A conquista de Pérola
1 Prólogo
Notas iniciais
Aos 8 anos de idade, Pérola tinha fortes evidências para acreditar que nasceu na família mais especial do mundo. Para começar, seu avó fora o fundador dos Supermercados Ibituruna, uma próspera rede varejista sediada em Governador Valadares, a maior cidade do Leste de Minas Gerais. Todos os amigos dela já viram os comerciais do Ibituruna na televisão.
Se isso não fosse legal o bastante, a família materna dela tinha o singelo sobrenome Paz enquanto sua família paterna carregava o distinto sobrenome Guerra. A combinação Paz e Guerra era o tipo de curiosidade que ela sempre contava ao se apresentar, assim como o fato de sua mãe ser uma que batizou cada filha com o nome de uma pedra preciosa.
E, depois desta noite, Pérola teria mais um motivo para se orgulhar de sua família.
Por saber disso, sentou-se ereta e composta para prestigiar a cerimônia de posse do Ibituruna. Como uma verdadeira mocinha, ignorou o cochichar de suas irmãs e reprimiu todos os bocejos que gostaria de ter dado durante o longo discurso que se seguiu.
Grande parte dos funcionários das cinco unidades ocupava o estacionamento da loja matriz, dividindo espaço com os membros da diretoria e autoridades locais. Lúcio Guerra, vestindo o terno mais bonito que Pérola já viu, ergueu-se majestoso quando foi chamado ao palanque. Entendendo a chegada do tão aguardado momento, Pérola saltou de sua cadeira para acompanhar o pai, como uma boa filha deveria fazer. Queria estar ao lado dele quando fosse oficialmente proclamado presidente-executivo do Ibituruna.
Cristal a segurou no lugar, impedindo seus passos. Só se viu livre das garras da irmã quando uma salva de palmas encheu o ambiente. Nessa hora, nada a impediu de correr e se agarrar aos braços fortes do homem mais importante do mundo: seu pai. Ele a ergueu no colo, sorrindo para os flashes que piscavam de todas as direções.
Então a confusão começou. As dezenas de pessoas que antes sentavam organizadamente levantaram-se ao som de canções para trocar conversas. O alvoroço de várias vozes encheu a noite, perturbando a mente de Pérola que, após abraçar o pai, tentava retornar à mesa de sua família. Outras crianças gargalhavam correndo sem rumo pela multidão, tropeçando nos adultos e desequilibrando garçons.
Lúcio, o novo presidente, foi cercado pela brigada do terno — como a vovó chamava — que apertava sua mão sem cessar, posando para mais fotos.
De volta à mesa, Pérola constatou que vovó Glória já perambulava entre grupos, parando em cada canto para cumprimentar os conhecidos e abraçar os amigos. Safira, a mãe de Pérola, deu o aval para que ela e suas irmãs andassem pela festa. Cristal foi ao encontro de suas amigas; Rubi zarpou para atacar a mesa de doces e Jade permaneceu sentada à mesa, pousando uma de suas mãos na suave barriga de Safira — onde Esmeralda crescia.
Pérola desejou ir para casa, afinal, a cerimônia tinha acabado. Seu pai era o presidente, e todos tinham comido bastante ao longo das infindáveis horas que passaram. Não havia nenhum motivo real para desperdiçarem mais tempo conversando.
Suspirando em meio ao tumulto da festa, ela caminhou em direção à área administrativa. O silêncio pacato dos corredores era tudo o que buscava ao adentrar o largo hall da recepção e seguir adiante, em direção aos escritórios. Ali, onde o som de seus passos ecoava, podia imaginar que era uma das diretoras, desfilando de saltos altos e resolvendo os problemas da empresa.
— Isso não é viável para esse semestre! — murmurou para seus funcionários imaginários.
A brincadeira deu lugar à curiosidade quando chegou ao fim do corredor. Uma pequena área de convivência oferecia sofá, bebedouro e cafeteira elétrica para o descanso dos funcionários. Na parede, um mural narrava a história dos 42 anos do Ibituruna e, logo ao lado, uma grande pintura revelava as feições carrancudas do fundador da empresa, Ernesto Guerra.
