A conspiração escarlate
17 Angst
— Você não acha que também nos deve algumas explicações, mocinha? Como por exemplo o que estava fazendo com aquele psicopata e com milhões de demônios que tentaram nos trucidar? — foi a última coisa que ela ouviu Yusuke esbravejar antes de quase partir para as vias de fato com o garoto.
Não sabia como, mas a discussão escalou de tal modo que em poucos minutos estavam todos brigando entre si — algo que Hiei não demorou para classificar como "uma enorme perda de tempo". Não fosse o esforço de Kurama para separar a confusão, a briga teria seguido por toda a madrugada.
Agora estavam os cinco sentindo a brisa cortante que soprava no amplo espaço aberto acima do galpão. Subiram pela escada até o terraço na vã tentativa de achar uma pista sobre o paradeiro de Akira, mas tudo que conseguiram foi aumentar a sensação de que estavam de volta à estaca zero. Em cada um deles, era visível o desconforto causado pela situação, traduzido pelos olhares nervosos e pelas respostas atravessadas que ainda trocavam entre si.
— Botan, Botan, você está aí? — chamava insistentemente Yusuke, através do pequeno comunicador que tinha trazido consigo. A deusa garantiu que ficaria em alerta naquela noite, mas tudo que ele conseguia era um sinal de estática no aparelho.
Aborrecida, Kiki se afastou do grupo. Sentou na borda do terraço e deixou as pernas caírem para a escuridão abaixo, enquanto deitava de costas no cimento frio. Tentava colocar em ordem tudo que tinha visto e ouvido naquela noite, quando percebeu a aproximação de alguém.
— Preocupada com Akira? — Kurama perguntou ao se sentar do lado dela, encarando o gramado escuro que sumia abaixo deles.
— Por que eu estaria?
— Não sei, vocês eram amigos, não eram? Não foi por isso que você veio aqui hoje?
— O que você está insinuando? Por acaso acha que eu tenho algo a ver com isso?
— Pelo contrário: só uma pessoa muito inocente não acharia arriscado vir aqui sozinha.
— Olha aqui, eu ainda estou puta por você ter mentido pra mim hoje cedo — ela rosnou, erguendo o corpo — Então não venha com gracinhas!
A conversa foi breve, mas o suficiente para a deixar agitada. Antes ele não tivesse dito nada e a deixasse lá sozinha com seus pensamentos. Nervosa demais para continuar deitada, endireitou as costas e cruzou as pernas, tentando conter o estresse que parecia correr pelo seu corpo como uma corrente elétrica.
— Eu lamento que tenha ficado chateada.
— Você lamenta? — ela explodiu. Sentia o sangue subir até o rosto, deixando as bochechas vermelhas — Céus, então você acha que...
— Eu não quero brigar com você, Kiki — ele interrompeu, virando o rosto para ela com um semblante circunspecto — Então se acalme.
Os olhos verdes a atingiram em cheio, deixando Kiki ligeiramente desconcertada. Por um instante, a maneira séria como ele se dirigiu a ela a fez se sentir um pouco infantil, e ela chegou a questionar se talvez não tivesse exagerado — não que pensasse em admitir isso, de qualquer modo. Imediatamente desviou o olhar, na esperança de dissipar aquela sensação incômoda que pairou sobre ela.
— Que seja... — resmungou baixinho.
Para seu alívio, uma exclamação atrás deles chamou a atenção, quebrando o silêncio embaraçoso que havia sido formado, ainda que por breves segundos. Yusuke, sentado no meio do terraço, finalmente tinha conseguido contato com Botan, e agora gesticulava exaltado com uma das mãos, enquanto a outra apoiava o comunicador à sua frente.
— Como assim ele escapou? — ouviram ela perguntar, surpresa — O que aconteceu?
O detetive narrou rapidamente o ocorrido, desde a chegada no local da festa até o desaparecimento de Akira. Kuwabara acompanhava a conversa de perto, dividindo a tela com Yusuke, enquanto os demais se aproximavam por trás da dupla.
