A epidemia
2 A escapada
Notas iniciais

Indisposta, era assim que Hermione se sentia naquela manhã, ainda deitada em sua cama, sem nenhum pingo de coragem de se levantar e socializar com seus colegas de casa. As cortinas do dossel de sua cama estavam fechadas, impedindo-a de ver a movimentação no dormitório, e de ser vista também.
Acordou tarde naquele primeiro dia de isolamento social imposto pela direção da escola, pois queria esquecer o fiasco que havia sido a sua discussão com os professores, na tarde anterior. Estava bastante chateada pelo posicionamento autoritário do seu professor de Poções, e envergonhada, também. Quando desceu para o salão comunal, após tomar um banho, escovar os dentes e vestir uma roupa leve, encontrou o mesmo apinhado de alunos eufóricos com a perspectiva de não ter aula pelos próximos dias.
“Não é o máximo, Hermione? Sem deveres de casa por tempo indeterminado.”, ouviu Rony dizer, entusiasmado.
Obviamente que para a aluna mais brilhante de Hogwarts aquilo não era nada animador. Sua mente nunca parava de adquirir conhecimento, certamente que iria encontrar uma forma de estudar por conta própria.
“A parte, ruim, no entanto, é que não vamos poder jogar Quadribol.”, ouviu Harry dizer, chateado.
Com esses comentários, ela terminou o seu desjejum já quase na hora do almoço. Depois passou o resto da tarde sentada à lareira lendo um livro de literatura bruxa que estava viciada desde o início das aulas. Ao final do dia, chegou uma coruja da Direção onde naquele pergaminho se lia, em letras muito corridas, que a atualização do dia eram dezenove alunos com sintomas confirmados e, deles, cinco ainda eram considerados casos graves e recebiam cuidados intensivos na enfermaria da escola.
No dia seguinte, seus amigos continuavam entusiasmados com o segundo dia de isolamento, e ela conseguiu concluir o livro que estava lendo. Aproveitou, também, para iniciar suas pesquisas sobre a doença, mas ficou frustrada quando percebeu que os livros disponíveis na biblioteca particular da casa eram escassos. Ao final do dia, a coruja piou fora da janela e no pergaminho a contabilização de doentes sintomáticos já eram mais de vinte, com quase dez casos graves. A notícia assustou a todos, inclusive ela.
Os dias que se seguiram traçaram o mesmo padrão. Com isso, chegaram ao décimo dia de isolamento, alguns alunos um pouco entediados e uma atmosfera geral de ansiedade e insegurança, especialmente porque completava dois dias seguidos que não chegavam correspondências atualizando sobre os casos.
“E se estiverem todos mortos lá fora e formos os únicos sobrevivente do castelo?”, disse um Ronald muito assustado, causando alarde nos colega da casa.
“Não diga bobagens, Rony.”, Hermione o repreendeu com um soco no ombro.
“Mesmo assim, a gente deveria ir lá fora ver, só para ter certeza.”, continuou.
A ideia era absurda, e só de pensar nela, assustava. Os ânimos dos alunos estavam cada vez mais agitados, Hermione temia que se revoltassem e acabassem quebrando o isolamento. Não queria nem pensar nessa hipótese, mas que era estranho a falta de notícias, sim, era muito estranho.
Foi pensando nisso que ela decidiu esperar todos dormirem e, sorrateiramente, escapar para os corredores, mesmo se arriscando. Se ninguém soubesse sobre sua escapada, não teria problemas, afinal, só pretendia ir até a Biblioteca e ter certeza de que a ideia de Rony não tinha fundamento, porque sim, ela passara o dia pensando naquela hipótese maluca.
Já passava da meia noite e os corredores, obviamente, vazios, silenciosos e escuros. Com a varinha, ela ia iluminando o caminho. Achou engraçado que, mesmo sozinha e sem muita visão, não sentia medo, exceto por aquele vírus que podia estar em qualquer lugar. Quando chegou na biblioteca, precisou usar magia para abrir as portas da sessão reservada, e pegou todos os livros que julgou úteis, desde medicina bruxa aplicada até poções avançadas, e voltou para os corredores.
