A coragem de encontrar-me
13 Capítulo 12: Sobre relíquias esquecidas e pesquisadores musculosos
Notas iniciais
— E então, Zel, quando vamos visitar a Fonte Sagrada na floresta de Faron? — pergunta Purah, enquanto eu observo um grupo de voluntários desmontando a Torre Sheika de Hateno. — Já se passaram dois meses desde que Fi te orientou a fazer isso. Uma hora você vai precisar parar de postergar.
Passo a mão no rosto, exasperada.
— Logo, Purah, logo”, digo, com leve irritação.
— Eu entendo que não deve ser fácil voltar nelas, mas acho que o quanto antes começar a aprender mais sobre…
— Purah, chega. Meus poderes se acalmaram novamente e não tive mais problemas desde aquele dia.
Não era verdade: eu acordei todos os dias desde então com aquele leve brilho dourado e a pele muito mais quente que o normal. Um de meus lençóis amanheceu com um buraco queimado na região onde minha mão direita estava encostando. Mas eu moro sozinha e ela não precisa saber disso.
— Eu entendo a necessidade, mas não estou pronta ainda.
Purah suspira, frustrada.
— O que Impa pensa sobre isso?
Ela sabe que eu respeito muito a opinião de Impa — e é exatamente por isso que estou evitando falar com ela. Não preciso de mais uma pessoa me pressionando a embarcar nessa jornada novamente.
— Ela acha que eu devo ir quando me sentir preparada — minto.
— Mentirosa. Eu falei com ela poucos dias atrás quando estive em Kakariko. Ela também acha que é essencial você ir o quanto antes.
Cerro os punhos enquanto sinto a irritação tomar conta de mim no mesmo segundo.
— Vocês andam fofocando de mim pelas minhas costas? — retruco, ríspida.
— Quando você está agindo como uma criança? Sim! — responde no mesmo tom.
— Ah, e vocês duas são muito mais sábias e inteligentes que qualquer um, com toda essa experiência de vida, né — digo, minha voz carregada de sarcasmo. — Vai, Purah, me diz o que eu preciso fazer, já que eu sou uma criança. Vai me mandar comer mais vegetais também?
As pessoas ao redor tentam disfarçar, fingindo que não estão notando a discussão. Dois jovens passam na minha frente, às costas de Purah, carregando o cristal gigantesco que ficava no alto da torre Sheika. Ainda não temos ideia de como ele funcionava, mas sabemos que ele conseguia extrair as informações regionais e as carregava dentro do mapa da Tela Sheika.
— Eu estou CANSADA, Purah! CANSADA de ter que ficar cuidado de tudo, CANSADA de correr atrás de um poder que primeiro foge de mim e depois quer me sobrepujar, e, principalmente CANSADA DE TODOS ME DIZENDO O QUE EU DEVO FAZER — grito, furiosa.
Nesse momento, o cristal que os jovens estavam carregando começa a brilhar num tom intenso de azul, tão intenso quanto a luz do sol, e instantes depois se estilhaça em um milhão de pedaços que voam como navalhas.
Um silêncio mortal cai no vilarejo. Todos que pararam para observar a cena, me encaram atônitos. Assustada, vejo que as pessoas que estavam mais próximas da explosão, sofreram vários pequenos cortes. Felizmente não houve ferimentos graves, mas ainda assim me sinto tomada pela culpa. Percebo que o cristal foi reduzido a pó.
Purah me encara com os braços cruzados, seu olhar cheio de frustração, como se eu fosse uma criança mimada dando um show de birra. A vergonha que eu sinto é sufocante, me paralisa e eu sinto, sim, como se tivesse 7 anos de idade novamente. Minha vontade é de fugir, chorando, me esconder debaixo da cama e esperar que alguém limpe minha bagunça e minha imagem.
Só que eu sou a Princesa deste lugar, e ainda estou conquistando a aceitação do povo. Meus súditos originais já morreram há muitas décadas, e esta nova geração ainda está desconfiada sobre minhas capacidades enquanto governante. Não questiono seu posicionamento — eu mesma sinto que estou apenas fingindo saber o que estou fazendo. O único motivo pelo o qual as pessoas me “aceitaram” como Princesa Regente foi o fato de os Sheika e os Zora terem me apoiado e confirmado para centenas de pessoas, muito confusas, que eu era sim a mesma Zelda que desapareceu há mais de 100 anos.
Algumas tribos demoraram mais para me aceitar. Os Gorons, o povo feito de pedra que vive próximo ao vulcão de Eldin, ficaram desconfiados por alguns meses. As Gerudo, algumas semanas; Riju tinha lido as anotações que Urbosa — a líder da tribo na época da Calamidade e a Campeã que pilotou a Besta Divina Vah Naboris — tinha feito sobre aqueles anos, então sabia um pouco mais sobre mim. Buliara, que é mais cautelosa, demorou um pouco mais antes de confiar em mim como líder.