Ela estudou a imagem enquanto sua mente fervilhava.
— Pérola?
Com um pulo, a menina se virou na direção da voz. Sob a luminosidade esbranquiçada das lâmpadas, sua mãe a fitou com olhos negros. Safira da Paz possuía uma compleição amável e delicada que dificilmente demonstrava aborrecimento ou zanga. Agora mesmo, o tom incisivo com o qual pronunciou o nome da filha era tudo o que indicava que estava irritada.
— Sabe que não pode andar por aí sozinha — afirmou ao se aproximar.
Pérola disparou a questão que ocupava sua cabeça:
— Vão colocar uma pintura do papai aqui?
Safira pausou seus passos. A franja de seus cabelos negros ultrapassava o limite das sobrancelhas e conferia-lhe um ar de juventude. Sorrindo de forma gentil, ela envolveu os ombros de Pérola e puxou-a para si.
Desviando de seus pensamentos frenéticos, Pérola aconchegou-se mais apertado no calor gostoso da mãe. A barriga de grávida formava uma bolinha firme sob o tecido mole do vestido.
— Eu não sei — respondeu Safira, observando o quadro diante das duas. — Uma foto seria mais moderno, não acha?
— Eu gosto de pintura. É chique.
Safira riu baixinho, levando a mão distraída para coçar a nuca de Pérola. Sua mãe era a melhor em cafunés na nuca. Os dedos curtinhos enredavam nos fios do couro cabeludo sem puxar, e a fricção espalhava uma sensação de relaxamento e profundo conforto. Aproveitando o carinho, Pérola ponderou um pouco mais sobre o assunto.
— Quero ter uma pintura aqui também. Pede pro papai colocar?
Lúcio agora era o presidente e ele sempre fazia o que Safira pedia. Pérola só precisaria posar para um pintor famoso e logo estaria enfeitando as paredes da administração.
— Você tem que ser a presidente para ter uma foto aqui — disse Safira.
A empolgação de Pérola esfriou. Até onde entendia, as mulheres passavam mais tempo cuidando de casa do que trabalhando na empresa. Eram serviços muito complicados, dizia seu pai. Mas, e se uma mulher quisesse ser presidente? O que aconteceria?
— Acho que não vão deixar, mamãe.
Sua mãe encarou-a com uma expressão contrariada e abaixou-se para nivelar seus olhos.
— Filha, presta atenção: na vida sempre vão existir pessoas que tentam dizer até onde você pode ou não ir, o que você é ou não capaz de fazer, mas quero que saiba de uma coisa... — As mãos pequenas emolduraram o rosto de Pérola. — Sempre que alguém disser que você não vai conseguir, lembre de hoje, comigo dizendo que você vai! Crie seus objetivos, batalhe pelas suas metas e, um dia, vai realizar seus sonhos assim como seu pai e eu.
— O papai queria ser presidente... Você sonhava em ser ourives?
— Esse era só um dos meus sonhos. Quer saber qual era o maior deles?
Pérola sacudiu a cabeça, empolgada.
— Meu maior sonho sempre foi ter uma filha maravilhosa como você! — Safira a agarrou em um abraço de urso com direito a cócegas e beijinhos no pescoço.
Gargalhando, Pérola deixou-se ser levada pela mãe. Assim que chegaram à recepção, encontraram Jade segurando um copo de refrigerante e um prato transbordante de salgadinhos.
— Mãe, trouxe pra você! — exclamou Jade.
— Ah, obrigada, meu amor — Sorrindo, Safira desocupou as mãos da filha.
— Puxa-saco — resmungou Pérola.
A irmã lhe mostrou a língua.
Pérola e Jade compartilhavam os mesmos traços de todas as meninas Paz e Guerra: cabelos longos e escuros, olhos afiados e toda aquela vontade de se sobressair. Mas, se tinha uma coisa que Pérola não compartilhava com nenhuma das irmãs era seu amor pelo legado da família. E, mesmo que Cristal fosse a mais bonita, Jade a mais divertida e Rubi a mais habilidosa, seria Pérola quem teria uma pintura no corredor dos presidentes!
Ela só precisava descobrir como...
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