Assim que Tom falou aquelas palavras, sentiu-se bem melhor. A queimação na garganta diminuiu e suas cordas vocais pareciam quase bem. Ele não sabia explicar a repentina vontade de dizer aquilo a plenos pulmões, mas sentia que o garoto tinha a ver com aquilo.

— O que foi que você disse? – Perguntou o menino depois que tomara consciência de suas palavras – Como assim entrou na minha mente?

Tom respirava ofegante, não pretendia responder o rapaz, mas essa mera decisão fez com que o incômodo começasse a voltar. Rapidamente ignorou seu plano inicial e explicou:

— Chama-se Legilimência. Quando você desmaiou, entrei na sua mente para saber quem era.

Riddle acompanhou a variação de humor do menir. Primeiro ele pareceu confuso, depois irritado e por último uma grande mistura dos dois. Por um momento, o sonserino pensou que Harry ia socá-lo, mas parecia indeciso, como se tivesse receio do que aquilo poderia causar.

Tom não conseguia impedir a si mesmo de falar a verdade ao menino, a dor era insuportável. Então, quando o mais novo começou a fazer perguntas, não teve outra opção a não ser respondê-las:

— O que... – Harry respirava fundo, tentando manter suas emoções sob controle – o que você viu? O que sabe...?

—Sei que é descendente dos Potter. Sei que seus pais morreram protegendo você e por causa disso é obrigado a viver com os tios. Eles são trouxas desprezíveis que te tratam como uma aberração, por isso você queria fugir. Mas acabaram te acusando de roubar alguma coisa no mesmo momento em que se preparava para ir, o que resultou em uma bela surra, que fez com que o vira-tempo que usava se quebrasse e o trouxesse até aqui. Sei também que esse mesmo vira-tempo não era seu e sim de uma garota com um cabelo armado. Você é mestiço e grifinório. É tudo que eu sei.

Harry fechou os olhos e escondeu o rosto com as mãos. Por um momento, Tom achou que ele estava chorando, porém logo percebeu que o garoto apenas digeria tudo o que ouviu. Por fim o mais novo suspirou e voltou a encará-lo:

— Riddle, se você estiver escondendo alguma coisa eu prometo que...

— Eu bem queria estar, mas algo me impede de mentir e – Tom recordou-se da poção que fizera. Ele ignorou o outro rapaz e correu até o seu material.

Começou a procurar desesperadamente pelo frasco de veritaserum que havia deixado por ali. Seus olhos se arregalaram com a triste confirmação de suas suspeitas quando finalmente o encontrou: Só havia metade da poção ali.

Riddle fechou os olhos raivosamente e dirigiu-se outra vez até o rapaz. Quando abriu-os novamente, seu rosto tomou uma expressão tão cruel e irritada que Harry congelou no lugar.

— O. Que. Você. Fez? – disse Tom apontando sua varinha para o mais novo.

O sonserino percebeu o outro engolir em seco:

– Foi um acidente...

— Eu não perguntei se foi um acidente! Eu perguntei o que você fez! – Disse Riddle já sem a sua calma.

Harry abriu a boca para responder até que se tocou que o mais errado ali era Tom. Respondeu com a mesma rispidez:

— Não tente virar a culpa dessa situação para mim, Riddle! Você não tinha o direito de invadir a minha mente! Não era para você saber de nada!

— Não fale nesse tom arrogante comigo!

O sonserino aproximou mais sua varinha na intenção de tocá-la na garganta de Harry. Contudo, o menino foi mais rápido e chegou-se para trás ao mesmo tempo que também sacava a sua varinha.

— Eu falo com você como eu quiser, bastardo!

Aquilo foi o cúmulo. Tom disparou um feitiço não verbal e faíscas incandescentes saltaram de sua varinha. Harry desviou e a estante com as fotos foi acertada, tendo seu vidro espatifado. O jovem Potter não ficou para trás e lançou um expelliarmus na direção do sonserino, porém este evitou o feitiço com um simples protego. Tudo que os separava era o grande sofá esverdeado no meio da sala. Riddle pulou por cima dele ficando colado a Harry o fazendo cair de costas no chão, imediatamente lançando outro feitiço não-verbal. O mais novo repetiu o feitiço que ouviu Tom dizer anteriormente para se proteger:

— Protego! – Felizmente o feitiço funcionou e criou um escudo invisível que soube deter as eletrizantes faíscas verdes. Harry chutou Riddle e o mesmo cambaleou para trás o que deu tempo suficiente para ele se levantar e a apontar a sua varinha para o outro bruxo novamente.

