A dama e o Rei
1 A barganha, a dívida
Notas iniciais
A mulher parada ao lado do rio tinha um semblante escurecido. Lágrimas descendo por suas bochechas pálidas davam a aparência frágil e tristonha. Nesta tarde, havia perdido o filho e o marido. Sem rumo traçou seu destino ao rio que talvez lhe surpreendesse com um presente divino. Um demônio ou quem sabe um anjo que mudasse o caminho flagelado. Ela não importava-se com quem cruzaria seu caminho, mas sim se esse pudesse mudar o destino.
Conhecia uma lenda. A história contava sobre um grande anfíbio que habitava os rios. Ele era um demônio que com maravilhosas barganhas recompensava humanos. Nesse momento, a tal lenda a seduziu. Sem lembrar do terrível final, a moça apenas orou ao anfíbio.
Particularmente não queria riqueza, somente uma escapatória. Quem sabe uma terra longe, onde pudesse ter uma vida nova desapegada de amores e ouros. Dinheiro nunca foi um problema, de família rica a dama vinha. Amores outra coisa que não lhe agradava, seu coração apenas havia sido de um único homem. Ah, se fosse verdade, suas chances de viver em paz eram altas.
Não pensou duas vezes, na beirada do rio sentou-se. Deixando a água verde fria engolir suas pernas.
A cantoria de um velho marinheiro passou a ressoar, vinha do grande anfíbio que dentro do rio nadava. Não tardou até ele aparecer. Com facilidade, deslizava na água, o corpo inteiro se movia sutilmente. Submerso naquele reino não era possível perceber sua presença, aparentava que o rio e o monstro eram o mesmo ser.
Lá estava o Rei do Rio, e todo seu mundo submerso.
Rapidamente surgiu do lago. Seu tamanho era descomunal. O fedor que exalava semelhante aos dos peixes, causando expressões de nojo. Um sorriso surgiu ao ver a mulher desolada. As lágrimas, o sofrimento. Era apenas o início do banquete. E a esperança dela, a melhor sobremesa.
A dama fitou o grande anfíbio. Duas vestimentas costuradas cobriram o corpo, no topo da grande cabeça, uma pequena cartola preta repousava. Logo após sair d'água, não estava molhado, mas sim viscoso. Semelhante a um grande sapo, contudo maior que todas baleias do oceano, o monstro tinha altura de cinco grandes casas empilhadas. Ele tinha um grande anel dourado em um dois “bigodes”, e garras afiadas. Seus olhos eram de uma cor amarelada, pequenos em meio da grande pele viscosa esverdeada.
– Me diga senhorita – cantarolou com sua voz assombrosa. Do rio ele saltou, caminhou a beirada e o chapéu retirou –, o que traz uma moça tão elegante ao meu reino?
Não assustou-se ao ver, muito menos quando ele pronunciou. A surpresa de alguém ouvir suas preces, lhe fez sorrir. O Rei do Rio que desejos realiza, junto ao seu apetite voraz. Devora a riqueza e se alimenta com a miséria, escolhendo presas fáceis. A dama era uma presa fácil, entretanto esperava o monstro derrotar. Não acreditava ser uma tola qualquer, e logicamente não se venderia por simples barganhas. Se por um acaso aceitasse o acordo, somente por uma nova vida seria.
– Desejo conhecer o mundo – respondeu levantando seu corpo formoso. Arqueou as costas, estufou os seios. Acreditava ser possível o monstro derrotar, bastava com cuidado conversar – O rio é o mundo e você o Rei. Não há nada que desejo lembrar dessa vida que levava, será que existe uma segunda chance?
Observou a dama diferente, qual tinha em mãos. O sofrimento da mulher não vinha de causas tolas. Não havia miséria. Dentro daquela senhora de cabelos dourados, somente prevalecia sofrimento. Não era esse banquete qual lhe saciava, necessitava pensar como plantar miséria no pobre coração. “Humanos tolos”, pensou consigo. Se chance fosse dada, porventura ela criasse esperanças, com certeza o gosto incrível seria.
