A coragem de encontrar-me

10 Capítulo 9: Chega de templos!


Notas iniciais
POV Link

Meu coração está pulando desenfreadamente em meu peito. Sinto a ansiedade travar minha garganta e me paralisar quando vejo Zelda sentada, de costas para mim, em uma pedra no alto da colina. Meus braços doem com a saudade, e isso me impele a correr em sua direção.

Ela não ouve minha aproximação. Paro a um passo de distância dela, inseguro de como prosseguir. Respiro fundo, reunindo coragem, e chamo seu nome. Mas, quando abro minha boca, nenhuma palavra sai. Sinto a temperatura caindo repentinamente, entrando em meus ossos. Estico meu braço e toco em seu ombro, para tentar chamar sua atenção, e percebo que sua pele esta gelada.

O ar parece ficar mais rarefeito a cada segundo, como se algo sugasse todo o oxigênio da atmosfera. Minha respiração fica mais curta, entrecortada, sofrida. A falta de ar começa a me gerar pânico, e então Zelda lentamente se levanta. Assisto, sem conseguir me mover, enquanto ela anda para longe. Quando está a poucos passos de distância da beira do penhasco, ela se vira para mim e seus olhos estão frios e sem vida. Seu rosto, sem nenhuma expressão.

— Você causou isso — declara, e, sem hesitar, tomba seu corpo para trás caindo em direção ao vazio.

Tento me lançar em direção a ela para fazer algo, mas meus pés estão presos no chão. No segundo seguinte, o céu fica vermelho a uma horda de demônios de Ganon surge ao meu redor, ao mesmo tempo em que o chão se desfaz sob meus pés.

Acordo sobressaltado, o terror ainda correndo pelo meu corpo. As janelas do quarto estão escancaradas e o sol bate forte em meu torso nu. Já deve ter passado do meio-dia. O cheiro forte de maresia me atinge, me trazendo de volta a realidade. Ouço as ondas do mar quebrando na praia e seu ritmo lento e constante me ajuda a controlar a respiração. Apenas a ansiedade, minha eterna companheira nos últimos anos, não me abandona completamente.

Este pesadelo de hoje não é inédito. Desde que parti de Hyrule, o tive múltiplas vezes por semana. Com o tempo sua frequência foi diminuindo — apesar de nunca ter desaparecido. As palavras da árvore Deku, dizendo que teríamos “apenas mais alguns anos de paz”, ecoam em meu cérebro constantemente. Inúmeras vezes me questionei se não deveria simplesmente voltar. Mas também me foi dito para “buscar entender o passado”.

O problema é que eu não faço ideia de como fazer isso.

Já se passaram pouco mais de 5 anos desde a minha partida, e eu obtive um total de zero porcento de progresso. Não descobri nada sobre o tal “Passado” — não sei nem ao menos de quem ou do quê eu devo procurar a história. Poucos meses depois de sair em direção ao desconhecido com Kass, ele decidiu retornar para Hyrule. ”Quase meio ano e não descobrimos nada”, disse ele. ”Acredito que não conseguiremos encontrar nenhuma informação, Link. Sugiro que voltemos, e então os cientistas de lá decidem o que fazer a seguir.”

Mas eu recusei e disse que continuaria buscando; o que era, em parte, verdade. Não foquei especificamente nas tecnologias ancestrais, mas em qualquer coisa que pudesse me ensinar mais sobre o Passado. E, nos primeiros meses, cruzei muitas terras. A princípio, falava com todos os viajantes que cruzavam meu caminho. Ouvia suas histórias, aprendia sobre o lugar onde eu estava, de onde vieram, para onde iam. Me juntei a caravanas de expedição para conhecer novos destinos.

Foi em uma dessas aventuras, cerca de um ano após me separar de Kass, que acabei chegando na ilha Koholint. Alguns jovens entusiasmados que conheci me contaram que a ilha foi batizada em homenagem à de uma lenda popular na região onde eu estava naquela semana. Disseram que a história contava sobre uma ilha que foi criada a partir do sonho de uma criatura sobrenatural, e que tanto ela como seus moradores eram apenas feitos de pura imaginação. Essa fábula nasceu há muito tempo, de maneira que não souberam me falar a origem. A única coisa que sabiam era que, em um certo dia, num passado longínquo, um jovem náufrago vestido de verde surgiu na costa falando sobre peixes mágicos voadores, instrumentos musicais, sonhos e pesadelos, e a ilha que desapareceu tão magicamente quanto tinha aparecido.

Por séculos, isso foi repassado de boca a boca, até se tornar folclore. Tenho certeza de que a cada ano a história foi aumentada, ficando cada vez mais fantasiosa toda vez que uma nova pessoa a contava.

