Notas iniciais
"arrumando a mochila nas costas, deu um tchau de leve e se virou, indo embora e me deixando sozinha "

– olá Helena!

– olá Pedro – respondi constrangida

“Se passou duas semanas de todo ocorrido, minha conversa com Lany e sua declaração de mudança, o que de fato não aconteceu pois encontrou um namorado novo, a e é claro, deste abençoado ter me chamado para sair”

– está tudo bem? – disse levantando uma das sobrancelhas

– então, vim te perguntar se... – ele ficou parado, com o olhar fixo no chão – bom, é que você... – continuou levantando a cabeça e olhou meus olhos como se fossem os últimos que veria, o azul profundo de seus olhos penetraram os meus, respirei fundo desviando o olhar – é que bem...

– o que? O que tem eu? – perguntei gaguejando cortando suas palavras enquanto pegava o suco de laranja servido no refeitório, após outro momento constrangedor de silencio virei-me o encarando, indagando com coragem – hm? O que tem eu Pedro?

– bom, é que eu te chamei pra sair e você falou que não, certo? – respondeu constrangido

– sim, correto... – afirmei abaixando o olhar para o suco.

– e eu sai meio chateado... – falou sem rodeios – e queria pedir te desculpas... – respondeu fitando minha expressão.

– então – fiquei perplexa com tal atitude – Pedro, tudo bem... não há problema algum – respondi ainda perplexa – sinto muito não ter aceitado, mas acho que me conhece um pouco...

– tudo bem, podemos ser apenas amigos? – falou estendendo uma das mãos.

– sim, claro que sim – disse segurando sua mão – apenas amigos! – afirmei, soltando rapidamente o aperto de mãos desajeitado

“Sorri virando-me enquanto caminhava rápido em direção ao corredor, parando em frente a uma grande janela, fitei seus detalhes, sua madeira rala, o vidro sujo e o quanto a luminosidade brilhava na grama verde do lado de fora, as árvores balançavam de um lado para o outro, então observei o céu azul, um céu azul magnifico e me lembrei dos olhos de alguém que passou por mim há quatro anos, um azul maravilhoso, um azul profundo e cheio de brilho – aí meu Deus – balancei a cabeça afastando os pensamentos, virando bruscamente tentando sair de perto da janela, quando senti um impacto que me fez cair sentada, virei todo o suco que estava na mão – Jesus – falei procurando quem tinha sido o autor do impacto, então vi Pedro mordendo o lábio inferior, olhando para mim com olhos arregalados enquanto suco de laranja escorria por sua camiseta.

– desculpe – falei, constrangida.

– A culpa é toda minha, eu que fiquei atrás de você, desculpe.

– o que estava fazendo atrás de mim? – falei franzindo o cenho!

– bom, eu vim te devolver seu livro, esqueceu na mesa do refeitório enquanto pegava seu suco – ele falou, estendendo o livro – ia te devolver quando virou e “puuf” – fez sinal com as mãos – bateu em cheio na minha camiseta.

– aí meu Deus, desculpa – falei corando tentando me levantar, Pedro pegou meu braço, me reerguendo – obrigada, sinto muito por sair andando, pensei que havia acabado – falei corando novamente, peguei o livro e olhei a capa “Anjos e Demônios” – sinto muito por sujar sua roupa – falei cabisbaixa – desculpe.

– Tudo bem Helena, como já disse eu fiquei atrás de você e a culpa é minha, mas, você também não saio ilesa, esta com a blusa toda manchada.

– estou? – falei olhando em direção a minha blusinha de renda – aí meu Deus – e como estou, minha blusa de renda ficou com uma mancha enorme laranjada.

– vem, vamos nos limpar – exclamou Pedro segurando meu braço e me olhando – você vai vir comigo?

– pode ir indo, vou limpar aqui antes. Obrigada! – respondi com um nó na garganta e me soltando de sua mão. Isso não pode estar acontecendo comigo, não comigo!

“Pedro caminhou pelo corredor entrando no banheiro masculino, antes que desaparecesse fitei suas costas, sua camiseta cinza, a calça jeans e aquele cabelo loiro, tão claro que lembra praias ensolaradas – merda, estou com problemas! –balancei a cabeça tentando afastar as lagrimas que insistiam em querer transbordar, levantei a cabeça procurando ar me abaixando novamente em busca de qualquer liquido ao meu redor, recolhi minhas coisas, coloquei o livro dentro da mochila e fui até o banheiro, molhei o papel na tentativa de tirar as manchas do suco, as quais ficaram menores, mas, não sumiram! Outra coisa que não sumiu foi o Pedro, ele podia sumir, desaparecer... se fingir de invisível, que menino inconveniente, encostei a cabeça na parede na tentativa de aliviar tudo o que eu senti alguns segundos atrás”

– Helena está tudo bem? – Anne perguntou — sim, eu estou, obrigada. Só estou preocupada com o período de provas. – menti, merda. Falei a primeira coisa que veio a mente

– faltam quatro semanas ainda... – ela respondeu preocupada

– sim, eu sei. Só estou sofrendo por antecipação, é bobagem Anne, estou bem! Obrigada pela preocupação, está tudo bem! – respondi sorrindo.

– tudo bem, mas, tenho que te avisar a sua amiga estava te procurando...

– a Lany?

– essa mesma.

