As oito e vinte da manhã, Glutar carinhosamente despertou Kirka, com o pretexto de levá-la para tomar café da manhã, em uma padaria do bairro, o mesmo local onde os dois se conheceram há alguns anos atrás. Surpresa, mas empolgada, Kirka se levanta entusiasmada com o convite inesperado, parte pro banheiro para se banhar e logo em seguida se produz, mas ela se ajeita, em um estilo singelo e simples para horário. Kirka adotou um estilo de se vestir, com belos e longos vestidos com estampas relativas à natureza, como flores, folhas, pétalas e plantas. Por mais que passassem a impressão de extravagancia, os vestidos eram belos tantos nas estampas, quanto no design do modelo. Seus tecidos eram leves, alguns de cedas indianas, com belos decotes, mas não muito amplos, com mangas compridas e largas de derivados modelos e marcas. Glutar já tinha completado catorze dias em liberdade, porém não estava mais suportando a ideia de continuar sendo sustentado financeiramente por sua namorada, por esse motivo todos os dias desde então, partia com nascer do sol de casa, na busca por um emprego. Mas o preconceito de firmar contratos de emprego com ex-presidiários, ainda era algo muito atual naqueles tempos, se tornando um tortuoso obstáculo para Glutar. Londres pode ser uma grande e extensa metrópole, com repletas opções de trabalhos, mas os britânicos zelavam muito pela segurança e reputação em seus estabelecimentos, dificultando todas as oportunidades que poderiam surgir para ele. E era nesse convite inusitado, que Glutar gostaria de contar a boa notícia, para Kirka.

Juntos o casal Kirka e Glutar, já estavam sentados rente à mesa, no estreito salão de degustação da padaria, o local estava parcialmente cheio de pessoas, que ocupavam outras mesas, se alimentando naquela manhã. Enquanto os dois conversavam um pouco, surge um dos atendentes com o cardápio em mãos, oferecendo ao casal, para que possam decidir sobre a refeição da manhã. Após concluírem a decisão sobre o que vão comer, Glutar toma atitude de iniciar a conversa, a fim de dizer o grande motivo pelo qual convidou Kirka.

—Bom eu preciso dizer, que te trouxe aqui hoje para lhe contar uma novidade-Diz Glutar, enquanto observa os carros transitando na rua, através do grande vitro da lanchonete.

—Tenho que confessar que já desconfiava. Até porque você só acorda cedo, em raras ocasiões-Fala Kirka, tendo o gesto contrário ao de Glutar, olhando com um perfeito foco para o rosto dele.

—Bom eu disse a senhorita no primeiro dia, em que eu saí da prisão... Que eu ia fazer de tudo, para mudar nossas vidas, incluindo a sua, depois de todo o apoio que você me concedeu amor-Diz Glutar, prendendo as mãos de Kirka as suas próprias sob a mesa.

—Tudo o que fiz foi por nós. Foi em nome do sentimento, que tenho por você, eu sinto como se fosse meu dever ter ido até lá, lhe prestar esses cuidados. Mesmo sem contar com a ajuda da sua mãe, sempre me ofereci a ir sozinha mesmo, por amor também-Diz Kirka, durante a troca de olhares românticos dos dois e acariciando as palmas da mão de Glutar, enquanto estavam entrelaçadas sob a mesa.

—Quer saber uma opinião sincera? -Diz Glutar, que faz uma breve pausa de suspense na pergunta-Você melhorou tanto seu inglês, to orgulhoso.

—Ta me sacaneando né? Só pode! -Respondeu Kirka, que indignada retira rapidamente suas mãos da posse de Glutar, enquanto ele desaba sua cabeça sob a mesa, a fim de privar sua reação cômica.

—Desculpa minha portuguesa! -Diz Glutar, que se recompõe após suas breves sequencias de gargalhadas-Ninguém melhor do que eu, sei o quanto você é, e sempre será importante na minha vida. Por isso que te amo, mas não é por gratidão e sim por ser a pessoa que você sempre foi.

—Passei por incontáveis desafios, para tentar lhe dar com as situações, que fui exposta. Bridgit por exemplo, sempre disposta a tentar a tornar a minha convivência com ela, um verdadeiro pesadelo naquela casa. Por mais cuidadosa e zelosa que fui pelo bem-estar da casa, sua mãe sempre estava na intenção de me torturar psicologicamente. Por um momento eu pensei em largar tudo para trás, principalmente... Nós-Desabafou Kirka, de repente sendo pega por uma forte mistura melancólica-Ela sempre me rebaixando a uma desconhecida, a uma qualquer e por incontáveis momentos... Cheguei a acreditar, que eu era a intrusa.

—Sei que minha mãe, pode ser um pouco complicada as vezes... Mas você nunca será uma intrusa na minha vida! Pelo contrário, você foi a solução! -São as falas de Glutar, no intuito de consolar a frustração repentina de Kirka.

—Eu estou bem. Mas me conta logo, qual a grande novidade? -Perguntou Kirka, que aparenta já estar totalmente extasiada pelos sentimentos evasivos.

—Você está olhando, pro novo funcionário desse lugarzinho! -Debochou Glutar, enquanto era servido pelo atendente, com seu prato recheado de uma porção de waffles, com calda.

—O que? Você vai trabalhar aqui? -Questionou Kirka, confusa com a notícia revelada, sem notar que seu pedido já havia sido colocado à mesa.

—Sim meu amor! Claro que, esse obviamente não é o emprego dos sonhos... Mas eu preciso de uma renda emergencial, para te ajudar nos gastos de casa, por isso vim aqui no final de semana. Conversar com colega antigo, na tentativa de conseguir me empregar aqui, daí... Começo amanhã de manhã-Respondeu Glutar, de boca cheia durante sua mastigação, sem se importar com modos ou com o que outras pessoas a sua volta, pensariam.

—Ok então... Você vai trabalhar retirando pedidos nessa padaria?

—Sim amor. Eu já bati em diversos lugares, cidade adentro, em busca de algum que seja melhor que esse. Mas você sabe como as coisas funcionam aqui, não tem lugar e oportunidades para pessoas com meu histórico.

—Eu sei Glutar. Não estou julgando amor, só queria que você tivesse uma escolha melhor que essa. Só que infelizmente não resta outra alternativa, então é isso. Estou muito feliz por esse novo progresso, meu príncipe-Diz Kirka, que um pouco afligida, entregou um rápido beijo de consolo em Glutar.

—Não se preocupe, minha portuguesa. Eu disse que vai dar tudo certo, então confie em mim-Disse Glutar, retornando a sua sequência de mastigações.

—Glutar, será que você não poderia tentar ter um pouco de modos, meu amor?

—Tipo? -Pergunta Glutar, enquanto ainda mastiga.

—Tipo... Não falar de boca cheia! Não é nem por estarmos em público, mas porque desde que ganhou liberdade, parece ter esquecido de algumas regras de comportamento. E sinceramente, nunca vi você com essas manias.

—Está bom, desculpe prometo que vou tentar melhorar, nesse quesito. Realmente acabei adquirindo algumas manias, após minha saída, mas é tudo questão de se realocar a realidade externa-Falou Glutar, focando no olhar de Kirka, para que ela o note mastigar de boca fechada, com seu jeito espontâneo e divertido em suas expressões.

Glutar arrancou um sorriso cheio de alegria no rosto de Kirka, de um jeito que só ele sabia concluir, mas os bons momentos parecem ser sempre de curta duração, principalmente quando Bridgit Zigler, entrou pela porta de entrada da padaria, desmanchando completamente o sorriso de Kirka. Com sua veste extravagante, colorida e justa ao corpo, Bridgit também chamou a atenção de seu filho, que incomodado, mandou com que ela se ajeitasse na mesa, se juntando aos dois. Kirka estava visivelmente desconfortada, com a aparição surpresa e indesejada de sua sogra, porém ela tentou mesclar seu sentimento, enquanto degustava suas torradas acompanhadas por uma tigela de mingau de aveia. Glutar logo percebe o incomodo de Kirka, e resolve puxar assunto entre ambas, na intenção de cortar o clima tenso. Porém Bridgit exala falta de interesse em se importar, com o desconforto de sua nora, enquanto solicita ao atendente mais um prato, a fim de dividir os waffles de Glutar. infelizmente a intenção de Glutar é boa, mas não eficaz, pois sua mãe e sua namorada, se ignoraram como se uma não estivesse notado a outra ali.