Antes de ir até a enfermaria, Hermione queria passar próximo ao Salão Principal, pois sabia que o local servia como uma espécie de enfermaria de campanha. As portas imensas de carvalho estavam entreabertas, mas não precisava nem ter espiado para dentro para saber que o caos havia se instalado ali. De vez em quando, um doente tossia e depois outro, e mais outro, ou todos ao mesmo tempo. Ainda desconcertada, seguiu seu percurso até a enfermaria, não pretendia se demorar por lá, e se as portas estivessem fechadas, voltaria imediatamente para a Grifinória.
Chegando próximo, ouviu o som de algo sendo arrastado pelo corredor. Estava bem próximo, por isso apagou a luz da varinha e foi beirando as paredes até conseguir ver algo. Perto dali, o zelador Filch terminava de guardar algo dentro de um armário de vassouras, e parecia cansado pelo esforço. Viu o homem dar as costas e sumir nas sombras. De repente, ficou curiosa pelo que viu e, quando se deu conta, já estava espiando o conteúdo que fora guardado no armário.
Acendeu a luz da varinha e, pela segunda vez naquela noite, sentiu as pernas fraquejarem. Levou as mãos à boca para conter um grito, mas não adiantou muito, porque sentiu uma mão fria em seu braço arrastando-a para fora do armário. Não conseguiu tirar os olhos do embrulho, porque ele tinha o formato de um corpo comprido, encoberto por um lençol branco.
Ainda estava em choque quando as portas do armário foram brutalmente fechadas na frente do seu rosto, ao tempo que uma lágrima descia por sua bochecha, sem que tivesse qualquer controle. A única luz era a que vinha de sua varinha, que agora apontava para o chão, e ainda podia sentir o toque da mão fria em seu braço. Foi quando limpou a maçã do rosto com a ponta dos dedos e se virou, esperando ver a carranca do zelador, mas foi surpreendida.
— Como ousa bisbilhotar o que não é da sua conta, srta. Granger? – aquela voz arrastada lhe provocava arrepios, não sabia porquê.
— Não era a minha intenção, professor. – respondeu, engolindo em seco – Aquilo... aquele corpo, senhor...
— Não é da sua conta! – rebateu, autoritário, antes que ela fizesse a pergunta.
Com isso, arrastou a aluna através do corredor escuro, sentindo a resistência por parte da mesma em segui-lo.
— Eu preciso saber. – ela estancou o passo, se soltando do aperto – Quem era, naquele armário?
Snape pareceu considerar o questionamento, mas estava visivelmente embaraçado com a pergunta, olhando para todos os lados, ganhando tempo.
— E por que dentro do armário, professor? Isto é desumano, é insano.
— Isto é uma infração grave de regras, e a Srta. descumpriu várias de uma única vez. Será que não pensou, um único momento sequer, que estava colocando sua vida em risco e a de seus colegas de casa?
— Estamos há dois dias sem receber qualquer informação sobre a situação da epidemia na escola, eu precisava saber se estava tudo bem aqui fora.
— Desculpas descabidas, é o que está dando, Srta. As ordens de isolamento eram claras, e você descumpriu. Vamos!
Agarrou-a novamente pelo braço, seguindo em direção à enfermaria. Mesmo contrariada, deixou ser guiada e, uma vez lá dentro, se soltou o mais rápido que pôde.
— Eu exijo uma explicação, professor. Sou monitora-chefe e tenho o direito de saber o que está acontecendo. Os Grifinórios estão começando a duvidar da situação, e teria sido bem pior se todos eles aparecessem aqui, ao invés de mim.
— Sua imprudência coloca a vida de todos eles em risco, a partir de agora. Não sei nem o que devo fazer quanto a isso.
— Porque não começa me dizendo quem era dentro daquele armário?
— Você... – apontou para a aluna, parando um segundo para controlar seu acesso de raiva, temia perder o controle – É muito petulante. Insiste em me enfrentar e desobedecer minha autoridade como seu professor.
— Sua autoridade como professor não lhe dá o direito de omitir fatos, especialmente depois que eu vi com meus próprios olhos.
— É isso que está lhe incomodando? A sua curiosidade Grifinória? Pois bem, vou lhe dizer quem está naquele armário, e entenderá a gravidade do que estamos vivendo.
