A coragem de encontrar-me
18 Capítulo 17: Sobre arrependimentos e auto-piedade
Notas iniciais
Estamos sentados em silêncio na sala de Impa, nas almofadas no chão, aguardando Zelda. Quando entrei, Purah e Paya estavam em pé, conversando no canto da sala. Ao perceberem a minha presença, elas ficaram quietas e me cumprimentaram discretamente.
Ao me ver, Impa, que estava sentada em seu local de costume, na plataforma elevada aos fundos da sala, apenas sorriu e acenou com a cabeça. Eu estive aqui ontem e já adiantei algumas de minhas experiências com ela. Passei a noite na estalagem de Kakariko. Por esse motivo, tive a oportunidade de encontrar Zelda ao lado de fora agora há pouco.
A ansiedade em reencontrá-la me consumia. Fascinado, vi que ela cortou o cabelo — eu não tinha percebido no dia em que a vi com Tauro. O corte a deixou com um aspecto mais sério, mais maduro, e eu senti vontade de passar minhas mãos neles para sentir a textura macia dos fios. De segurá-la e nunca mais soltar.
Mas em seus olhos… neles havia apenas gelo e mágoa. Por um instante, ao ver que minha presença a fez sofrer novamente, desejei não ter voltado. Depois, desejei nunca ter partido. Desejei ter passado estes últimos anos com ela; que tivéssemos nos tornado adultos um ao lado do outro. As memórias haveriam de voltar de alguma outra maneira se tivesse sido assim, não?
Só que não foi assim que as coisas aconteceram. Eu cheguei a cogitar usar a Ocarina para voltar no tempo e mudar tudo — mas não poderia quebrar a confiança que os outros Links depositaram em mim ao me entregarem este artefato tão precioso. Então não tenho outra escolha além de lidar com as consequências das minhas decisões.
Meu corpo fica tenso ao notar a porta se abrir atrás de mim.
— Ah, que bom que você conseguiu se juntar a nós, Zelda — exclama Impa. — Venha, sente-se aqui perto.
Nos organizamos em um semi-circulo ao redor de Impa, para que possamos todos nos ver enquanto discutimos o que aprendemos até então. Zelda está de frente para mim, e preciso me monitorar para não encará-la. Decido olhar para o chão ao invés disso.
— Bem, acredito que todos já estejamos na mesma página do porquê nos reunimos hoje — começa Impa. — Zelda deu início à sua peregrinação às Fontes Sagradas. Purah me disse que você resgatou uma nova memória ontem, certo? Pode dividir conosco?
Zelda concorda e pega um caderno. O reconheço como seu diário.
Será que ela ainda escreve sobre mim também?
Ela explica sobre o sonho que teve na noite anterior. Aparentemente, foi uma memória que Hylia decidiu compartilhar com ela. Franzo a testa, pensativo, com o pressentimento de que estou deixando de fazer alguma conexão. Ela descreve Hylia dentro do Domínio Sagrado, afundada em preocupação e tentando evitar a destruição desejada por Demise.
— Muito interessante — diz Impa. — Acredito que você e Link estejam resgatando trechos da mesma história.
Zelda parece surpresa, mas não diz nada. Ao invés, aguarda que eu descreva a minha experiência. Até agora, apenas Impa sabe da viagem que fiz ao passado. Purah fica intrigada com minha narração.
Explico então a história completa. Como fui parar na ilha Koholint, o Templo do Sonho, os outros Links, a Ocarina. Purah pede para ver o objeto e eu o entrego a ela enquanto continuo falando. Descrevo como me instruíram a visitar pontos específicos do passado para observar a história no momento em que ela acontece. Falo sobre o homem que vi, que pareceu ser a mão direita de Hylia, e conto sobre as coisas que li em seu caderno. Deixo de fora o trecho onde ele admite amá-la.