—A mamãe está faminta! Quando ouvi você chamando ela, pra vir se empanturrar aqui. HUMMM! Corri pra chegar aqui a tempo! -Diz Bridgit, cobrindo seus waffles com calda de mel, em seu prato.

—A senhora ouviu nossa conversa? -Perguntou Glutar, incrédulo com a declaração de sua mãe.

—Ah meu bebê... -Bridgit interrompe a fala, durante sua degustação-Temos que concordar, que eu também mereço um café da manhã desses, né?

—Eu também concordo que, privacidade é uma coisa que deve ser bem explorada, dentro de casa-Respondeu Glutar, cruzando os braços e correndo de cima a baixo sua mãe com seus olhares.

—Claro filho! Eu concordo totalmente com isso! Agora vamos comer né? Poxa! -Disse Bridgit, ainda comendo como se estivesse acabado de sair um jejum.

—Amor só pra deixar claro, que eu já estava querendo te perguntar sobre tudo isso aqui. Acho que você ainda não tem como, arcar financeiramente, com tudo isso que pediu. Essa generosa porção de waffles, não costuma ter um preço muito acessível. Sei também que você não me traria aqui, para dar a notícia de que você foi empregado, sem grana pra bancar tudo isso. Enfim vou lançar a pergunta... De onde saiu a grana? -Questionou Kirka, limpando os lábios com guardanapos de papel.

—Pois bem meu amorzinho, preciso dizer que... -A declaração de Glutar de repente, é barrada por sua mãe.

—Acho que um momento maravilhoso como este, não precisa de justificativa. Só precisa de gratidão, muita gratidão! -Declarou Bridgit, durante a sua interrupção, na resposta de Glutar.

—Com todo respeito Bridgit... (Suspiro) Mas acho que minha pergunta foi dada para que Glutar, pudesse respondê-la-Respondeu Kirka, com uma forçada serenidade na pronúncia.

—Ah sim, perdão eu concordo plenamente querida. Até por que ninguém deve sair opinando na discussão entre marido e mul... Ai perdão de novo, vocês não estão casados ainda né? São só namorados. E eu aqui confundindo as coisas, achando que você é uma Zigler, como eu sou indelicada, aí Deus! -Disse Bridgit, forçando um falso gesto de arrependimento em suas expressões, sobre sua intromissão.

O clima fica ainda mais tenso, após a infortuna opinião exposta por Bridgit. Glutar consegue aspirar todo a radiação no ar do local, que foi liberada só pela indignação no olhar de Kirka, para sua mãe, de forma figurativa é claro. Por alguns instantes era nítido a grande vontade que Kirka, desejava em querer cuspir uma significativa, quantidade de frases inapropriadas em sua sogra. Mas só de notar seu estado congelado, enquanto Kirka encara Bridgit. Glutar mais uma vez, parte pra tentativa de aliviar a tensão no ar, entre sua namorada e sua mãe.

—Olha meninas, belas meninas! Vamos manter a calma, ok? Isso aqui era pra ser um momento de alegria, não vamos nos exaltar por favor! -Disse Glutar, com um toque de delicadeza em sua última frase pronunciada, parcialmente debochado na intenção de descontrair a tensão de Kirka.

—Mas eu não estou exaltada! Estou aqui admitindo, que eu realmente não deveria ter me intrometido, na pergunta que ela fez a você, meu filho. Mas já estou satisfeita-Disse Bridgit, levantando-se do banco, na intenção de ir em embora, após já ter devorado metade da porção dos waflles de Glutar.

—Imagino que a senhora já esteja, realmente satisfeita mesmo-Ironizou Kirka, enquanto se mantinha plena, tomando seu mingau já frio, com uma colher.

—Também acho, que a senhora deva ir mesmo mãe. A gente conversa em casa-Disse Glutar, que com um gesto de respeito, também se levantou brevemente para beijar a testa de sua mãe, antes da retirada dela.

Com a saída de Bridgit. O casal volta a sentir mais conforto, em continuar a conversa, sobre a origem do dinheiro, que Glutar obteve para pagar toda aquela refeição de alto custo, sob a situação em que ele se encontrava.

—Então... Agora sem mais interrupções, acho que não preciso voltar a refazer a pergunta, né? -Disse Kirka, ao apoiar os cotovelos sobre a mesa, cruzando os dedos das duas mãos, apoiando seu queixo acima delas, de suporte ao peso colocado de seu maxilar.

—Obvio que sim! Vou te contar tudo agora, serei o mais breve o possível-Respondeu Glutar, ao sentar-se de volta ao seu banco.

—Tenho todo o tempo, que precisar amor.

—Eu tive que arranjar uma grana, já que as coisas estavam começando a ficar complicadas. Principalmente sobre a questão do emprego né. Foi desse ponto em diante, que resolvi pedir dinheiro emprestado, para um velho amigo de corredor, que conheci lá no presídio.

—Como é? Você pediu dinheiro, para um conhecido da prisão? Glutar, essa história pode ficar pior?

—Não amor, escute... Ele ganhou liberdade um pouco antes de mim, mas durante o tempo em que convivemos juntos, soube que eu podia contar com ele e vice-versa.

—Ah sim entendi! Então quer dizer que, você pediu dinheiro emprestado, para um bandido, foi isso?

—Calma não é bem assim amor. Acontece que todo mundo ali dentro fez algo, não? Inclusive euzinho aqui.

—Acontece que eu sei, que você não é um assassino Glutar! Mesmo que você tenha tirado a vida de alguém, não quer dizer que você sentiu prazer no ato ou que tenha gostado tanto, a ponto de voltar a praticar isso, sem um pingo de remorso, meu amor! Sei que ali dentro daquele ambiente, pode haver pessoas que usaram defesa pessoal, pra sobreviver ou pra salvar a vida do próximo, sem más intenções e etc... Porém isso não elimina o fato, de que mais do que a maioria lá dentro, são excepcionalmente e altamente perigosos, por vontade própria! -Disse Kirka, com seu olhar fixo em Glutar.

—Não precisa ficar aflita sobre isso, meu amor. Sei que você está tentando me proteger, só que eu sei o terreno que estou pisando, confia em mim, por favor. Se houver algum problema, eu resolvo, nunca vou envolver você nas minhas ações. Não quero que você se meta, por favor-Disse Glutar, ao acariciar os fios cabelo da curta franja de Kirka.

—Só posso prometer... Que vou tentar não me intrometer.

Os dois finalizam o diálogo, com um delicado beijo, se inclinando sobre a mesa, para facilitar o alcance entre eles.

No final da noite com a boa notícia dada, Glutar se prepara para tentar obter um preciso descanso, estando totalmente disposto a iniciar seu primeiro dia de trabalho na manhã seguinte. Kirka já estava deitada sobre as cobertas, na fria noite da capital de Londres, aguardando com que Glutar junte-se ao lado dela na cama, porém ele resolve optar por ter uma breve conversa, com sua mãe. Antes de sair do quarto, Glutar deixa Kirka ciente de sua decisão precipitada, resolvendo ir até a sala onde sua mãe se encontrava esparramada sobre o sofá. Glutar se depara com um cigarro acesso, entre os dedos de sua mãe. Bridgit fumava seu cigarro, deitada ocupando todo o espaço do sofá, soltando gargalhadas de um programa de TV, que estava sendo transmitido na hora. Despreocupada como se nada importasse, Bridgit cobria todo o ar respirável do ambiente, com a fumaça incomoda de seu cigarro.

—Mãe, vim dar boa noite!! -Diz Glutar, ampliando o tom da voz, devido à altura em que a televisão estava.

