A epidemia

3 As luzes lá fora


Notas iniciais
Olá, bruxinhos (as)!! Que alegria publicar mais um capítulo depois de tantos comentários maravilhosos. Estou muito contente por saber que estão gostando, e isso me incentiva mais e mais a continuar escrevendo. Espero que gostem ainda mais deste novo capítulo. Prometo responder todas as corujinhas! Boa leitura. P.S.: A leitura pode ficar mais legal se você ouvir "Strange Bird" enquanto lê.

Poderia ter jurado que ouvira um estalo de aparatação no quarto em que dormia, na enfermaria. Mas estava com tanto sono, que mal conseguia se mexer na cama para confirmar se ouvira certo. Apesar de ainda ser verão, a temperatura no cômodo estava baixa, e isso a incomodou o suficiente para forçá-la a abrir os olhos. Não sabia que horas devia ser, mas soube que era hora de acordar quando viu uma mesa posta com o café-da-manhã, ao canto próximo à porta.

Sentou-se na cama no momento exato em que um elfo desaparatava, indo embora, provavelmente de volta para a cozinha. Se espreguiçou um pouco, esticando os braços sobre os ombros, e bocejou antes de pisar com os pés descalços no chão gelado. Claro, reclamou um pouco, mas então notou que o seu malão de Hogwarts estava no chão, ao pé da sua cama. Abriu-o e de lá tirou o seu uniforme escolar, separou tudo do que precisava, afinal, estava tudo lá. Foi direto para o banho, então.

Quando terminou a sua higiene matinal, os cabelos ainda com as pontas úmidas, pois não conseguira secá-los por inteiro, deixou o banheiro carregando as roupas sujas. Tomou um susto quando viu seu professor entrando pela porta do quarto, estancando o passo para observá-lo desabotoando o casaco e depositando-o sobre o encosto de uma cadeira. Por um momento, Hermione se esqueceu de que já estava vestida, e de que o quarto era coletivo, afinal, tinha que se acostumar a dividi-lo com o seu professor.

— Vejo que acordou cedo. – disse o homem, sem fitá-la diretamente – Isso é bom, significa que não teremos problemas com horários.

Como sempre, Hermione notava o sarcasmo impregnado nas falas de seu professor, o que a irritava um pouco, mas ignorava ao máximo.

— O senhor passou a noite toda acordado? – perguntou, indo em direção ao seu malão e guardando as roupas sujas, depois pensaria o que fazer com elas.

— Boa parte, sim. Mas a madrugada foi calma e consegui descansar em alguns momentos. – respondeu, puxando a cadeira para se sentar na mesa posta.

Hermione permaneceu calada, observando-o sem saber o que deveria fazer naquele momento.

— Pode se sentar aqui, Srta. – disse o homem, apontando para a cadeira oposta – Este é o nosso desjejum, os elfos nos trazem pontualmente neste horário. Sei que é bastante cedo, mas assim temos mais tempo para as tarefas da manhã.

Concordou com a cabeça e se dirigiu até a mesa. Mesmo receosa em dividi-la com o seu mestre, abandonou as cerimônias pois se sentia faminta depois de sua aventura da noite anterior. Notou que ele também não se preocupava em esperar por ela, pois já levava um copo de suco aos lábios, enquanto ela separava algumas torradas.

Permaneceram em silêncio por algum tempo, mas observando-a melhor, Severo notou que havia uma fenda se formando entre as sobrancelhas da jovem, indicando que ela pensava em algo que a deixava um tanto confusa. Sentiu vontade de lhe invadir os pensamentos, mas se deteve lembrando de como ela reagiu da última vez.

— Vamos lá, faça as perguntas que estão martelando na sua mente, ao invés de ficar aí calada. – disse displicente.

— O senhor invadiu a minha mente, de novo? – ficaria muito brava se ele dissesse que sim.

— Não... pelo menos não dessa vez. – respondeu, fitando-a. – Não foi preciso. É óbvio, pela sua expressão, que está cheia de dúvidas. Estou lhe dando a chance de perguntar o que quiser.

Hermione pensou por um momento, notando a boa vontade aparente do professor, e não desperdiçaria essa oportunidade.

— Estou curiosa sobre a Professora Trewloney. O que será feito?

Levou um segundo para ele formular uma resposta, pois ainda achava estranho dividir informações com sua aluna, quando esta sequer deveria estar ali.