Porém… por algum motivo, ela ressoou comigo. Então, quando o grupo me convidou a participar da expedição à ilha que fora nomeada por causa deste conto, não pensei duas vezes antes de aceitar.

E, quando meus pés tocaram a areia da praia de Torombo — como me disseram chamar aquele lugar —, um estranho torpor tomou conta de mim. Tudo lá era novo, e ao mesmo tempo, estranhamente familiar. A ilha pulsava com uma energia intensa, densa e lenta, que trazia inquietação mas ao mesmo tempo te convidava a ficar um pouco mais.

Algumas semanas depois, o grupo com quem eu cheguei, partiu. ”Só mais um mês”, pensei. Esse mês virou dois, que viraram seis, e, antes que eu me desse conta, vários anos passaram por mim.

Com um aperto no coração percebo que hoje é aniversário de Zelda. Provavelmente foi por isso que tive o pesadelo novamente essa manhã. Me sento à mesa que fica no pequeno chalé onde estou morando e pego meu diário na bolsa. Este foi um hábito que iniciei depois de acordar do coma. Costumava fazer breves anotações na Tela Sheika, mas, quando as tecnologias ancestrais pararam de funcionar, perdi todas aquelas entradas.
Então resolvi voltar ao caderno e à caneta. Este hábito foi a única coisa que me manteve ciente de quanto tempo se passou desde o início desta aventura — se é que posso chamá-la disso —, pois, em poucas semanas, os dias e os lugares começaram a se misturar na minha memória.

Koholint Island

22 de setembro, ano 5, dia 1947

Início da tarde

Nesta manhã, tive o pesadelo novamente. Já faziam alguns meses desde a última vez. Foi exatamente igual aos anteriores.

Fui dormir tarde ontem, como tem acontecido com cada vez mais frequência. Desde que cheguei à ilha, tenho sentido muito mais sono do que o comum. Então acordar depois do meio-dia se tornou um hábito rapidamente.

Hoje é aniversário de Zelda.

Alguns dias são piores que outros. Hoje, sinto como se o peso da saudade fosse capaz de me esmagar.

Será que ela também sente minha falta?

Espero que não. Espero que ela tenha encontrado felicidade.

Fecho o diário, sem ter mais o que adicionar. De forma mecânica, me visto e saio em direção à praia. Para me manter na ilha, hoje trabalho como ajudante de cozinha em um dos quiosques que ficam à beira-mar. A princípio procurei emprego como guarda-costas, mas rapidamente percebi que não funcionaria: ali era tranquilo demais, não havia crimes ou perigo.

Então, em uma noite, enquanto cozinhava para mim, como de costume, em uma fogueira improvisada na areia, com alguns ingredientes que encontrei na floresta, o dono de um dos quiosques percebeu. Pediu para provar, se surpreendeu — e eu também, pois não via nada demais em meia dúzia de cogumelos tostados — e me ofereceu uma emprego.

Achei a ideia divertida, completamente diferente de tudo que fiz até o momento. E, surpreso, me vi executando bem a função. Sempre gostei de cozinhar para mim, e não vi muita diferença em fazer o mesmo para várias pessoas. O chef parecia gostar da minha performance, e a pequena equipe era unida e gentil.

— Oi, Link! — me cumprimenta Marin, uma das garçonetes.

O quiosque abriria daqui há poucas horas, então ela estava sentada em um tronco de árvore caído no chão, observando o mar.

— Que cara terrível, dormiu mal hoje?

— Oi, Marin, boa tarde — cumprimento de volta enquanto me sento no tronco também.

— Sonhou com a Zelda novamente?

Marin era o mais próximo que eu tinha de uma amizade aqui na ilha. Todos eram gentis, mas eu não consegui me conectar com outras pessoas. Algumas semanas depois de eu começar a trabalhar no quiosque, quando ficamos sozinhos para limpá-lo após ele fechar no início da madrugada, ela tentou me beijar. Fiquei surpreso e demorei alguns segundos para reagir, pois não esperava por isso — nunca soube ler os sinais do flerte. Confuso, tentei retribuir, mas era estranho demais, errado. Não era Zelda. E mais alguma coisa, que não consegui decifrar o que era, me incomodou. Após poucos instantes, a afastei delicadamente.

— Desculpe — falei apenas.

Mas sua autoconfiança era tão grande que minha rejeição não a abalou nem por um instante.

— Hum, estou sentindo uma história por aí. Qual o nome dela? — perguntou, enxerida, enquanto retomava a limpeza como se nada tivesse acontecido.

E, estranhamente, eu me senti confortável o suficiente para contar tudo o que tinha acontecido. Todos os anos pré-Calamidade, a queda do reino, minha amnésia, a derrota de Ganon, minha fuga de Hyrule. E, claro, Zelda. Falei sobre nossa relação complicada, meus sentimentos confusos, o rompimento, e como ela simplesmente se recusava a sair do meu coração mesmo depois de tantos anos.

