A cigana e o Véu
3 Capítulo 2 – Henry Chester
Capítulo 2 – Henry Chester
Meses depois...
A primeira vez que Henry viu Agatha depois de 10 anos foi na pequena recepção que a produtora fez para a equipe da série, O véu e a cigana. O elenco havia se reunido mais cedo para as primeiras leituras do roteiro. Na festa, o diretor Julius Carter aproveitou para fazer uma social entre o elenco e seus patrocinadores, além de apresentar Charlotte Visgo, autora do Best-seller que era a base do roteiro.
No entanto Henry não participou diretamente da reunião, por maior que fosse sua contribuição ao projeto ou sua vontade de confrontar certa pessoa. Observou tudo do alto de sua redoma espelhada, naquela sala que servia para sua privacidade enquanto fitava a lebre castanha que não podia espantar.
Faziam muitos anos que Henry não via Agatha, mas ali naquele momento era como se o tempo não tivesse passado. Desde que ela chegara, não conseguiu tirar os olhos dela. Como pode ela ter mudado tanto e mesmo assim ainda lhe parecer a de sempre? Ainda tinha as mesmas vibrações, aquelas que atraíam as pessoas a sua volta como moscas, mesmo que, notando agora, Agatha houvesse se tornado alguém mais contida.
Diferente de outros tempos, ele a viu chegar sem nenhum estardalhaço. Simples e elegante em um vestido vermelho de alças finas e rendas pretas, de caimento perfeito contornando seu corpo, mais arredondado do que lembrava, porém ainda mais lindo. Os cabelos soltos, os brincos dourados de argola, o chali preto com rosas brancas e franjas em sua extensão, mas nos pés um par de botas pesadas, que davam um ar despojado, como se a figura tentasse ser feminina, mas a vida a forçou a ser forte. Tudo aquilo gritava Verônica, sua personagem na série. Ou seria o contrário?
Agatha fazia jus ao papel que lhe escolheram. Ela sempre pareceu a Henry tal qual a uma cigana. Talvez por isso, a ex-cunhada de Henry, — Charlotte Visgo — havia lhe usado de inspiração. Era totalmente despojada de recato, livre e bem articulada, naturalmente sedutora sem nenhuma necessidade de qualquer artificio além de existir.
Agatha estava quietinha em um canto da festa, conversando com Nick Lorem, o par romântico dela na série. Aos poucos Henry viu um ou outro do elenco se aproximar, cumprimentar, puxar assunto e não sair mais. Ficavam e ouviam, maravilhados. Depois outro e mais outra... Até aquele grupo se fazer enorme... Ali ele viu aquela do passado, solta, carismática, desenvolta, risada ampla e chamativa.
Henry Chester, olhou para se mesmo refletido em um espelho decorativo da sala. Os anos também o haviam favorecido, seus olhos azuis, penetrantes e convidativos emoldurados em um rosto másculo de traços marcantes que lhe rendera muitas oportunidades, adornados pelo cabelo castanho ondulado, penteado formalmente em conjunto com a barba crescida que fazia estragos maiores que a beleza em se. Estava trajando um conjunto social escuro, blusa azul marinho com mangas enroladas até o meio do antebraço, exibindo músculos marcados. Um corpo de um ator de filmes de ação moldado por anos de artes marciais e outros esportes. O terno azul pendia numa poltrona próxima. Começou a achar que havia se arrumado demais para ficar escondido ali.
Olhou novamente para baixo sentindo algo parecido com coragem se espalhar em suas veias. Estava contando até dez para descer quando notou Julius Carter olhando para o mesmo ponto em que estava e se assustou. Será que o espelhado estava com defeito? Julius se afastou do grupo e alguns minutos depois ouviu as batidas na porta do reservado. Seu garçom particular atendeu a porta e deixou Julius entrar.
O homem de terno branco com um corte elegante e estilizado, junto com a camisa em um tom de azul bebê. O traje combinava perfeitamente com o cabelo louro dourado, levemente ondulado longo até os ombros. O rosto com linhas fortes, queixo quadrado, era a figura perfeita do arcanjo que interpretou em muitos filmes antes de virar diretor.
