A criação II
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Notas iniciais
Continuo olhando para o espelho nos minutos que se seguem. Ritho e John não estão mais batendo na porta e Sara sussurra algo para eles. “Meu irmão precisa de um tempinho. Muitas informações na cabeça dele!” Ouvi sua voz como se estivesse do meu lado, mas na verdade estávamos tão afastados que me assustei com a capacidade que tinha em ouvi-la daquela distância. O que estava acontecendo comigo?
Primeiro a forma com que escapei do carro, quando tudo estava desabando. Tirei Mike de lá como um super-herói, desaparecendo dos escombros e reaparecendo em um local seguro. Depois o escudo elétrico contra as hélices. Minha cabeça iria explodir a qualquer momento, os pensamentos fervilhando como nunca.
— Ôh, Will! Sabemos que é tudo muito estranho, mas você vai se acostumar. Não se preocupe, agora estamos seguros. — A voz grossa de Ritho deslizou para dentro do banheiro como um eco.
— Bom, acho que já está na hora de deixar de ser um bebê chorão. — Dessa vez era minha irmã. — Deixa esse penico de lado, bocó.
Abri a porta instantaneamente, irritado com o comentário de Sara.
— Não tem penico aqui! E não sou um bebê chorão.
— Nós entendemos que você precisava trocar o visual, mas você deveria avisar que faria isso. Achamos que se cortaria até a morte. — Sara disse mais uma vez, estreitando os olhos e zoando o meu novo penteado.
Ficamos calados por alguns minutos. Guardei a faca em uma mochila que John me deu e fui passeando os olhos pelo cubículo em que estávamos. Era apertadíssimo, parecia ter apenas dois cômodos: A sala e o banheiro em que eu estava. Colchonetes estavam espalhados pelo chão e uma vela dava pouca iluminação para o lugar.
— Agora é sério, você está se sentindo melhor? — John perguntou ao meu lado.
— É, eu estou bem. — Não tinha necessidade de mentir para o garoto, fora ele mesmo que derrubara a nave, então mudei o discurso repentinamente. — Na verdade eu estou aterrorizado. Jimmy morreu na minha frente e eu não fiz nada. Você tentou ajuda-lo, desceu da van e ainda atirou no monstro. O que eu fiz? Fiquei que nem um idiota, completamente estático. Só estou atrapalhando vocês.
— Você não tem culpa de nada. Aliás, se não tivesse sido por você, também estaríamos mortos. Destruiu as hélices... Como você fez aquilo? — John fez com que eu tomasse um susto. Não esperava que ninguém perguntasse e percebi que Ritho e Sara também estavam esperando pela minha resposta.
— Eu não sei. Sinceramente, acho que ainda vou lhe dizer como fiz, mas até agora não faço a mínima ideia. — Mudei o rumo da conversa, virando o corpo para Sara. — Aliás, você me deve algumas explicações.
Ela me olhou por um bom tempo, depois para os outros garotos, sentou em um colchonete perto de uma janela coberta por panos e pediu que eu fizesse o mesmo.
— Na noite antes de tudo acontecer. Eu, você, Tiffany e Alex, um restaurante legal, uma conversa que se tornou realidade. Lembra? — Retornar ao passado doía muito. Parecia tudo muito distante. A verdade era que eu ainda não tinha parado para pensar sobre essas coisas. Ela continuou. — Disse que algo grandioso estava para acontecer, com base em algumas informações que estavam rolando no meio cientifico. O objeto que estava se aproximando da Terra não era um meteoro e não era apenas um.
— Naves. — Deduzi.
— Já chegaram atacando. Sem bandeira branca ou reunião com o governo, sem camuflagens nem nada. As armas deles são potentes e nem se comparam com as nossas. Resistimos nos primeiros dias. Forças Especiais foram formadas e o combate durou algumas semanas. Os soldados foram morrendo aos poucos, até que os meios de comunicação foram desativados. Tudo foi destruído muito rapidamente, em um piscar de olhos. As cidades foram ficando desertas e os hospitais menos lotados. A fragilidade da raça humana foi exposta e nós passamos a nos esconder como ratos nos esgotos. — Ela estava olhando para o próprio pé, os olhos lacrimejando.
— Quanto tempo eu fiquei naquele hospital? — Minha voz estava mais fraca, arrastada.
— Dois meses. — Quem respondeu foi John, curto e grosso. Meu coração bateu aceleradamente e eu fiz de tudo para não transparecer o horror que nascera dentro de mim. — Eu ajudei a sua irmã a escapar de um deles. Montaram um refúgio em uma determinada parte de Cleveland, nosso objetivo maior era ir lá.
— Mas eu não queria abandoná-lo, Will. — Sara tornou a falar. — John e eu acampamos em um apartamento em frente ao hospital, vigiando-o todo dia. Atirávamos em qualquer alienígena que tentasse se aproximar das entradas do prédio em que você estava. Nós fazíamos visitas diárias a você. Só não o tiramos de lá por conta dos equipamentos, por algum motivo ainda estavam ligados e acredito que aquilo o mantinha vivo.
— Não estavam lá quando eu acordei, acredito que tenha acontecido algo que os fizeram recuar. — Meus olhos encontraram o de Sara, tomados por ondas de lágrimas.
— O nosso pequeno acampamento foi invadido. Os alienígenas destroçaram tudo que havia lá, incluindo a minha família. — John diminuiu o tom de voz, abaixando a cabeça. — Então eu, Sara e meu irmão, partimos para o refúgio. Descobrimos que era real e que os monstros não iam para lá por algum motivo. Sua irmã criou amizade com o general nas semanas que se passaram e acabou ganhando a permissão de vim até aqui resgatá-lo. Tivemos a sorte de encontrá-lo vivo.
— Uau, então tudo isso foi organizado. Eu não sei nem como agradecer, vocês lutaram para me resgatar. Jimmy morreu por mim. — O peso de ter dito aquilo me fez suspirar tristemente. Estava prestes a agradecê-los mais uma vez, se não fosse o barulho de passos acelerados vindo do lado de fora.
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