— Percebem como as memórias de vocês convergem em vários momentos? — sinaliza Impa. — Vocês dois citaram o nome Demise, que parece ser o demônio que ameaçava a terra naquele período. Zelda, você me perguntou mais sobre a Triforce e eu não tinha muitas informações, mas as anotações que Link leu no caderno do homem desconhecido parecem responder muitas das suas dúvidas. O Domínio Sagrado também apareceu para vocês dois. Eu apostaria, inclusive, que a memória que você resgatou ontem, Zelda, é exatamente o momento que o homem desconhecido está aguardando Hylia voltar de sua última viagem ao Domínio Sagrado.
Balanço a cabeça, concordando. Isso faz total sentido.
— E onde está a Triforce agora, então? — questiona Zelda.
Impa dá de ombros.
— Ótima pergunta. Acho que vocês vão precisar continuar cavando essa história para descobrir.
— — -
Impa insistiu que ficássemos em Kakariko para jantar.
— Faz tanto tempo desde a última vez que conseguimos nos reunir assim — nos lembrou. — Vocês podem passar a noite aqui na vila e voltam aos seus afazeres pela manhã.
Desesperado por qualquer pretexto para estar sob o mesmo teto que Zelda, aceitei o convite sem pensar duas vezes.
No entanto, a noite foi exaustiva. A tensão constante entre nós dois drenou toda a minha energia. Nem mesmo o vinho — importado do vilarejo Rito — que Impa serviu ajudou a amenizar a atmosfera; serviu apenas para me deixar zonzo.
Sem conseguir evitar, em vários momentos me peguei procurando por ela. E com frequência notei ela me olhando de volta com uma curiosidade reprimida. Quando via que eu tinha reparado que ela estava encarando, seu olhar endurecia e então virava o rosto com raiva. Ficamos nesse jogo até a hora que decidi ir embora da casa de Impa.
Era depressivo me sentir como um estranho para ela, depois de tudo o que passamos juntos. Por isso, assim que foi possível, dei uma desculpa qualquer e saí antes dos outros.
Estou do lado de fora da casa agora, sentindo a brisa fresca batendo no meu rosto, tentando, em vão, recuperar a sobriedade. A noite está nublada e não é possível ver a lua. Percebo que o Templo Sheika que costumava ficar no alto da montanha à minha frente também foi destruído.
Ainda não estou com sono, então decido não retornar para a estalagem. Sem pensar muito, desço as escadarias e viro à esquerda. O vilarejo está silencioso, já deve ter passado das 10 da noite. Sigo a trilha até chegar ao cemitério da vila. Na verdade, é mais como um memorial, pois não há corpos enterrados aqui; apenas pedras que servem como túmulos, em homenagem aos que já partiram.
Aqui é tranquilo, e há uma grande árvore próxima à beirada do penhasco. Decido ficar atrás dela, de forma que ninguém possa me ver a partir do vilarejo. Pulo a pequena cerca de madeira e me sento na pedras.
À distância, consigo enxergar o castelo de Hyrule. Deste ponto, não é possível ver sua destruição. As nuvens pretas e carmim que cobriram ele durante a Calamidade já foram, há muito, dissipadas. Daqui, costumava ser possível ver várias Torres e Templos Sheika — principalmente à noite, pois eles brilhavam em tons intensos de azul ou laranja. Mas vejo que a maioria foi demolido, e só consigo ver as torres mais distantes, que ficam nas extremidades do reino.
Bêbado de vinho e de Zelda, meu cérebro está enevoado, sem conseguir parar em nenhum assunto em específico. Penso nas memórias que resgatamos e tento descobrir qual minha relação com o homem desconhecido, ou a de Zelda com Hylia. Procuro por conexões entre nós, o tal Demise e a Triforce. E como a égua daquele homem também se chamava Epona? Mas, depois de poucos minutos tentando focar em cada um desses assuntos, minha mente voltava para Zelda, relembrando como ela estava hoje, cada palavra que disse, cada movimento que fez. Abraço meus joelhos e descanso a testa neles.