— O Ministério foi comunicado a respeito do óbito no início do dia e em algumas horas alguém virá para levá-la. – respondeu, voltando a atenção para seu prato, antes de dizer: — A Srta. questionou sobre o escolha do armário de vassouras, mas acredite, foi a única solução que encontramos.

Hermione concordou levemente, voltando sua atenção para o desjejum. Quem era ela para questionar as decisões de seus professores, pensou naquele momento. Mas não conseguia tirar da cabeça a lembrança do corpo, e a sensação de vazio que sentiu ao constatá-lo.

— Como será que irão reagir quando souberem que ela não resistiu à doença? – disse mais para si mesma, porém em voz alta – Ficarão todos assustados.

— Saberemos nas próximas horas do dia, ontem mesmo redigi as notificações e já as entreguei ao zelador para que sejam distribuídas nas casas. – ele respondeu.

Hermione interrompeu o seu desjejum, recebendo de volta o olhar sombrio de seu professor. Se lembrava de tê-lo visto, na noite anterior, transtornado diante de uma porção de pergaminhos sobre a mesa. Entendia, agora, porque estava tão visivelmente afetado, não deveria ser fácil dar essa notícia à um corpo discente inteiro, sem saber suas reações.

— A propósito, esta chegou para a Srta. agora pela manhã. – disse, entregando-lhe uma correspondência que estivera sobre a mesa o tempo todo, e se quer ela notara – Poderá ler com mais calma depois das tarefas do dia.

Hermione alcançou a correspondência e não entendeu de início, pois a mesma estava com o selo violado, mas então, em um lapso momentâneo, compreendeu.

— Claro, por que a pressa se a carta já foi até aberta. – disse, irônica – O senhor leu a minha correspondência?

— Talvez. – respondeu, sem se intimidar.

— Primeiro a minha mente, agora minhas correspondências. – bufou irritada – Desse jeito vai ser difícil.

— Vamos deixar claro uma coisa, Srta. Granger. Eu não a aceitei para este trabalho para satisfazer um mero capricho seu. Nossas funções demandam concentração, foco e responsabilidade. Distrações não são bem-vindas.

— Meus amigos não são uma distração. – argumentou, agitando a correspondência.

Àquela altura, ela já tinha perdido a fome e, por isso, afastou o prato. Mal havia começado o dia, e já estava irritada. Severo se questionava o tempo inteiro como podia aquela garota enfrentá-lo tão decididamente, como se isso fosse algo rotineiro.

— E quanto à Madame Pomfrey? Eu esperava encontrá-la aqui na enfermaria. – Hermione quebrou o silêncio, perguntando.

— Adoeceu, logo no início do surto. Conseguimos a sua transferência para o St Mungo’s. Desde então, eu e a Professora Minerva assumimos em seu lugar.

— Mas e a poção immunis? Não fez efeito? – ela quis saber, esquecendo que ainda estava um pouco irritada com seu professor.

— Não é uma poção comprovada cientificamente, e eu só a desenvolvi recentemente. A propósito, você deve ingerir uma dose diariamente. Sabe onde as guardo, e não espere que eu vá lembrá-la disso todos os dias, é sua responsabilidade.

Hermione concordou de leve, no fundo o admirava muito pelo domínio que tinha em alquimia, desenvolvendo poções tão complexas que talvez demorariam anos para alguém formulá-las.

— Estamos vivendo em incertezas. – ela concluiu, pensativa.

— Tem razão. – concordou com a aluna, deixando os talheres sobre mesa e fitando-a diretamente, antes de dizer: — Por isso, estamos aqui para fazer a nossa parte. Eu a espero lá fora para começarmos as atividades.

Dizendo isto, ele se levantou da mesa, afastando a cadeira e levando consigo sua capa, que estivera no encosto dela. Naquele momento, Hermione sentiu o peso da responsabilidade sobre seus ombros, finalmente se sentindo necessária. Sentia-se mais disposta agora, após o desjejum, e depois de ter suas dúvidas esclarecidas. De certa forma era imensamente grata ao excesso de sinceridade de seu professor, pois gostava de saber de toda a verdade, sem manipulações.

Depois de vestir sua capa escolar e beber da sua poção immunis, fazendo uma nota mental para não esquecer disso na manhã seguinte, ela saiu para o salão da enfermaria e o encontrou próximo de uma bancada repleta de poções, que ele terminava de separar quando a avistou se aproximando.