Por um segundo inteiro, Hermione sentiu seu coração parar, e logo em seguida bater acelerado, formando um bolo na garganta ante a revelação que seria feita. Na sua cabeça, só conseguiu pensar que a falta de notícias por dois dias seguidos devia ter ligação com aquela descoberta. E se o corpo fosse da professora McGonagall?
“Por favor, que não seja ela, que não seja ela.”, seu subconsciente dizia o tempo inteiro.
— Severo, com quem está falando? – uma voz surgiu atrás de Hermione.
Ao ouvi-la, e ao virar e constatar ser ela mesmo, Hermione sentiu o alívio percorrer seu corpo, esboçando um imenso sorriso.
— Srta. Granger, o que faz aqui uma hora dessas? – professora McGonagall estava surpresa.
— Ela viu tudo, Minerva. – Severo disse – O incompetente do Filch nem a notou no corredor à espreita.
— Por Merlin, Severo. Que desagradável para ela.
— Para nós, você quer dizer, Minerva. – disse, raivoso.
— Ei, eu estou aqui! – Hermione disse, em um sobressalto – Não precisam falar de mim como se eu não estivesse aqui, porque eu estou.
— Está vendo, Minerva? – Severo disse, apontando para a moça – A sua aluna brilhante e responsável, é também uma sabe-tudo respondona.
— Não sou, não. – tentou se defender.
— Claro que não, Srta. – disse Minerva, dando palmadinhas em seu ombro – Vamos conversar em outro lugar, sim?
— Não existe conversa, Minerva. A garota não deveria estar aqui, e não pode ficar. – disse o homem, categórico.
— Não se preocupe, ela voltará para a sua casa, depois de termos uma conversa.
— Não. Ela não pode voltar para a Grifinória. – Snape rebateu, mais categórico que antes – Ela já teve contato com um ambiente contaminado, não pode voltar para lá.
— Decida-se, Severo. Ela fica ou ela volta?
— Nenhum dos dois. – respondeu, aproximando-se delas.
Hermione não compreendeu o seu posicionamento, afinal, para onde mais poderia ir? O silêncio durou vários segundos, entre uma troca de olhares entre seus professores. Quando Minerva suspirou e balançou a cabeça em negação, Hermione sentiu o olhar de seu mestre sobre ela, indecifrável. Seus professores tinham uma mania irritante de se comunicar por legilimência.
— Não vamos tirá-la de Hogwarts, Severo. Desista dessa ideia. Fomos muito claros sobre o fechamento das fronteiras.
Foi a vez de Severo suspirar resignado, quebrando o contato visual com a aluna e dando-lhes as costas. Desde que Minerva se tornara diretora, Severo não tinha mais voz de persuasão como era com Dumbledore. Que falta aquele velho fazia, ele pensava às vezes.
— Professora, porque não estamos mais recebendo suas cartas com os informativos diários? – Hermione quis saber, antes da mulher lhe fazer qualquer questionamento.
— Não receberam? – pareceu ponderar, mas então compreendeu – Talvez eu tenha me esquecido. São tantos afazeres, estou tão cansada, Srta.
Minerva levou uma das mãos à face e esfregou os olhos, fechados. A guerra fora impiedosa com a saúde da professora, que agora constantemente fazia uso de poções para os nervos, o que quase sempre a deixava com uma aparência de noite mal dormida. Mas agora era evidente que estava à beira de adoecer tamanho o cansaço.
— Eu não mudei de ideia, professora. Ainda estou disposta a ajudar.
— Eu sei. E ainda acho que sua ajuda seria de grande valia.
— Então convença o professor Snape a me aceitar.
Minerva pensou por um instante, observando sua aluna favorita, em décadas. A perspectiva de ter uma ajuda extra nos afazeres era animadora para a velha bruxa. Mas não sabia como fazer para frear o senso de proteção de Severo, a única coisa que impedia de aceitar a ajuda da aluna.
Ao longe, Severo remexia em fracos de poções apenas para passar o tempo, enquanto observava as duas mulheres ao canto conversando e gesticulando muito. Vez ou outra via um olhar de Minerva em sua direção, reprovador. Estavam falando dele, tinha certeza. Em um momento seguinte, ouviu um grito abafado de Hermione, e um choro engasgado logo em seguida. Agora sabia que a notícia do falecimento da professora Trelawey havia sido dada, e agradecia por não ter sido o escolhido para isso, porque sentia que a epidemia havia lhe tornado mais frio que o habitual.