—Ah meu filho! (Tosse repetida) Boa noite pra você também e boa sorte amanhã! -Respondeu Bridgit, que aparentemente estava mais interessada em assistir o programa, do que prestar alguns segundos de atenção, em seu filho.

—Eu espero que essa situação, esse clima e esses comportamentos mudem, MÃE! -Disse Glutar, que novamente eleva o tom da voz, na última palavra dita, causando um rápido susto em Bridgit.

—O que isso? Nossa... Quantas vezes eu vou ter que repetir, que o problema nessa casa, não sou eu meu filho? -Disse Bridgit alarmada, que se colocou sentada sobre o sofá, encarando seu filho.

—Você entendeu o que eu quis dizer, mãe. Eu também desejo não ter que dar de cara essa cena novamente, a senhora poderia ao menos preservar melhor, seu ambiente né? Começando talvez por esse odor de cigarro, que pra minha sorte não invadiu meu quarto, graças a porta fechada!

—Era só isso, que tinha me pra me dizer?

—Por enquanto sim mãe! -Disse Glutar, com um forte semblante de decepção colado em seu rosto, enquanto se vira de costas pra ela, indo em direção ao seu quarto.

—Então boa noite de novo, e durma bem! -Disse Bridgit, que retomou sua posição no sofá, voltando também a terminar de tragar seu cigarro, sem preocupações.

São sete e meia da manhã, Glutar desperta ansiosamente bem-disposto, com o alto som do despertador programado no celular de Kirka. Por alguns instantes Kirka, ainda um pouco sonolenta, desliga o som do alarme despertador, e volta a dormir como se nada houvesse interrompido seu descanso. Glutar com um sorriso bobo e cômico, colado na sua expressão, se levanta da cama, cantando " We will rock you '' Saindo do quarto, ele caminha até o banheiro único da casa, durante sua cantoria ele para no meio do caminho, complementa sua melodia, com uma breve dancinha cômica, mexendo o quadril e volta na sua caminhada até o banheiro. Glutar para de frente ao espelho do banheiro, acima do lavabo, começando a encarar seu próprio reflexo.

—Bom dia gato! Hoje é o grande dia... Bora lá!

Kate Higgins já estava ciente sobre o nome da pessoa misteriosa, que recebeu seu precioso presente de infância, que estava na posse de Linda, na tarde em que seus pais foram assassinados. Desde desse dia em diante, Kate já estava a muito tempo atrás de informações sobre o paradeiro desse colar, que foi presenteado a ela por sua Mãe Natasha Higgins. Mesmo que não tenham convivido um longo tempo juntas, na forçada temporada por Argos, Kate e Rosalyn já se conheciam, e por esse fato tornou tudo mais fácil para que ela possa recuperar seu colar. O nome e fisiologia descritas por Linda, batiam firmemente com a aparência de Rosalyn Barkhan, porém Kate ainda não tinha um contato direto com Rose, principalmente pelo motivo de não saber a localização exata dela. Kate tinha total ciência, que Rosalyn se escondia por motivos pessoais, pelos quais ela ainda não tinha conhecimento, mas Kate tinha uma suspeita noção do porquê dela se manter escondida. Intensamente atordoada com a ideia da possibilidade de encontrar Rosalyn e recuperar o presente de sua mãe, Kate usava seu eficaz método investigativo, desenvolvido e aprimorado durante seus anos de treinamento de Argos, na intenção de conseguir pelo menos uma forma de contatá-la, para enfim recuperá-lo de vez. Sua mãe de coração e sua antiga babá Linda Kungan, reparava no esforço intensivo de Kate, em conseguir contato com Rose, mas infelizmente Linda não via Rosalyn há muitos anos desde o dia de seu atentado, quando ela foi arremessada pelo barranco no meio da estrada. Foi na fria manhã de sexta-feira em Nova York, quando Kate chegou em casa transpirando felicidade, mas do seu jeito recluso de não deixar seus sentimentos muitos expostos. O motivo realmente era bom, pois Kate havia conseguido uma forma de entrar em contato com Rosalyn, ela simplesmente descobriu os serviços que Rosalyn exercia para se manter financeiramente, sendo assim tornando tudo mais fácil, para que ela finalmente possa obter ou pelo menos ganhar uma notícia sobre seu colar. Linda não pode deixar de notar o alvoroço de Kate, após ter passado três dias na busca pelo tão importante objeto, sendo que somente Rosalyn poderia esclarecer todas as informações que ela necessitava saber. Linda ainda era totalmente dependente de uma cadeira rodas para se locomover, quando Kate chegou alvoraçada na busca por seu telefone celular, Linda quase que não o conseguiu acompanhá-la, na tentativa de tentar entender por qual motivo ela estava tão aflita em encontrar seu aparelho telefônico. Foi quando Kate finalmente encontrou seu telefone, que ela se sentou rapidamente no sofá da sala, que permitiu que Linda notasse um pequeno panfleto que Kate, carregava em sua mão no momento de sua chegada, panfleto esse que estava estampando não só com imagens chamativas, mas também com uma sequência de números de um telefone.

—Kate filha, está tudo bem? O que é isso? -Perguntou Linda, preocupada em tentar entender o porquê de todo o repentino alvoroço dela.

—Digamos que talvez eu possa ter encontrado, o que procurei por tantos anos-Respondeu Kate, enquanto digitava os números escritos no panfleto.

—Não posso acreditar que conseguiu encontrá-la! Pequena isso é maravilhoso, estou tão contente! -Comemorou Linda, estendendo as mãos para o alto, como uma forma de agradecimento divino, por sua devoção em Deus.

—Sim isso realmente é muito glorioso pra mim, mas preciso que faça silencia por alguns minutos. Somente para que eu consiga me comunicar melhor com ela. -Disse Kate, com seu foco na espera de uma resposta, enquanto o telefone solicitava a chamada pela comunicação da pessoa em que ela procurou.

—Ah sim claro pequena. Não vou atrapalhar, farei silêncio-Disse Linda, que aguardava ansiosamente junto de Kate, por uma resposta pela chamada solicitada.

—Oi! Ai Deus obrigada, Rose sou eu Kate... Kate Higgins! -Disse Kate, que estava profundamente extasiada com o retorno de sua ligação.

—Quem? Kate Higgins? Ah sim, mas é claro, você é a garota que me ajudou a executar aquele verme chamado Caj! Eu me lembro de você sim-Respondeu Rosalyn, com a voz ecoada transmitida pela chamada telefônica no celular de Kate.

—Pois é eu sabia que iria se lembrar de mim, e tenho que confessar que estou muito feliz por isso! -Disse Kate, aliviada e agradecida.

—E como você está? Tudo bem? Já tem muito tempo desde aquele glorioso dia, em que nunca vou me arrepender de vivido! Nem vou perguntar como conseguiu descobrir, o contato do meu serviço de detetive, mas devo imaginar seus métodos.

—Pois é não foi uma tarefa fácil, mas fomos treinadas pra encontrar o inalcançável. Também não posso dizer que estou ótima, isso seria uma grande mentira da minha parte... Mas posso afirmar que estou lhe dando com a vida, de uma maneira tranquila e paciente. Durante muito tempo, tive que aprender a conviver com o fato de que sou órfã desde os onze anos, sou estranha emocionalmente, nunca ganhei uma festa de aniversário ou um bolo e era uma vigilante assassina de aluguel. Mas eu estou bem sim-Respondeu Kate, que durante sua fala, desmanchava seu sentimento encubado de alegria.

—Sou a melhor pessoa pra entender cem por cento, de todos os seus sentimentos Kate. Mas acabei ganhando um presente, que mudou muitas situações, que poderiam dilacerar meu psicológico, mas não significa que eu não tenha conhecimento de tudo isso que está sentindo. Um presente não, na verdade... Foram dois-Disse Rosalyn, que demonstrava estar emocionada, pelo tom da voz em suas palavras ditas pelo telefone.

—Dois presentes? -Questionou Kate.

