A coragem de encontrar-me

20 Capítulo 19: Pego em flagrante


Notas iniciais
POV Link

Fecho a porta do chalé atrás de mim, após acompanhar Zelda até sua casa. Acabamos de decidir suspender as operações de exploração nos andares subterrâneos do Castelo de Hyrule — em conjunto com Purah, Robbie e Paya, que recentemente assumiu o lugar de Impa como líder dos Sheikah. Impa decidiu há alguns meses que estava na hora de se aposentar.

Estamos preocupados de que o aparecimento deste estranho gás tóxico seja um presságio de que o ataque final que fomos alertados está prestes a acontecer. Por este motivo, concordamos que eu deveria retomar a busca ao Passado — como tinha me aconselhado a árvore Deku tantos anos atrás.

Me recosto na árvore ao lado do chalé, pego a Ocarina e, após alguns segundos de hesitação me preparando para as terríveis sensações da viagem, toco a Canção do Tempo, focando no segundo destino.

Assim como da última vez, ser carregado de volta ao passado é uma experiência horrorosa. Contudo, estando preparado por isso, dessa vez não vomito nem caio no chão feito um saco de batatas.

Percebo que estou ao lado de fora. Diante de mim, há uma grande escadaria de pedra e ao fundo existe uma floresta. Me viro e vejo uma porta dupla de pedra, que parece ser uma entrada lateral para algum tipo de templo. Uma energia intensa emana desta entrada e suponho que devo entrar. Seguindo as orientações, toco o Ode ao Oculto e, novamente, fico invisível.

Com cuidado para não fazer nenhum barulho, empurro a porta lentamente — torcendo para que não tenha ninguém olhando nessa direção. Entro na construção e vejo que está vazia. Realmente é um templo, muito amplo, completamente construído em pedra. Diversos arcos levam a diferentes alas. No centro, várias colunas formam um corredor desde a entrada principal até uma escadaria no fundo da sala. Vejo que no alto das escadas, ao final de uma plataforma, a parede na verdade é composta por gigantescas portas deslizantes, também de pedra.

Elas estão ligeiramente entreabertas e uma luz intensa dourada brilha escapa de lá. Após alguns segundos a luminância se dissipa subitamente e as portas abrem lentamente.

Por instinto, corro para trás de uma das colunas; sei que não há necessidade uma vez que não estou visível — mas decido escutar minha intuição.

Pela abertura, surge uma mulher alta que parece ser feita de pura energia. Hipnotizado, vejo quando sua pele lentamente deixa de reluzir e passa a se tornar como a de um hylian comum. Seu cabelo é de um loiro quase branco e muito longo. Ela veste uma túnica branca que termina pouco acima dos seus pés descalços. A maneira como ela se move é estranhamente familiar. Observo, também, que ela carrega uma pequena espada de cabo turquesa, similar à que Zelda descreveu de suas memórias.

Entendo, então, que estou diante de Hylia. Ela olha com curiosidade na direção da coluna onde estou escondido, e se vira para caminhar na minha direção. Porém, nesse momento, as portas frontais do tempo se abrem e o homem que vi da última vez entra a passos firmes. Ao ver Hylia, ele se ajoelha e se curva em uma reverência, com uma mão sobre o coração.

— Deusa Hylia — sua voz está carregada de emoção e seu olhar está baixo. — Vim assim que as chuvas abrandaram. Muitos dos vilarejos ao longo do caminho foram destruídos. Demise e suas hordas queimaram dezenas de casas com suas respectivas famílias ainda dentro. Não houve tempo de salvá-los.

A dor nos olhos de Hylia ao ouvir suas palavras é indescritível.

— Se levante, por favor, meu amor. Já lhe pedi que não fizesse reverências à mim — pede ternamente.

Completamente absorto na cena, assisto enquanto o homem se levanta e caminha em direção à deusa. Ela estende a espada para ele, que a segura com cuidado antes de avaliá-la, pesando-a nas mãos e fazendo alguns movimentos cortando o ar para testar sua precisão. Os dois tomam cuidado para não tocar um no outro.

— É uma arma magnífica, Hylia. Essa lâmina… ela está imbuída com seu poder?

— Sim… eu a criei a partir da minha energia de luz — diz, sem conseguir esconder o orgulho que sente. — Acredito que se atingirmos Demise com ela, ele cairá. E, então, finalmente teremos paz.

O homem assente tranquilamente, como se estivessem decidindo o que iriam jantar — não como se estes fossem os preparativos para o que, efetivamente, pode ser sua última batalha. Seus olhos e sua voz estão cheio de determinação quando ele diz:

— Iremos acabar com esse sofrimento hoje.

Hylia olha para ele com carinho e gratidão.