Esperou mais alguns minutos, enquanto Hermione se acalmava depois da notícia, e então se aproximou das duas, que pareciam não o ter notado. Ainda um pouco distante, viu quando Minerva usou um ombro da aluna para se apoiar e o gesto lhe chamou a atenção. No instante seguinte, Hermione a estava amparando com ambos os braços, enquanto o corpo da senhora desabava sobre os joelhos. Naquele momento, lhe passou pela cabeça que fosse tudo uma encenação, porque minutos atrás a professora Minerva estava bem e saudável.
— Professor, depressa! – Hermione chamava, vendo-o se aproximar ainda a passos regulares.
Quando se aproximou, agachou de frente para a diretora, que respirava com dificuldade, sondando sua expressão.
— O que sente, Minerva?
— Cansaço, meu caro. – respondeu, a voz mais baixa que o normal.
— Professor, vamos colocá-la em um leito e depois posso ajudar a cuidar dela. – Hermione sugeriu.
— Claro, e depois disso você fica para ajudar com os demais pacientes. – ele disse, sarcástico.
— Eu posso fazer isso, se deixar. – Hermione respondeu em mesmo tom.
Não gostou de ter sido enfrentado pela aluna, por isso fechou a cara e voltou a postura ereta.
— Francamente, Minerva, acha mesmo que vai me convencer a aceitar a aluna com um desmaio encenado?
— Encenado? – Hermione pareceu revoltada – Francamente digo eu, não sabia que lidava dessa forma com seus pacientes. Não vê que ela está ardendo em febre? Precisa de um leito, urgente.
Severo duvidou, Minerva era forte como uma pedra. Mas tinha que tirar a dúvida, para não ser injusto. Por isso, agachou novamente e levou a mão até a testa da professora para aferir sua temperatura. A aluna estava correta, a professora ardia em febre. Sentiu-se um pouco constrangido por ter duvidado, mas ignorou.
— Deixe que eu a carrego. Arrume um leito vazio. – ordenou para a aluna, sustentando o corpo da senhora pelos ombros e ajudando-a a caminhar até uma cama vazia.
Hermione arrumou tudo com magia e preparou uma compressa de água fria para aplicar. Assim que a professora se encontrou acomodada na cama, Hermione puxou uma cadeira, torceu o paninho molhado e o depositou na testa da mulher repetidas vezes. Severo permaneceu parado, observando o que ela fazia sem nem ao menos ter lhe perguntado se deveria fazê-lo. Obviamente que reprovava esse comportamento, mas não questionaria porque era o certo naquele momento.
— Minerva, diga o que sente. – Severo perguntou, inclinando-se sobre a senhora.
— É só um cansaço, meu caro. Se me deixar descansar um pouquinho, devo melhorar logo.
— Não é apenas um cansaço, Minerva. Tem tomado as suas poções diárias?
A mulher pareceu ponderar, assim como fizera quando Hermione lhe perguntou sobre as cartas que não eram mais enviadas fazia dias.
— Talvez eu tenha esquecido, são tantos afazeres.
Severo conteve um acesso de raiva, a vontade que tinha era de gritar e questionar tamanha irresponsabilidade de Minerva. Conteve sua ira, porque isso só acordaria os demais pacientes e assustaria a aluna.
— Pare o que está fazendo e venha comigo. – exigiu à Hermione.
Entendendo que era uma ordem, ela se levantou e o seguiu pelo salão em direção a uma sala reservada. Ela tinha todo um discurso na ponta da língua caso o professor fosse voltar com aquele assunto de que ela não podia ficar, mas ele estava mais interessado em procurar por frascos de poções nos armários.
— Está vendo essa poção, Srta.? – perguntou, mostrando o frasco a ela – Chama-se poção immunis, e sua dose diária no organismo bruxo pode fornecer barreiras protetivas contra o ataque de microrganismos invasores.
— E são preparadas com as hortaliças que lhe causaram aquela reação venenosa naquele dia, certo?
— Certo. – concordou, entregando-lhe um frasco – Beba. Não há garantia alguma de que vá funcionar, afinal, você já entrou em contato com o vírus. Mas beba, assim mesmo.
