A coragem de encontrar-me
22 [Parte III - Poder] Capítulo 21: Demônios sentem tédio
Notas iniciais
O laboratório de Purah está lotado. Por puro acaso — apesar de eu estar me questionando se isso realmente existe — hoje todos estavam em Hateno. Tauro estava de passagem entre uma de suas expedições. Paya e Impa, que raramente saia de Kakariko, estavam visitando Purah. Junto com elas, vieram Cado e Dorian, para escoltá-las durante o caminho. Robbie e sua nova esposa tinham vindo para buscar algumas peças das estruturas Sheikah que foram desmontadas e estavam guardadas aqui no vilarejo. Os líderes ou representantes das outras tribos — Teba, Riju (e Buliara, consequentemente), Sidon e Yunobo (dos Gorons, moradores do vulcão de Eldin) — tinham vindo conhecer a escola que foi construída, para talvez replicar a ideia em suas respectivas cidades.
Então, quando a Lua de Sangue apareceu algumas horas atrás, a primeira reação de todos foi a de ir direto para a casa de Purah. Zelda e eu fomos os últimos a chegar — afinal, a janta tinha acabado de ficar pronta —, e todos estavam no meio de discussões acaloradas. No meio da cacofonia, era impossível distinguir quem dizia cada coisa.
— Será que Ganon irá atacar novamente?
— A Zelda não tinha selado ele?
— Nós precisamos nos certificar de que as florestas estão seguras — as crianças se acostumaram a brincar lá!
— Como está o preparo de Zelda e Link para o tal “renascimento Dele” que fomos avisados?
— Deveríamos implementar políticas de segurança melhores em relação a todos estes turistas que estão vindo para a região de Hyrule?
— Purah, tem alguma coisa decente para comer? Já fazem horas desde que jantei aquele assado de pedra. As comidas de vocês são muito molengas.
— Como anda o treinamento em habilidades de luta e defesa dos voluntários?
— Tenho certeza de que Link e Zelda vão conseguir resolver isso!
Quando fechamos a porta atrás de nós, um silêncio agourento se faz. Todos param de falar imediatamente, as mãos paralisadas nos gestos que faziam para ilustrar seus argumentos, e olham para nós. Depois de alguns segundos constrangedores, Sidon grita, com uma animação que não cabe na situação atual.
— LINK, ZELDA! QUE BOM QUE VOCÊS CHEGARAM, MEUS AMIGOS! — exclama, feliz, ignorando os olhares tortos de alguns na sala.
— Oi, Sidon — Zelda o cumprimenta, desconcertada. — Não esperávamos que estivessem todos aqui.
— E para onde mais deveríamos ir, princesa? — diz Buliara, de forma rude. — Como estão seus esforços para lidar com a situação?
Zelda se retrai com a hostilidade de Buliara. Sei que ela está apenas preocupada com sua tribo e com Riju, mas acho desnecessário o tom que ela usa e me irrito.
— Estamos progredindo no ritmo em que devemos progredir — retruco, ríspido.
— É mesmo? Ou será que teremos que esperar mais uma tragédia e 100 anos antes de resolvermos mais esse problema? — rebate, ácida, sem se abalar com minha fúria.
— Senhores, vamos nos acalmar — interrompe Impa, serena.
Imediatamente, todos se calam. Não existe uma pessoa sequer no reino que não respeite sua opinião. A atenção se volta para ela, apesar de Buliara e eu ainda trocarmos olhares hostis. Aperto a mão de Zelda, reforçando que estou aqui a seu lado. Ela me olha rapidamente com gratidão.
— Todos vimos que a Lua de Sangue surgiu hoje, à meia-noite, como costumava acontecer no auge da Calamidade. Todos fomos avisados que o retorno de uma ameaça à paz em Hyrule estava fadado a ocorrer logo. Todos estamos na mesma página em relação ao que houve. O que precisamos agora não é apontar dedos um na direção do outro para procurar por culpados ou responsáveis — e sim definir quais serão os próximos passos. Agora, mais do que nunca antes, precisamos nos unir e nos apoiar para evitar um novo desastre.
Impa se volta para mim.
— Link, é chegado o momento de você resgatar a última memória — diz seriamente. — Você deve fazer isso o quanto antes. E você, Zelda — prossegue, se direcionando para ela. — Deverá fazer a peregrinação até o alto do Monte Lanayru, para visitar a Fonte Sagrada da Sabedoria. É imprescindível que Link a acompanhe nessa jornada. Sei que você teme essa visita, visto o que aconteceu da última vez que você foi até lá — completa, se referindo ao dia em que a Calamidade atacou (no aniversário de Zelda) mais de um século atrás. — Mas independente do que aconteça, você não estará sozinha.
Depois, se vira de costas para nós, ficando de frente para todos os outros.
— Mais alguma coisa? — pergunta à sala.
Sidon se adianta.
— Eu, assim como minha irmã Mipha, estou à disposição para o que a família real de Hyrule precisar. Você tem a lealdade dos Zora, Zelda.
— E de nós também, querida — declara Riju, ignorando os olhares de Buliara. — Você é praticamente uma de nós, faz parte da família Gerudo. Estaremos aqui para o que precisar.