– Veja bem, dona! – reclamou novamente com sua voz grossa – O rio é o mundo, e eu sou seu Rei. Não exista lugar que eu não tenha visitado. Não existe lugar para onde não posso voltar, contudo existe um preço a se pagar. Sabe, meu apetite é voraz, mas nas grandes e melhores mesas, não há lugar. Basta você me deixar entrar, e assim ficaremos felizes.
Mais uma vez a mulher lhe deu um sorriso vazio causando arrepios. Os olhos cerrados juntos a sobrancelhas, aparentavam serem cada vez menores. Aquela senhor é mais vazia que um poço. Mais deslocada que um andarilho. Pouco importava-se com o apetite voraz. Desejava morrer nas mãos do monstro, para que assim fosse lembrada. “Oh coitada, caiu nas barganhas de um mentiroso”.
– O seu apetite pode ser saciado – retrucou com doçura escorrendo pelos lábios – Basta a miséria ser criada. A esperança renovada e uma nova vida criada. Contudo, na infelicidade já deve ter sentido; não sou facilmente convencida. Sei que minha vida chegou as ruínas, o que lhe peço é uma nova vida.
– Conhece tão bem sobre minha lenda, contudo, da mesma maneira deseja ter uma nova chance? Cuidado moça, sua sagacidade pode ter lhe cegado.
Sem duvidar, a moça lhe estendeu a mão:
– Está com medo, Rei do Lago?
O desafio proposto, não poderia ser recusado.
Antes mesmo que ela percebesse, o monstro a engoliu. Por dentro do rio eles nadaram, dentro da boca do monstro havia conforto para a viagem rápida. A dama pouco importou onde estava, ansiava por entender onde pararia. Realmente, não tinha esperanças, miséria ou desespero. Sentimentos tolos no momento seriam descartados, e estava a si apenas a solidão que as mortes deixariam.
O monstro saiu do rio, cuspiu a dama sem educação.
– Aqui estamos, em uma terra de oportunidades – pronunciou as palavras lambendo os beiços. Que gosto delicioso vinha com o sofrimento pós-morte – Faça bom uso, entretanto lembre-se: eu volto.
A dama fitou a terra onde descera. Não passava de um reino tolo e antigo, sem novidades. Pensou por um tempo, talvez o grande monstro havia confundido. Protestou contra o vento:
– Ei, demônio não há o que me saciei nesse reino, – observou a grande criatura sumir – minha sede não é de bens, mas sim de sentimentos.
Não obteve respostas, o som do vento ao fundo lhe deixou sozinha. Assim que era ter um contrato com uma grande besta. Ele pouco desejava saber o que a moça queria, em seus sentimentos somente esperava por um banquete de sujar os dentes.
O tempo passou, grandes oportunidades a dama arranjou. Ouros e amores prometidos. Mas não se engane, caro leitor, nossa dama pouco desejava o amor. Pois, era de seu conhecimento a lenda do Rei, daquele que come suas riquezas criando a miséria. Ignorou todos aqueles que pudessem lhe amar, desistiu de vários casamentos para sozinha ficar. As pilhas de ouro pouco faziam em suas mãos, dava a maior parte aos camponeses e a outra ficava ao pó.
Certo dia, a dama acordou inquieta. Não havia nada para lhe chamar atenção, levantou-se da cama sozinha, ao longe da cidade caminhou. Perdeu-se no bosque chegando na beirada do rio, apenas com sua companhia o sentimento voltava. Infelicidade, ódio e solidão. Seu coração era um buraco – aparentemente nada ali saciava. Suspirou de alívio, a lenda vencia.
Então, esse era o sentimento de viver com os acordos da besta. Sem amores, sem filhos, sua riqueza de nada valia. Uma vida sem motivos e a cada instante, andava mais ao precipício. Naquele dia de verdade, sua vida perdera o rumo. Desejava estar enterrada ao lado de seus grandes amores, seu pequeno filho e seu grande marido.
Os pensamentos da dama foram atrapalhados, pois logo ali ao seu lado, uma pequena criança chorava. Os cabelos negros bagunçados caíam sobre os olhos. Seu pequenino rosto uma mistura de cores, vermelho, marrom da terra que esfregava nas bochechas e rastros de suas lágrimas. De joelhos, com roupas rasgadas, ele em baixo tom perguntava-se.