—Sim. Confio em você, então acho que devo te contar que hoje, tenho duas filhas. Uma de dez, e a outra de oito anos. Foi o principal motivo, que me ajudou a reprimir todas as possibilidades de desabar e me alto destruir sobre meus sentimentos, mas enfim é isso... As duas são tudo o que eu precisava pra me manter equilibrada e tentar buscar redenção psicológica-Respondeu Rosalyn.

—Isso é maravilhoso. Sinceramente acho que você foi muito presenteada, mas eu tenho uma dúvida? Fez de tudo pra escapar, por que sabia que estava gravida?

—Essa realmente foi minha principal motivação na época... Mas perder o vínculo com aquele lugar, me livrar do Caj e viver minha vida sem uma coleira. Ajudou muito a acender a chama da liberdade em mim (Risos) -Debochou Rosalyn, na sua frase final.

—Imaginei... Mas enfim Rose, preciso muito que me tire uma dúvida. Aposto que eu era última pessoa, de quem você esperava receber uma ligação agora.

—Tenho que confessar, que essa é uma situação bem inusitada, nesse momento pra mim. Mas posso imaginar de que deve ser algo importante.

—Preciso dizer que desconfio que esteja com algo que me pertence. Isso pode soar de uma maneira intimidadora, mas estou perguntando com a melhor intenção, porque preciso muito que me ajude a recuperá-lo-Disse Kate, que fecha os olhos, e se encontra com uma profunda respiração de ansiedade.

—Eu entendo, não precisa se justificar pode perguntar. Prometo que vou tentar ajudar no que estiver ao meu alcance-Respondeu Rosalyn.

—Não te contei minha história de vida, na época em que nos conhecemos, porque as vezes evito sair comentando isso para as pessoas, justamente pra não parecer que estou bancando a coitadinha ou algo do tipo... Mas quando eu tinha onze anos de idade, meus pais foram executados por ordens diretas do Caj... Nesse mesmo dia em questão, minha mãe estava desconfiada de que sofreria um ataque em casa e me entregou uma herança de família, que era uma correntinha, mais detalhadamente um colar de ouro. Que carrega um anjinho dourado, vestido com um longo pijama, com as mãos em posição de oração e ele tinha apenas a sua asa esquerda-Disse Kate, enquanto trocou um olhar ressentido com Linda, que estava quieta em sua cadeira de rodas, ouvindo as tristes palavras ditas por sua filha de coração.

—Meu Deus! Você é... -São as palavras de Rosalyn, que são ditas de uma forma preocupante, como se ela estivesse intrigada com o que ouviu.

—Recebi uma descrição de um perfil que se encaixava perfeitamente com o seu, na época em que te conheci em Argos. O mesmo nome também, foi daí que pensei em te contatar imediatamente. A pessoa que me contou, foi a mesma pessoa que estava comigo no dia do atentado contra meus pais, ela era minha babá. No momento em que fui sequestrada, ela conseguiu pegar esse colar, que me foi presenteado no dia. Ela me passou a informação de que nesse mesmo dia, havia sido socorrida por uma mulher, sendo nesse exato momento de socorro entregou esse colar para ela, quando a mulher a deixou no hospital mais próximo, para ser socorrida por um médico. Rose isso aconteceu no Sul do Brasil, foi pra onde minha mãe se refugiou na tentativa de tentar viver uma vida tranquila, principalmente de evitar com que Caj, tomasse posse indevida de mim na época. A minha mãe era um Corvo! Minha mãe era uma desertora Rose! -São as palavras arrastadas por Kate, na tentativa de manter o controle sobre suas emoções.

—Kate por favor, preciso que confirme uma dúvida... O nome da sua mãe, era Natasha? -perguntou Rosalyn.

—Sim, minha mãe se chamava Natasha Higgins. Não me diga que se conheciam?

—Sua mãe cuidou de mim, até os meus nove anos de idade. A Natasha teve um grande significado em minha vida Kate. Ela só deveria ter sido minha treinadora, mas ela foi muito mais ale que isso... Ela foi como uma mãe pra mim-São as emocionantes declarações de Rosalyn.

Por alguns instantes as lágrimas escorriam dos olhos de Kate, até chegarem à ponta de seu queixo, Linda que presenciava seu choro, observava ela incompreendida, pois Kate chorava como se as lagrimas caíssem involuntariamente dos olhos dela. Kate não formava expressão de tristeza, porque ela tentava não se permitir demonstrar suas emoções nem nas suas expressões.

—Tenho certeza de que ela deve ter sido ótima... Porque ela também teve um grande significado em minha vida. (Fungada) -Disse Kate, ao interromper escorrimento de suas lágrimas, secando-as com a manga de sua blusa-Eu lembro quando comentou, que você chegou em Argos com três anos de idade. Ainda mais nova que eu era, quando cheguei.

—Infelizmente sim, mas sua mãe sempre me proporcionou situações maravilhosas. Agradeço muito por ela ter entrado na minha infância, pois os outros treinadores na época, tratavam as crianças da minha idade, como cães. Só que tudo isso acabou quando ela fugiu, tudo voltou ao que era pra ser.

—Não gosto de ficar recordando esse episódio da nossa vida... -Disse Kate, que tapou os olhos com a sua palma, bloqueando a possibilidade de mais lágrimas caírem.

—Tem razão não vamos falar sobre isso agora. Tenho uma novidade pra você... Ainda estou com seu colar-Disse Rosalyn, tentando acalmá-la quando percebeu a angústia de Kate, pelo telefone.

—Ai meu Deus! Rose não sabe o quanto isso me deixa feliz, não faz ideia do quanto isso é importante pra mim! Tem muito tempo que espero a oportunidade, de ao menos saber que esse colar ainda existe-São as palavras de Kate, ao sentir-se grata e aliviada com a notícia.

—Eu sei sim, posso imaginar a importância disso pra você. Gostaria de entregá-lo de volta pra você, mas eu não estou mais morando nos EUA. Vivo em Toronto no Canadá agora, com minhas filhas.

—Sim eu sei, quando imprimi seu folheto no site busca... Notei que não prestava serviços fora do Canadá. Mas eu queria te fazer mais uma pergunta, antes de solucionarmos esse problema. Porque você estava no Brasil, e na mesma região, quando meus pais foram assassinados?

—Vou tentar esclarecer tudo isso melhor pra você, em uma outra conversa quando nos falarmos de novo... Mas agora preciso muito desligar a ligação, pois estou aguardando a ligação de um cliente importante. Mas antes preciso que me passe todas as informações de sua localidade, vou enviar seu colar por correspondência-Disse Rosalyn, que pareceu se esquivar da pergunta de Kate.

—Ok! Eu estou morando no Harlem, um bairro simples aqui de Nova York...

Kate é muito inteligente para não ter notado a hesitação de Rose, em justificar o por que da surpresa aparição dela, no dia em que Linda sucumbia por ajuda. Mas ela resolve concordar com o pedido de Rosalyn, em deixar o assunto para uma próxima conversa, enquanto ela fornece todas as informações necessárias para facilitar o envio do colar para ela.

—Perfeito! Prometo a você que vou enviar esse colar o mais depressa o possível, certeza de que ele vai chegar mais rápido do que imagina, mas infelizmente preciso desligar agora Kate. Não sabe o quanto fiquei feliz com a notícia de saber que você é a filha da Natasha, meu contentamento é incomensurável, pois se tem uma mulher que merecia ser presenteada com uma criança, principalmente com alguém como você... Era a Natasha Higgins! -São as palavras de Rose, que volta a deixar Kate intensamente emocionada-Mas agora preciso realmente desligar, até a próxima e fique à vontade para salvar meu contato... Se cuida garota!

—Muito obrigada mesmo por tudo Rose, sou imensamente grata por saber que você guardou esse colar depois de todos esses anos, mas enfim... Se cuida também viu, até mais! -São as frases de despedida de Kate, que ao desligar o telefone, parte rapidamente para dar um abraço em Linda.

Durante toda a conversa, Linda estava ao lado de Kate, quieta e atenciosa como se ela não estivesse lá, mas compartilhou de todas as emoções de sua filha de coração. As duas se abraçavam por alguns minutos, enquanto Kate dizia o quanto estava contente por saber que seu colar poderia voltar para suas mãos, depois de tantos anos sem ter expectativas de encontrá-lo novamente.

