Notas iniciais
O encontro dos assassinos civilizados para o desjejum.

Em meus lúdicos 8 anos de vida, meu entretenimento favorito era explorar nossa casa, que por sua vez, era composta por corredores extensos, vastos salões, inúmeros cômodos e passagens secretas.

Durante uma de minhas manhãs exploratórias, ao descer a escadaria principal apreciei o convidativo aroma de croissants, acompanhados por grossas e graves vozes masculinas vindas de de nosso salão de jantar, que pareciam estar no decorrer de uma negociação."Será que negociam para saber quem comerá o último croissant?" meditei em tênue ingenuidade. Mal sabia eu que a negociação era em prol de algo significantemente mais valioso do que um mero pão australiano recheado, ou melhor, "alguém".

Ao me aproximar do café de negociações, constatei considerável, porém limitada, euforia expressa naquelas grossas e graves vozes possuídas por sujeitos sisudos de terno preto que estavam à mesa com papa.O enredo era nada mais, nada menos que um arranjo matrimonial, cujo qual planejavam arduamente, pois seria uma união vantajosa tanto para papa, quanto para os sisudos. Minha grande dúvida era "Quem são essas pobres pessoas, nas quais não terão o direito de escolher com quem casar?". Pobre e ingênua criança.

As passagens secretas me levavam tanto à cômodos comuns, quanto cômodos nos quais jamais haviam sido mencionados, onde haviam enormes estantes arrebatadas de livros chamados "Os proibidos", que eram utilizados por papa em algumas de suas negociações. Como eu tinha em posse tal acesso, não poderia perder a chance de descobrir do que aqueles enormes e velhos livros se tratavam. Porém, ao ler um deles em uma tarde, fugitiva de minhas aulas de piano, nas quais papaexigiu que fizesse após completar 15 anos, descobri que os livros eram compostos por nomes, datas, e uma breve frase relatando um acontecimento. "12/06/1994 — Jhonnathan Vancurt — Não cumpriu com o tratado de posse do estabelecimento, tendo em vista pagar a dívida com juros mensalmente."

Não saber do que se tratavam àqueles nomes, ou o porquê de estarem listados em livros, em um sala secreta me deixaram em extrema agonia, e logo, tornou-se meu novo passa tempo descobrir o princípio e a finalidade de cada um deles.

Lê-los, com certeza não me faria entender do que se tratavam, pois eram apenas inúmeros nomes, e contactar papa membros da famíliasobre os tais livros não seria uma opção, devido à minha fuga das aulas de piano, e meu amplo e indevido conhecimento em cômodos proibidos. Apesar de saber que folha-los não me proporcionaria muito, não vi outra opção plausível no momento, então todos os dias no horário da aula de piano, inventava uma desculpa à professora, e corria para a "sala secreta" para passar horas olhando página por página.

Infelizmente, em uma dessas tardes, encontrei-me envolvida por uma onda de sono irresistível, que me fez perder o horário da aula de piano, e consecutivamente ser pega ao ser acordada por papa. Para a minha surpresa, ele não parecia nenhum pouco irritado por me dar um flagrante em um lugar no qual não deveria ser de meu conhecimento, pelo contrário, mostrava-se orgulhoso, como se sua filhinha acabasse de receber um Prêmio Nobel ao descobrir essa parte da casa. "Será que era mesmo para eu descobrir a existência desses livros?"

Papa abraçou-me como nunca havia (à mim, pois abraçava à meus irmão assim sempre), e ergueu as mãos aos céus dizendo "Minha filha finalmente entrará para a família." Como assim "finalmente"? Pensei que fizesse parte desde que nasci, porém, logo percebi que papa estava referindo-se à família por outro ponto de vista, não por laços de sangue, mas por laços mais empreendedores.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!