A donzela e a fera - O monstro da cidade de Corvus
2 A donzela e a fera - O monstro da cidade de Corvus- Epilogo
Notas iniciais
“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor”.
(Coríntios 11:13)
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A curvatura da estrada da vida é tão sinuosa, quanto às curvas de um rio, cada criatura habitante deste mundo tem um proposito a cumprir. Proposito que lhe foi dado pelo grande pai, senhor do universo, ainda quando nossas almas pairavam nos cosmos e não tinham forma, se quer gênero ou cor. Fomos lançados no ventre da terra como sementes, então a grande mãe Gaia foi fecundada e nós nascemos do barro, éramos argila quando o pai e a mãe nos sopraram a vida, desde então o destino brinca conosco enquanto vagamos por esta estrada traçando nossos destinos, até o fim da vida que marca nosso retorno ao cosmos para junto do pai.
Quem eu sou? Não vejo necessidade em apresentações, eu não era ninguém, apenas uma velha mulher que vivia nas profundezas da floresta, á qual a estória tratou de omitir em seus registros temporais. Fui à testemunha de que os homens podem descobrir o amor onde parece só existir ódio, e o que uma velha mulher sabe sobre o amor? Quer saber? Nada, apenas sei que o ocorrido naquela manhã de inverno do ano de 1550 no reino de Münnich ficaria imortalizado através dos tempos ou enquanto a humanidade perdurasse.
O amor verdadeiro não é algo que precise ser escrito, ser dito, ou retratado em uma tela de arte, basta apenas um olhar e os dois saberão que se amam, no entanto tal escultura de pedra moldada acima do lago é tão bela e intensa como se fosse palpável a mesma sensação de décadas atrás, é como se nos atraísse e nos levasse para um tempo de reis e rainhas, aonde as obrigações pelo reino em nome da santa igreja vinham em primeiro lugar. Onde o amor morria eternizado em um quadro. Em um leito de bordel junto á sensação de morte do gozo. No altar onde a noiva olhava displicente e discreta para seu verdadeiro amor o deixando no banco e matando seu coração com um sim dito ao noivo, selando sua alma á de seu marido e a Deus entregando-se as obrigações que o título de sua família impunha.
Os sentimentos que se entrelaçavam diante os olhos dos deuses no bosque estavam ao longe de terminar, não sabiam que protagonizavam a peça mais bela e marcante de suas jovens almas.
O destino foi traçado e não haveria nada que pudesse ser feito, sem interferir acompanhei distante, o desespero da jovem de cabelos castanhos claríssimos quase louros, as mãos pequenas de dedos finos e longos manchadas por sangue, a flecha atravessada em sua perna, e o ferimento feito a espada que atravessou-lhe o abdômen e a fazia sangrar em abundância, sua dor não era maior do que a de ver o amado tão ferido quanto a si mesma.
Ouvi sussurros ao longe, aqueles breves minutos em que a carregava para a margem do rio congelado que começava a trincar rapidamente atrás de si.
Não havia esperança, apenas o nítido sinal da morte enquanto o corpo de Lord Benjamin era levado para o fundo do rio junto aos corpos de seus fiéis cavalheiros.
Minutos sufocantes entrelaçaram-se com a hora da morte, Desmond acariciou pela última vez os cabelos claros de Alissha, olhou nos fundos dos olhos de mar vendo uma tempestade de medo se formando, acariciou os lábios finos de cetim e com cuidado tocou-lhes com seus próprios lábios, a jovem correspondeu, acariciando os cabelos negros e curtos como as asas do corvo que representava a cidade de Corvus, beijaram-se pela eternidade, enquanto os mares das íris azuis e verdes fundiam-se uma n´outra, abraçando-se fortemente, sem desviar os olhares por um só instante juntando as mãos entrelaçadas entre o tórax um do outro e assim entregaram-se ao sono eterno que apenas a morte pode proporcionar.