— Nossa primeira tarefa do dia consiste em garantir que todos os doentes estejam limpos e alimentados antes da primeira medicação do dia. – Severo disse, observando-a para ver se prestava atenção – Não há nenhum doente que esteja com suas capacidades comprometidas, portanto, tudo o que precisa fazer é orientá-los.

Ela concordou com um aceno de cabeça, achando bastante simples, até aquele momento.

— E eu lhe garanto: como doentes, eles são muito mais indisciplinados que como alunos. – Severo complementou, vendo-a esboçar um traço de sorriso que não se desenvolveu em seus lábios – Os banheiros estão ali do outro lado, o desjejum sobre a bancada de cada leito e as medicações já estão separadas aqui. Observe, essas fichas são como... – mostrou-lhe alguns pergaminhos amarelados, pensando em palavras para descrevê-los – São como um guia, entende?

— Prontuários. – ela concluiu.

— O que disse? – mas ele não entendeu, porém não deu importância – Que seja. Aqui estão todas as informações sobre medicações e horários. Uma vez administrada qualquer poção, anote. Isso é muito importante.

— Posso fazer isso, não se preocupe. – garantiu, aceitando os pergaminhos que ele lhe entregava. – O senhor vai ficar para ajudar ou pretende ir descansar agora?

— Vamos dividir as tarefas, o descanso vem depois. – disse.

Era admirável a postura firme e incansável que aquele homem exercia, Hermione se pegava pensando e analisando isso a todo o momento, buscando compreender de onde ele tirava tanta motivação, visto que a situação geral não era a das melhores.

Como havia imaginado, as tarefas da manhã eram de fato bem simples. Grande parte dos doentes colaboraram, nenhum deles exigiu mais do que um pouco de atenção na hora de ministrar as poções, e Hermione anotou tudo com todo o cuidado, inclusive as queixas de cada um deles.

— Bom dia, professora McGonagall. – ela cumprimentou a senhora, adentrando o leito – Como se sente, essa manhã?

— Bom dia, minha querida. – a diretora lhe devolveu o cumprimento, parecendo bastante revigorada – Estou ótima, poderia até mesmo voltar ao trabalho.

— Não por enquanto, professora. Vejo que já tomou o seu desjejum. Isso é bom, significa que está com apetite.

— “Vejo” que está sendo bem instruída, Srta. Granger. Já está até falando igual a ele. “Isso é bom”, significa que estão se entendendo.

Só então Hermione pareceu notar que estava repetindo as palavras de Snape, talvez por influência. Riu de sua situação e a professora lhe acompanhou no riso.

Quando terminou de prestar os cuidados aos pacientes que lhe fora designada, se dirigiu até um leito onde Severo terminava de administrar uma poção.

— Professor, eu posso continuar sozinha a partir de agora. O senhor pode ir descansar, se quiser.

Severo analisou a aluna com o olhar atravessado, ponderando mentalmente.

— Não hesite em me chamar se precisar de mim no salão. – disse, entregando a ela os seus prontuários.

— Tudo bem.

Não tinha muita certeza se fizera a coisa certa, deixá-la sozinha quando sabia tão pouco sobre os procedimentos. Severo quase pensou em desistir da ideia de descansar, mas depois que sentou sobre a cama e retirou os sapatos, deixou de lado qualquer ideia e apagou. Ao menos foi essa a sensação que teve, quando acordou assustado com o som de aparatação dentro do quarto.

Ao se levantar da cama, notou que o almoço já estava servido, o que lhe assustou um pouco, pois estava óbvio que dormira demais. Pensando nisso, tratou de tomar seu banho e vestir roupas limpas, e, após, se dirigiu ao salão, prevendo que encontraria um caos instalado. No entanto, o que viu foi algo totalmente diferente, que o surpreendeu.

Havia uma luminosidade natural que adentrava através das janelas, que poucas vezes haviam sido abertas. As cortinas de alguns leitos estavam escancaradas, também, expondo os alunos ali instalados, e que naquele dia pareciam mais ativos. Aquele cenário não se parecia em nada com a enfermaria que vinha administrando há semanas. Com esses pensamentos, viu Hermione ao longe na bancada e se aproximou.