Agora ambos estavam a menos de um metro de distância e apontavam suas varinhas face a face. Ambos estavam ofegantes, entretanto, Harry foi quem falou primeiro:

— Não vai querer duelar comigo Riddle. Mesmo que você vença e me mate, Dumbledore saberá que foi você. É inteligente, então sabe que estou certo. Sei que planeja usar o Hagrid de bode expiatório para os seus planos, mas ele não está aqui para livrá-lo da culpa agora!

— Como você sabe...

— Eu sei de algumas coisas. Coisas que poderiam destruir a sua máscara de aluno bonzinho e exemplar.

Tom finalmente abaixou a varinha. Ele olhou para a mão de Harry esperando que fizesse o mesmo.

— Que coisas?

— Eu não vou te dizer. Se não tivesse sob o efeito de uma poção, você também não falaria nada.

Harry estava jogando com Tom. Ele sabia muito bem que não poderia vencer um duelo direto. O sonserino conhecia muito mais feitiços que ele e se mexia mais agilmente também. Por conta do tratamento de Tio Válter, Harry estava com seu corpo um pouco debilitado e por isso não era tão rápido. Se quisesse que Riddle não o atacasse, teria que vencer na lábia, com astúcia. Justamente o ponto forte da Sonserina.

— Harry – Riddle falou tentando retomar o tom cordial de antes – Eu vou perguntar outra vez: O que você fez?

Potter achou que não seria bom começar oura briga e resolveu responder. Ele explicou que derramou sem querer a poção na xícara de Tom quando foi se sentar. Disse que tentou descobrir o que era o líquido, mas não conseguiu, pois o rapaz voltou antes. No fim da explicação, Riddle suspirou passando a mão nos cabelos:

— Acho que realmente foi um acidente... – Voltou a encarar o jovem Potter – mas por que você me deixou beber já que não sabia o que era? Por que não falou que tinha derramado? Poderia ter evitado todo esse conflito! E principalmente, não teria fudido com os meus planos!

Tom fechou os olhos e respirou fundo controlando suas emoções. Aquilo de só dizer a verdade já estava enchendo o saco. Tudo o que queria era lançar vários crucios no garoto à sua frente e por fim um avada quando sua mão começasse a doer. Mas o pirralho estava certo. Não podia fazer nada sem ser pego. E claro, Dumbledore amaria poder vê-lo ser expulso do castelo.

— Você sabe o que eu planejo para este ano em Hogwarts.

Não havia sido uma pergunta. Riddle já se dera conta que Harry sabia de tudo o que ele queria para aquele ano letivo. Sabia que pretendia ir atrás dos sangues-ruins, sabia sobre a câmara secreta e o basilisco. Ele já sabia de tudo. E mesmo assim percebeu que o mais novo não tinha coragem de falar aquelas coisas em voz alta.

Contudo, Tom queria que ele tivesse. Queria ouvir a grandeza de seus planos saindo da boca de outra pessoa. E principalmente, se Harry sabia é porque ou daria tudo muito certo ou daria tudo incrivelmente errado. Saber o que estava por vir seria de grande ajuda.

— Olha, eu não falei que derramei o frasco no seu chá porque não estava a fim de descobrir a sua reação.

— E com certeza a que eu tive foi a melhor. — disse irônico — Agora vamos voltar a falar sobre o que você sabe.

Tom balançou o vidrinho da poção no ar e Harry fez uma careta de pânico. Porém ele pensou rápido, antes mesmo que Riddle pudesse impedir, e apontou sua varinha para o frasco murmurando um ‘expelliarmus’. O vidro voou da mão do rapaz e se espatifou no chão derramando todo o líquido no carpete com o emblema da sonserina.

Riddle revirou os olhos e deu de ombros:

— Tudo bem. Eu sei fazer outra.

