A consciência além do tempo.
9 Condições e Agulhas
Ao ouvir as palavras de Harry, Tom finalmente abriu um sorriso.
— Sabia que tomaria a decisão certa – disse pondo uma mão no ombro do mais novo.
— Não se anima tanto não, tem condições.
Riddle retomou sua postura séria. Ele já esperava por isso. Se Harry não fosse impor algumas condições, seria fácil demais.
— Pode falar.
Tom encarou Harry prestando atenção em cada palavra que saía da boca do garoto.
— Primeiro, nada de mortes. Você não pode me pedir para matar ninguém. Segundo: você não pode me fazer perguntas sobre o futuro. Vai ter que se contentar com o que eu te disser. Também não vale ler a minha mente outra vez.
Tom ficou incomodado com a segunda exigência. Sabia que o garoto estava preocupado com a linha temporal, mas só o fato dele estar ali já causava uma desordem no espaço-tempo terrível.
Se já está tudo perdido, tire proveito... pensava Riddle. O que iria acontecer de pior só por saber alguns fatos específicos futuro?
— Terceiro, nós vamos começar a elaborar um plano para me fazer voltar ao meu tempo original antes de qualquer outra coisa. E se for possível, vamos descobrir um jeito para que eu volte para o meu tempo original intacto.
Tom abriu a boca surpreso. Ele não esperava ter que encontrar um jeito de consertar toda a linha temporal arruinada também. O trato era ajudá-lo a voltar para o futuro, mas ele nunca disse que seria o futuro que o garoto conhecia.
— Não creio que seja possível consertar a linha do tempo. Mesmo que eu não tivesse lido a sua mente, só o fato de você ter sido visto é o suficiente para causar modificações no futuro. Claro, há algumas teorias de linhas paralelas, mas nada muito concreto...
Harry suspirou. Ele não podia perder suas esperanças. Engoliu seu orgulho e disse em voz alta:
— Se tem alguém que pode me ajudar a consertar tudo isso, é você. Eu não gosto de admitir, mas sozinho eu não sou capaz. Você é minha última esperança.
Harry colocou tanta súplica falsa na última frase, na tentativa de conseguir ser tão persuasivo quanto Riddle fora com ele, que não ficou surpreso com a reação do mais velho.
— Eu farei o que for possível.
Harry teve que segurar um sorriso por finalmente conseguir convencer Riddle de alguma coisa.
—Ótimo, então estamos conversados.
E com aquilo, Tom sorriu para o outro moreno apoiando o braço dele sobre si:
— Você verá Harry. Esse pode ser o começo de uma bela amizade. – Tom ia falar mais alguma coisa, entretanto acabou reparando nos machucados na face do rapaz – O que aconteceu com o seu rosto?
Harry levou sua mão livre a face instanteneamente. Seus dedos ficaram manchados de sangue.
— Ah, eu... caí. Sobre algumas carteiras em uma das salas que estive...
Riddle balançou a cabeça em um tom de reprovação:
— Você não vai mesmo me dizer onde estava?
— Já estou dizendo – insistiu.
Tom deixou assunto de lado percebendo que não conseguiria arrancar a verdade do menor naquele momento. Ele levantou as mãos em sinal de desistência e focou no assunto dos arranhões.
— Isso está feio. Como você caiu?
— Eu estava correndo e tropecei.
Tom estreitou os olhos e virou um pouco o rosto do rapaz para que pudesse ver melhor os machucados. Harry retraiu ao toque gelado do mais velho em seu rosto.
— Sendo que você está cheio de hematomas. Porque estava correndo afinal?
O jovem Potter arqueou uma sobrancelha com a indireta de Riddle para chamá-lo de burro. Sua voz estava carregada de sarcasmo:
— Eu queria voltar rápido para cá porque sabe, você como a pessoa bondosa que é, sem dúvida nenhuma deveria estar muito preocupado.
Tom advertiu Harry com o olhar, porém voltou a prestar atenção aos arranhões e respondeu a ironia do mais novo sem encará-lo.
— Apesar da minha raiva eu fiquei preocupado sim.
Eu sei que ficou. Não ia querer que nada acontecesse com a sua preciosa fonte de informação! Pensou o jovem Potter com desgosto.