Com certo receio, a dama elegante trajando vestido vermelho aproximou-se. O menino não percebeu, seu rosto tinha uma mistura de lama com choro. Ambos olhos avermelhados escorrendo lágrimas, os lábios ressecados por culpa dos gritos. A solidão do pobre menino logo se conectou a dama. Sem pensar duas vezes, a mulher lhe estendeu a mão:
– Venha criança, me conte o porquê estar aos prantos.
– Meus pais morreram. – respondeu sem jeito. Esfregou os punhos no rosto sujando ainda mais sua pele clara. As manchas marrons misturavam-se ao vermelho do sangue escorrendo de pequenos cortes – Agora não tenho onde ir. Ou com quem ficar, minha família é pobre e eu apenas sou um menino tolo.
Um pedaço seu berrava por abraçar o menino, esse era seu novo filho. Aquele que o destino tirou.
Outro pedaço seu choramingava o quanto ruim seria, o anfíbio voltaria. E com tudo acabaria.
– Sei que vossa majestade odeia homens. – sibilou sem graça – É o que todo dizem.
– Não proclame bobagens, criança – retrucou a rainha com a mão estendia. Esse seria o filho, aquele qual a felicidade trazia –, não sou o monstro do rio. Somente digo, aceite minha ajuda e feliz ficarei. Há muito tempo, perdi um menino tão belo quanto você. Apenas Deus sabe a falta que me faz a companhia de uma criança no meu lar.
De longe, o monstro assistia a cena. Chegará o grande momento, a fraqueza havia vencido. A dama cedeu sua ajuda ao menino, ali nascera o amor responsável pela miséria.
Em seu estômago a fome nasceu. A hora havia chegado, por fim tudo iria ser devorado.
De mãos dadas, os dois partiram. No horizonte o fim chegava devagar, e o rei se deliciava com o início do banquete. Pobre dama tola, esquecera sobre o contrato. Bastava o momento correto para que o apetite fosse saciado.
Não tardou a ambos confiaram o amor entre si, logo após dias, o menino completaria dez anos de idade. Uma grande festança foi marcada, os mais distantes reinos convidados prometeram presentes lindos. O pequenino príncipe sorria de orelha a orelha, toda sua vida ao lado da rainha era perfeita.
A festa começou com a cantoria dos ciganos. Todos reis, rainhas, princesas e príncipes se aproximaram ao castelo. O sol aquecia o local, e com todas mesas postas, tudo estava tão belo e perfeito. Cheia de vida, a dama sentia seu coração curado. O novo filho havia curado sua dor, fechado suas feridas.
Todos dançavam e cantavam. Todos presentes sorriam e conversavam, nenhum deles esperava aquele final. As ruas enfeitadas com todas as cores possíveis, ninguém esperava por tal desastre. Na porta do aniversário, dois guardas de pé faziam a guarda. Nenhum dos dois conversavam ou matavam o tempo, somente de pé encarando quaisquer que tentasse entrar.
O anfíbio saiu o lago pingando água. Os dois homens fitaram a grande criatura de pele verde, surpreso, não conseguiam pensar. Olharam entre si com uma expressão perdida, que diabos seria aquilo na frente deles?
– Boa tarde senhores. – disse com gentileza o monstro viscoso – Sou convidado de honra do banquete, digo, aniversário. Mas que hoje terá um belo banquete, terá.
O primeiro guarda, mais alto e moreno, levantou sua espada. Brandando contra o monstro sem pensar. Passou reto pelo corpo, parecia que a tal besta nada faria, mas quando percebeu, dentro da mandíbula do monstro estava. Seu corpo foi mordido, devorado. Seus membros esmagados e seus ossos quebrados. O segundo guarda, loiro e baixinho, nada fez. Largou a lança no chão e para sua residência correu.
– Que a rainha se ferre! – gritou ao longe.
O rei apenas continuou a entrar na festa. Todos ali presentes observaram a grande besta, primeiro ele comeu os presentes, depois alguns reis quais entraram em seu caminho. Sem pressa ele caminhava, parecia estar divertindo-se com todo aquele cenário e terror.