Naquele dia, nossa amizade foi consolidada. Depois de me ouvir falar por horas a fio, ela também compartilhou toda a sua como se me conhecesse há anos. Eventualmente descobri o que me incomodou: Marin me lembrava minha irmã, que morreu, ainda criança, na Calamidade junto com meu pai. Até mesmo sua aparência me lembrava um pouco dela. Não percebi inicialmente pois tinha perdido todas minhas memórias em relação a eles durante a amnésia, e só as recuperei depois de alguns meses aqui em Koholint.

— Interessante. Já fazia algum tempo desde a última vez, não?

— Sim… alguns meses. Hoje é aniversário dela… e da Calamidade também. Gostaria de saber como ela está — admito.

— Por que você não volta? O que aquela árvore velha sabe, de qualquer maneira? Deve estar senil já, depois de tantos anos — diz, brincando.

Rio, sem muito entusiasmo.

— Eu não posso, você sabe. Não ainda.

— Mas você nem sabe atrás do quê está indo! Inclusive, nos últimos anos, não te vi fazer nada a respeito disso nenhuma vez — cutuca, sem ressalvas.

Marin é assim, direta. Não vê sentido em rodear os assuntos, sempre vai direto ao ponto. Nesse ponto, ela é meu oposto direto — pelo menos, se comparado a quando cheguei à ilha. Nos últimos anos procurei desenvolver minha assertividade, observando como ela se comunica.

— Sei disso também. Não sei, Marin, alguma coisa nessa ilha parece me deixar letárgico. Talvez eu deva sair daqui mesmo… Mas, sei lá, sinto que ainda falta eu descobrir alguma coisa aqui. Só não tenho ideia do quê.

— Aí fica fácil — brinca, irônica.

Ficamos alguns momentos em silêncio, observando as ondas quebrando na orla da praia.

— Uma vez você me disse que eu te lembrava sua irmã — começa. — Vou usar isso como uma desculpa para me intrometer e te dar um conselho não-solicitado.

Reviro os olhos, contrariado.

— É a cara dela fazer algo desse tipo mesmo.

— Ótimo — comemora, satisfeita. — Bem… esses dias eu estava na biblioteca aqui da ilha, procurando algo que ainda não tivesse lido. Enquanto revirava as prateleiras, encontrei um livro diferente, com cara de ser muito antigo. Tipo, muito.

Minha curiosidade se acende.

— E o que tinha nele?

— Bom, ele estava em um alfabeto diferente. Então não entendi nada.

— Aí fica fácil — repito sua ironia.

Ao ver que estou distraído, ela me dá um empurrão, fazendo com que eu caia na areia.

— Vai me deixar terminar de falar? — reclama.

— Desculpe. Prossiga, por obséquio — resmungo, em tom exageradamente formal. Fico sentado onde caí e me recosto no tronco, de forma que não a vejo mais — apenas escuto enquanto ela continua.

— Bom. Não deu pra entender quase nada do que tinha nele. Mas tinha uma ilustração lá de uma construção que eu reconheci aqui da ilha. E alguém rabiscou “Templo do Sonho” embaixo.

Suspiro, cansado. Mais templos? Os 120 que eu precisei visitar em Hyrule para me preparar para lutar contra Ganon não foram suficientes para uma vida inteira?

Mas, em contrapartida… Eu realmente fiquei muito mais forte ao explorá-los e cumprir seus desafios. Muito mais do que eu cheguei a ficar durante meus muitos anos de treinamento do exército.

Talvez valha a tentativa.

— O que você acha que tem lá? — pergunto.

— Calmante? Aulas de Yoga? Chá de camomila? — pondera, brincando. — Não faço ideia, mas pelo menos é algo diferente. Parece que fica aqui perto, no norte da vila. Se eu reconheci bem, é aquela casa em ruínas que fica perto da lojinha. Sabe, a que está bloqueada por pedras?

Balanço a cabeça em concordância. Já passei em frente àquela construção muitas vezes, e algo nela sempre me convidou a entrar. Mas ela estava com a entrada bloqueada e parecia não ter nada demais além de ruínas — algo que eu já vi mais que o suficiente na última década. E a preguiça que tomou conta de mim neste lugar foi maior do que minha curiosidade, de qualquer maneira.

— E como eu vou entrar lá? — questiono. Talvez o livro deu alguma dica.

— Isso me soa como um problema seu — responde, mal-criada.

Porém, de alguma forma, não soa rude — somente como uma provocação fraternal.

— Vou ter que te dar todas as respostas agora?

E, com isso, encerra o assunto. Se levanta e começa a caminhar em direção ao quiosque, enquanto cantarola uma melodia sobre uma garota que virou uma gaivota para cantar em terras desconhecidas.