A coragem de encontrar-me
23 Capítulo 22: O que não fazemos por amor?
Notas iniciais
O frio aqui é intenso e, mesmo com as diversas camadas de roupa, entra em meus ossos. A neve cai suavemente e derrete ao pousar em meu nariz. Link e eu estamos no alto do Monte Lanayru, diante da Fonte da Sabedoria. Enquanto nos aproximávamos, vi Naydra, o gigantesco dragão que sobrevoa esta região de Hyrule, protegendo-a. Existem mais dois, Dinraal e Farosh, cada um cobrindo uma área diferente da terra.
Observo-a flutuando muitos metros acima de nós, pacífica e graciosa.
— Os Zonai estavam certos em cultuá-los — constato, encantada. — Olha como ela é divina.
Ficamos admirando Naydra enquanto ela percorre sua rota e, eventualmente, desaparece por trás das gigantescas colunas de gelo que permeiam a montanha.
— Me pergunto como deve ser existir assim… tão… livre — pondero, pensativa.
Balanço a cabeça para quebrar o encanto e foco na tarefa a ser cumprida. Link me acompanha até a plataforma elevada da Fonte. Assim como nas outras, entre o lugar onde estou e a estátua de Hylia existe uma pequena lagoa. Respiro fundo, e entro na água.
A água é muito mais gelada do que nas outras fontes — mas não tanto quanto deveria, considerando que estamos em uma montanha de gelo. No entanto, aqui ela para na altura das minhas canelas, de maneira que não é um incômodo tão grande.
Três dias atrás Link resgatou sua última memória. Depois de desaparecer por alguns segundos ao tocar a Ocarina, ele reapareceu no mesmo lugar — pálido, suado e completamente transtornado.
— Ela o matou — disse, apenas.
A princípio, fiquei feliz. Imaginei que ele se referia a Demise. Mas, depois de alguns minutos se recuperando, ele me explicou a história completa.
— Por que ela faria isso? — questionei, sem entender.
— Não sei… mas precisamos ir até a Fonte da Sabedoria o quanto antes.
Então nos preparamos para a jornada. A Fonte não é tão distante de Hateno, mas a viagem é difícil por causa de sua localização, no alto do Monte Lanayru — que está sempre completo de neve e tem uma altitude terrível. Precisamos acampar em vários pontos ao longo do caminho, e, quanto mais nos aproximávamos do cume, maior a tensão que sentíamos.
Como das últimas vezes, fecho meus olhos e me concentro. Novamente sinto a água, agora gelada, subindo por mim.
— Fico feliz que tenha chegado até aqui, Zelda. — diz a voz em minha cabeça. — Vejo que você e Link já fizeram algumas suposições, mas ainda não entenderam a história completa. Vou sanar suas dúvidas hoje. Ao contrário das outras vezes, irei lhe apresentar a última memória agora. Mas preciso que Link também receba este conhecimento. Peça a ele que se junte a nós, por gentileza.
Confusa, acato sua ordem. Sem hesitar, Link entra na água e se aproxima até parar ao meu lado.
— Segure sua mão para que eu consiga transmitir a memória para ele também — diz a voz.
Entrelaço meus dedos no dele da maneira como já fizemos tantas vezes e sinto nossas mãos congelando de forma que não conseguimos soltar. Vejo que a água que me cobre começa a subir pelo braço dele a partir do ponto onde nos tocamos e o reveste em poucos segundos.
— Perfeito — escuto e, ao olhar para ele, percebo que ele também ouviu a voz. — Podemos começar então.
A cabeça dele tomba para trás e sangue começa a verter de sua boca, nariz, ouvidos e, claro, do ponto onde a espada o atravessou em seu coração. As lágrimas escorrem sem parar pelo meu rosto, a primeira vez em minha existência que experiencio o ato de chorar.
Sem poder perder nem um segundo agora, me concentro nos próximos passos. Por transformar a espada em um portal para o Domínio Sagrado, acredito que conseguirei transferir a alma dele para lá até conseguir decidir o que fazer em seguida. Dessa maneira, posso evitar que ela se dissolva de volta ao universo e mantenha sua individualidade.
A lâmina da espada, ainda atravessando seu corpo, brilha em um leve tom de azul enquanto murmuro algumas palavras para fazê-la capturar sua alma.
Devido ao caos que estava do lado de fora, ninguém viu o que aconteceu dentro do templo. Quando Demise caiu, todos os seus monstros também desapareceram. Mas muitos dos soldados estavam feridos da batalha, então, agora, os que estavam em melhor condição auxiliavam os que estavam mais machucados.
Sentindo que sua alma deixou completamente o corpo mas está segura dentro da espada, a retiro de seu peito com cuidado. Passo minha mão sobre seus ferimentos, sem encostar, fechando-os e limpando o sangue.
Deixo seu corpo deitado no chão do templo, pois preciso terminar de arrumar essa bagunça antes de enterrá-lo. Segurando a espada, me encaminho para o lado de fora do templo a partir da porta principal. Ao perceberem minha presença, todos os soldados param o que estavam fazendo e se ajoelham.