Os Rito demoraram ainda mais. Teba, o guerreiro que auxiliou Link a recuperar a Besta Divina Vah Medoh, tinha sido recentemente nomeado como o novo líder da tribo — já que Kaneli declarou se sentir velho demais para continuar no cargo. Ainda inseguro em seu novo posto, estava muito mais cauteloso que o normal. Foi quase um ano até ele se sentir confortável em me aceitar como Princesa de Hyrule.
Tudo ainda era muito novo, frágil, inseguro. Minha reputação estava em construção, e qualquer coisa poderia fazer o povo se voltar contra mim. Eu poderia simplesmente desistir e deixar que as coisas seguissem como estavam antes de eu sair do transe. Mas aquele era meu reino, e eu queria vê-lo prosperar. Queria reconstruir as vilas, queria que novas pessoas se estabelecessem nas terras. Queria que o Castelo e a cidade ao seu redor fossem restaurados para sua antiga glória. Queria ver meu povo ter sucesso, a economia crescer, a cultura ficar mais rica. Eu amava esse lugar mais do que qualquer outra pessoa. Então não poderia simplesmente fugir.
Reunindo cada grama de força disponível no meu corpo, endireito minha postura e projeto a voz, para que todos que estão parados ali possam me ouvir.
— Povo de Hateno. Sinto muito pelo o que vocês tiveram que presenciar agora. Meus poderes — os mesmos que puseram fim ao reinado de terror de Ganon — voltaram a se manifestar.
Ao prosseguir, falo olhando para Purah.
— Ainda estou aprendendo o quão fortes eles podem ser, e como controlá-los. Nunca foi e nunca será minha intenção causar mal a ninguém. E, por este motivo, comunico que irei iniciar nos próximos dias meu treinamento, para que este tipo de situação nunca mais ocorra.
Purah balança a cabeça, concordando. Claramente não está satisfeita com o fato de que foi necessário eu machucar meu povo para enfim ceder, mas vejo que está aliviada com meu posicionamento.
O povo se dispersa — alguns voltando às suas atividades, outros se retirando para cuidar dos ferimentos. Purah se aproxima de mim.
— Fico feliz com sua postura, Zelda. Tenho certeza de que vai ser uma excelente líder quando desenvolver suas habilidades — diz, suavemente. — Partimos para Faron amanhã — declara, sem esperar minha opinião.
. . .
Suor escorre pelo meu rosto. Eu tinha me esquecido como é úmido e quente aqui em Faron. Mas minhas mãos estão geladas, e a ansiedade aumenta a cada segundo. A expectativa sobre mim está, novamente, muito alta. E, mais uma vez, eu não tenho outra escolha além aceitar esse destino e seguir em frente.
Estou parada em frente à entrada da Fonte Sagrada da Coragem. Ela se assemelha a um dragão gigantesco, como se eu estivesse prestes a entrar em sua enorme boca aberta. Muitas das ruínas aqui em Faron tem a temática de dragões, e meu lado pesquisador e curioso se questiona sobre o motivo. São construções magníficas, colossais. Com certeza deve haver alguma história interessante por trás.
Meu devaneio me acalma momentaneamente, mas quando foco novamente na tarefa à minha frente, volto a ser tomada pelo familiar gelo do pânico. Purah aperta meu ombro ao perceber minha tensão.
— Você consegue, Zelda. Vai ser mais fácil dessa vez, a Fi mesma te disse”, incentiva.
Apenas nós duas viemos, dessa vez. Eu não queria uma comitiva presente para testemunhar meu possível fracasso. Olho para ela, agradecida.
— Desculpe demorar tanto para vir. Obrigada por me acompanhar.
— Não é incomodo algum — sorri. — Entre quando se sentir confortável. Vou esperar aqui do lado de fora — avisa e se afasta para tomar notas.
Vejo que ela também está tentando capturar imagens com um novo aparato que está desenvolvendo: o “Purah Pad” — como o chamou. Depois que a Tela Sheika deixou de funcionar completamente, Purah a desmontou para tentar entender como funcionava e reaproveitou suas partes para tentar desenvolver algo similar — porém mais moderno. Ainda não estava funcionando perfeitamente, mas ela tinha conseguido fazer a câmera operar.
Volto a olhar para dentro da Fonte. Inspiro lentamente, tentando me acalmar. Conto até três e caminho para dentro da boca do dragão. A princípio o chão é de pedra, mas existe uma pequena lagoa que preciso atravessar para conseguir me aproximar da estátua de Hylia. Quando chego perto da borda, retiro minhas sandálias e entro na água, descalça.
Estou vestindo minha velha túnica branca — que consertei após falar com Fi, especialmente para esta jornada. Entro mais na lagoa até chegar em seu ponto mais profundo, onde a água chega na minha cintura. Estou a poucos metros de distância da imagem de Hylia, e decido iniciar minha meditação nesse ponto.
A água parece estar carregada de energia, que entra em mim desde as solas dos meus pés, faz seu caminho pelo meu corpo e sai pelas minhas mãos. Fecho os olhos e controlo minha respiração.
Inspiro.
Expiro.
Inspiro.
Expiro.
Nada.