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A dura vida que tive ao longo de minha existência me fez ver perfeitamente a essência das pessoas da cidadela, minha família não era o que poderia se chamar de influente e cristã, ao contrário, sou filha de uma camponesa, meu pai era um Lord o qual nunca o conheci, ele engravidou minha mãe e não me reconheceu. Obviamente não reconheceria um bastardo, principalmente tendo nascido menina, minha mãe herdou os conhecimentos das plantas medicinais dados por minha avó, aprendeu a extrair poderes da natureza, da lua, do sol e dos quatro elementos, minha descendência é o que as pessoas chamam de bruxas, antes do falecimento de minha mãe vivíamos na cidade, depois de sua morte resolvi ficar reclusa na floresta longe de fanáticos e aprimorar meus conhecimentos; Em todo o tempo em que vivi naquele século agora soterrado por uma nova era nunca havia conhecido o amor, mas ali naquele breve momento eu o conheci, senti o coração acelerar, uma lágrima sorrateira desceu pela face. Decidi então que aqueles sentimentos deveriam ser sentidos por todas as pessoas, e que elas poderiam ter fé no amor caso tivessem perdido ou encontrá-lo caso ainda não o conhecessem e ter a certeza de que ele existe em algum lugar dentro de nós.
Aproximei-me de onde os dois jaziam abraçados, toquei no sangue que escorria dos jovens, olhei para o rio descongelado no final da tarde onde surgia um tímido sol alaranjado por entre as nuvens ainda carregadas, olhei para o centro do rio onde existia uma rocha e sorri. Abri os braços em direção ao sol e proferi:
Em nome do senhor do universo
Em nome da mãe terra
Em nome do senhora dos rios e dos mares,
Pelo sangue destes inocentes
Em nome dos poderes conferidos pela grande mãe a mim.
Imploro ao cosmos que esta rocha
Seja eternamente
A testemunha do amor existente
Nos corações destes jovens.
Um vento forte me envolveu, ergui com força espiritual os corpos desfalecidos dos dois jovens e os coloquei sobre a rocha de pé, na mesma posição em que estiveram deitados, com as mãos unidas sobre o tórax um do outro. De vagar os corpos foram se transformando em pedra até se transformarem em estatuas eternas.
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Dinamarca 22 de julho de 2013.
Uma senhora passeava de mãos dadas com sua pequena neta enquanto contava a lenda da estátua sobre o rio corvus. A mulher parecia distante, como se tivesse perdida no tempo olhando para a obra feita pelos homens de um passado distante.
—Vovó isso é verdade? – Perguntou a garotinha de cabelos encaracolados e curtos.
—Claro que é só uma lenda Sófia! – Alice a neta mais velha proferiu como se fosse algo obvio. — Aí eu odeio esse lugar, aqui é frio, O Brasil é quente demais, mas a Dinamarca é fria demais. Aff! Quero ir para o Havaí! – Disse a adolescente de longos cabelos castanhos cobre quase louros e enrolados.
—Alice não esta gostando de visitar sua avó? Esta é a terra do seu pai.
—Ah vovó eu te amo, mas aqui é muito frio.
A senhora riu divertida e continuou a fitar a estátua. Sempre que visitava o ponto turístico não podia deixar de pensar neles. Onde àquelas almas estariam? Será que reencarnaram ou não? Ah, mas se passou muito tempo, deveriam estar por ai na estrada da vida até se cruzarem novamente ou quem sabe já estariam juntos, e constituíram família, mas isso apenas o tempo poderia saber.
—Vovó- Chamou a menininha tirando-a de seus pensamentos.
—Sim querida. – Respondeu atenta.
Sofia puxou a avó para que ficasse em sua altura e disse sussurrando em seu ouvido: — Eu acredito vovó. – Disse sorrindo alegremente com um brilho encantador no olhar.
—Sim, querida, eu também acredito. – Beijou a neta e lhe deu um abraço apertado, recebendo outro de volta.
Na saída do parque, a senhora olhou para trás e sorriu dizendo para si mesma: — Sim, eu acredito no amor.
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