— Ele já estava esperando por nós — Hiei se pronunciou — Resta saber quem foi o rato que abriu a boca.
— Espera aí, você acha que isso foi uma armadilha? — Kuwabara indagou, se virando para encarar Hiei.
— Isso não é óbvio? — ele retrucou.
— Ele tem razão... — Kiki afirmou, em voz baixa. Ao perceber os olhares voltados para ela, repetiu — Hiei tem razão, ele já sabia que vocês estavam vindo. Alguém falou algo no ouvido dele pouco antes de vocês chegarem, e logo depois subimos na plataforma. Disse que teríamos um show, ou algo assim...
— I-isso não faz sentido — Botan balbuciou — Todas as informações sobre esse caso estão sendo tratadas com sigilo no Reikai. Ninguém mais sabia dessa missão.
— Pois o Koenma está comendo mosca! Fala para aquele baixinho ficar esperto — respondeu Yusuke — O que nós fazemos agora, Botan? O cara sumiu sem deixar rastro!
— Eu não sei, Yusuke... acho que vamos ter que deixar isso para depois. Estamos com um verdadeiro pepino por aqui.
— Essa não, Botan! — ele exclamou — o que foi agora?
A deusa suspirou, franzindo os lábios em sinal de desânimo. As coisas não estavam sendo fáceis para ela do lado de lá também.
— O Mundo Espiritual está um pandemônio — ela começou — houve uma fuga em massa do Centro de Detenção do Reikai esta noite. Ainda estamos tentando entender o que aconteceu e capturar de volta os prisioneiros.
Kurama arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços, pensativo. Sabia que escapar do Centro de Detenção do Reikai não era tarefa fácil, dada as inúmeras magias protetivas que adornavam o lugar — sem falar na guarda especializada que fazia uma patrulha rigorosa por todo o perímetro.
— A maioria dos fugitivos eram da ala de segurança mínima e acabaram correndo de volta para o Makai. Alguns já foram encontrados, e o Esquadrão de Defesa está ajudando a localizar o restante.
— Vocês colocaram o Esquadrão a cargo disso? — Hiei falou, ácido — Não está claro que a fuga foi facilitada por alguém de dentro? A estupidez de Koenma às vezes me surpreende.
Do outro lado da tela, Botan encolheu os ombros, sem palavras. Até concordava com ele, mas não tinha autoridade nenhuma sobre o assunto. E para falar a verdade, não estavam em posição para serem tão criteriosos naquele momento.
— Também temos boatos de que a ala de segurança máxima sofreu algumas perdas. Eu estava tentando correr atrás dessas informações quando você me chamou... no tumulto que está aqui, não estou conseguindo descobrir nada, cada um fala uma coisa — ela choramingou, com um olhar abatido. Suspirou mais uma vez, afastando a franja que caia nos olhos antes de continuar — E para piorar, já estão falando no roubo de algumas relíquias do Mundo Espiritual.
— Era só o que faltava! — retorquiu Yusuke, exasperado — Não vai me dizer que agora temos que correr atrás disso também?
Ela ergueu a cabeça, levantando as sobrancelhas.
— Para ser sincera, eu bem queria poder dar essa missão a você, Yusuke... — ela hesitou, como se procurasse as melhores palavras para dar a notícia — Mas o Sr. Koenma está trancado em uma reunião com o Rei Enma sem hora para acabar... estão querendo revogar o programa de Detetive Espiritual.
A notícia pegou todos de surpresa.
— Como assim? O que isso significa? — Kuwabara perguntou.
