A criação II
3 Através da janela
Notas iniciais
O barulho dos passos não cessou nos minutos que seguiram. Prolongados e altos. Pés se arrastando pelo chão atrás das paredes de concreto que nos separavam. O que era aquilo? Sara pareceu ler a minha mente. Encostou seus lábios em meus ouvidos e sussurrou, pedindo que eu fosse até a janela. Quando chegamos lá, ela me mostrou uma brecha entre as tábuas e eu pude ver, com um tremor vivo em meu peito, as sombras humanoides do lado de fora.
— Sara, que merda é essa? — Estreitei os olhos com força, tentando ver melhor.
— Você não lembra? Foi atacado por um deles no hospital. Também vimos um ferido, antes de sermos atacados pela nave. — Ela respondeu.
— Eles são alienígenas também? Se é que posso usar esse nome para o azulão de maiô da última vez.
— Chamamos esses daí de Auxiliadores. — Ritho pigarreou, depois inclinou-se, cruzou os braços e continuou a falar. — Os Alienígenas costumam capturar crianças, que acabam se transformando nisso. Parece que elas perdem a memória e ganham um único objetivo: Usar as sanguessugas que carregam para adquirir energia. Como elas acham essa energia? — Ele suspirou e apontou para o próprio peito. — Meu amigo caiu no truque de uma dessas crianças. A sanguessuga chupou a energia dele até que virasse cinza. Foi horrível.
— Por isso a criança do hospital, digo... O Auxiliador do hospital não me matou enquanto eu estava adormecido. Não tinha energia suficiente para fornecê-la, esperou que eu acordasse...
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Foquei na rua mais uma vez. Dessa vez vi tudo com mais clareza. A multidão de crianças carecas vestindo branco caminhando para algum lugar, uma espécie de passeata.
— Para onde todos eles estão indo? — Perguntei.
— Sempre é assim. Toda meia-noite eles se reúnem em um ponto especifico da cidade, depois trilham um caminho até a nave central. — Já tinha a próxima pergunta formulada, quando John continuou a falar, respondendo-a. — A nave central fica na área norte. Imagine uma esfera enorme de boliche, triplique.
Não consegui segurar o terror e esbocei um olhar exclamativo.
— Relaxa, ela não se move e não nos ataca. Mas cospe milhares de naves menores como aquela que tentou nos destroçar. — Sara deu uma breve risada, retomando uma pose de durona.
Ritho tossiu no canto da sala, pegou três latas de feijão e jogou para nós.
Enquanto comia, fui organizando as milhares de perguntas que ainda tinha, mescladas ao cheiro convidativo da comida enlatada. A principal era a respeito das coisas que o alienígena tinha dito, quando estávamos tentando escapar. A dor de ter que imaginar como as coisas estavam do lado de fora corroía meu coração. Então, antes de fazê-las, Ritho mudou de assunto abruptamente.
—Will, nós fizemos uma estratégia enquanto você estava desmaiado. — Deixei um “quê” escapulir, mas ele pareceu não se importar. — Não sabemos o que você fez para destruir aquelas hélices e não nos importamos com isso, o mais importante agora é chegar até o acampamento seguro, onde estávamos antes de resolvermos resgatá-lo.
— Vão tentar culpá-lo pela morte de Jimmy, mas saiba que ele tinha noção dos riscos que estava correndo. Tenho certeza que iremos atravessar a cidade com sucesso e chegar ao refúgio em segurança. — Sara falou ao meu lado.
Abaixei o rosto, demonstrando uma timidez inevitável.
— Eu realmente sinto muito pelo que aconteceu. Estou pronto para ajudá-los, sei que posso fazer isso. Quando iremos partir? — Meus olhos se encontraram com o do resto do grupo, mas dessa vez não os abaixei.
— Amanhã mesmo. Nós já preparamos as malas. — John apontou para umas sacolas no canto da sala, depois se virou para mim. — E você? Está pronto?
***
O vento gelado havia partido e o sol consumia a manhã em fúria. Eu derrubei uma daquelas crianças alguns quarteirões a frente do prédio em que passamos a noite, meus pés chutando-a agressivamente. Mesmo com aquele olhar inocente, não podia, de forma alguma, demonstrar fraqueza para uma delas.
À medida que o tempo passava, nossos corpos se espremiam por passagens cada vez mais curtas. Uma ânsia terrível de vômito surgiu quando uma espécie de caranguejo enorme surgiu na rua seguinte, o corpo de costas para nós, as garras estralando com frequência. O barulho me fez lembrar do acidente na ambulância e o meu coração gelou. Já tinha sido atacado por um daquele e não queria ser novamente.
— Por aqui! — Ritho gritou do outro lado da rua e nós o acompanhamos.
John ameaçou usar o arco, mas a criatura não deu importância e seguiu caminho contrário ao nosso.
A faca que eu segurava estava molhada do suor de minhas mãos, sua lâmina tremendo como nunca. Continuamos daquela forma por algumas horas. Atentos, os olhos vidrados em cada espaçozinho do nosso caminho. As queimaduras em minha perna latejavam, assim como as feridas enfaixadas do acidente na ambulância.
Nada tentou nos atacar desde o caranguejo enorme e eu, apesar de estranho, gastava o tempo contemplando o cenário apocalíptico da nova cidade de Cleveland: Prédios caídos, escombros formando um labirinto de obstáculos e corpos por todos os lados, empilhados de forma organizada.
Algo pipocava vez ou outra, como um curto circuito. Em um certo momento da caminhada, pensei em comentar sobre as falas do alienígena, mas concentrar-me na missão de chegar vivo ao acampamento parecia melhor.
— A noite está chegando, é melhor procurarmos um lugar para passar a noite. Amanhã caminharemos pela via e provavelmente acharemos um carro por lá. — Todos aceitaram a proposta de John e, uns trinta minutos depois, já andávamos na ponta dos pés em um corredor abafado de um desses pequenos apartamentos. Ritho na frente, com a arma erguida, seguido por Sara.
Olhamos quase todos os cômodos e já havíamos colocado todas as sacolas na mesa de uma cozinha muito bem arrumada. Fui verificar um último quarto no andar de cima, uma lanterna que Ritho me dera varria a escuridão e me dava mais segurança. Quando arrastei a porta, consegui ver, através do canto do olho, a mão feroz que me acertar com um porrete. Meu corpo desabou e, ao abrir os olhos, vi um rosto familiar se aproximando de mim, os olhos arregalados e a boca se movimentando com lentidão.
“Will! É você?” Eu escutei aquela doce voz inundando pelo quarto, arrastando-se para dentro de mim. Depois que a tontura se foi, arrisquei uma palavra ou outra, mas a garota revirou os olhos, como sempre fizera. É, Tiffany nunca iria mudar.
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