— Pode contar com os Gorons também! — diz Yunobo. — Todos nos lembramos de sua ajuda com Vah Rudania, Link.
— E com os Rito — completa Teba. — Nunca vamos nos esquecer de como você domou a Vah Medoh em pleno voo — mesmo sem ter asas.
Me sinto emocionado com as declarações de apoio de todas as tribos. Olho para Zelda e vejo que ela também está sorrindo e tentando refrear as lágrimas.
Purah gesticula para Paya, Impa, Tauro e Robbie.
— Não preciso nem dizer nós também estamos aqui para o que der e vier, né — diz, sorrindo. — Agora saiam todos da minha casa, eu preciso dormir.
— — -
Zelda e eu caminhamos em silêncio de volta ao chalé. Decidimos que eu devo resgatar a última memória que os Links me instruíram ainda hoje. O dia já está amanhecendo, e nos sentamos ao pé da árvore. Estamos ambos tensos com o que os últimos trechos da história irão nos ensinar. Nos últimos meses, nossa vida se equilibrou de uma maneira tão perfeita que não sabemos nem explicar direito o que foi que aconteceu. Entretanto, tudo parece muito frágil ainda.
Sei que Zelda se sente insegura, com medo de que eu fuja novamente; mas, apesar de ela odiar essa vulnerabilidade, ainda assim entregou seu coração para mim mais uma vez. Eu, por outro lado, todos os dias faço tudo o que posso para honrar essa confiança.
Nossa conexão é intensa, e aparenta ser muito maior e profunda do que somos capazes de compreender. Parece intangível, inevitável, como se algo externo à nós nos empurrasse um na direção do outro. É aterrador — e maravilhoso.
Tentando fazer um experimento, pego a Ocarina e, antes de tocar a Canção do Tempo, toco o Ode ao Oculto. Torcendo para que a invisibilidade se mantenha — mesmo sabendo que ela não tem efeito com Hylia — inicio a travessia ao passado enquanto Zelda permanece sentada ao meu lado, fazendo um carinho preguiçoso em minha perna.
Após os poucos instantes excruciantes, vejo que estou de volta ao antigo templo onde me encontrei com Hylia. Satisfeito, vejo que ainda estou invisível. Percebo que estou de volta atrás da coluna onde me escondi da última vez.
Chego no momento em que Demise faz o homem desconhecido surgir, desacordado, aos pés de Hylia — que está no alto da plataforma desta ala do templo. Assisto quando ela se abaixa, desesperada, sobre ele e Demise avança lentamente, subindo as escadas em sua direção.
— FIQUE LONGE DE NÓS! — grita, seu rosto distorcido pelo ódio.
Em um gesto que já vi antes, ela estende as mãos e, sem um segundo de hesitação, joga uma coluna de energia dourada em Demise, que é lançado vários metros para trás — mas não cai.
Hylia olha ao redor em pânico, tentando decidir o que fazer a seguir. Ela pega o homem no colo, como se ele não pesasse nada, e corre para a câmara anterior do templo. Movido por uma curiosidade mórbida, vou atrás dela. Ouço ele, mesmo desmaiado, gemer de dor — e vejo que onde ela encostou nele tudo foi queimado: roupas e pele. Assisto enquanto ela o deita no chão com cuidado no canto da sala.
Hylia pega a espada que estava jogada ali perto, e caminha a passos decididos de volta para a ala principal do templo. Hesito por alguns segundos, analisando o homem desconhecido. Ele parece estar com alguns ferimentos — além das queimaduras causadas por Hylia — e sua respiração é difícil, entrecortada. De uma maneira bizarra, sinto uma leve dor nos mesmos pontos onde ele está ferido, como uma lembrança fantasma.
Decido deixá-lo ali e corro de volta para assistir ao que acontece a seguir entre Hylia e Demise. Se ela percebeu que estou de volta, não disse nada. Ela desce a escadaria com firmeza e elegância, empunhando a espada com segurança.
Demise dá uma risada carregada de escárnio e incredulidade.
— Dessa vez você vai lutar contra mim, Hylia? Com essa espadinha minúscula? — zomba. — Pelos céus, quando eu acho que não pode ficar melhor. Que delícia.
A expressão no rosto de Hylia é de puro nojo.
— O que aconteceu com você, Demise? — pergunta, com tristeza. — Em todas as outras iterações dos mundos você era pura entropia. Não havia maldade em suas ações. As coisas simplesmente acabavam… Você não se materializava nas terras para queimar famílias inteiras vivas.
— E você representava estabilidade e prosperidade, Hylia. Também não descia até os mundos, e não tinha nenhum apego ou ressalva quando era chegada a hora do fim. E, ainda assim, dessa vez você se apaixonou por um mortal — Demise faz uma pausa para rir com gosto, como se a ideia fosse completamente absurda para ele. — O que podemos dizer? As coisas mudaram. Talvez as deusas alteraram a fórmula da criação nessa rodada.
Hylia para a alguns metros de distância de Demise, pega de surpresa com sua suposição.
— O que você quer dizer com isso?