- Vim ver como você estava e se ainda não tinha tentado matar o garçom com a sua ansiedade... — Julius olhou para o lado mirando o funcionário — por favor deixe o rapaz ileso. – Ele deu uma piscadinha sedutora, para o jovem que manteve a postura profissional. – Então? Ela está linda, não está?
- Como você soube onde eu estava? – Disse Henry desviando do assunto, dando uma última espiada no salão e saindo de perto da janela. — Dá pra me ver dali de baixo?
- Como assim? Claro que não!
- Você olhou direto pra mim! Dei um pulo da janela! Achei que eu tivesse que sair correndo!
Julius caiu na gargalhada curvando-se sobre os joelhos – Foi só intuição. – Ele foi até o bar para se servir de um scotch.
Henry sentou-se na poltrona que outrora deixara seu terno e fez um sinal para o garçom sair do recinto. Quando o rapaz foi embora ele cobrou a Julius:
- Você ainda não me falou como foi pra convencê-la. Julius parou dois segundos antes de se virar para Henry.
- Era sobre isso que eu vim falar com você – Sentou no sofá logo à frente da poltrona que Henry estava. – Bom, confesso que fiquei beeem chocado sobre quão difícil foi. Ela negou na mesma hora que eu liguei, mesmo com a fortuna que eu pus naquele contrato! — Pôs a mão no peito meneando a cabeça indignado.
Henry ouvia atentamente segurando o copo com as duas mãos e apoiando os antebraços nas coxas:
- A Agatha que eu conhecia teria cedido por muito menos! E olha a audácia! mesmo eu indo até uma região do Brasil que nunca ouvi falar atrás dela, olhar dentro dos olhos dela, segurar em suas mãozinhas e usar a carta dos velhos tempos... lá estava ela, tal qual uma camponesa, me desdenhando do alto do seu notebook mais velho que as primeiras plásticas da minha mãe! — Julius revirou os olhos com uma mistura de enfado e indignação, cruzou as pernas segurando o braço do drink pelo cotovelo. – Bom, mas para finalizar... minha última cartada foi dizer... despretensiosamente... — Julius fez uma pausa desviando os olhos de Henry para dar a facada definitiva no seu produtor — ...que você estava em um projeto por Londres e que ficaria por lá uma temporada inteira. – Deu um gole em sua bebida. – Ela aceitou um dia depois.
Henry assentiu, desviando o olhar para o copo de whisky em sua mão. Sabia que haveria o risco da mágoa de Agatha ainda ser grande, por isso que intuiu ficar escondido ali naquele dia.
- Então...
- Então, meu caro, receio que no momento essa mulher quer ver o slenderman antes de cruzar com você. – Falou Julius dobrando-se em direção a Henry e pousando o copo na mesa no processo. Apoiou a mão gelada no rosto enquanto observava as reações do amigo. – Nossa sorte é ninguém saber que você é sócio da produtora.
Henry se acomodou mais confortavelmente na poltrona buscando alento. Resolveu mudar de assunto.
- E sobre Charlotte? Vi Agatha tentar falar com ela algumas vezes hoje no Salão.
- Charlotte está fugindo de Agatha que nem pessoas em regime fogem de bolo. – disse no meio de uma risada debochada — Eu acho que Agatha ainda não descobriu de quem Charlotte foi cunhada. E acho que, por motivos próprios, Charlotte também não quer que ela descubra. — Julius deu um sorrisinho compassivo — Você sabe que a gente só tem essa história porque prometemos que teríamos Agatha e Nick como Veronica e Joseph, lembra?
Henry assentiu lembrando do porquê estaria antes como August, e não como Joseph.
- Ela aceitou sem hesitar dando pulos de satisfação, afinal não é todo mundo que consegue ver o personagem que imaginou sendo feito por quem ele se baseou. Só que dei a entender que a ignorância é uma benção... E que certas relações passadas não deveriam ser comentadas pra evitar... passos para trás... Acho que ela pegou a dica.