— Professor, acabo de separar as medicações que serão administradas logo mais. – ela disse, assim que o viu se aproximando – E separei alguns ingredientes para repor as poções que logo estarão em falta, ao menos que o senhor me diga que há um estoque pronto?

— Não, as poções dos armários são tudo o que temos. – ele respondeu, ainda achando curiosa a postura da aluna. – A ideia das janelas foi sua?

— Sim, eu achei que faria bem deixar o ar circular um pouco. Não deveria ter aberto as janelas?

— Tanto faz. – respondeu um pouco contrariado. – O almoço está servido.

Dizendo isto, se retirou de volta para o quarto reservado, onde se sentou à mesa e começou a preparar o seu prato de comida. Ficou pensando na forma como a havia tratado alguns minutos antes, mas não conseguira disfarçar o seu mau-humor vendo que a aluna que havia rechaçado estava fazendo um bom trabalho, no final das contas.

Hermione se juntou a ele na mesa alguns minutos depois, um pouco receosa pois notara a rudeza nas palavras do professor quando este mencionou sobre as janelas. Achou, inclusive, que a ideia tinha sido imprópria e por isso fechou todas elas logo que ele retornou para o quarto. Quando ela se sentou e começou a preparar o próprio prato, ele se levantou, sem dizer nada. A atitude lhe fez ficar atenta, esperava uma bronca a qualquer momento, mas não houve nenhuma.

Severo deixou o quarto e se dirigiu ao leito onde a diretora se encontrava acomodada. Abriu as cortinas e foi imediatamente recebido com alegria. Criou coragem e lhe questionou sobre o assunto que o levara até ali.

— O que está achando do trabalho da Srta. Granger, Minerva?

— As coisas amanheceram um pouco diferentes por aqui, não é mesmo?

— Não foi isso o que perguntei. – ele retrucou.

— Estou achando ótimo, Severo. Acho ótimo que você tenha alguém para lhe ajudar nos trabalhos, quando não posso. Não estrague as coisas, por favor.

Era claro que a mulher defenderia a aluna que tanto admirava, não sabia como podia esperar um posicionamento diferente. De qualquer forma, se deu por satisfeito e considerou não destratar mais a aluna, visto que tinha apenas se incomodado porque tinha duvidado das capacidades da moça.

Naquela tarde, Hermione recebeu novas instruções de procedimentos que tinha que realizar, e se saiu bem em todas as atividades.

— Estarei na sala anexa preparando poções. Se puder, evite me incomodar. – ele lhe disse, antes de se enfiar naquela sala pequena e passar o resto da tarde – Mas se precisar, não hesite.

Durante todo o tempo, Hermione lidou o melhor com todas as situações que surgiram no salão da enfermaria. Até que um aluno quintanista se queixou de dores no peito e iniciou um acesso de tosse com o qual ela não soube lidar. Então teve que incomodá-lo.

— Preciso que assuma estes caldeirões, se eu parar de mexer teremos perdido todos os ingredientes que você separou mais cedo. – ele disse.

— Tudo bem, eu acho que posso fazer isso.

Hermione se aproximou da bancada, observando que ele mexia dois caldeirões ao mesmo tempo, ambos no mesmo sentido horário. Parecia fácil, ela era boa com poções, afinal.

— Prenda os cabelos e suspenda as mangas da camisa. – ele ordenou.

Ela fez o que foi pedido, rapidamente trocando de lugar com ele e assumindo os caldeirões. No momento seguinte estava sozinha, apreensiva sobre conseguir dar conta das poções tão bem quanto ele.

Passados alguns minutos, que pareceram horas para ela que não parara de mexer um segundo sequer aqueles caldeirões, Severo retornou à sala trazendo notícias.

— Está tudo bem com o aluno, da próxima vez é só administração as poções expectorantes do armário, elas funcionam muito bem em casos parecidos.

Hermione concordou, contente por saber que havia agido certo, e agora saberia como agir numa próxima. Enquanto mexia as poções, observou seu professor suspender as mangas da camisa preta que vestia, até a altura dos cotovelos, revelando os antebraços, chamando-lhe a atenção em especial o esquerdo, que ainda trazia as formas da marca negra.

Percebendo a mudança de expressão da jovem, Severo se aproximou para fazer a troca e assumir os caldeirões novamente, mas a distração de Hermione fizera com que ela, acidentalmente, queimasse o pulso na borda de um dos caldeirões. Soltou um grito abafado, largando as pás que usava para mexê-los e se contorcendo com o pulso escondido entre o abdômen.