— Você não percebeu, Hylia? As emoções? Nas outras iterações nós éramos apenas forças da natureza. Ou você lembra de se importar, de verdade, com as criações anteriores?
Hylia franze o cenho, pensativa.
— Eu mal me recordo das criações anteriores — admite, vulnerável.
— Exatamente. As emoções eram exclusivas aos seres mortais. Por algum motivo, nós fomos contaminados com essa praga agora. Se isso foi um feito das deusas, ou apenas um colateral do quanto esse mundo prosperou nas últimas décadas — o povo de Lanayru chegou ao ponto de aprender a minerar e usar as Pedras que permitem viajar no tempo! —, não saberemos. E, honestamente, isso sequer faz diferença? O resultado é que eu desejo um final sangrento, com destruição, caos e gritos. E você quer a minha destruição. Não vamos fingir que isso tudo não se tornou pessoal agora, Hylia.
— E o que acontece se a gente se destruir nessa batalha, Demise?
— Minha teoria? A ordem natural das coisas vai ser alterada para algo que não sabemos ainda. Vai ser divertido ter algo novo para experienciar, não?
E, com isso, sem se conter mais, ele se lança para cima de Hylia com a espada erguida. Os dois duelam ferozmente; ela se defende dos ataques com elegância e graça, e ele avança com brutalidade e força. Do lado de fora, o silêncio foi quebrado como se uma ordem silenciosa tivesse sido emitida e, como as portas da frente estão escancaradas, consigo ver hylians lutando bravamente contra as hordas de Demise. Reconheço os monstros, pois são muito parecidos com os que lutei contra nas minhas próprias batalhas.
Hylia resiste com firmeza contra as investidas de Demise, mas ela tem menos força do que ele e está perdendo terreno. Ele está avançando para cá, na direção das escadas que levam à sala onde está o homem sem nome, e Hylia tenta impedir sua aproximação. Ouço um barulho atrás de mim e noto que o homem despertou e está se levantando com dificuldade. Sem saber para que lado olhar, viro a cabeça freneticamente tentando acompanhar os dois desenrolares da situação.
Demise e Hylia estão quase na base da escada. O homem avança rapidamente na direção da luta, apesar de estar coxeando. Horrorizado, vejo que Demise consegue desarmar Hylia, lançando a espada longe, na direção do fundo do templo. Ela aterriza bem aos meus pés. Hylia cai sentada no chão.
Vejo que o homem sem nome está próximo do degrau mais alto da escada. Tudo acontece em menos de dois segundos. Demise percebe a presença dele, satisfeito, e hesita — provavelmente querendo destruí-lo primeiro, antes de terminar com Hylia. Sem pensar, chuto a espada na direção do homem, que está a alguns metros de distância de mim. Ele também age por instinto, pega a espada e se lança do topo da escadaria, cravando a espada bem na testa de Demise, atravessando seu crânio.
Antes mesmo de chegar no chão, Demise se desfaz em uma mistura de poeira e fumaça escuras e densas, que se alastram pelo templo inteiro e permanecem. O homem cai no chão, completamente pálido e desfalecido.
Ao ver isso, Hylia se lança onde ele está, em pânico.
— Meu amor! — grita, tentando acordá-lo.
As pálpebras dele se mexem fracamente e ele abre um pouco os olhos. Enquanto ele a encara, não existe nada além de admiração e ternura no seu olhar. Vejo que ela suspira, aliviada por ele ainda está consciente.
— Como você conseguiu chegar até nós?
Ele franze a testa, pensando.
— Eu… estava na beira da escada e… a espada simplesmente deslizou até os meus pés.
Hylia olha para trás, na minha direção.
— Obrigada — ela murmura silenciosamente, com um sorriso cheio de gratidão.
Em seguida, seu rosto se contorce em pânico ao perceber que o homem está perdendo a consciência.
— Não, não, meu amor! Fique acordado, eu posso te curar, mas você precisa estar aqui ainda — diz, e eu vejo ela estender as mãos sobre ele.
Depois de alguns segundos de concentração, ela solta um grito de frustração ao perceber que não está funcionando.
— Não, não, você já está iniciando a passagem — suplica, desesperada.
Espantado, percebo que ela está chorando. Não sabia que era possível que uma deusa chorasse.
— Se você se for… eu nunca mais irei te ver.
Então ela para por um segundo e olha para mim. Seu olhar se transforma enquanto ela parece compreender alguma coisa. Ela olha de volta para o homem, e em seguida para a espada.
O homem não percebe o gesto, pois está com os olhos fechados. Ele os abre somente um pouco, reunindo toda sua força para dizer:
— Eu não quero nenhuma forma de existência onde você não esteja, Hylia.
Isso parece consolidar a decisão que ela estava tomando. Sem perder nem mais um segundo e se movendo rapidamente, Hylia usa seu braço esquerdo para fazer o homem ficar sentado, seu rosto se contorcendo de dor ao ouvir os gritos de agonia dele por conta de seu toque, e com sua mão direita ela segura a espada com firmeza.
— Me perdoe, meu amor. Nos encontraremos em outra vida — e atravessa o coração dele com a lâmina.
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