— Sabe, o estado do seu corpo ainda é delicado. Seus pontos poderiam ter se aberto.
— P-pontos?
Harry ficou apavorado. Tio Válter não chegou a cortar sua pele, então não sabia como aquilo era possível.
— É, como Dumbledore teve que solidificar sua mão por algum tempo até que a poção ficasse pronta, ela acabou rachando. Nós usamos o corte que se abriu para injetar essa mesma poção posteriormente. Mas como já estávamos colocando substâncias demais no seu corpo, achamos melhor fechá-la com agulha e linha do que com mais medicamentos bruxos.
— E não existe feitiço para isso não?
— Claro que existe, mas costurar a pele com magia significa repuxá-la. Com seus hematomas era melhor não. E porque essa cara? Você estava desmaiado, não sentiu nada.
Harry logo lembrou da dor agonizante assim que tropeçou sobre as pedras e ossos na câmara secreta. Sua mão ainda doía severamente, entretanto quando caiu, sentiu também a sensação de um rasgo. Automaticamente ele olhou para a mão enfaixada assustando-se com a mancha avermelhada que começava a se formar.
— Merda... – sussurrou o mais novo.
Riddle seguiu o olhar de Harry, também espantando-se com o sangue. Se levantou apoiando cuidadosamente a mão do outro moreno no chão. Foi até a cama mais próxima e pegou um travesseiro. Voltou a se sentar e colocou a mão do mais novo sobre ele. Tom cruzou as pernas e com calma retirou as bandagens que cobriam o rapaz.
Harry quis chorar quando viu. Assim que sua mão ficou descoberta, ele pôde visualisar os hematomas arroxeados que estendiam-se por suas juntas e os vergões inchados sobre a ponta de seus dedos. Seu pulso também estava roxo e mal enxergava suas veias. Na parte de cima da mão, bem no meio, havia um outro curativo feito de gazes e esparadrapos. Apesar de Harry enxergar a branquidão original deles, o que mais se via era o vermelho do sangue tomando conta do curativo.
Tom tirou as gazes também, tomando o cuidado de não pressionar o machucado. Ele bufou ao perceber que a linha saiu junto e constatou o óbvio: A pele do menino rasgou ainda mais com tombo, inutilizando os pontos.
— Por que não disse que estava sentindo dor logo de cara? – sussurrou o sonserino, mirando o ferimento.
— Você entrou aqui pronto para me matar, lembra?! – gritou o mais novo bem nervoso.
Tom não respondeu. Começou a conjurar utensílios medibruxos e poções. Além de agulha e mais linha. Riddle também fez aparecer um par de luvas descartáveis para que pudesse mexer no garoto melhor.
— Espera, Riddle, o que vai fazer?
— Consertar isso.
Tom pegou um dos frascos que conjurou e o entornou em um pedaço de gaze, passado ao redor do corte e limpando o sangue que se espalhava. Harry estava tremendo, com medo da dor, mas não recuou a mão. Ficou surpreso com a delicadeza de Riddle em tratar de si. Nunca pensou que Voldemort pudesse ser tão cuidadoso. Ele poderia ter se tornado um excelente medibruxo, pensou. Ao invés de lorde das trevas.
Tom pegou uma seringa e a mergulhou em outro frasco. Ergueu a mão do menino para que pudesse injetar o líquido, mas Harry protestou.
— Calma aí! Pra que a injeção?
— É uma poção anestésica, para que você não sinta os pontos.
— E eu não posso tomá-la? E porque eu já posso ter essa substância no meu corpo mas não uma poção que feche esse corte?
Tom revirou os olhos. Mas é claro que Harry tinha que ter medo de agulhas. O garoto estava se tremendo mais que os primeiranistas que Slughorn o obrigava a cuidar de tempos em tempos.
— Se eu te desse por via oral, demoraria mais para fazer efeito. Essa poção não é tão forte, então não há problema em injetá-la. Diferente de uma capaz de curar isso sozinha.
Riddle aproximou a seringa novamente. Harry tentou não tirar a mão, mas, por estar tremendo, o sonserino continuava com dificuldade de fazer qualquer coisa.