— Que droga. – ralhou consigo mesma.

— Deixe-me ver. – Severo se aproximou, mas ela se afastou dele.

— Continue a mexer os caldeirões, eu me viro com isso.

— Não há necessidade, as poções já estão até prontas. – disse, apagando o fogo dos caldeirões com um feitiço não verbal. – Agora me deixe ver isso.

Novamente, ele tentou se aproximar dela, chegando a segurar seu braço esquerdo para que pudesse analisar melhor o dano causado ali. A queimadura não era grave, por sorte, já que ela havia tirado o braço no primeiro estímulo de dor. Mas o que lhe chamou a atenção foi a marca desenhada em seu antebraço, um pouco apagada, mas deixada ali como uma cicatriz suave. Ele sabia a origem daquilo e quem a havia feito, porque ouvira a história um dia, mas ainda não tinha visto a cicatriz, de fato.

O gesto causou desconforto em Hermione, que não gostava de ter aquela marca exposta, por isso, na maior parte das ocasiões, estava sempre com as mangas abaixadas cobrindo-a, só a tornando visível quando muito necessário. Por isso, puxou o braço com agressividade, tirando-o da vista do homem. Ao mesmo tempo, esboçou a melhor carranca, para deixar claro que não havia aprovado aquilo.

No entanto, Severo não se intimidou e voltou a puxar o seu braço, focando-se, dessa vez, unicamente na queimadura ali exposta. Com um feitiço não verbal, fez com que um frasco de unguento fosse trazido até a bancada, abrindo-o e, com um dedo, retirando uma quantidade suficiente para esfregar sobre a queimadura e massagear, logo em seguida. Hermione sentiu o alívio imediato da ardência, relaxando o corpo e aceitando o cuidado, mas incapaz de olhá-lo nos olhos.

— Assim está bom. – ele disse, analisando o resultado final – Não irá incomodar pelas próximas horas, mas será preciso espalhar mais um pouco disto depois.

— Obrigada. – agradeceu, meio sem jeito, aceitando o frasco do produto e se afastando.

— Vá tomar um banho e descansar, se quiser. – ele sugeriu.

Hermione concordou e se retirou da sala, deixando-o sozinho com suas poções. Acidentes eram comuns no preparo, ele próprio era cheio de marcas de queimaduras. Não iria culpá-la, mas também não iria fingir que ela não precisava ser mais cuidadosa. Tentou iniciar essa conversa durante o jantar, naquele início de noite, mas ela estava um pouco mau-humorada e o ignorou a ponto de fazê-lo desistir de ter qualquer conversa.

Mais tarde naquela noite, Hermione estava sentada no pequeno sofá, de frente para a lareira, bastante pensativa, quando se lembrou que ainda não havia lido sua correspondência do dia. A carta era de seus amigos, obviamente, e fora escrita por Ronald.

Ele perguntava sobre como ela estava se sentindo, se estava melhorando e quando poderia voltar para casa ou se eles poderiam visitá-la. Algo ali não fazia sentido, porque Hermione não estava doente. Só então entendeu e, por um momento, ficou muito brava com a audácia de seu professor. Parecendo adivinhar, Severo acabava de entrar no quarto.

— Então foi isso que disse aos meus amigos? Que estou doente e por isso não posso voltar? – ela o questionou no mesmo instante.

Severo se assustou com a recepção calorosa, mas não se intimidou. Retirou a capa dos ombros e se aproximou da lareira, sentando-se em uma poltrona no oposto ao sofá onde ela estava.

— Não havia outra forma de justificar sua permanência na enfermaria aos tolos dos seus amigos, sem levantar suspeitas sobre seu trabalho. Ninguém pode saber.

— Mas isso não é justo. Eles devem estar preocupados.

— Que fiquem. Nós sabemos que você está bem, e é isso que importa. Como está a queimadura?

— Nem sinto mais.

— Isso é bom, mas não se engane, vai voltar a lhe incomodar no meio da noite.

— Que se dane a minha queimadura. – respondeu, irritada – Não queria deixar meus amigos preocupados.

— Você se dá conta de como tem me tratado nas últimas horas? – Severo questionou.

