Mas... Eu... Não vai me mandar de volta a vida?
Deu um sorriso de canto e começou a dar uma risada. Ela começou bem baixa, mas foi aumentando cada vez mais, até que ele interrompeu com uma fala.
– Você vai ser minha. – ele aproximou seu rosto – minha marionete.
Ele chegou tão perto que pude sentir sua respiração em meu rosto.
– Só minha... – sussurrou em meu ouvido.
E antes que eu pudesse fazer alguma coisa ele me beijou, o que me pegou totalmente de surpresa, desde quando ele é tão rebelde assim?
Ele se afastou devagar, o maldito nem corado estava. Ainda por cima tinha um sorriso de vencedor no rosto.
– Agora que é minha prisioneira não tem o direito de decidir o que quer, quem decide o que você quer sou eu. E você não quer voltar à vida.
Eu dei um chute na canela dele e sai correndo. Eu não sou tão fácil de prender assim.
– Escolha errada. – disse.
Então senti algo de estranho em meu corpo e tropecei dando de cara no chão.
– Agora você vai parar de achar que eu sou idiota. Você me usou e agora tem que aguentar a vingança. — ele me segurou pelo colarinho da camisa – Está morta de qualquer forma, não pode ir a lugar nenhum.
Eu iria ser imortal, ficar aqui signifique viver para sempre. Talvez assim eu consiga finalmente o que eu tanto desejo, vencer minha irmã.
Com certeza, assim eu serei superior a ela, melhor que ela. Se é assim, então eu devo ficar.
Aquela idiota.
Seitaro pov’s on:
A outra foto era uma foto minha.
O vento bateu no meu rosto e me trouxe um fio de cabelo. Ele tinha caído bem no meu rosto, um fio negro.
Olhei para cima. Meu coração deu uma batida quase falha, uma batida dolorosa, meus olhos se arregalaram e minhas mãos tremiam de ansiedade.
Era ela, a Sammy.
Estava em cima da árvore olhando para mim com um sorriso no rosto.
Era tudo que eu desejava.
Ela desceu da árvore com um pulo. E andou com passos calmos até mim.
Parou na minha frente, levou sua mão até meu rosto – ela estava quente – e começou a passar seus dedos finos belos meus cabelos. Com minhas mãos a trouxe para mais perto, puxando-a pela cintura. Ela agarrou meu cabelo e me puxou para um beijo.
Não precisávamos de palavras, estas já haviam sido ditas. O tempo não deveria ser gasto com coisas que podem ser expressas com ações. Nós dois tínhamos consciência disso.
Foi um beijo cheio de necessidade, com um misto de adeus e até logo, que era impossível prever.
Assim com o ultimo toque desaparecemos, ali mesmo no pé daquela árvore, para talvez nunca mais nos vermos na imensidão da morte.
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