Henry se levantou voltando ao seu lugar de observador do salão e começou a duvidar de seu plano pela enésima vez. O plano consistia em voltar a conviver amigavelmente com Agatha. Para isso ele montou a produção de uma série onde os dois trabalhariam juntos. Ele já tinha deixado tudo pronto para fazer o papel de August.
Segundo mocinho da série. Porem havia uma sequência da franquia de seu personagem mais popular que ele por contrato precisaria gravar no mesmo período. Infelizmente nem se quisesse poderia recusar o trabalho. Então tiveram que por às pressas um substituto na série: William Fischer. Particularmente não gostava do colega, mas aceitou por insistência de Julius que o conhecia de longa data.
Ele suspirou sentindo mais uma vez o peso da decisão meio desesperada. Aquilo foi a maior loucura que já fez na vida, e sabia o quanto estava arriscando: sua carreira, sua credibilidade, seu patrimônio... Tudo isso para conseguir reverter um erro cometido a mais de 10 anos... Ele havia abandonado a mulher que dizia amar mais que tudo por um mal-entendido. Juntando-se a multidão de pessoas que a condenaram e espezinharam sem dó. Talvez até pior que isso, pois nem a coragem de confrontá-la ele teve, simplesmente foi embora.
- Henry, escuta. – Falou Julius em um tom mais complacente. — Eu quero um voto de confiança seu, tá? Acredite em mim quando falo que as coisas estão indo melhor do que você planejou. – Henry olhou para Julius cético. — Talvez do jeito que está seja mais fácil de ir amaciando as coisas com a fera radical ali. – Ele viu a postura de Henry se desfazendo — Deixe-a se acostumar de novo com a rotina de Hollywood. Vai ser o tempo de você concluir seu contrato e arrumarmos um personagem para você. Com o contrato dela assinado vai ser meio difícil ela recusar trabalhar conosco.
- Não queria que chegasse ao ponto de eu ter que impor minha presença... Isso tudo é pra tentar me redimir e não fazer ela me odiar ainda mais!
- Mas Henry entenda, mesmo que seus métodos não sejam lá muito ortodoxos, no final você está fazendo mais bem do que mal.
Julius se juntou a Henry para apontar a figura de Agatha no salão tentando puxar assunto com Charlotte, que respondia a ela com um sorriso acanhado.
– Pra começo de conversa, se a vida dela estivesse realmente melhor como uma pessoa comum, ela não teria começado aquelas lives! Agatha é uma artista! E das boas! Se você visse ela na leitura de hoje! Todo mundo fascinado com a desenvoltura dela! – Julius deu um tapinha no antebraço de Henry com o dorso da mão para lhe chamar atenção. — Amigo você está dando a ela a chance de recomeçar! De forma mais madura, mais centrada! Agatha realmente é uma pessoa... diferente. Talvez a maternidade tenha feito um bom trabalho de crescimento nela.
Os olhos de Henry se suavizaram.
- Você viu o filho dela?
Julius reclinou a cabeça com um olhar de “me poupe”.
- É. A sua. Cara. – Henry desviou o olhar mal disfarçando um sorriso — É sua versão latina, querido. Quando ele aparecer na mídia vai ser difícil dizer que não é seu.
Aquilo deu a ele novo sopro de energia, lembrou-se de seu objetivo principal. Poder criar o filho.
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2 anos antes, durante a pandemia...
Henry estava distraído fazendo um upgrade em seu PC quando abriu despretensiosamente um post que seu irmão lhe enviou. Viu que era um corte de uma live feito por uma página aleatória de fofocas, o título dizia: de cantora e atriz a babá, a vida pós fama de Agatha Davis.
Henry sentiu o coração perder um compasso na mesma hora. Fazia anos que não tinha notícia alguma de Agatha, mesmo tentando achá- la com os poucos recursos que tinha anos atrás, ainda antes do sucesso e grande bum na sua carreira.
Abriu o vídeo e lá estava ela, no que parecia ser a sala de uma casa simples, iluminada apenas pela luz natural que entrava no cômodo. A mesma sem maquiagem, sem filtro, com um violão na mão, cantando alguma música antiga.