—Graças a deus a senhora o pegou e entregou nas mãos certas. Só queria que você não tivesse que estar assim hoje-Disse Kate, com melancolia no tom da voz.

—Isso não importa, o que aconteceu comigo já foi... Se foi pra ser assim que seja, mas pelo menos hoje estou aqui, recebendo os cuidados da pessoa mais importante pra mim-Disse Linda, que já estava chorando de felicidade, ao saber que Kate havia conseguido encontrar seu colar novamente.

—Sempre irei cuidar de você, a senhora se sacrificou por mim. Essa foi a única forma que encontrei de te agradecer por tudo que enfrentou, pra me proteger-Disse Kate, que desfez o abraço secando as lágrimas de Linda.

—E agora? -Perguntou Linda, que já estava se recuperando de seu estado melancólico.

—Agora é esperar, ser paciente e voltar a tocar vida. Pois essa já foi uma grande oportunidade, poder obter de volta o presente mais valioso da minha vida!

Depois da ligação inesperada que Rosalyn Barkhan recebeu, naquela mesma manhã de sexta. Muitos fleches de memórias e possibilidades percorriam nos pensamentos dela, e durante uns minutos permaneceu pensativa, sentada no sofá da sala, ainda com o aparelho de telefone fixo em sua mão. Rosalyn não imagina que o motivo pelo qual Natasha Higgins, havia fugido na época em que ela mesma ainda era uma criança, poderia ser a mesma razão pela qual ela também decidiu se tornar uma desertora, pois Rose nunca teve conhecimento sobre a gestação da mulher que serviu para ela não só como uma mentora, mas também como uma figura materna. Essas questões ficaram cravadas em seu consciente durante horas, no mesmo dia em que Katelyn Hggins havia contatado ela, para o esclarecimento sobre a informação do colar, que durante anos permaneceu na posse de Rosalyn. Depois de ter recebido o colar espontaneamente, da mulher que ela resgatou, Rosalyn manteve essa joia escondida sob sua proteção, acreditando que havia recebido uma missão importante de encontrar a dona do objeto dourado. Anos depois, finalmente ela sentiu que esse dia tinha chegado, mas Rosalyn sempre foi o tipo de mulher desconfiada e alerta com situações surpresas e inusitadas, obviamente ela também estava em dúvida sobre a repentina notícia de que Kate era a filha de sua treinadora, pois até algumas horas antes da ligação, nem se quer passava por cabeça a possibilidade de Natasha estar grávida. Rosalyn disparou para seu quarto, no intuito de pegar o colar, que ficou guardado em cofre de seu guarda-roupa, durante muito tempo sem ser retirado de lá. Ao pegá-lo, Rosalyn ficava analisando o objeto, ainda com um furacão de possibilidades pareando sobre sua mente, até ela tomar a decisão de obter as respostas concretas que ela necessitava, antes de entregar o colar, de volta para as mãos de Kate. Rosalyn rapidamente correu de volta pra sala, apanhando o mesmo telefone fixo, pelo qual conversou com a mulher que dizia ser filha de Natasha Higgins, na intenção de fazer uma breve ligação.

—Alo! Oi! Boa tarde, aqui quem fala é uma velha conhecida sua... Eu salvei o número de seu estabelecimento, pois eu sabia que um dia eu iria precisar de uma reserva. E preciso de uma reserva urgente pra hoje à noite-Disse Rosalyn, com uma delicada e suave, na intenção de se ser educada disfarçadamente.

—Boa Tarde! Infelizmente não tenho como reconhecer sua voz por telefone, mas se a madame deseja uma reserva, preciso que forneça seus dados para darmos continuidade ao serviço desejado-São as palavras da voz desconhecida, emitida pelo telefone que estava com Rosalyn.

Rosalyn se aproveitou da situação em que não havia sido reconhecida, decidindo então mentir sobre algumas informações que ela forneceu, principalmente sobre seu nome verdadeiro, criando um clima de suspense, para deixar a pessoa com quem ela conversava, ainda mais ansiosa para saber do que se tratava a sua veracidade em conseguir uma reserva imediata. Rosalyn concluiu sua ligação, com sua reserva confirmada para as dezenove horas da noite, no restaurante de um contato misterioso que ela manteve guardado, para futuras ocasiões de esclarecimento e respostas de suas dúvidas sobre o passado.

As horas se passaram, Corina e Lire chegaram da escola cheias de energia para compartilhar, mas Rosalyn não estava muito disposta mentalmente em dividir esse alto astral das pequenas. Mas isso não a impediu de apertar as duas de uma vez, envolvendo-as com seus braços, como um abraço coletivo, um gesto de amor puro e sincero. Muitos beijos e cocegas foram distribuídos para as pequenas por Rosalyn, após o forte abraço que ela havia dado nas duas simultaneamente, mas logo depois do momento de forte afeto, risadas e muito amor compartilhado, Rosalyn ordenou que as duas fossem para cozinha almoçar, mas ela pediu para que sua filha primogênita Corina, servisse a irmã mais nova, por motivo de sua falta de disposição naquele momento. Obviamente Corina atendeu o pedido feito por sua mãe, acompanhando Lire até a cozinha para auxiliar a irmã na refeição. Mas algum tempo depois que Corina serviu a irmã com o prato bem recheado, ela decidiu voltar para sala, tentar entender o que se passava na cabeça de sua mãe, para deixá-la visivelmente incomodada, porém Corina já tinha uma certa suspeita do qual poderia ser o motivo.

—Oi mãe. A senhora está bem? -Perguntou Corina, com toda sua delicadeza e preocupação, ao sentar-se com suas pernas estendidas, ao lado de sua mãe no tapete com as costas pro sofá.

—Oh meu amor! Não se preocupe comigo, se tem uma coisa que eu nunca quero distribuir pra vocês, são os meus problemas-Respondeu Rosalyn, ao deitar sua cabeça sobre as pernas de Corina estendidas ao tapete.

—Foi por causa da tia Evelyn? Se está assim por causa da visita dela de ontem, peço desculpas mãe-Disse Corina, enquanto massageava o ombro de sua mãe.

—Claro que não filha... Vocês têm o direito de conhecer a tia de vocês, não posso privá-las disso, mas tenho que confessar que esse é um dos pensamentos que me atormentam por enquanto.

—Eu desconfiei disso, mas pelo que eu entendi não só isso né?

—Pois é (suspiro). Tem outras questões também, mas eu vou resolver tudo isso meu amor, não se preocupe comigo-Respondeu Rosalyn, ao levantar-se tomando de volta a posição que ela estava.

—Eu sei que o que mais te incomoda é a visita surpresa da tia Evelyn. A senhora prometeu que iria me contar do problema entre vocês duas-Disse Corina, expressando total certeza em seu rosto.

—Não é um assunto adequado, para ser abordado com você nesse momento filha. Você ainda é uma criança, tem certas revelações que você não tem necessidade de saber por enquanto.

—Mãe eu sou muito mais inteligente do que a senhora pensa. Sei perfeitamente entender as coisas, da maneira que tem que ser... Sei também que esse papo de deixar a gente conviver com a nossa tia, é um grande blefe.

—Uau! Falou bonito hein. Sei também que tenho muito orgulho de você ser tão madura, na sua idade eu só tinha med... -Disse Rosalyn, que decidiu interromper sua fala espontânea.

—Medo? Você ia dizer medo né mãe? -Perguntou Corina,

—Acho que já estamos ultrapassando muitos limites aqui... Eu encarei tudo como deveria ser superado. E não estou blefando, mas por enquanto só não acho saudável, tentar adaptar a presença dela na vida de vocês duas.

—Por que não mãe? O que foi que ela fez?

—Nada ela não fez nada, Corina filha você ainda não almoçou, vá agora!

—Se a senhora conseguiu encarar esse seu suposto medo, quando tinha minha idade... Por que acha que não vou conseguir enfrentar a verdade agora? -Perguntou Corina, por um instante deixando sua mãe Rosalyn, em estado petrificado com a perplexidade de sua pergunta indagada.