Hermione esticou o braço e pegou o frasco que lhe era oferecido. Abriu e ingeriu todo o líquido, de sabor amargo. Devolveu o frasco vazio e observou-o, esperando por novas instruções.
— Faça com que Minerva beba também. Depois, ofereça este antitérmico. – disse, entregando-lhe os frascos – E continue com as compressas até achar ser suficiente.
Após um maneio de cabeça, a morena se retirou levando consigo as poções e um sorriso discreto de vitória nos lábios. Tinha conseguido a confiança de seu professor, e possivelmente o direito de ficar e ajudar. Fez tudo o que lhe foi pedido, observando a professora levemente apagar em um sono tranquilo.
Depois que julgou suficiente as compressas, recolheu o material com magia, fechou as cortinas do leito e se retirou. Não viu o professor no salão, então supôs que o encontraria na mesma sala de antes. Quando chegou próximo à porta, o avistou de costas para ela, os braços esticados e as mãos espalmadas sobre o tampo de uma mesa, levemente inclinado.
Ele respirava pesado, porque seu tronco subia e descia depressa. Ficou ali, observando em silêncio o gesto, tentando adivinhar o conteúdo dos pergaminhos espalhados sobre a mesa, e o que podia tê-lo deixado naquela situação. De vez em quando, também pensava no quão largo eram seus ombros, e fortes, mesmo sobre aquele tecido pesado.
— Fez o que pedi? – questionou o homem, ainda de costas.
— S-sim. – sua resposta falhou, porque achou que ele não a tivesse visto.
— Então agora vamos decidir o que faremos com você.
Dizendo isto, arrumou a postura e se direcionou à aluna.
— O que está fazendo aí na porta? Aproxime-se.
Hermione não se lembrava como se movimentar, porque suas pernas não respondiam. Não gostava de ser pega desprevenida, deixava a impressão de que estava fazendo algo de errado. Mas não estava. Os ombros dele eram largos mesmo, e pronto. Balançou a cabeça para afastar esse pensamento e se aproximou, como pedido. Agora já não esperava mais que ele fosse aceitá-la.
— O quanto está disposta a se dedicar neste trabalho, Srta. Granger?
— O necessário para salvar vidas, senhor. – respondeu firme.
— Mesmo que isso custe a sua própria?
— Sim. – concordou, sustentando o olhar do mestre. — Seria egoísmo meu achar que minha vida tem mais valor que a de qualquer outra pessoa nesta enfermaria.
Severo refletiu as palavras da moça por algum tempo, analisando se havia tomado a decisão mais sensata. Aproximou-se dela a passos lentos, sustentando o olhar dela a todo o instante.
— Com o tempo, você verá que não. – disse o homem, com a voz um tom mais baixo que o normal, fazendo os pelos da nuca de Hermione se eriçarem – A vida de alguém pode valer mais para outra pessoa que para ela mesma. Se você falha com um, poderá estar falhando com dois.
Mesmo tentando, ela não encontrou palavras para discutir, os lábios permaneceram abertos mas nenhum som saiu por eles. Sentiu no peito o coração acelerar, as sensações afloradas, o olhar pesado do mestre afundando dentro do seu próprio. Um turbilhão de emoções a invadiu, sentiu vontade de chorar embora não houvesse motivo. Lembrou-se dos amigos que deixara dormindo enquanto escapava pelos corredores, e que não os veria novamente pelos próximos dias. Até se dar conta de que não era apenas o olhar do homem que lhe invadia, mas a mente dele também.
— Não gosto quando faz isso sem pedir permissão. – disse, brava, levando as mãos às têmporas, quebrando a ligação mental que Severo havia criado – O que espera descobrir?
— Nada. – respondeu, frustrado – Você fica com os afazeres da professora Minerva pelos próximos dias, enquanto ela se recupera. A condição é que faça tudo do jeito que eu pedir. Não vou tolerar gracinhas.
— Eu sou engraçada para você, por acaso? – rebateu, o olhar desconfiado.
Hermione estava tão chateada com a invasão do homem em sua mente que esqueceu os modos ao se referir a ele sem usar os pronomes de tratamentos usuais. Refletindo sobre isso, achou que havia soado bastante agradável tratá-lo de modo mais informal, já que agora passariam mais tempo juntos. No entanto, pela expressão rude do homem, a ideia fora péssima.