— Demise está morto — anuncio em voz alta, com firmeza.
Não é verdade, sua energia ainda permeia o Templo; mas falo ao povo o que eles precisam ouvir.
— No entanto, ainda não é seguro. Retornem para suas casas imediatamente, e se tranquem nelas até segunda ordem. Agradeço pelo seu serviço — e, enquanto lhes dou as ordens, vejo que existem pouquíssimos soldados aqui. Meu coração se aperta ao pensar em quantas vidas aquele demônio tomou.
Todos me obedecem sem questionar e em poucos minutos estou sozinha. Aqui do lado de fora do Templo existe uma estátua minha de tamanho descomunal. Os hylians a ergueram apesar dos meus protestos. Particularmente, não vejo nenhuma semelhança entre a imagem e eu. Mas hoje ela terá alguma serventia. Abaixo da estátua em si, existe uma base que posso transformar em uma pequena sala. Me aproximo da parede, digo algumas palavras enquanto encosto minha mão na pedra e, após alguns segundos, um arco roxo brilha nela e aparece uma passagem.
Entro na sala, descendo uma pequena rampa. Concentro minha energia e conjuro colunas, candelabros e um pequeno pedestal no meio. No centro do pedestal, crio uma base para guardar a espada.
Me ajoelho em frente a essa base e encaixo a espada em sua abertura. Seguro o cabo com as duas mãos, me preparando para fazer uma última viagem ao Domínio Sagrado.
Din, Farore e Nayru me recepcionam com curiosidade. Percebo que Demise tinha razão e elas não sentem emoções como os mortais — mesmo presenciando tudo o que aconteceu, elas não estão com raiva, medo, tristeza ou alegria. Apenas a mais pura curiosidade.
As três deusas não vivem no Domínio Sagrado e sim em algum lugar fora do tempo e espaço, onde nem mesmo eu tenho acesso. Mas elas conseguem entrar no Domínio quando querem, e eu só consigo me comunicar com elas a partir de lá.
— E essa agora, Hylia? O que foi que você fez? — indaga Din.
— Seu mortal debilitou Demise, uma força da natureza. Inacreditável — declara Farore.
— E você, por sua vez, terminou a vida do mortal para conservar sua alma? — diz Nayru, impressionada. — Fascinante.
— Você sabe que isso vai ter um preço, certo, Hylia? Tudo o que você fez ali foi contra as leis básicas que regem nosso universo — você interrompeu vários ciclos naturais apenas para suprir um capricho seu. Esperamos essas atitudes egoicas de mortais, não de deuses — diz Din. Todavia, em sua voz não há raiva; ela apenas constata fatos.
Aceno, pois estou ciente das consequências de meus atos.
— Você vai ter que abrir mão de sua forma divina — decreta Farore.
— Eu sei. Mas preciso que vocês me ajudem com um último favor antes — peço.
Curiosas com minha proposta, as deusas ficam em silêncio para ouvir meu pedido.
— Demise foi debilitado mas sua presença ainda é forte. Quando eu abrir mão da minha divindade, a energia ficará desequilibrada na terra. Ele… — digo, olhando para a nova esfera de energia que paira, inconsciente, aqui no Domínio Sagrado. — Ele vai conseguir terminar o que comecei. Mas a espada que criei não é forte o suficiente. Preciso que vocês o auxiliem a aprimorá-la, para que ela tenha o poder de controlar a energia destrutiva maligna de Demise de uma vez por todas. Que ela volte a ser somente a entropia comum e sem maldade. E ele também vai precisar conseguir resgatar a Triforce para devolvá-la aos mortais, já que eu não poderei mais fazer essa ponte.
As três ficam em silêncio por alguns instantes, poderando o que eu disse.
— Nossa energia é intensa demais para que um mortal consiga suportar, Hylia — diz Din.
— Mas… acho que conseguimos ajudar — diz Farore.
— Ele, o seu amado, vai precisar dividir o corpo com um mortal que tenha um Espírito Inquebrável. Mortais comuns não conseguirão carregar o Espírito do Herói dentro de si — explica Nayru.
— Além disso, ao aprimorar a espada ele precisará amadurecer junto com ela, para que tenha a capacidade de carregá-la. Cada uma de nós irá criar testes, aqui no Domínio Sagrado, para que ele desenvolva sua Coragem, Poder e Sabedoria. Apenas com essas qualidades ele conseguirá suportar a energia divina desta Espada Mestre — prossegue Farore.
Espada Mestre… Master Sword… Gosto do som deste nome para a arma.
— De quebra, uma vez com estas qualidades, ele poderá reivindicar a Triforce — conclui Din.
— Quanto a você — diz Nayru. — Assim que os arranjos forem terminados, você precisará abrir mão de sua forma divina. Mas poderá renascer como uma mortal. Por ainda ser uma deusa, que vive à beira do próprio tempo, parte de sua consciência permanecerá aqui. A outra parte, estará encarnada. No entanto, você só poderá utilizar seus poderes a partir do seu corpo mortal — e de maneira muito mais limitada do que consegue hoje.
— E encarnará sem memórias de sua existência enquanto deusa, obviamente — diz Farore.