— Obrigada, meu amor. Nada disso seria possível sem sua lealdade e coragem.

O homem abaixa a cabeça em agradecimento. Depois, eles se encaram por alguns instantes sem dizer nada.

— Creio que não conseguiremos alterar o curso do ataque — ele prossegue. — Tudo indica que as hordas estão se dirigindo aqui para o templo. Como você fará para proteger a entrada para o Domínio Sagrado?

Hylia estende a mão para pegar a espada de volta e dá um sorriso travesso.

— Não se preocupe, eu tenho um plano — diz, enigmática. — Vá reunir os exércitos e retorne para cá o mais rápido o possível.

O homem faz uma breve reverência — o que faz com que Hylia revire os olhos em desagrado — e se retira. Assim que as portas se fecham atrás dele, a voz dela se eleva.

— Você, escondido atrás da coluna. Apareça agora — ordena, fazendo meu coração disparar no mesmo instante.

Penso em fugir, tentar tocar a Ocarina e voltar para o presente, mas sei que não conseguiria lutar contra uma deusa. Olho para baixo e vejo que ainda estou invisível. Dou um passo para o lado, entrando no campo de visão de Hylia, de frente para ela. Ela faz um gesto com a mão e vejo que minha invisibilidade termina.

— Aproxime-se — ordena.

Completamente em pânico de causar o que o herói do Tempo chamou de “mais uma ramificação na Linha do Tempo”, mas sem a possibilidade de ignorar uma ordem de Hylia, caminho lentamente em sua direção — com as mãos erguidas, para mostrar que estou desarmado.

— Percebi sua presença assim que apareceu por aqui. Mas vi que seu coração é puro e não existe má intenção em sua observação curiosa. Não quis que ele te visse… então aguardei que até se retirasse antes de falarmos.

Ela desce os degraus e para pouco à minha frente. Preciso olhar para cima, pois ela é muito mais alta que eu.

— Eu te conheço. Sua energia parece… — mas se cala, franzindo o cenho. — Não é possível. Diga-me, soldado. De onde você veio? O que está procurando aqui?

Fico paralisado por alguns segundos, e ela me encoraja a prosseguir.

— Eu… sou de um tempo muito distante. Eu vim do futuro.

Ela inclina a cabeça, ainda mais confusa, e me encara profundamente — como se tentasse ler minha alma.

— Curioso… Quando não estou materializada, eu estou sentada à beira do Tempo. E, ainda assim, não consigo reconhecer sua origem. Me pergunto como seria possível…

Sem saber o que dizer, apenas fico parado em silêncio. Após alguns segundos, Hylia prossegue.

— Retornando à minha pergunta. O que está procurando aqui?

— Respostas? — pergunto, aturdido. — Não sei. Me instruíram a vir aqui aprender sobre o que tinha acontecido no passado… — tento explicar mas, nesse momento, sou interrompido por uma grande comoção vinda do lado de fora. Gritos, estrondos…

Estão tentando derrubar a porta principal do templo.

Hylia fica em pânico.

— Não! — grita, horrorizada. — Pensei que tinha mais tempo… vá, vá, volte para seu tempo! Essa batalha não é sua — ordena, enquanto se vira e sobe as escadas correndo.

Meu instinto me diz para ficar e ajudar. No entanto, isso iria contra tudo o que os Links me instruíram. Então, sem querer causar ainda mais problemas, acato suas ordens. Pego a Ocarina, toco a Canção do Tempo e logo sinto o familiar puxão que me retorna para o presente.

Completamente consternado, caio no chão em frente ao chalé de Zelda. Olho ao redor, preocupado que minha interação com Hylia tenha causado algum efeito neste tempo. Tudo parece estar igual a quando eu saí, no entanto.

Sem pensar duas vezes, abro a porta do chalé sem nem ao menos bater antes. Zelda me olha assustada, exatamente no mesmo lugar onde estava quando eu me despedi dela mais cedo. Entendo que, para ela, devem ter se passado apenas alguns minutos. Desesperado demais para esperar sua reação, exclamo:

— Você precisa resgatar sua próxima memória agora.

Seus olhos estão cheios de confusão, uma vez que ela sabe que eu tenho ciência de que ela não consegue controlar quando receberá a próxima lembrança.

— Ela me viu, Zelda — digo, em agonia, enquanto ela continua me olhando sem entender. — Hylia, Hylia percebeu que eu estava ali!

Zelda arregala os olhos, agora compartilhando da minha preocupação.

— Os outros Links não disseram para que você evitasse justamente isso?!

— Eu estava invisível, não achei que ela fosse perceber minha presença! Aliás, antes de chegar na cena, eu nem sabia que ela estaria presente!