— Teremos tempo para trabalhar seus modos. Agora vá.
— Para onde? – perguntou a moça.
— Se deitar. – apontou para as camas que estavam ao canto das paredes, lado a lado – Revezaremos nossos horários de descanso, assim os doentes nunca ficam desassistidos.
Hermione observou as camas e se questionou internamente qual seria a sua a partir de agora. O que era de menos, afinal, não tinha se quer cogitado a ideia de dormirem lado a lado.
— E quanto às minhas coisas? – Hermione perguntou, voltando o olhar para o homem – Posso escrever aos meus amigos e explicar tudo?
— Durma com as roupas do corpo, essa noite. Pela manhã, peço ao zelador para buscar suas coisas em sua casa. – respondeu, indiferente – E não, não pode se corresponder com ninguém. Deixe que eu mesmo aviso.
Não ousou questionar as palavras do professor, porque sabia que seria inútil. Por isso concordou e o viu dar-lhe as costas em direção à saída.
— Professor? – chamou, vendo-o virar-se – Obrigada pela oportunidade.
Ele não respondeu nada, mas a avaliou com o olhar e voltou a se aproximar, o que a deixou um pouco desconcertada.
— Eu tentei evitar isso desde o início, não decepcione a mim nem a prof. Minerva.
— Não irei. Vejo que não confia em mim para essa tarefa, mas eu não teria me oferecido se não estivesse segura de que posso ser útil.
— Os próximos dias não serão fáceis. Em alguns momentos irá desejar desistir de tão cansada que estará.
— Não irei, professor. Eu já disse.
— Gosto da sua postura. – disse o homem, olhando-a diretamente – Transmite segurança. Isso é bom, para os doentes.
Ela não tinha esperado por aquilo, mas sorriu discretamente, levando uma mecha de seu cabelo para trás da orelha. Era a segunda vez que aquele movimento, inconsciente, afetava o homem a sua frente, que acompanhou com atenção o gesto, até voltar a lhe fitar diretamente.
— Durma, agora. – ele disse, se retirando logo em seguida.
Só então pôde respirar aliviada, longe da presença sufocante do homem. Aquele humor sombrio tinha que mudar, ou ela iria pirar nos próximos dias. Parou para observar a sala que estava e notou que era um ambiente agradável, apesar de improvisado. Havia uma pequena biblioteca particular ao canto, com escrivaninhas e muitos pergaminhos cheios de conteúdo. Ao canto, um armário de roupas e duas camas simples, com lençóis brancos.
Uma das camas estava perfeitamente feita, a outra, parcialmente. Na primeira, havia sobre ela um casaco negro pesado, que deixava claro pertencer ao professor. Aproximou-se e, dando uma rápida olhada na porta para ter certeza de que estava sozinha, pegou o casaco nos dedos e o ergueu na sua frente. Era mesmo pesado, queria ter certeza, sempre tivera essa dúvida. Mas era quentinho também, sentiu quando apertou nos dedos. E cheiroso.
— Por Merlin, isso é loucura... – disse para si mesma, largando o casaco de volta na cama.
A sua cama, portanto, era a menos arrumada. Acomodou-se, tirou os tênis, as meias e o moletom que usava. Iria dormir com as roupas que escolhera quando escapou de casa, os jeans e uma blusa básicos. Ao menos sentia-se satisfeita com a conquista. O dia seguinte prometia trabalho.
Lá fora, no salão, Severo observou quando a luz do quarto reservado se apagou, e imaginou que Hermione já havia ido se deitar. O dia não demoraria para clarear, esperava que ela dormisse rápido, assim poderia despertar o mais descansada possível. Arrumou alguns itens em uma pequena bandeja e levou-os para o leito onde McGonagall se encontrava.
Ao abrir as cortinas, viu a senhora despertando um pouco sonolenta, e sorrindo ao notá-lo.
— Vim ver como está se sentindo, Minerva.
— Muito melhor, meu caro. – respondeu, ajeitando-se na cama – Não se preocupe, pela manhã estarei bem melhor, não vou deixá-lo na mão.
— Não se preocupe você, também, Minerva. – disse, depositando um frasco entre os dedos da senhora e indicando que bebesse do mesmo – A sua aluna brilhante começa os trabalhos pela manhã, assim você poderá descansar.