—Ok! Você venceu com seu argumento (Muxoxo). Vou tentar resumir os problemas entre sua tia e eu-Respondeu Rosalyn, convencida quando se recuperou da pancada causada pelo diálogo de sua filha.

—Maravilha! Sabia que ia funcionar eu sou demais... Agora sou só ouvidos-Comemorou Corina, que cruzou as pernas e ficou de frente para Rosalyn, ainda sentada sobre o tapete.

—Acho que me lembro de ter comentado com você, sobre o fato de seus avós terem falecido, na época em que eu tinha apenas dois anos de idade... Correto? -Perguntou Rosalyn, com gestos cômicos para tentar descontrair a tensão da conversa.

—Sim mãe (Risos). Eu me lembro sim-Respondeu Corina, contente com as gracinhas de sua mãe.

—Morreram em um acidente de carro. O veículo despencou de uma ponte, após ter sofrido uma forte investida de outro carro, que estava em alta velocidade em rota com eles. Havia um rio profundo debaixo da ponte alta, o carro afundou com as portas travadas, afogando seus avós até a morte-Explicou Rosalyn, na tentativa de descobrir se Corina já se sentia amedrontada, sobre o peso emocional da história.

—Sinto muito mãe-Disse Corina, que estava cada vez mais focada em compreender a história, sem nem se quer aparentar estar incomodada em ouvir o restante.

—Não consigo idealizar a imagem deles em minha cabeça... Pelo simples fato de eu ter convivido muito pouco tempo com eles, por isso não consigo imaginar como eram. Desse dia em diante, tive que ficar sobre a tutela de sua tia Evelyn, porque infelizmente meus avós paternos eram os únicos além dela, que ainda estavam em condições de me criar, porém residiam em outro país, minha guarda acabou sob a posse de Evelyn. Ela tinha dezenove ano de idade, sob a visão das autoridades legais, ela estava em perfeita condições de me criar na época.

—Você ficou com a tia Evelyn?

—Sim, uma criança de dois anos não tinha muito escolha, para decidir com quem poderia ficar. E por uma desventura da vida, sua tia cuidou de mim durante uns meses, até ela tomar decisão que acabou com toda minha oportunidade de crescer como uma criança saudável, sendo criada pelos avós... -Disse Rosalyn, que fez uma breve pausa em suas palavras, e na sua vontade de ceder a sua profunda angústia.

—Mãe tá tudo bem, se não quiser mais falar sobre isso por agora, eu vou entender-Disse Corina, na intenção de acalentar as angústias de sua mãe, ao apertar levemente a mão dela.

—Eu estou bem meu amor... Já que você é tão forte assim, vou prosseguir até o fim. Uns meses depois após eu ter completado três anos, Evelyn recebeu uma proposta de uma valiosa quantia em dinheiro, para ficar comigo. Ela havia começado a se envolver com produtos que são muito prejudiciais à saúde...

—Drogas? -Preguntou Corina, deixando Rosalyn novamente em estado de perplexidade.

—Meu Deus! Como... Quantos anos você tem afinal? -Brincou Rosalyn, dando um leve puxão de orelha em Corina.

—Eu disse que não sou tão fraquinha assim. (Risos)

—Ok quarentona! Vou continuar então. Sua tia já não se encontrava mais, na situação estável em que ela estava, quando nossos pais morreram. Foi desse ponto em diante, que ela alegou não ter outra alternativa, a não ser me vender para uma organização secreta de grande porte na época. Se livrando de todos os problemas, que ela poderia ter comigo futuramente-Disse Rosalyn, que se calou por uns instantes.

—Não acredito nisso! Mãe! A senhora foi vendida, pela tia Evelyn? Isso é horrível, totalmente horrível! -Disse Corina, que ficou perplexa com as declarações de sua mãe, mas não de uma forma extremamente traumatizante.

—Eu sabia que não deveria ser tão direta nesse assunto, com a senhorita! Vá imediatamente almoçar, não quero mais ultrapassar o limite que já atingi até aqui! -Disse Rosalyn, inconformada com as revelações que disse para sua filha.

—Mãe a senhora precisa entender, que sei perfeitamente lhe dar com situações como essa! Não sou burra, uma hora ou outra eu iria acabar descobrindo essa informação, de outra forma! Eu sou muito boa observadora, notei que tinha algo muito mais forte na relação entre vocês duas!

—Eu sei disso meu amor... É que não queria ter de compartilhar uma história tão perturbadora como essa, é difícil pra mim até hoje compreender o porquê de tudo isso ter acontecido. Acho que essa história foi muito mais pesada pra mim, do que pra você né? -Desabafou Rosalyn, ainda em um delicado estado emocional.

—Ainda não consigo entender o porquê ela fez isso... Mas isso não significa que eu não possa ser perfeitamente equilibrada, para ouvir esse tipo de história-Disse Corina, aplicando um singelo beijo de carinho, na beira da testa de sua mãe.

—É exatamente por isso que eu te amo tanto, não teria pessoa melhor para com que eu pudesse fazer esse profundo e sincero desabafo. Mas não comente nada com sua irmã, está bem?

—Pode deixar mãe, mas foi bom saber de tudo isso. Assim posso compreender melhor, o porquê do seu incomodo com a tia Evelyn.

—Ótimo agora já soube de tudo o que precisava saber, vá imediatamente almoçar! -Ordenou Rosalyn, que logo em seguida repetiu o gesto de abraço que havia dado antes nas duas, porém dessa vez em Corina, mas com o mesmo sentimento de sempre.

Corina rapidamente foi se servir de sua refeição, nitidamente satisfeita com as revelações e desabafos de sua mãe. Durante o diálogo entre as duas, Rosalyn se manteve blindada de suas emoções, pois durante anos acabou desenvolvendo essa técnica quando fosse preciso. Mas seu foco agora era descobrir se o motivo que alavancou Natasha a fugir, era sua gestação desconhecida para Rosalyn.

As horas se passaram, o horário agendado de sua reserva estava cada vez mais próximo, e Rosalyn já estava pronta visualmente para a breve ocasião. Estava vestida com roupas simples, porém de uma forma tradicional e casual. Usava uma calça jeans escura, calçava botas pequenas de couro sem salto, uma curta jaqueta jeans azul escura e não vestia joias ou algum objeto que chamasse atenção, na sua ida ao restaurante. Corina e Lire estavam relaxadas sobre as almofadas do sofá da sala, entretidas com um programa que estava sendo exibido na televisão. Rosalyn aproveitou o momento pra ditar as regras de um jeito cauteloso, para não desviar a o foco de Lire no programa, e por ser a irmã mais velha e bem responsável, enquanto a babá solicitada por ela, que ainda estava a caminho. Principalmente sobre a regra mais importante, de que a porta só deveria ser aberta na chegada da babá.

Rosalyn já se preparava para sua partida ao local, faltando apenas quarenta minutos para as dezenove horas e obviamente sempre prevenida, com sua pistola de calibre cinquenta, que ela escondeu colado sob seu calcanhar, com auxílio do suporte da beira de sua bota, e cobrindo a arma envolvendo por cima a barra de sua calça.

—Vamos lá Barkhan! Vamos! -Disse Rosalyn, para si própria com estímulo de motivação.