Para ele, a situação já estava insustentável. Trocar farpas com uma aluna não era sensato, mas tinham que aprender a serem tolerantes um com o outro.

— Desculpe, mas você não tinha o direito de agir assim, sem me consultar. – ela disse, esquecendo-se das formalidades.

— Eu fiz o que devia ser feito. Preocupe-se com você, agora. Mais cedo, você me destratou quando eu estava tentando lhe ajudar, só por causa de uma marquinha boba no braço. E agora, até palavrões estou tendo que ouvir.

— Ah, claro. A culpa é minha. – ela disse, ficando irritada – Me desculpe se a minha marquinha é mais boba que a sua.

Com isso, Hermione virou o rosto para não ter que vê-lo olhá-la com fúria, nem para que percebesse seus olhos marejando.

— Essa marca lhe incomoda? – ele perguntou.

Hermione pensou por um instante se responderia, então virou para encará-lo e disse:

— Sinto vergonha pelo significado dessa palavra.

— Então, talvez seja hora de aceitá-la como parte de você mesma, porque não vai conseguir apagá-la daí tão facilmente. Está vendo esta? – ele disse, mostrando a sua própria marca negra para ela — Não importa o que eu faça, ela não vai sair daqui jamais.

— Me faz lembrar das coisas ruins que senti quando essa palavra foi gravada em mim. Não gosto dessa sensação. – ela disse, abaixando o rosto.

— Pois veja o meu caso. Quando ganhei a minha, foi o momento mais glorioso da minha existência. Mas foi temporário. A satisfação foi só naquele momento, depois disso eu nunca mais soube o que era não sentir dor.

Hermione nunca imaginou que teria aquele tipo de conversa com seu professor, mas estava grata pela oportunidade, porque desde que descobrira suas motivações na guerra, desejou saber como ele se sentia a respeito.

— Agora, é diferente, porque ela não dói mais, e parou de me incomodar, porque eu sei que ela está aqui para lembrar a pessoa que eu fui. – ele continuou, se ajeitando na poltrona — Eu aprendi a conviver com ela, sem remorsos, porque agora sou eu quem a domino, e não mais o contrário. Faça o mesmo, para o seu próprio bem, ou vai passar a vida toda se lamentando por algo desnecessário.

Uma lágrima fina desceu pelo canto dos olhos de Hermione, indicando que as palavras dele fizeram efeito sobre ela.

— Agora, me deixe ver novamente. – ele esticou o braço para puxar o dela em sua direção, mas Hermione não reagiu – A queimadura, me deixe ver novamente.

Hermione respirou aliviada e esticou o braço na altura dele, sentindo o toque de suas mãos por sobre sua pele exposta. O toque era frio, mas preciso, firme. Podia deixar que ele a tocasse assim mais vezes, mesmo que tivesse que sofrer inúmeros acidentes de trabalho. De repente seu corpo relaxou, quando ele depositou mais daquela substância sobre a sua queimadura, passando o dedo sobre a pele sensível, irradiando reações através do contato.

— Parece que vai melhorar logo. – ele concluiu, ainda tocando-a – Me avise se voltar a lhe incomodar.

— Sim. – concordou, meio abobalhada com toda a reação causada pelo seu toque.

Severo não percebeu, porque não estava acostumado a causar reações em outras pessoas, a não ser a de aversão. Afastou-se e se recostou na poltrona, sentindo o cansaço do dia nas costas. Em um sobressalto, Hermione se levantou do sofá e correu em direção à vidraça de uma janela oposta de onde estava, surpresa com algo que estava vendo.

— Professor, veja as luzes lá fora.

Mesmo cansado e esperando que não fosse nada demais, Snape se vira para olhar através das costas da sua poltrona, e se surpreende com uma claridade impressionante, provocada pela projeção de inúmeras luzes no céu escuro da noite.

As luzes brilhantes que vinham das varinhas e atravessavam as vidraças das janelas do castelo emocionaram a Hermione. Não conteve uma lágrima sorrateira que desceu por seu rosto, observando a homenagem feita pelos alunos à professora Trewloney.

— O senhor sabia que eles fariam isso?

Severo pensou por algum momento, tentando se lembrar se havia sido informado.

— Em nenhum momento. – respondeu, por fim.

Hermione suspirou e um soluço escapou, chamando a atenção de Severo, ao seu lado.

— Você está bem? – ele perguntou.