— Que notícia excelente. Obrigada, Severo. – disse, segurando a mão do homem em um gesto de agradecimento, que não durou muito. – Por favor, seja gentil com ela, sim? Por mim.
Severo franziu o cenho diante do pedido da mulher, achando um tanto inapropriado.
— Sou gentil com os meus alunos, na medida certa e em igual proporção com todos. Por que eu a trataria diferente?
Minerva riu baixo, porque sabia que não era bem assim, de verdade.
— Uma vez eu estava jogando palavras cruzadas com Alvo, em sua sala. Era uma tarde de domingo, estávamos um pouco entediados. – disse, sorrindo com a lembrança – Então ele me disse que tinha uma curiosidade muito interessante a seu respeito, Severo.
— Ora, por favor, Minerva. Poupe sua energia com essas histórias.
— Ele disse que você não sabia lidar com seus próprios sentimentos, e fazia uma completa bagunça. – disse a mulher, rindo ao lembrar de como havia sido engraçado quando ouviu aquilo – E que, por isso, sobrava para a srta. Granger ter que lidar com sua falta de tato.
— E você levou a sério o que aquele velho disse, pelo que vejo.
— Na verdade, não tinha levado a sério até aquele dia na sala da direção, quando vi sua postura defensiva com a menina. Por que, Severo?
Ele não tinha planejado ter aquela conversa novamente com ninguém, maldito Dumbledore que não conseguia guardar segredos. Suspirou, um pouco cansado e um pouco chateado por ter que tocar naquele assunto. Olhou mais uma vez para Minerva, e notou que ela esperava por uma resposta, e certamente não dormiria até consegui-la. Então puxou uma cadeira e se sentou, mas não conseguiu continuar olhando-a nos olhos.
— Eu sempre me senti responsável pela vida de Harry, e protegê-lo era o preço que eu pagava pelas escolhas erradas do passado. – fez uma pausa, cruzando os dedos das mãos sobre o peito – Com o tempo, comecei a me sentir responsável pela vida da garota, também, porque, apesar dela ter feito uma escolha errada tornando-se amiga do Potter, ainda assim era por minha causa que o menino se metia em tantas confusões, e ela sempre estava envolvida.
— Ah, Severo, mas Hermione sempre soube cuidar muito bem de si mesma. Na verdade, ela sempre cuidou daqueles rapazes melhor que eles próprios. – disse, sorrindo amigável.
Severo a olhou, pela primeira vez, mas não viu razão para sorrir. Lembrava-se de todas as vezes em que Potter e Hermione quase perderam a própria vida, e em como se culpou por dias seguidos.
— E depois, Ronald sempre esteve com eles, não se sente responsável por ele, também?
— Alguma vez você viu um Weasley que não se metesse em confusão por conta própria? Já Potter e Granger, era por minha causa.
— A guerra já acabou, Severo. Você não precisava mais proteger a nenhum deles. Deixe que eles se metam em confusões e saibam sair delas sozinhos, dessa vez. Deixe que Hermione prove que é uma moça brilhante e responsável.
— Eu não estou protegendo ninguém, Minerva. – disse, levantando-se da cadeira abruptamente – Não pelos mesmos motivos de antes da guerra. Agora o motivo é outro.
A professora precisou de um tempo para refletir aquele comentário, e pareceu levemente abalada com a conclusão que chegara. O que deixou Snape um pouco receoso se havia se expressado corretamente.
— Eu estou falando do vírus, Minerva. Só para garantir que tenha entendido.
— Ah, claro que entendi. – disse, rindo fraco.
— Agora, veja se descansa.
Dizendo isso, Severo se retirou do leito, fechando a cortina e diminuindo a iluminação do local. Agora que estava tudo mais calmo, sentia o corpo pesado. Por isso, se jogou em uma poltrona e puxou um livro para se entreter durante o resto da noite. Seus pensamentos vagaram por caminhos tortuosos em sua mente, por lembranças do passado que não queria trazer à tona novamente. Ficou ali até o dia amanhecer.
“I need another story
Something to get off my chest
My life gets kind of boring
Need something that I can confess”
— OneRepublic, Secrets
“Preciso de outra história
Algo que saia do meu peito
Minha vida está entediante
Preciso de algo que eu possa confessar”
— OneRepublic, Secrets
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