– Sério? – indaguei preocupada, Lany não é o tipo de garota que me procura quando esta namorando. Anne balançou a cabeça em sinal de sim – muito obrigada Anne – falei já saindo do banheiro e procurando uma louca de cabelos negros e mini saia em todos os lugares

“O sino soou e eu corri até a sala de “Análise de outrem”. Para minha sorte, cheguei atrasada e todos já estavam sentados, para melhorar o Pedro está fazendo esta matéria para fazer bicos em um jornal, que para meu grande azar estava sentado ao meu lado. Pedi licença, corando ao entrar e perceber que todos me fitavam, sentei ao lado do Pedro e fiquei sem ar, era como se meu corpo inteiro quisesse congelar.”

– está tudo bem? – as palavras dele pareciam facas soando na minha cabeça – Helena, está tudo bem?

– uhum – afirmei sorrindo procurando afastar meus pensamentos do Pedro, voltando minha mente para o professor, que estava vestido com o mesmo casaco engraçado de todas as sextas feiras é como se fosse sair daqui para algum lugar especial, esses lugares que necessitam de uniforme.

– você aceita? – perguntou o Pedro me tirando de meus devaneios

– o que? – perguntei assustada

– Não ouviu Helena? – Pedro indagou com olhar desconfiado — o professor acabou de falar que temos que fazer um trabalho de três semanas com nossas duplas... – continuou franzindo o cenho

– hmm, claro... – tentei parecer atenta – o que exatamente é pra fazer? – falei tentando parecer interessada – pesquisas na biblioteca, monografias, artigos ou fundamentações teóricas... se for algum destes não precisa se preocupar tenho bastante tempo livre e posso fazer – terminei sorrindo, “quanto mais longe desse garoto melhor”, pensei

– não é bem isso – respondeu com uma careta – temos que observar os costumes e hábitos da dupla durante três semanas e analisar a forma mais elaborada de montar um plano de venda, ou seja, temos que vender nossa dupla! – ele terminou erguendo as sobrancelhas enquanto ria baixinho.

– está brincando né? – perguntei assustada, três semanas ao lado desse cara – cadê a Lany nessas horas! – falei deixando transparecer meu nervosismo, Senhor por favor, por favor me ajude!

– Então Helena, se não quiser fazer comigo, tudo bem. Mas a Lany está com o Calvin, então só restou eu... – respondeu sorrindo – então teria que fazer sozinha...

– não, não – falei nervosa – tudo bem, vou fazer contigo – sorri desviando o olhar até a Lany, fiz cara feia para ela, que sorriu e ergueu os ombros.

– helena? – quando a voz dele soa, meu corpo inteiro gela e um leve arrepio passa por minha nuca.

– oi? – voltei o olhar para ele.

– então, se não quiser fazer comigo eu vou entender, mas, é que agora que somos amigos, queria saber se podemos fazer isso numa boa, sem ressentimentos?

– claro Pedro, não há problema algum... porque haveria problemas?! – tentei parecer convincente – não há problema nenhum nem nada do tipo

– pode ir a minha casa hoje, ou prefere que eu vá a sua? – indagou sem rodeios

– não podemos fazer isso em sala? Ou nos intervalos? – fiquei perplexa com a ousadia usada por Pedro

– não – falou novamente utilizando a mesma careta feita anteriormente — temos que observar hábitos e costumes, ou seja, temos que sair correndo um atrás do outro todas as horas...

– hoje eu tenho compromisso – meu estomago revirava – vou à igreja!

– posso ir junto se quiser...

– claro, fique a vontade – não sei porque falei isso

– vamos fazer assim, uma semana e meia eu te observo e depois você me observa!

– combinado – respondi, desviando o olhar de Pedro, procurando voltar meu olhar para o professor “legal”, fitei suas pernas compridas e finas e o quanto ficava engraçado naquela calça skynny enquanto o casaco me fazia lembrar de um programa secreto que ele podia ter às sextas feiras

“Ao fim da aula, quando soou o sino meu estomago pareceu aliviado, infelizmente um alivio momentâneo que iria acabar quando o Pedro viesse ao culto comigo... lembrei de como ele caminhou até o banheiro hoje cedo, como chama meu nome, seus olhos azul que parecem inebriantes... acho incrível como não olho ninguém assim à tanto tempo e logo agora quando eu comecei a praticar o alto domínio e tomar conta de mim, que pensei ter acabado toda a euforia do meu coração, ele vem até mim e trás junto todas as emoções que eu escondi desde o primeiro ano.”

– Helena, não sei onde é sua igreja... – falou tocando em meu ombro afastando todos os meus pensamentos

– sabe onde é minha casa? – indaguei procurando não demonstrar o susto que tomei

– uhum... – respondeu fazendo bico, coloquei a mão no rosto sem conseguir conter a risada, fechei os olhos e respirei fundo levantando a cabeça – o que eu fiz? – perguntou confuso.

– não fez nada – respondi sorrindo – então, depois da minha casa; quatro quarteirões, um lugar grande com uma escrita “Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente” você vai saber onde é... o culto começa as oito, quinze para as oito vou estar na frente da igreja esperando por você, só para não se confundir, pode ser? – minhas mãos se moviam rápido demais enquanto explicava o caminho

– com que roupa vai estar? – perguntou arqueando uma das sobrancelhas

– o que? Não sei, normal... por que? – respondi confusa

– nada, nada não... então tá, quinze para as oito te vejo! – arrumando a mochila nas costas, deu um tchau de leve e se virou, indo embora e me deixando sozinha no gramado do campus.