— Ela é uma deusa, é CLARO que ela ia conseguir ver através desse encantamentinho da Ocarina, Link! — diz Zelda, com as mãos na cabeça.

— Como eu ia adivinhar?!

— Eu não sei! E agora?!

— Agora precisamos que você se lembre do que acontece a seguir, para vermos se minha presença causou algum problema. E depois precisamos dar uma olhada no reino para ver se algo mudou.

— Eu não sei fazer as lembranças virem quando eu quero, Link! Como vou fazer isso? — questiona, andando desesperada pelo chalé.

— Sei lá! Da última vez não veio em sonho? Vai dormir, então!

— COMO, depois de toda essa agitação?! E por que você não volta lá e descobre, então?

— Eu não aguento fazer duas viagens em seguida. E nós precisamos saber o que Hylia percebeu desse encontro, da perspectiva dela.

Tentamos nos acalmar, ponderando o que fazer em seguida.

— A gente pode ir andar um pouco, para que eu me canse — sugere Zelda. — Ainda está cedo… não são nem sete horas.

Fico surpreso, pois sinto como se estivesse acordado há um dia inteiro. Concordo, e saímos do chalé.

— Quer que eu sele os cavalos? — pergunto.

— Não… vamos a pé. É mais cansativo.

— Alguma sugestão de onde quer ir?

Zelda olha ao redor, pensativa.

— Hm… eu sempre quis saber o que tem no alto desse morro aqui atrás do chalé. Poderíamos subir até lá. Aí aproveitamos e procuramos se tem algo de estranho no reino, já que estaremos alto. Se bem que… se você tiver alterado o passado, eu não vou perceber diferença, né? Será que minhas memórias também mudariam?

Dou de ombros, pois não faço ideia. Nunca passei muito tempo questionando os efeitos de viagens no tempo. Mas acho uma ideia tão boa quanto qualquer outra, então acato sua sugestão e seguimos. Em algum momento do passado eu já devo ter ido até o pico desta montanha, mas não me lembro do que tem ali.

Caminhamos em silêncio, seguindo pelas trilhas menos íngremes que levam ao topo do morro. A jornada demoraria algumas horas. Depois de algum tempo, quando chegamos quase na metade do caminho, Zelda começa a ficar para trás — parando para respirar com frequência.

— Já cansada, princesa? — brinco, feliz com a intimidade que construímos ao longo dos últimos meses.

Ela mostra a língua em resposta à minha provocação. Em seguida, dá um pequena risada também.

— Acho que estamos andando muito a cavalo ultimamente. Estou fora de forma.

Espero alguns minutos até que ela se recupere, e seguimos na trilha. Ela pede, então, que eu fale sobre alguma coisa de forma a distraí-la do esforço de subir a montanha. Conto, portanto, sobre o que vi nessa última viagem — já que, devido à urgência com que entrei no chalé, não consegui dar maiores detalhes antes.

Explico sobre o templo onde fui parar, e como ele me pareceu estranhamente familiar. Cito que vi Hylia e o homem desconhecido interagindo, e sua teoria de como a espada que criou poderia destruir Demise. Descrevo a arma e Zelda confirma que é a mesma que viu. Com isso, confirmamos que definitivamente estamos recuperando trechos da mesma história.

— Me pergunto por que essa história em específico — reflete Zelda. — Esses problemas todos parecem tão distantes de nós. Até agora, nós nunca nem tínhamos ouvido falar nessa tal Triforce.

— Também não consegui identificar uma conexão ainda. Mas deve ser importante… por que nos enviariam nessa jornada, ao mesmo tempo, se não fosse?

Zelda dá de ombros, compartilhando o sentimento.

— Sabe uma coisa engraçada? — digo. Ela me olha com curiosidade. — Hylia… quando ela apareceu, ela me pareceu muito familiar. A princípio, pensei que fosse apenas uma impressão, considerando que existem várias estátuas dela por toda Hyrule. Mas não poderia ser isso, pois as estátuas não se parecem em nada com ela. Só que observando você caminhar agora… foi de você quem me lembrei — reflito, intrigado. — Vocês se movem de maneira muito parecida.

Zelda olha para mim com incredulidade e diversão no olhar.

— Está me chamando de deusa, Link? Que tipo de cantada é essa? — responde, gargalhando.

Percebendo meu próprio absurdo, dou risada também.

— A relação entre ela e o homem sem nome é fascinante… — pondera, Zelda. — Mesmo sendo de mundos completamente distintos… ainda assim eles criaram uma conexão tão forte. Me pergunto se eles conseguiram ficar juntos no final disso tudo.

Enquanto ela termina esta frase, chegamos ao pico do morro. Bem no centro do pequeno platô, existe um lago. No entanto, como um mau presságio, vemos que ele tem o formato de um coração… partido.