Itam Mehmet sentiu-se na obrigação de assumir as responsabilidades financeiras da família, após os acontecimentos que derrubaram os negócios lucrativos de seu pai Amnut, por remorso de sentir total culpa pelo resultado drástico. Amnut ainda estava em pleno estado de uma leve depressão psicológica, sem sair de casa, mantendo-se constantemente deitado em sua cama, sem querer tentar se ressocializar com amigos antigos ou possíveis colegas futuros, deixando seu filho Itam cada vez mais preocupado e em estado de culpa, com a situação dele. Mas Itam era persistente e dedicado, em suas vontades, desejos etc... Com sorte Itam, recebeu uma grande oportunidade de trabalhar nas obras ainda inacabadas, da expansão da vila próxima de sua residência, tornando-se um auxiliar de construção. Todos os seus colegas de trabalho, admiravam o esforço do homem popularmente conhecido como "Pé grande" nas redondezas, todos notavam seu empenho em manter o emprego, para sustentar sua família, até porque Itam sempre se mantinha em receio, por conta de seu passado que condenou o status social de sua família, perante a população recheada de conceitos rígidos e princípios da Turquia. Porém o que mais o incomodava no momento além do estado psicológico de seu pai, era o fato de ser apenas um auxiliar de obra temporário, sem contrato prolongado, correndo o risco de ser dispensado a qualquer momento. Mas para Itam, isso era apenas uma grande motivação para seu subconsciente, de ser manter persistente em mostrar sua vontade em continuar dando o melhor de si. Os homens que também trabalhavam duro na construção das casas do extenso terreno, não podiam deixar de reparar o quão Itam era habilidoso, forte, disposto e sempre alegre com a oportunidade de estar ali com eles, ganhando sua renda, pelo seu esforço, alimentado por sua culpa psicológica de ter rescrevido a situação atual de sua família. Todos seus esforços e dedicações, chegaram aos ouvidos do assessor chefe da empresa responsável por toda construção da expansão da vila, dando a Itam uma possível gigantesca oportunidade de um registro definitivo na indústria, para qual ele prestava serviço. Com conhecimento dos esforços de Itam. Gabe Colin o assessor chefe da indústria, convocou uma entrevista pessoal e presencial com Itam Mehmet, na intenção de se informar melhor sobre ele, para que haja confiança na contratação efetiva do famoso pé grande.

Com a notícia da entrevista agendada, Itam exalava entusiasmo por onde ia, sempre cantarolando, com seu jeito extrovertido de demonstrar seu contentamento. Ele espalhava a notícia por onde caminhava, por todo canto em que ele passava, carimbando sua felicidade em todos os cantos possíveis, principalmente sua mãe Gulia Mehmet e sua irmã Voyla. Amnut era o único que parecia não se importar muito com a notícia, mas para Itam aquela triste atitude de seu pai, era compreensível devido ao seu atual estado emocional, no qual ele mesmo se culpou constantemente, porém a reação de seu pai não se significava desprezo, pois nada mais causava satisfação profunda em Amnut. Sua irmã Voyla, também compartilhava dos sentimentos de conquista de seu único irmão, ciente do quanto aquilo era importante para ele, depois do já concluído episódio traumático de sua vida, no qual Itam atuou como um verdadeiro herói. Voyla sempre se lembrava das cenas do momento em que se tornou viúva, de um casamento de curto prazo, no qual ela também agradecia por terminado rápido, pois o destino de seu falecido marido, poderia facilmente ter sido o dela, se não fosse pela intromissão protetora e afetuosa de seu irmão itam.

As dez e vinte da manhã, Itam ainda em sua casa, já estava visualmente a caráter para seguir a caminho do local, onde havia sido marcado a entrevista pessoal com o assessor chefe da indústria de obras, Gabe Colin. Com a sua ansiedade elevada sob um alto nível, Itam se alimentava de uma forma bem alvoraçada, sob a mesa das refeições, intrigando sua mãe e sua irmã, que estavam acompanhando-o na refeição.

—Cuidado para não comer os dedos, meu filho! -Disse Gulia, bestificada com que estava a observar.

—Se tiverem tão bons quanto estes böreks... Eu mastigo também mãe-Respondeu Itam, sem interromper sua voracidade em terminar a refeição.

—Com certeza esse seu entusiasmo todo, deve ser por conta da sua entrevista para ser efetivado hoje né? -Perguntou Voyla, que parecia não se importar tanto quanto sua mãe, sobre comportamento de seu irmão à mesa.

—Se Allah permitir! Hoje vou ter a oportunidade que preciso, para reanimar o papai! -Afirmou Itam, que rapidamente se levantou de sua cadeira, limpando seus lábios com uma pequena toalha de papel, apressurado em todos os seus movimentos.

—Eu não tenho dúvida que Allah, vai iluminar seu caminho para esta conquista meu irmão-Disse Voyla, que apressada também se levanta, para haja tempo de um abraço entre os dois.

—Posso perfeitamente acreditar, de que não há um rapaz mais qualificado que meu filho –Disse Gulia, que também repetiu o gesto afetuoso de sua filha, após Voyla se desfazer da breve retribuição de Itam.

—Obrigado mãe! E obrigado maninha! Sei que com a fé de vocês duas, vou voltar aqui um novo homem-Disse Itam, que se recompôs visualmente, após o gesto de sua mãe.

—Eu só preciso que saiba de uma coisa antes de ir... Não se culpe tanto, com o que aconteceu com o papai. Foi muito mais minha culpa, do que sua, você não precisa sentir remorso. Você salvou a minha vida, e posso afirmar pra aqui e agora, que em algum lugar no coração do papai. Ele está orgulhoso por isso-Afirmava Voyla, enquanto ela segurava a mão direita de Itam.

—Obrigado pelas palavras peixinha, mas acho que a senhorita exagerou um pouco. Não foi culpa sua, você era vítima ali e eu fui o assassino-Disse Itam, ao levar a mão de sua irmã até a altura de sua boca, para lhe dar um breve beijo em sua palma.

—Assassino!! Meu filho foi um irmão zeloso, não um assassino! Eu exijo que por respeito a mim, nunca mais repita isso, na minha presença! -Esbravejou Gulia, na intenção de repreender o argumento de seu filho.

—A mamãe tem toda razão! Que culpa você teve, pela minha falha de querer continuar com um homem problemático, psicopata e com falta de garantia própria? -Questionou Voyla, também indignada com as declarações de seu irmão.

—Olha só, não estou com tempo para esse tipo de discussão saudável... Eu amo muitos vocês duas, eu queria passar no quarto do papai antes de ir, mas acho melhor não incomodá-lo. Mais uma vez, amo as duas, até já! -Disse Itam, ao pegar se currículo em cima da mesa, que logo em seguida partiu seguindo sua rota para a cabana móvel, que estava instalada em meio a área da obra.

—Que Allah te acompanhe meu filho! Boa sorte! -Disse Gulia, em voz alta para que Itam pudesse entender de longe, suas palavras.

Era exatamente nesta cabana móvel, que Gabe Colin já aguardava pacientemente a chegada de Itam, no horário combinado de sua entrevista de capacitação. Itam estava com a mente inundada de pensamentos questionáveis, sobre sua conversa que estava prestes a vingar, com o homem que controlava toda a obra, que poderia lhe dar a grande recompensa, que para ele seria um grande prêmio pelos seus esforços, em tentar suprir todas as necessidades possíveis de sua família. Foi quando Itam finalmente chegou no local, onde tudo poderia mudar de uma forma positiva ou negativa, ele respirava fundo na intenção de controlar seu nervosismo sob a situação.

Gabe estava plenamente sentado em sua cadeira social giratória, de frente a uma mesinha de escritório, com seu olhar fixo em Itam através dos óculos escuros em seu rosto, com sua vestimenta social típica de um orgulhoso homem de negócios. Itam acabou ficando ainda mais intimidado com toda postura de Gabe, mas isso não poderia derrubar um homem de grande porte, com necessidades pessoais e cheio de vontade pela conquista de retomar o status da família Mehmet. Quando conseguiu retomar seu alto controle, Itam decidiu se acomodar na sua respectiva cadeira do lado oposto da mesa, idêntica à que sustentava todo o peso social que Gabe aparentava carregar. E entregando seu currículo impresso em uma folha sulfite, nas mãos de Gabe.

—Bom dia e seja bem-vindo ao possível novo emprego, senhor "Pé grande" -Disse Gabe com uma postura educada, formando um leve sorriso em seu rosto, ao cumprimentar Itam, com o tradicional aperto de mão.

—Muito obrigado senhor Colin. Não imagina o prazer de estar aqui agora, de frente pro senhor, imaginei esse momento a semana inteira-Respondeu Itam, com sua mão trêmula revelando suas emoções incubadas, no mesmo momento que cumprimentou Gabe.