— Significa que Yusuke teria que deixar o cargo e devolver todas as ferramentas auxiliares de Detetive Espiritual. E, bem, vocês também perderiam imunidade — ela explicou, a última frase deliberadamente em um volume mais baixo do que o normal — Mas gente, isso é só especulação, não tem nada confirmado ainda. O Sr. Koenma está empenhado, tenho certeza de que tudo vai dar certo — ela se apressou a acrescentar, fechando a frase com um sorriso amarelo. Sabia que, no fundo, estava falando aquilo para convencer mais a ela própria do que os amigos. O Mundo Espiritual vinha perseguindo Yusuke desde que o rapaz havia renascido e despertado os genes youkais de seu ancestral, após o episódio com Sensui. Koenma era o único que ainda o defendia, indo contra todos do Reikai. Infelizmente, parecia que enfim estava perdendo a batalha.
— Como assim imunidade? Do que você está falando? — Yusuke perguntou, confuso. Nunca tinha se atido às regras do cargo e esse tipo de detalhes era algo que passava despercebido pelo jovem.
— Céus, Yusuke... — Botan falou, mudando o semblante — os detetives espirituais possuem uma espécie de carta branca para caçar outros demônios quando envolvidos em alguma missão. Vai me dizer que não sabia disso? — bufou. Tantos problemas, e ela tendo que explicar algo tão básico — Como vocês se propõem a ajudar Yusuke, Koenma sempre garantiu que vocês tivessem esse privilégio — disse, se dirigindo a Kurama e Hiei — Sem isso, vocês podem ir presos como qualquer outro youkai. Koenma está agora discutindo isso com seu pai, tentando manter o programa ao menos até o final dessa missão.
Yusuke urrou, assustando a deidade do outro lado do aparelho. Em um salto, já estava de pé, o comunicador ainda firme em sua mão.
— Olha aqui, Botan, então pode avisar pro Koenma que ele não precisa mais se preocupar! Não quero ninguém fazendo reunião para ficar decidindo o que eu tenho ou não tenho que fazer! Avisa aí o Mundo Espiritual que eu me demito! Ouviu bem?
E, dizendo isso, fechou com força o apetrecho, o arremessando para longe.
— Você ficou maluco? — Kuwabara gritou, ao ver a atitude do amigo — Você não pode fazer isso!
— Eu já fiz!
E virou, pisando firme na direção da escada. Kiki acompanhava a cena apreensiva. Sentia todos os músculos tensos e olhou para Kurama com a boca semiaberta e os olhos arregalados.
— O que está acontecendo? E Akira? A quadrilha? — perguntou, com a voz tremida.
— Não se preocupe, ele vai mudar de ideia.
— E se não mudar?
O ruivo não respondeu, em parte porque sabia que ela não ia gostar da resposta, mas também porque nem ele mesmo tinha certeza do que aconteceria dali pra frente.
Kiki se virou novamente a tempo de ver Yusuke alcançando as escadas que levavam ao galpão abaixo deles e sentiu o corpo ser tomado por uma onda de pânico. A sensação que tinha é de que tudo iria por água abaixo no segundo em que ele fosse embora, e que ela não podia deixar isso acontecer. Sem que percebesse, o grito já tinha saído da sua garganta.
— Yusuke, não!
E por alguma razão, ele parou.
A jovem tinha dado um passo a frente e projetava o corpo na direção do garoto a distância, os pensamentos voando em todas as direções dentro da sua cabeça.
A alguns metros a frente, Yusuke olhou de relance. Deu de ombros, irritado, e retomou a marcha. Só então percebeu o que tinha acontecido.
— O que você está fazendo?
Ele tentava se mover, mas era inútil. Seus pés pareciam grudados no chão e suas pernas e tronco, puxados para trás como se atraídos por uma força invisível.
Kuwabara olhou espantado, demorando a entender o que estava se passando. Girou a cabeça, olhando seguidamente de Yusuke para Kiki, em completa descrença.
— Como você fez isso? — perguntou, com assombro, ao ver o amigo lutando para sair do lugar — Você está controlando o corpo dele?
— Impossível — Kurama respondeu — ela não tem controle sobre organismos vivos... Isso demanda uma quantidade de energia que ela ainda não tem.