A recorrente frustração começa a me possuir. Luto contra ela, tentando pensar no que Fi me disse. “Meditar nas fontes nunca foi a maneira de acordar suas habilidades, (…) mas é a resposta para acordar suas memórias. No entanto, sem o poder, você nunca conseguiria acessá-las.”
Sem o poder, eu não conseguiria acessá-las.
Resolvo fazer uma tentativa diferente. Coloco minhas mãos espalmadas na superfície da água. Tento me lembrar das sensações que tive nos momentos em que meus poderes se manifestaram. Lembro de como meus braços pareciam estar pegando fogo, de como as costas da minha mão direita formigava sensível em uma área que parecia delimitada num triângulo. De como meu corpo parecia mais firme, minhas articulações mais rígidas e precisas. De como meu coração batia de forma tão intensa que parecia que ia explodir. De como a energia parecia correr desde a base da minha coluna até o topo da minha cabeça, indo e voltando.
Lentamente, tudo isso deixa de ser uma memória e passam a ser sensações reais. Não abro os olhos para não perder a concentração, mas sinto que a água começa a se mover de maneira não natural. Ela parece se atrair para as minhas mãos, e começa a subir pelos meus braços e pelo meu tronco. Chega até a minha nuca e então minha cabeça, encharcando meu cabelo. Minha respiração se acalma sozinha, e estou completamente em paz. Em meu cérebro, não passa nenhum pensamento fora as sensações que estou sentindo neste instante.
Então, algumas imagens começam a se formar diante de mim. Diferente de quando eu fui transportada para dentro da Master Sword, desta vez eu percebo que continuo dentro do meu corpo, mas é como se minha mente tivesse desbloqueado acesso a uma nova dimensão.
”Zelda”, ouço uma voz feminina em minha mente.
Fico em silêncio, fazendo o máximo de esforço para não perder a concentração.
— Quem está falando? — pergunto em voz alta. — Onde você está?
”Aprenda sobre a Triforce”, diz, ignorando minhas perguntas. ”Este é o primeiro passo para que você se lembre.”
— Onde eu posso aprender sobre isso? Inclusive… o que é isso?
Três triângulos dourados, dispostos com dois na base e um no topo, surgem em minha mente. Reconheço a imagem, uma vez que ela está espalhada por toda Hyrule. Eu sempre julguei ser apenas uma decoração aleatória.
”Esse conhecimento nunca deveria ter sido esquecido. Fale com Impa, ela deve conseguir auxiliar.”
A conexão é cortada depois disso. A água que estava me cobrindo anormalmente cai de volta à fonte com um baque surdo. O esforço que eu estava fazendo para manter o poder ativo, drenou toda a energia que eu tinha. Sinto que vou desmaiar a qualquer momento.
— Purah — grito com a voz fraca, pedido ajuda.
No entanto, ela está muito longe — para lá da entrada da Fonte. Existe uma grande distância entre nós.
— Purah!! — tento gritar com mais intensidade, mas ainda é baixo demais para qualquer um fora da Fonte ouvir.
Minhas pernas cedem e eu vou afundar — o que é ridículo visto que a água bate em minha cintura.
— EI, MOÇA, VOCÊ ESTÁ BEM? — uma voz grave ecoa pela câmara da fonte. Antes de afundar, vejo um jovem vindo na minha direção. Mas logo a água cobre minha cabeça e eu perco os sentidos.
Acordo poucos minutos depois, deitada no chão de pedra. Há um rapaz ajoelhado ao meu lado, me observando com preocupação. Sua pele é bronzeada, e reparo, subitamente envergonhada, que ele está sem camisa — e que é muito forte. Subitamente alerta e consciente de que estou encarando, desvio o olhar.
— Ufa, que susto — diz. — Não achei que fosse possível alguém se afogar nessa lagoa, mas agora não duvido de mais nada.
Meu rosto esquenta.
— Acho que minha pressão caiu. Obrigada por me salvar — digo, com gratidão.
Sinto uma pontada no coração, pois o ato de “ser salva” me lembra de Link. Balanço a cabeça, dispersando o pensamento. Ele partiu há anos, não faz sentido ainda pensar nele.
— Como é seu nome? O que estava fazendo aqui?
— Meu nome é Tauro. Sou novo por esses lados. Eu sou pesquisador, passo minha vida visitando ruínas e aprendendo sobre a história de diferentes lugares. Ultimamente minha pesquisa esteve focada em um misterioso povo chamado “Zonai”, que, aparentemente, viveu nesta região e um dia desapareceu sem deixar rastros — fora suas construções. Então acabei vindo parar aqui, para estudá-las mais. Não reparei que tinha gente aqui na fonte até ver você se afogando. Peço desculpas se me intrometi em alguma cerimônia particular — diz, envergonhado.
— Sem problemas… se não estivesse aqui eu poderia ter morrido — brinco.
Por que me sinto culpada por conversar com este rapaz?
— É — Tauro responde, rindo. — Acho que sim. E a senhorita, como se chama?
— Zelda.
— Zelda — repete. É uma sensação agradável ouvi-lo dizer meu nome, e fico tímida. — É um prazer conhecê-la — declara, abrindo um grande sorriso que aquece meu coração frio.
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