— Se eu estarei sem memórias, como conseguirei acessar meus poderes? — pergunto, tentando entender a lógica delas.
Percebo que a atenção das três se volta para a alma adormecida dele.
— Ao contrário dele, que poderá encarnar em qualquer mortal — desde que este possua um Espírito Inquebrável —, você irá encarnar uma única vez. A partir de então, todas da sua linhagem terão a capacidade de canalizar seus poderes, pois terão sangue divino correndo em suas veias — inicia Din.
— Suas capacidades serão, em geral, limitadas. No entanto, nos tempos em que ele estiver encarnado, ele será sua resposta. Seu amor por ele permitirá que você consiga canalizar seus poderes em toda sua capacidade. Ele será sua conexão com sua consciência divina. Ele será seu link — finaliza Nayru.
Compreendendo seu plano, resta somente uma última dúvida.
— Por que vocês concordaram em me ajudar com isso? Não seria mais fácil só desmaterializar tudo e começar do zero?
A energia delas brilha intensamente, transbordando curiosidade.
— Às vezes isso aqui fica muito monótono — diz Din. — Você está nos proporcionando uma experiência nova. Obrigada por isso.
Saio do Domínio Sagrado, e inicio os preparativos finais. Conjuro uma consciência para a espada. Ela se apresenta em um formato humanóide, e sua pele é azul.
— Seu nome será Fi — digo. — Você irá residir na Master Sword, e irá guiá-lo e protegê-lo enquanto eu não puder me lembrar.
Ela ouve com atenção enquanto lhe informo de todos os detalhes necessários. Quando termino, ela entra na espada, onde viverá por toda a sua existência.
Com isso finalizado, saio da câmara de dentro da estátua e selo a porta atrás de mim. Vou até a entrada principal do Templo, levanto meus braços e canalizo toda a minha energia. A força é tamanha que meu corpo inteiro treme intensamente, e faço com que o pedaço de terra onde está a estátua e a câmara onde a Master Sword foi escondida se desprendam e sejam lançadas em direção aos céus. Faço isso com vários outros pedaços do território também, lançando os poucos sobreviventes, junto com suas casas, para morarem em ilhas flutuantes muito acima desta terra.
Então, conjuro uma grande e densa barreira de nuvens entre este novo reino e a terra abaixo. Os que estiverem abaixo das nuvens não conseguirão ver as ilhas flutuantes mas verão o firmamento normalmente. Os que estiverem acima, não conseguirão ver a terra abaixo e não saberão de sua existência — uma vez que mascarei suas memórias.
Por fim, entro no Templo, onde a energia de Demise vagueia sem rumo e confusa. A direciono para fora da construção e mando para o buraco profundo que restou do ponto onde ficava a estátua, e a forço dentro da terra. Para selar sua consciência, adiciono, no centro, uma estaca — que demarco com os símbolos sagrados para garantir que ele não escapará de lá tão cedo.
Olho ao redor, confusa, procurando pela espada que Demise carregava. Quando ele se desmaterializou ela caiu no chão do Templo, mas agora não consigo encontrá-la. Me sentindo fraca, resolvo não me preocupar com isso — provavelmente ela também se desintegrou durante o período que estive no Domínio Sagrado.
Sem nenhuma tarefa remanescente, caminho até o corpo dele e me deito ao seu lado. Gostaria de ter forças para enterrá-lo propriamente, mas sinto minha energia se dissipando. Decido permanecer ali, então, enquanto as deusas transmutam minha consciência e, enquanto eu observo seu rosto, digo minhas palavras finais antes de adormecer.
— Meu amor, espero que você tenha a coragem necessária para me encontrar.
Percebo que as memórias acabaram, mas Hylia ainda fala comigo e com Link.
— Vocês já devem ter percebido, mas, apenas para concluir: Zelda, você é uma descendente direta da minha primeira encarnação enquanto mortal, a Zelda de Skyloft. E você, Link, carrega dentro de si, junto com sua alma individual, o Espírito do Herói, o hylian que eu amei enquanto ainda era uma deusa. — diz, terminando sua história. — É por isso que existem outros Links e não outras Zeldas. Enquanto os jovens de Espírito Inquebrável tem uma alma dual, eu me manifesto através do sangue divino das Zeldas. E, por algum motivo desconhecido, quando vocês, Links, morrem, suas almas individuais não voltam pro tecido do universo mas permanecem em uma dimensão separada. Alguns dos Links anteriores te auxiliaram em sua jornada, mas não é a primeira vez que isso acontece. O Herói do Tempo, por exemplo, treinou o Herói do Twilight na missão dele.
— Entendi — respondo em voz alta para que Link também me escute. — Mas o que tudo isso tem a ver com Ganon e a Calamidade? E a Triforce, o que houve com ela? Por que esquecemos de sua existência? E o que é o problema antigo que os Links pediram que nós resolvêssemos? — pergunto, desesperada.
— Se dirijam até o Templo Esquecido em Hebra. Lá vocês encontrarão as respostas finais.
E, com isso, Hylia corta a conexão uma última vez.
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