Instintivamente, tocou em seu braço para ter certeza de que ela estava bem. Ela não respondeu, porque não conseguiu, mas deixou o seu ombro encostar no dele, pedindo apoio, só por aquele momento. Ele não recusou, sequer se moveu, nem soltou o braço dela, que por sinal era o mesmo onde se lia mudblood. Ao que tudo indicava, aquela palavra não lhe incomodava mais. Teria sido por causa dele, não sabia, mas estava satisfeito de ter ajudado.

— Deve estar achando que sou patética, aposto. – ela comentou, em um sussurro.

— Não é para tanto. – ele disse, roubando dela um riso fraco – Você está bem?

— Não sei. Me sinto um pouco... não sei.

— Diga o que está sentindo, eu posso ajudar.

Com isso, virou-se em sua direção, segurando-a pelos braços para que também ficasse de frente para ele. Passou por sua mente que ela estivesse de fato doente, e isso o preocupava bastante.

— Não é nada, eu só me lembrei de algo. – ela disse – Quer ver?

Hermione sustentou o olhar que recebia do homem, sentindo a força que ele aplicava para mantê-la de pé, embora não achasse que fosse desmaiar. Perdeu-se dentro daquela íris escura, negra como a noite em que ele matara o bruxo mais sábio que ela conhecera um dia. Como tinha sofrido aquela perda, como tinha doído a amarga traição sofrida.

Mas não eram essas as lembranças que queria lhe mostrar, e sim aquela das luzes que se acenderam nas varinhas de todos em Hogwarts, em memória de Dumbledore. Aceitando o convite sem avisar, Severo invadiu a mente dela, mas tão logo fez isso, rapidamente saiu, com uma expressão de dor.

Instintivamente, solto-a um pouco grosseiro. O seu gesto pegou-a desprevenida, e Hermione se desequilibrou, colidindo contra o batente da janela. Tão rápido quanto ele a afastou, ele a trouxe de volta, sustentando-a novamente, perto. Independente da confusão que era a mente de sua aluna naquele momento, devia ter uma explicação.

— Por que está me mostrando isso? – ele quis saber.

— Não sei... só não me culpe, por favor. – ela respondeu, enquanto lágrimas desciam sem controle por seu rosto.

— Pelo que eu a culparia?

— Por duvidar da sua lealdade, um dia.

— Você não percebe, não é mesmo? Eu não seria tolo de culpá-la quando foi por você que eu me mantive firme por muito tempo. – ele disse, notando o embaraço na expressão da aluna – Não só por você, é claro. – se justificou depressa – Eu não pude proteger quem eu queria, mas me esforcei para garantir que você chegasse até aqui, viva.

Ela não disse nada, apenas limpou as lágrimas com as costas das mãos, um pouco envergonhada pela demonstração de fraqueza. Após a guerra, soubera que as ações de Severo refletiam o seu esforço de consertar os erros cometidos no passado, mas se surpreendia por saber que ela tinha sido alvo de sua atenção.

Severo afrouxou o aperto e subiu as mãos pela extensão dos braços da moça, até chegar aos seus ombros e apertar-lhe de leve em sinal de consolo.

— Recomponha-se. – ele disse – Os nossos doentes ainda não sabem sobre a perda da professora. Será melhor para eles se não souberem, ainda.

Hermione concordou com a cabeça, mais calma. O contato de seus corpos ainda durou alguns segundos, antes dele se afastar com um pigarro constrangido. Severo tinha certeza de que se arrependeria daquela conversa, no dia seguinte. Mas ficaria com a lembrança do cheiro floral que sentira emanando dos cabelos da moça, de tão perto que estivera dela, e a sensação de segurá-la, tão frágil e quente.

“You’ve always loved the strange birds
Now I want to fly into your world
I want to be heard
My wounded wings still beating
You’ve always loved the stranger inside me
Ugly pretty”

— Birdy, Strange Birds

“Você sempre amou os pássaros estranhos
Agora, eu quero voar em seu mundo
Eu quero ser ouvida
Minhas asas feridas ainda batem
Você sempre amou o estranho dentro de mim
Bela feiura”

— Birdy, Strange Birds

Notas finais
Se você chegou até aqui, só espero que tenha gostado. Ajude esta leitora a saber se está no caminho certo, um review é muito importante! Em breve, um novo capítulo, e esperem por muitas emoções e romance. Beijo!