— Agora que eu sei os efeitos dessa poção, vou pensar duas vezes antes de aceitar qualquer bebida sua. Não tente dar uma de Filho da puta comigo, Riddle!

O sonserino aproximou-se de Harry bruscamente e sem que o mais novo pudesse pensar em fazer algo, pegou a varinha de sua mão e o segurou pelo colarinho. Tom apontou-a para o pescoço do jovem à sua frente:

— É a segunda vez que você ousa me xingar – Ele estava tão perto que Harry não conseguiu esconder a sua aflição – posso não matá-lo mas ainda sim conheço ótimos feitiços de tortura. Não vai haver uma terceira vez, fui claro?

Tom não esperou pela resposta do garoto, o olhar dele já dizia tudo. Então o soltou e lhe devolveu a varinha, entretanto, segurou a sua própria com mais firmeza. Riddle se afastou um pouco e encostou-se nas costas do sofá esverdeado, novamente retomando o tom calmo e curioso:

— Eu não consigo te entender, Harry. Você parece nutrir um longo sentimento de raiva sem cabimento por mim e não concorda com o que planejo. Por quê?

Harry estava incrédulo. Como Riddle ousava dizer que sua raiva era sem cabimento? Além de matar seus pais e o deixar órfão, atrapalhar seus primeiros anos em Hogwarts, ele ainda lera a sua mente! Mas logo o menino-que-sobreviveu se lembrou que apesar das coisas que o sonserino vira em sua cabeça, o mesmo ainda não sabia sobre o que viria a se tornar. Tom, para a sorte momentânea de Harry, não sabia nada sobre Voldemort.

Na verdade, o mais velho não parecia saber tanto assim. Mesmo com as coisas que havia dito, o jovem Potter percebeu muitas coisas ficaram incompletas na fala de Riddle. Quando falou de Hermione e de Tio Válter o rapaz não parecia saber os nomes deles. Sem contar que não mencionara Sirius ou Ron.

Tomando consciência disso, Harry soltou um longo suspiro de alívio. Tom reparou, sem entender nada e começando a ficar impaciente com a demora da resposta do garoto:

— Vai doer se você responder alguma das minhas perguntas?

Harry começou a andar e passou direto por Riddle e deu a volta no sofá verde. Ele simplesmente sentou no chão próximo do material de poções e voltou a beber o chá que estava esquecido. O sonserino já ia abrir a boca para gritar com o garoto quando Harry finalmente respondeu a sua pergunta:

— Não tenho raiva de você Riddle. Apenas não gostei de saber que você fuçou a minha cabeça – Agora que se tocara que o rapaz ainda estava bem desinformado sobre si, Harry sentiu-se mais relaxado e não viu mal algum em sentar-se e voltar a beber o chá. Só assim ele mantinha sua boca ocupada e evitava de falar algo que fizesse o outro rapaz perceber que havia muito mais a se descobrir. – E não concordo com você pelo simples fato de o que planeja é errado.

— Por favor, não fale mais “fuçou”, é constrangedor. E como estou errado? Você é a prova viva de que estou certo.

— Como?

— Seu tio não hesitava em te chamar de aberração e te fazer de escravo. Você nunca recebeu amor ou carinho dele e de ninguém daquela família, só acusações, xingamentos e surras. Assim são os trouxas. Eles tem medo de nós e por isso tendem a nos mandarem para fogueira, nos acusam de sermos erros da natureza. Você não tem como negar, Harry, eu vi na sua mente. Todo o seu sofrimento, sua agonia, sua dor. Isso poderia ser evitado se essa escória fosse posta no lugar dela.

— Nem todos os trouxas são assim... – respondeu pensando na família de Hermione.

— Não, mais a grande maioria é. E os que não são terão filhos e netos que podem fazer parte dessa maioria. Por isso eles também devem ser eliminados. Porque um dia alguém dessa gente acaba dando a luz a uma criança que venha desenvolver magia. Ou vão matá-la ou vão usá-la para descobrirem mais sobre o nosso mundo.

— Ou então vão aceitar essa criança e respeitar que esse não é o mundo deles. Mas é o dela.

Riddle balançou a cabeça decepcionado.