Do nada ouviu-se uma criança gritando: “Babachím!” e um menino de uns 6 anos apareceu na tela rapidamente, falando com ela em português, mostrou-lhe um desenho. Depois olhou para a tela, aproximando o rosto da câmera sorrindo, mostrando seus límpidos olhos azuis bem de perto. Ela apressadamente o move pra fora da visão da câmera, conversa com ele em português e depois volta para o vídeo, sorrindo sem graça dizendo que naquele dia estava de “babá”. Mas Henry sabia que não era isso. Ele a chamara de “Babachím”. Era um apelido inventado por Agatha que ela usava para chamar sua própria mãe...Aquele menino era filho dela... ele chegou a sentir vertigem... Seu estomago afundou.
Lembrou-se da ultima vez que esteve com Agatha. Os dois um pouco alterados de uma noitada em um evento de marketing. Agatha teve que tirar o diu por conta de uma reação adversa e os dois estavam usando métodos anticoncepcionais nem um pouco indicados...
Nesse instante ele se sentiu a pior das criaturas, não era possível que sua covardia tinha gerado uma consequência tão grave! Além de abandonar Agatha a mercê da imprensa marrom ainda havia deixado o filho pra trás? Assistiu aquele vídeo umas 500 vezes só naquele dia, parando sempre no rostinho meio embaçado do menino. Tinha a pele e o cabelo no mesmo tom acastanhado da mãe, mas aqueles olhos... Não! Não era possível! Ele só estava exagerando tudo!
Henry contratou uma agencia de investigação profissional para realmente saber tudo o que tinha acontecido com Agatha nos últimos anos. Quando o resultado da investigação chegou, Henry não teve mais dúvidas. Aquele menino era filho de Agatha, nascido em hospital na capital do estado em que ela vivia. A data de nascimento e as fotos mais nítidas... o menino tinha muitos traços dele. Além disso o menino se chamava Alexandre Colin da Silva Ramos. Colin era o primeiro nome de seu pai.
Henry quis procurar Agatha imediatamente, mas se conteve. Ele poderia muito bem acionar a justiça para ter direito a guarda compartilhada do filho, trazê-lo para os Estados Unidos, mas seria uma briga feia contra uma pessoa que sabia ter abandonado por ser um estupido covarde!
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Um pouco antes de Agatha sumir, Henry havia passado cerca de 10 dias fora de casa gravando algumas externas do primeiro grande trabalho que estava fazendo. Seria um Super Herói aclamado, o mais famoso de todos.
Tinha saído brigado com Agatha pois não aguentava mais o jeito como ela conduzia a vida e a carreira. Sempre se expondo demais, sempre atrás de polemicas, a última eram as fofocas sobre ela e o ex-namorado Bruno Hernandes, diziam que mesmo separados ainda nutriam sentimentos um pelo outro e que era nítido quando se encontravam.
O pior é que mesmo Agatha dizendo que não era verdade, ficava imensamente feliz quando via a imagem dos dois nos tabloides. Ela dizia que era como uma campanha de marketing gratuita, como se ser lembrada, mesmo que por um romance fracassado, fosse melhor que não ser.
Era um método que ela sempre seguira desde o tempo em que trabalhava para a família Davis, onde os produtores da Banda que era composta por 5 primas usavam o fato das origens dela não serem conhecidas para fomentar a ideia de que ela seria uma filha bastarda. De qualquer forma, Henry sempre desconfiou daquele discurso.
Mesmo antes de Henry e Agatha se relacionarem já conhecia a fama dos dois. Agatha e Bruno sempre estavam juntos e apaixonados, era um casal invejável. E Henry nutriu essa desconfiança até aquele dia fatídico.
Quando chegou das gravações na externa, entrou no apartamento dela com sua chave reserva sem fazer barulho, a mala de viagem na mão sem o rolar das rodas pois queria fazer uma surpresa. Então antes de vê-los ouviu. Os dois cantando. Era uma canção nova, desconhecida. Eles cantavam em uma harmonia perfeita, uma melodia nostálgica, falavam de uma amor forte ao ponto de desejarem que se o mundo acabasse que os dois estivessem juntos.