— Pode, por favor, parar de tremer? – pediu Tom tentando não ficar impaciente.
— Não acha que eu já teria parado se pudesse?
Riddle manteve a seringa perto da mão do garoto, mas passou a encará-lo e manteve o olhar de Harry ocupado.
— Achei que os grifinórios fossem mais corajosos.
— Nós somos corajosos! Mas agulhas doem.
— Você aguenta uma surra, mas não uma agulha?
Harry sabia que não tinha como discutir com a lógica de Riddle. Entretanto, coisas pontudas lhe traziam más lembranças.
— Quando eu era pequeno... – disse sem desviar o olhar do sonserino, porém acabou por adentrar em suas memórias e não prestou mais atenção às coisas ao seu redor.
Tom aproveitou a distração do menino para aproximar mais a seringa, tocando a ponta dela de leve na mão dele.
— Eu e meu primo estávamos no parque e acabei ajudando uma senhora a atravessar a rua. Ela estava cheia de sacolas. Meu primo ficou parado sem fazer nada... no fim ela me agradeceu me entregando um saco de balas que estava em uma das bolsas.
— E o que aconteceu? – Riddle não estava exatamente interessado na história, mas enquanto Harry falava distraído, o sonserino pôde pressionar a agulha contra a mão do rapaz sorrateiramente.
— Meu primo começou a me encher dizendo que queria ficar com os doces. Eu falei que podia dividir, mas ele queria ficar com tudo. Fui comendo as balas no caminho de volta para casa, sabendo que meus tios tomariam o saco de mim e o dariam para meu primo se vissem.
— Ele deve ter ficado furioso – E com isso Tom conseguiu injetar o líquido na mão do mais novo. Rapidamente tirou a seringa da pele do garoto e continuou a ouvir a história.
— Quando chegamos em casa, ele contou para o meu tio que decidiu me trancar no armário debaixo da escada sem jantar. Só que aquilo não era o suficiente para o meu primo – Harry finalmente voltou a prestar atenção ao que acontecia – Ele pegou um garfo da cozinha e o enfiou no meu braço. Desde então eu tenho aversão a qualquer coisa me furando.
Sério pirralho, como você ainda consegue defender os trouxas...?pensou Tom, balançando a cabeça.
— E você não fez nada para se vingar?
— Não...
Tom encarou os grandes olhos verdes de Harry. Por um momento pensou em quanta tristeza eles já haviam visto, o quanto choraram. Era justamente por isso que ele não conseguia entender o mais novo.
— Bom, que seja, Harry. Eu tenho que terminar isso e voltar para os meus afazeres.
Tom deu o assunto por encerrado e pegou agulha e a linha. Harry finalmente percebeu que a seringa estava ao lado de Riddle e vazia. Ele examinou rapidamente a proprip mão e encontrou um pequeno furo próximo ao corte aberto.
Harry ia perguntar quando foi que Tom o furou, contudo, o sonserino aproximou a linha de si. No mesmo instante Potter afastou a mão machucada do travesseiro.
E lá vamos nós de novo... pensou Riddle.
— Por acaso você ouviu alguma coisa do que eu disse?
— Ouvi cada palavra. Mas você não pode simplesmente ficar com um corte aberto. Eu já fiz isso antes, é só confiar em mim. Sem contar que não vai doer nada.
Como em sã consciência eu poderia confiar em Voldemort...?
Harry esticou seu braço de volta, mas de repente seus olhos trêmulos por causa da agulha, tornaram-se opacos e sem vida. Tom sorriu ao ver o garoto apoiar a mão no travesseiro outra vez. Ele ia abrir a boca para falar algo, porém Harry sussurrou:
— Não... eu nunca vou ser... capaz de confiar em um monstro como você...
Riddle ficou surpreso e seus movimentos se paralisaram. Harry já não o encarava, seus olhos iam de encontro ao chão. Não parecia ter consciência do que dissera e por estar tão quieto, parecia assemelhar-se como uma marionete sem vida. A voz sombria e firme de suas palavras estremeceu os ouvidos de Riddle.
Tom começou a costurar a mão do rapaz, um pouco desconcertado pelo peso das palavras de Harry. O silêncio que se instalou no local não era nada reconfortante.
Monstro...?
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