Alguns guerreiros apareceram, armados prometiam a besta matar.
Que terrível engano os jovens cometeram. Ao longe ele jogou com sua língua descomunal. Engoliu o maior deles, mastigou e o cuspiu em direção ao restante. Pedaços de carne, sangue, membros e órgãos sujaram o castelo. Um dos soldados – que havia recebido maior parte de órgãos, fitou seu corpo coberto com a pasta vermelha. Gritou apavorado, desesperado. Que maldade existia no monstro a ser capaz de realizar tal ato?
Ali no salão estava a dama com seu filho adotivo. A criança chorava, berrava, afinal tinha assistido uma cena anormal. Ela tentava acalmar o pequeno menino, mas de nada adiantava.
A dama observou com desespero todo o local. “É sua culpa” pensou consigo mesma. Ali estava o anfíbio destruindo tudo, devorando tudo que fosse para roubar a miséria. A grande figura viscosa tudo comia. E de fato, a culpa era dela e de seus desejos.
Com medo, a rainha tentou sair com o filho. Foi nesse instante que a criança teve uma língua enrolada na cintura. Rapidamente ele foi puxado, dentro da boca do monstro, foi colocado. Em poucos segundos nada restou do corpo frágil, nem mesmo as roupas, ou um pequeno pedaço.
A dama assistiu a cena inteira. Escutou o choro de dor da criança. Seu corpo tremia, seus olhos não acreditavam, seu filho – de novo – faleceu. Porém dessa vez, conhecia o culpado pela morte.
A ira dentro de suas veias circulava. Queria matar o demônio, e assim faria. Fitou, aparentava estar feliz, mexia na boca limpando os dentes, uma das mãos dava palminhas na grande barriga. O desgraçado estava feliz, alimentado e saciado. A revolta dominou a dama, que sem pensar duas vezes atacou a fera.
A espada subiu, porém o demônio seus truques tinha. Empurrou a moça para e longe e claramente disse:
– Era assim que você queria! – gargalhou feliz da vida – Lhe dei uma nova vida, pena que você foi tola a me deixar entrar. Mas devo lhe agradecer pelo incrível banquete, a criança foi uma maravilhosa sobremesa.
Novamente a dama para cima da besta partiu, empunhou a espada e gritou:
– Devolva-me tudo que é meu – ela chorou enquanto esmurra a besta com o aço da espada – Vou lhe matar, grande besta asquerosa.
Cansado de lutar, com a língua puxou a mulher até o rio. Ela sem reação nada pode fazer, a força do demônio lhe tirou o ar. A arma caiu no chão, ecoando por seus ouvidos. Aqueles eram seus últimos minutos de vida, a besta lhe mataria.
Dentro do rio, ele soltou a dama. Cercada por água, a moça se debateu, sem resultado afogou-se. Quando seu corpo quase morria, percebeu que ao seu lado o anfíbio repousava. Sagaz ele disse:
– Me chame de rei, me chame de demônio. A água esquece o nome dos afogados. – o anfíbio gargalhou. Matar a mulher era um ato fácil para seu membro, contudo não precisava matá-la. O rei queria a miséria e não a morte – Por sorte tua, essa não é tua vez.
O corpo da mulher flutuou até a superfície, acabou sendo arrastada até a beirada do local. Pouco tempo após seus pulmões voltaram a respirar. Um verdadeiro alívio quando seu corpo voltou a receber oxigênio. Ficou parada ali na lama, não queria mexer nenhuma parte de seu corpo. Estava tudo acabado e a única coisa que restara foi a miséria. Devorando por dentro, matando aos poucos. A miséria é um fardo pesado em seus ombros pequenos.
Até os dias de hoje, a elegante dama vaga por terras, sem um rumo definido. De pés descalços, sem vestidos de luxo, a moça pouco importa-se com sua aparência. Os fios dourados agora ficam sujos e sem nenhum perfume especial, o rosto pálido não demonstra sorrisos. Ela vive assim, alimentando-se da sua própria miséria.
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