— Estou começando a achar que você tem alguma coisa com árvores — uma voz conhecida se faz ouvir.
Levanto a cabeça e vejo que Zelda está se aproximando. Sinto meu coração parar por meio segundo. ”E você também”, penso, amargo, ao lembrar do armário que é Tauro, mas não digo nada. Dou apenas uma risada sem graça, entendendo que ela está se referindo ao dia que espionei — sem querer — ela e Tauro juntos.
Ela pula o cercado de segurança e se senta ao meu lado. Mais longe do que eu gostaria, mas consigo sentir seu calor esquentando meu braço esquerdo. Ficamos em silêncio por alguns minutos, observando Hyrule abaixo de nós.
— Eu achei que você nunca mais fosse voltar — Zelda quebra o silêncio sem rodeios. Sua voz está carregada de dor. Não sei o que dizer. — Por que você voltou, Link?
Ela me encara com intensidade, como uma súplica.
— Eu simplesmente… não consegui mais ficar longe — confesso e passo a mão no cabelo, envergonhado. — E, quando o pouco que consegui descobrir me direcionou de volta a você… nem pensei direito. Apenas decidi voltar.
Ela acena e pensa um pouco antes de responder.
— Eu pensei em você todos os dias desde que partiu.
Uma esperança irracional ameaça me invadir ao ouvir essas palavras e meu coração dispara, mas logo ela completa.
— Não me parece muito saudável, isso.
Ficamos em silêncio alguns segundos.
— Eu tive… ainda estou tendo, na verdade… um sonho recorrente com você — confesso, sem filtro por conta do vinho. Zelda me encara curiosa. — Nele, você cai, de costas, da beira de um penhasco… e eu não consigo fazer nada. E então Ganon ataca novamente.
Ela franze o cenho, pensativa.
— Será que nós não conseguimos obliterar ele direito na última batalha, Link? Será que é Ganon o ‘Ele’ que dizem que vai retornar?
Dou de ombros.
— Não sei, Zelda — pauso por um momento, apreciando a sensação de dizer seu nome enquanto fito seus olhos. — Talvez. Mas eu sei que, independente do que aconteça, eu não vou deixar que esse meu pesadelo se concretize — asseguro, com intensidade.
Olho pro chão, antes de continuar.
— Sei que você está com Tauro agora… e desejo felicidade a vocês — me forço a completar, apesar do gosto amargo que essas palavras têm em minha boca. — Mas, caso você permita, gostaria de retomar meu posto como seu guarda-costas, ao menos. Jamais seria capaz de me perdoar se algo acontecesse com você e eu não estivesse por perto para tentar impedir.
Ela fica estranhamente quieta por alguns segundos. E não estou preparado para ouvir suas próximas palavras.
— Não estamos mais juntos. Ele não quis se envolver com essa… bagunça que somos eu e você.
Olho para ela, em choque. Não pensei que seria tão simples assim, o caminho aberto novamente.
Percebo que, enquanto falávamos, nos inclinamos em direção um do outro inconscientemente. Se eu me aproximar só mais um pouco, conseguirei beijá-la. Acho que ela está pensando a mesma coisa, pois, enquanto me perco em seus olhos verdes, vejo que sua respiração está mais pesada — assim como a minha.
O ar fica mais denso e o tempo parece diminuir a velocidade. Uma brisa passa por nós e sou nocauteado pelo seu perfume, que faz meu sangue correr mais rápido. O mundo fica em silêncio, como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração, e eu consigo sentir meu coração batendo em meus ouvidos. Preciso tomar uma decisão, e precisa ser agora. Movido pela saudade, pelo desejo e pela oportunidade — e pela impulsividade do álcool —, me aproximo mais, tentando alcançar seus lábios.
Mas, ao invés de me encontrar na metade do caminho, ela se afasta. Subitamente, parece que a temperatura cai alguns graus e eu sinto frio.
Ela me encara, seu olhar cheio de dor e conflito. E um pouco de ultraje, noto, desconcertado.