—Calma meu amigo, fique tranquilo. Se tiver que ser, será. Agora tente se acalmar, para que eu possa conversar melhor com você-Disse Gabe, com intuito de tentar pacificar a inquietação de Itam.

—Perdão senhor, normalmente eu sei perfeitamente manter o controle sobre tudo-Justificou Itam, esboçando simpatia para convencer Gabe, de que tudo estava sob controle.

—Acredito em você. Mas talvez possa querer um copo de água, antes de darmos início a conversa?

—Não senhor Colin, por favor pode acreditar eu estou bem. Podemos começar a hora que quiser, sem problemas-Respondeu Itam, ao conseguir dominar sua ansiedade.

—Pois muito bem... Pelo que analiso aqui, você nasceu e cresceu aqui em Antalaya, possui vinte e quatro anos de idade, solteiro, ainda reside com os pais e é fluente em inglês. Essa última parte já é uma grande vantagem-Disse Gabe, que ficou encantando ao ler o currículo de Itam em sua posse, com informação sobre sua fluência na língua inglesa.

—Pois é, meu pai tinha um negócio de herança da família, que se tratava de venda e exportação de lã. Eu o ajudava a cuidar dos rebanhos, das vendas e etc... no inicio era eu, meu pai e alguns ajudantes colegas nosso. Mas depois fomos obrigados a expandir mais, então a equipe de auxílio aumentou bastante. Tivemos que aprender a falar inglês, para negociar com estrangeiros, porém eu tive mais tempo para me focar nos estudos do que meu pai. Por isso sou o mais fluente da família nesse idioma-Disse Itam, já contente por notar a satisfação estampada na expressão de Gabe.

—Saiba que fico muito aliviado em saber de tudo isso, pois você já está praticamente bem próximo de ser contratado, para fazer parte do meu time. E já ouvi falar nas lãs Mehmet, que rodeavam toda a Europa. Sou turco, mas durante muitos anos morei em Roma e hoje voltei pra minha terra, depois de ter alcançado meus objetivos-Disse Gabe, com seu jeito reflexivo.

—Poxa vida que bacana, minhas profundas felicitações ao senhor. De qual região o senhor é? -Perguntou Itam, que já parecia estar bem confortável.

—Minhas raízes são da capadócia, mas sempre andei por toda Turquia.

—Que legal! Meu pai e eu sempre íamos a Capadócia.

—Imagino, mas ok. Vamos lá, agora eu gostaria de questionar sobre o motivo pelo qual eu deveria contratá-lo, para fazer parte da minha equipe de gigantes construtores de sonhos? -Perguntou Gabe, com seus dedos entrelaçados, sobre os dedos de sua outra mão, e obviamente expressando uma intensa seriedade.

—Bem senhor Colin, acho que... Sou um homem que busca reconstruir o sonho, de voltar a ver a família sonhar novamente-Disse Itam, que se calou por uns segundos, por conta de seu repentino estado emocional, por estar sentindo remorso.

—Senhor Mehmet, está tudo bem? Podemos prosseguir? -Perguntou Gabe, surpreso com a resposta inacabada de Itam.

—Me perdoe senhor Colin, foi um deslize de reflexão, mas voltando ao assunto... Assim como todos aqueles bravos homens, e seus serventes na obra. Também tenho um sonho para ser construído. Mais precisamente dizendo, para ser reconstruído. E prometo ao senhor, que vou continuar mostrando meus serviços, para elaborar essa minha obra pessoal-Respondeu Itam, ao finalmente conseguir concluir suas declarações.

—Tenho que admitir, que fiquei bem entusiasmado e emocionado com sua resposta Mehmet. Mas preciso que me tire a dúvida, sobre qual motivo que fez uma família tão renomada quanto a sua... Simplesmente declarar calamidade, obrigando Amnut, a se desfazer de todas aquelas magnificas ovelhas? -Perguntou Gabe, que esperava pela resposta sincera de Itam, sem realmente não ter noção do motivo por trás desse capítulo, que manchou o nome da família.

Itam não gostaria ter ouvido aquela pergunta, simplesmente pelo mesmo motivo que fez com ele não colocasse essa parte de sua história, por escrito em seu currículo, com medo de que isso novamente viesse a interferir em sua vida profissional. Mas Itam não estava disposto a inventar outra versão, por cima da verdadeira, só pela intenção de encobrir o fato, de ter matado seu cunhado, para salvar a vida de sua irmã. Ainda mais depois de ter conquistado a confiança, e admiração de Gabe Colin, foi por essa razão que Itam tomou a decisão, que mudou o rumo de sua vida.

—Eu fui pra cadeia-Declarou Itam, que por uns instantes, fechou os olhos na incapacidade de observar a reação de Gabe.

—Desculpe, não compreendi-Disse Gabe, que ficou incrédulo, mas ao mesmo tempo confuso com a resposta.

—Fui eu quem destruiu a reputação da minha família, perante a sociedade cravando um destino árduo nos negócios de meu pai. Assassinei meu cunhado, dentro da residência dele, na tentativa de socorrer minha irmã. Ele estava tentando afogá-la em um aquário doméstico, mas cheguei a tempo de impedi-lo. Fui repreendido por minha atitude, de interferir nos ensinamentos, que um homem precisa impor a sua esposa, pois todos diziam não acreditar que ele iria matar minha irmã. Mas que ele estava apenas, aplicando uma lição de bons modos, a uma mulher que necessitava entender que seu marido era figura autoritária na casa-São as palavras de Itam, que eram pronunciadas com o peso do desgosto de já saber qual seria seu futuro na construtora.

—Então você é o responsável, por afundar os negócios de lã de seu pai? -Perguntou Gabe, abismado com toda a confissão de Itam, com seu olhar concentrado e direto, enquanto Itam encarava o suporte de canetas sob mesinha.

—Sim, fui eu mesmo o autor dessa história. Mas não espero que o senhor me entenda, sei que também gosta de seguir nossos costumes de uma forma rígida e tradicional. Só me senti na obrigação de ser franco com o senhor, pois melhor do que ninguém, foi me ensinado que a confiança é uma base indestrutível-Disse Itam, decepcionado com si mesmo, sem coragem de olhar nos olhos de Gabe.

—Obrigado Itam. Fico muito lisonjeado em saber, que teve a capacidade de ser franco comigo nessas suas declarações. Sei também o quanto se tornou um homem admirável, disposto a lutar pelo bem-estar de seus familiares. Um homem que não precisa contar mentiras, para se alto beneficiar. E que também não precisa da opinião alheia, para saber que fez a coisa certa por sua irmã, por mais que goste de manter a tradição em dia. Não existe nada mais belo do que sacrificar tudo, para salvar a vida de um semelhante, mesmo sendo essa pessoa, alguém da família. Por isso lhe dou os meus mais profundos parabéns, para um homem que sabe se sacrificar, pelo bem daqueles que ama-Declarou Gabe, que também decidiu fechar seus olhos por uns segundos, com uma triste respiração profunda.

—Muito obrigado pelas palavras senhor... Não faz ideia do quanto é importante, ouvir opiniões positivas de vez em quando-Disse Itam, que se colocou de pé, após ser solicitado a dar um abraço em Gabe.

—Eu te desejo muita, mas muita sorte mesmo Mehmet... Mas infelizmente não poderei contratá-lo hoje, existem pessoas acima de mim, que levam muito a sério os conceitos tradicionais, bem mais estritamente do que eu, podendo me prejudicar futuramente. Mas você é um homem tão admirável, quanto seu pai. Obrigado por essa conversa.

—Eu que agradeço senhor Colin. Pelas palavras e por sua consideração em me receber aqui hoje, sei que não posso desistir agora e não vou, tenha certeza disso. Sei que Allah tem algo reservado pra mim, voltar a me manter leve emocionalmente. Obrigado, muito obrigado mesmo-Declarou Itam, com uma intensa sinceridade em se pronunciar, mas adquirindo um leve nó na garganta por sua decepção.