Como pode ter tanta diferença em um lugar só, uns preocupados com roupas, sapatos e joias enquanto tem gente preocupada com comida e como vai sobreviver até o final do dia.
-Não é justo!Não é! James, não pode continuar assim!Como será o futuro do David e do Conan!Eu não quero isso para os meus irmãos!
-Tenho certeza de que o papai e nem a mamãe queriam isso para a gente Cathe!
-Não coloque a mãe e o pai nisso. Eles sempre lutaram para nos tirar daqui.
-Catherine pare! Você está falando como se não me esforçasse para nos tirar daqui!
Por mais difícil que seja sabia que isso era verdade, quantas vezes vi meu irmão virar a noite procurando um emprego melhor que aceitasse um ex sete e até mesmo chorando baixinho enquanto recontava o pouco de dinheiro que conseguirá juntar.
-Vocês estão brigando de novo?
Conan falou em meio a soluços querendo chorar, nessa hora meu coração que já estava doendo com toda essa situação se despedaçou ainda mais.
-Não meu bem, James e eu estávamos apenas conversando. E o que você está fazendo acordado há essa hora mocinho?
Com um sorriso torto meio que sem jeito ele falou:
-Eu estou com fome.
Nesse momento meu coração apertou e me virei para James que compreendeu o meu olhar de preocupação.
Peguei meu irmão no colo querendo protegê-lo de tudo e de todos. Caminhei em direção a nossa minúscula cozinha e o sentei em um dos banquinhos. Comecei a abrir os armários em busca de alguma coisa e o que encontrei foi uma caixinha de maisena que juntamente com o leite, que tinha ganhado da vizinha, daria um belo mingau. Quando meu virei James e David também estavam lá me olhando cuidadosamente foi então que comecei a rir e todos me seguiram numa risada que parecia não ter fim.
-Você é igual à mamãe!-Disse David em meio às risadas.
-Sério que você se lembra dela? Mas você era tão pequeno. -Disse James com um ar de surpreso.
-Lógico que me lembro! Ela era alta, morena e o que eu sinto mais falta é do seu sorriso que me acalmava quando estava com medo.
Essas palavras me fizeram lembrar-se de tudo o que minha mãe representava para nós, um exemplo de que em meio a tantas dificuldades jamais deixar que o sorriso saia do nosso rosto.
-Também me lembro do papai, não muito mais eu lembro!
-E o que você lembra?-Perguntou James todo curioso.
-Ah! Lembro-me dele me colocando pra dormir fazendo cafuné e me contando histórias de super heróis. -Disse David todo animado ao falar do papai, como se toda a dor de sua perda tivesse sido transformada em um imenso orgulho.
-Eu não me lembro deles! Mas a Cathe e o James são como pais pra mim. -disse Conan todo satisfeito.
-Pra mim também!-disse David abraçando o braço de James.
Larguei a caixa de maizena em cima da mesa e juntei-me ao Abraço coletivo entre irmãos.

Quando terminei de preparar o mingau, servi os meus meninos dando a minha parte para James, pois ele iria muito cedo para a fábrica de tecido e só voltaria para casa à noite.

-Você não vai comer? Está uma delícia! -disse Conan com a boca cheia.
-O que eu te falei sobre isso?-disse tentando fazer com que ele me levasse a sério.
-"Conan, é falta de educação falar de boca cheia" "Conan, menino bonito não faz isso."-ele disse gesticulando com as mãos tentando me imitar.
-Então porque ainda faz isso?-falei tentando fazer uma cara séria para que ele pudesse entender que eu estava brigando por ainda não ter aprendido a lição.
-To bom! Desculpa!-falou com uma cara de frustração.
-Agora que já comemos é hora de dormir. -James disse já em pé indo em direção a Conan para pegá-lo no colo.
-Você também mocinho!-disse a David que me olhava com uma cara de quem não queria ir dormir.
Segui atrás de James que levava Conan no colo parecendo um bebê recém-nascido, abracei David fazendo carinho em seus cabelos castanhos, foi quando observei que já estava quase chegando à altura do meu ombro. Como pode passar tão rápido? É o tempo ou a correria do dia a dia que não me deixa aproveitar o crescimento dos meus irmãos? Acho que com trabalhos tão cansativos James e eu não percebemos o tanto que nosso irmão cresceu.

Não estava conseguindo dormir, parece que essa noite estava mais fria do que o normal. Levantei, peguei minha coberta e coloquei em cima dos meninos que estavam juntinhos perto da parede, percebi que James estava mexendo de um lado para o outro na cama, achei melhor deitar com ele do jeito que fazíamos quando éramos pequenos.

-O que aconteceu? Você está bem?-falei tentando ver a expressão em seu rosto.
-Não sei Cathe. Estava pensando nesses últimos anos, sinto tanta falta dos nossos pais! Ficou tão difícil quando o papai morreu pelo menos a gente tinha a mamãe, mas ela também se foi.
Houve uma pausa que fez com que meu estômago gelasse em meio aquelas palavras, percebi algumas lágrimas que surgiam em seu rosto e então o abracei com todas as minhas forças.
-Mas estamos juntos e isso nos dará forças para continuar lutando. -tentei reconforta-lo não querendo larga-lo.
-Sempre estaremos juntos.
-Se tivéssemos uma condição de vida melhor o papai não teria sofrido aquele acidente no trabalho, as condições de serviço eram muito precárias, e a mamãe poderia ter tido a chance de dar a luz a Conan e um hospital e de não ter pegado aquela infecção que a matou.
Isso tudo me deixa tão indignada, porque havia pessoas com muito e outras com tão pouco. Entendo o motivo das rebeliões, o povo só quer mais igualdade e condições melhores de sobreviver.
-Você tem razão, mas o papai sempre falou que tudo era pior antes das castas acabarem, o rei Maxon melhorou a vida de muitas pessoas. -ele disse se soltando e virando-se para mim.
-Não digo pelo rei Maxon, ele acabou com as castas e o que mais fez? Não adianta só falar que acabou porque não acabou. James quantas vezes você foi excluído de alguma oportunidade de emprego porque te perguntaram de que casta você tinha saído? -não estava dando conta de conter minha indignação.
-Tenho certeza de que ele se esforça para fazer o melhor para seus súditos, mas não tem como colocar lá dentro da cabeça de algumas pessoas a informação de que as castas acabaram e que todos são livres para escolher qual rumo toma. -ele falava passando os dedos em meus cabelos, isso me deixa com um sentimento de proteção, que ele me protegeria de todos os perigos. -Tá, mesmo que o rei Maxon se esforce para nos ajudar. . -ele me interrompeu.
-Ele se esforça sim! Pode ate não parecer, mas as coisas vêm melhorando um pouquinho a cada dia mesmo que seja minimamente. -disse me encarando.
-Mesmo que se esforce- continuei -ele não será rei para sempre. A princesa Eadhyn assumirá o poder, você viu no jornal oficial parece que ela não se importa com a gente, o povo, acho que ela se sente superior ou coisa do tipo. -depois que falei tudo isso parecia fazer todo o sentido.
-Cathe não julgue antes de conhecer as pessoas. -ele fez uma cara de brava e comecei a esforçar para não rir.
-Tudo bem. Agora boa noite porque amanhã tenho que trabalhar na casa da Sra. Benner e você vai para a fábrica. — o abracei mais uma vez-eu te amo.
-Boa noite minha flor eu também te amo.- essas palavras soaram em meus ouvidos até pegar no sono.