— Pobre criança tola e ingênua... não é assim que o mundo funciona. Não há lugar para ambas as raças. Apenas o mais forte sobrevive e esse somos nós. Por isso que os nascidos-trouxas também devem ser eliminados, porque descendem dessa gente suja.

Harry ia discordar mas Tom continuou:

— Você é parente de sangue daquele trouxa gordo e arrogante. Ele não hesitou em te tratar tão bem quanto os seguidores de Grindelwald. Ele não hesitou em te acusar de ser um ladrão só por ser diferente. Ele não hesitou em descer o cinto dele em você com tanta força a ponto das poções que usamos não serem capaz de te curarem por completo. Ele não hesitou em pisar na sua mão e esmagar os seus ossos... só porque você estava com a sua varinha. E eu tenho certeza que não é a primeira vez que isso aconteceu.

Harry percebia porque era tão fácil para o mundo acreditar em Riddle. O garoto era muito bom em convencer as pessoas do seu ponto de vista usando a experiência delas como modelo. O menino-que-sobreviveu não queria, mas enquanto o sonserino falava, ele passou a relembrar todo o acontecimento e a vivência com os Dursley. Depois de tudo, não conseguiu evitar que uma lágrima solitária escorresse pela sua face. Ele rapidamente a limpou, mas o outro rapaz percebeu. Tom se aproximou do garoto e sentou-se de frente a ele.

— Eu sei que é doloroso ouvir isso em voz alta, Harry, mas é a realidade. Seus tios te odeiam porque você nasceu bruxo. É provável que torçam pela sua morte sempre que vai para Hogwarts. Você não é uma criança para eles, apenas um estorvo. Um estorvo incrivelmente ingênuo que não quer admitir que estou certo.

Outra lágrima. Harry não estava gostando do rumo daquela conversa. Se ele não compreendesse que havia interesse de Riddle por trás daquilo, caso não fizesse ideia de com quem estava falando, era capaz de já ter concordado com o sonserino.

Tom limpou a lágrima do rosto do menino que se afastou bruscamente. Ele não se importou. A terapia de choque de realidade sempre fazia isso com as pessoas.

— Não precisa ficar tão recluso. Apenas... tire um tempo para pensar. Depois vamos voltar a falar sobre isso e você irá me agradecer por te mostrar a verdade. Sinto muito Harry, mas o mundo não é tão bonito quanto você pensa e essa sua ingenuidade ainda pode matá-lo.

— Cala a boca...

— Você queria fugir. Essa nunca é a solução. Se você tivesse tomado providências extremas sobre o tratamento que recebia, nós nunca estaríamos conversando agora.

— E o que você queria que eu fizesse?! Que apresentassem a eles os dementadores?!

Harry estava se exaltando. Só queria que Riddle calasse a boca e parasse de falar sobre a vida dele.

— Bom, sim. Essa é uma boa ideia.

— Era uma ideia retórica! Sério, Riddle, não dá pra falar com você!

Tom balançou a cabeça e deu um sorrisinho:

— Ficou assustado com essa possiblidade... ah, se você soubesse o que eu já fiz para quem ousou pensar em levantar a mão para mim... nunca que eu deixaria que me deixassem roxo como fizeram com você...

— VOCÊ PODE POR FAVOR FICAR QUIETO?! PARA DE FALAR SOBRE SOBRE ISSO! EU NÃO AGUENTO MAIS!

O grito de Harry foi tão cheio de súplica e mágoa que Tom finalmente se calou. Ele sentia-se vitorioso, mas não sorriu e nem demonstrou isso de alguma outra forma. Apenas encarou Harry que mantinha-se abraçado aos próprios joelhos.

— Certo. Como eu já disse, você tem muito o que pensar. Mas enquanto não chega a conclusão nenhuma quero te fazer uma proposta: Você vai me ajudar a concretizar os meus planos esse ano. Assim poderá se decidir se estou certo ou errado sobre os trouxas.

Harry revirou os olhos e disse com amargura:

— Vá acreditando nisso, Riddle. É bom para o seu ego...

— E em troca... – continuou Tom, tentando não se estressar pela ironia do garoto.

Harry encarou o sonserino com uma expressão de descrença enquanto este continuou a falar:

— Eu te ajudo a voltar para o seu tempo. Seria pegar ou largar.