— Não acho que isso seja uma boa ideia, Link — afirma, com a voz firme. — Você partiu para tentar se descobrir. E, no processo, partiu meu coração. Eu comecei a me reconstruir agora; você acabou de voltar, e nós dois ainda estamos nessa jornada para entender quem somos.
Meu rosto queima e eu desvio o olhar.
— Você tem razão. Me desculpe.
Ela volta a observar Hyrule, e parece focar na região nordeste, onde está o vulcão de Eldin.
— Preciso acordar as memórias restantes. Fi disse que eu saberia quando visitar a próxima fonte… acho que o momento chegou.
Engulo o constrangimento e reuno um pouco de coragem antes de perguntar.
— Posso escoltá-la?
Zelda esboça um sorriso triste, sem olhar para mim.
— Não esperaria nada além disso.
— — -
Decidimos partir direto de Kakariko na manhã seguinte. Tanto eu como Zelda tínhamos trazido bolsas com algumas trocas de roupa, e eu estou sempre preparado para uma jornada. Então não vimos necessidade em retornar a Hateno — já que nos atrasaria em quase um dia de viagem, por ser na direção oposta.
É nossa primeira jornada sozinhos desde a separação. As primeiras horas são preenchidas com nada além do nosso silêncio e o trotar suave de nossos cavalos. Me lembro destas estradas infestadas de monstros durante a Calamidade, e estranho a tranquilidade que elas apresentam agora. Nem mesmo os Yiga parecem estar ativos ultimamente — e reflito se isso não seria um mau sinal.
Com exceção de uma breve pausa na estalagem de Riverside para almoçarmos, passamos o dia inteiro na estrada.
Próximo do meio da tarde, Zelda quebrou o silêncio quando avistamos o vulcão Eldin, majestoso, à nossa frente.
— É magnífico, não acha?
Observo a montanha gigantesca à nossa frente. No auge da Calamidade, quando a Besta Divina Vah Rudania estava sob o domínio de Ganon, ele estava ativo — causando várias erupções e deixando a temperatura na região de Eldin infernal. Agora, com tudo controlado, é incrível ver quanto poder ele esconde e é capaz de produzir. Olho para Zelda, e vejo a mesma força nela.
— É maravilhoso — concordo.
Só falamos novamente ao anoitecer. A estalagem mais próxima fica fora do caminho que leva à Fonte do Poder, mas ainda estamos há mais de meio dia de viagem até chegar lá. Sugiro à Zelda que façamos uma pausa para descansar e retomemos a viagem no dia seguinte, pois não será um desvio muito grande.
Chegamos na estalagem em poucos minutos. Então eu preparo uma refeição para nós no tacho que fica do lado de fora e a partilhamos com calma. Ao fundo, é possível ver a antiga torre Sheika da região de Akkala. Vejo que ela está desativada, sem emitir nenhuma luz.
— A força tarefa ainda não chegou até aqui?”, pergunto, desesperado para puxar algum assunto e ouvir sua voz.
Zelda observa a torre enquanto me responde.
— Ainda não. Demoramos até decidir desmontar tudo, e priorizamos primeiro atacar os guardiões e as Bestas Dividas — já que representavam mais risco para nós. Inclusive, foi um grande tópico de discussão entre todo mundo se havia mesmo necessidade de demolir as Torres e os Templos também. No final, como a energia que parecia alimentá-los simplesmente esvaneceu, foi a escolha mais óbvia. E Purah e Robbie também estavam muito animados em colocar as mãos nessas peças para dissecar como elas funcionavam e reconstruírem como desejarem, então… — ela diz com humor, e dá de ombros.
Sorrimos um pro outro e, por um momento, é como se estivéssemos de volta ao tempo antes de Ganon atacar. Quando éramos apenas dois jovens peregrinando por Hyrule, que precisavam lidar somente com o peso do destino — e não também com o de nossas escolhas.
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