A dama de fogo
1 Dama de fogo.
Notas iniciais
– Vovô me conta aquela história de novo, aquela da garota que salvou sua família do vulcão em chamas. – Charlotte suplica para seu avô.
–Claro querida, mas vou lhe contar de outra versão, vou lhe contar assim com a dama de fogo me contou. – Sorri Jhown.
Dama de fogo (PDV)
O céu azul já não esta mais tão azul, as nuvens brancas já não são mais tão brancas e a grama verde não é mais verde. Lembro-me de quando corria por essas colinas, o cheiro das flores invadiam minhas narinas, a ar fresco bagunçava meus cabelos e o rio tinha a água cristalina, ao olhar através dessa velha janela me vi em outra época onde os tempos eram outros, onde tudo era tão zen, agora a única coisa que vejo por esse vidro embaçado é um céu vermelho como o sangue de angústia e dor, nuvens carregadas de ódio e um cheiro insuportável de fumaça, fogo cai por todos os lados e labaredas dele se erguem no topo da montanha onde fica o vulcão. Todos aqueles que eu amo correm desesperados, pegam água, comida, roupas, tralhas desnecessárias, será que eles não entendem que tudo vai acabar em fogo? Todos esses pertences não vão valer nada, a água vai evaporar, a comida vai acabar as roupas vão queimar o que adianta se preocupar com isso? O nosso mundo vai acabar em fogo.
Minha mãe se aproxima de mim com o rosto perplexo vejo seu cenho enrugado, seus olhos são de medo e eu posso ver através deles o fogo se colidir com as arvores e se aproximar ainda mais, todos estão eufóricos e eu continuo sentada olhando o fogo, não entendo porque todos correm, é só fogo não é? Vai nos destruir em segundos, vai acabar com toda nossa dor em segundos. Meu pai se aproxima pergunta qual é o meu problema porque ainda estou parada, ele corre pega minhas botas e joga em meu colo grita para eu vesti-las, vejo a porta se abrir e todos correndo para fora, sinto o cheiro da fumaça, coço o nariz e volto a olhar através da janela. Meu irmão mais velho me pega no colo e corre para debaixo de uma arvore onde minha família se protege, mas se proteger do que? Se proteger pra que? Eu sinto o ardor do fogo se aproximando, olho meus queridos amados e sinto uma angustia enorme se erguem em meu peito. Eu sinto cheiro de fumaça vejo cinzas espalhadas por toda a colina, de longe avisto o céu vermelho e colunas de fogo que se erguem céu acima. Todos correm e o fogo aumenta. Eu sinto cheiro de fumaça não posso fazer nada a não ser... Ir de encontro ao fogo, me entregar a ele e sentir o que ele quer, eu sei que ele quer o que eu carrego no peito, olho para trás e me despeço da minha família com o olhar, sigo em rumo as chamas, minha mãe grita, mas eu não ouço, meus ouvidos estão tampados.
As chamas percorrem pelo meu corpo, sinto queimar, mas não sinto dor, é tudo um alivio, vejo minha família chorar, vejo meus amigos queimar, eu quis me ofertar a esse fogo, quis entregar o que carrego no peito pra ele poupar minha família, esquecer toda essa guerra, o fogo rugi e o tremor invade meu peito matando tudo aquilo que eu tinha, levando tudo o que eu sou, levando, meus medos, meus fracassos, minhas derrotas, meu orgulho, tudo se transforma em cinza, o cheiro da fumaça esta muito forte e eu odeio esse cheiro, porque fumaça não cheira a flores? E então a nostalgia me invade em meus últimos minutos, exatamente neste lugar foi onde cresci, o fogo invade minha casa, queima meu quarto, queima minha história, ele percorre até uma arvore gigante onde minha família se abriga e então o fogo cessa.
– O fogo cessou e a fumaça abaixou, nunca passei tanto medo igual a este dia, minha irmã Charlotte não se moveu por um segundo enquanto todos estavam em pânico e foi em meio ao nada que a vi correndo até as chamas cruéis de um vulcão em erupção, eu não sei bem o que ela fez, mas sei que deu certo, em meio as cinzas como uma fênix um pássaro vermelho ressurgi, percebi ali em meio a todo esse vazio que aquela era minha irmã, ela dera sua vida, sua alma para salvar minha familia, minha pequena irmã guerreira, seus cabelos ruivos como o fogo, sempre forte como uma rocha e sempre ágil, todos os vivos se ajoelharam ao redor das cinzas, o pássaro vermelho voou, abriu suas asas enormes e voou através do imenso céu vermelho abrindo espaço por onde passava e eu soube então que há muito tempo houve uma lenda de uma garota chamada dama de fogo, essa lenda foi real, essa lenda foi vivida, essa lenda foi da minha dama de fogo, essa lenda foi de Charlotte a grande dama de fogo. – Jhown conclui a história.
– Vovô, você realmente a conheceu?
–Sim querida e ela ainda vive entre nós – Jhown termina a frase e observa o pássaro vermelho pousado em sua janela.
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