— Você não pode fazer isso! — ela gritou — Não pode ir embora desse jeito! — Apesar do vento gelado da noite, em sua testa começaram a brotar gotas de suor. Seu corpo inteiro ardia, como se cada célula participasse de uma pequena explosão individual.
— Não enche, menina! Estou cansado de receber ordens, e não é você que vai me fazer mudar de ideia.
— Ela não está controlando o corpo dele — Hiei subitamente falou, se aproximando de Kurama — está controlando suas roupas: elas é que estão prendendo o movimento de Yusuke. Sua amiga é melhor do que eu esperava.
Kurama prendeu a respiração. Kiki havia progredido nos últimos dias, mas ainda tinha dificuldade em manter esse nível de concentração por muito tempo. Controlar Yusuke através de suas roupas era um truque engenhoso, porém perigoso. A chance de uma completa exaustão era enorme.
— Kiki, pare com isso — Kurama pediu — seu corpo não está preparado para aguentar esse tipo de gasto energético.
— Eu não ligo! — ela vociferou, limpando a testa e tentando esconder os sinais de cansaço. A verdade é que nem ela sabia o que estava fazendo ou o porquê. Mesmo assim, permaneceu firme, o nervosismo obliterando qualquer tentativa de raciocínio lógico de sua parte.
— Pela última vez, me solta! — Yusuke ordenou. Suas tentativas de se libertar se mostravam frustradas. A não ser pelos braços e cabeça, todo o resto de seu corpo parecia inerte.
— Isso não vai levar a lugar nenhum! — apelou novamente Kurama — Deixe de ser teimosa, Kiki!
Ela, entretanto, já não prestava mais atenção.
— Eu não queria ter que fazer isso — Yusuke falou mais uma vez — mas você não está me dando opção — e ele ergueu um dos braços, o deixando paralelo ao chão. Apontou o dedo indicador para a menina, deixando que uma pequena bola de energia se formasse.
— Você ficou maluco? — Kuwabara levou as mãos à cabeça, nervoso, mas o detetive permaneceu irredutível.
— Ora, ora, isso está ficando interessante... — Kurama ouviu Hiei murmurar, em tom divertido.
— Você vai me deixar ir por bem ou vou ser obrigado a gastar mais um Leigan essa noite?
O tempo parecia correr em câmera lenta, cada segundo com a duração da eternidade. A esfera de energia pulsava ameaçadora na extremidade da mão de Yusuke, contrastando com a escuridão do cenário.
— Acho que você vai ter que atirar então — ela conseguiu dizer. Sentia as pernas traquejarem e uma forte enxaqueca invadir seu crânio, acompanhada de um zumbido ensurdecedor.
Kuwabara instintivamente formou sua espada de energia, enquanto Kurama conjurava sua arma, de maneira preventiva. Estavam dispostos a interferir se isso significasse evitar uma tragédia ainda maior. Nenhum dos dois, no entanto, ousou dar um passo a frente, com medo de desencadear um efeito dominó irreversível.
— Parem com isso os dois! Vocês não vão resolver nada dessa forma!
A dor começou a descer pela sua coluna.
— Abaixe esse braço, Urameshi! Estou te avisando!
Um formigamento tomou conta dos seus braços, se dirigindo lentamente para suas mãos.
— Isso não faz o menor sentido! Deixe ele ir de uma vez!
Suas pernas já estavam completamente dormentes.
Teve a impressão de que a esfera de energia estava mais próxima, mas não sabia se podia confiar mais nos seus sentidos. Sua visão já estava turva demais para distinguir qualquer coisa.
O zumbido preenchia totalmente seus ouvidos, e se misturava ao clamor de vozes que agora chegava a ela de uma maneira ininteligível. Alguns metros a frente, Yusuke, iluminado pela luz do Leigan, já não passava de um borrão.
Ela sentiu seus pés vacilarem.
De repente, tudo escureceu.
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