Agatha estava cantando de frente ao Ex e no final da música ela olho direto pra ele e disse: “Te amo.” Henry soltou sua mala no chão fazendo um estardalhaço. Os dois se assustaram e seguiram o som até onde Henry os estava espionando. Agatha ainda teve a pachorra de olhar para ele confusa, depois olhou para Bruno e soube o que ele havia entendido.
- Henry eu posso explicar. Não é o que voc... Henry!
Enquanto Agatha balbuciava alguma coisa que Henry fez questão de bloquear da mente, o mesmo recolhia a mala que, graças à Deus, não quebrou nem se abriu. Sua fuga foi rápida! Ainda conseguiu sentir Agatha o seguindo gritando explicações, ele não escutou ela falando que os dois só estavam trabalhando que não era o que ele pensava, só aquela frase no final. “Te amo” ainda gritava em seus ouvidos.
Ele entrou no carro, abriu a porta em cima dela, empurrando-a pra trás. Ela caiu no chão ainda gritando por ele. Quando olhou no retrovisor viu uns 5 fotógrafos em cima dela, registrando a cena. Bruno tirando-a do chão e correndo com ela pra dentro de casa.
Ele se isolou em uma casa nas montanhas que era propriedade do pai. Durante algum tempo, não soube ou quis notícias de Agatha ou de ninguém. Seu pai ainda tentou convencê-lo de procurar Agatha para uma explicação, ele dizia que sabia como funcionava o show business, mas Agatha sempre lhe pareceu diferente, achou que ele não havia dado tempo dela se explicar. Porém não insistiu muito. Colin Chester o conhecia melhor que a palma da sua mão, ele tinha fé que seu filho quando estivesse pronto faria o que achava certo.
Infelizmente ele não chegou a ver isso acontecendo. Em uma viagem de carro que fez até a cidade mais próxima da casa os dois sofreram um acidente descendo a montanha. Ficaram 24 horas presos na neve, seu pai não resistiu ao frio extremo.
Henry passou vários dias no hospital e em um desses dias Bruno Hernandes apareceu em seu quarto. Se Henry não tivesse tão dopado de remédios, com certeza teriam que arrumar um outro leito para Bruno. Mas seu rival disse que não queria discutir, só queria provar para Henry que ele e Agatha não tinham nada.
Ele deu play em um vídeo onde Agatha estava prestes a cantar a mesma música que Henry ouvira, só que antes ela tinha feito uma dedicatória pra ele, que a música que estavam fazendo era inspirada em um sonho que tivera com ele e as reflexões que chegara sobre o relacionamento dos dois. Ela fez uma declaração linda de amor para Henry, prometendo que iria concertar todas as coisas que ele lhe reclamara, que seu relacionamento seria o maior e melhor da vida dos dois.
Ele ouviu novamente a canção com uma dor profunda latejando em seu peito, sentiu todo o amor que a mesma empregara e que o havia deixado tão transtornado achando que aquilo era pra outro.
Ao final a frase que ponteou a discórdia: “Te amo”, depois ouviu o estrondo da sua mala caindo no chão. Na gravação Bruno virou a câmera para Henry que juntava a mala do chão e saía sem olhar pra trás. Então era isso, o “te amo” não era pra Bruno, era para a câmera...Era para ele... Não para Bruno! Para Henry!
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Pensar naquilo que a fez passar depois desse dia, deixando-a a mercê daqueles urubus aproveitadores, o fazia dar dez passos para trás quando o assunto era lhe causar qualquer outro transtorno. Chegou a querer culpá-la sobre seu ato impensado e até mesmo irresponsável de esconder o filho dos dois, más será que poderia?
No ponto que chegou a situação dela naquele tempo, a perseguição foi tanta que alguns amigos lhe falaram que ela saiu as escondidas dos Estados Unidos com ajuda de alguns contatos da embaixada Brasileira. Haters, entraram em sua casa, destruíram a propriedade, picharam as paredes com todo tipo de ofensas. Se esconder para proteger sua integridade era o mínimo da sensatez. Mas e depois? E nos anos a frente? Por que não o procurou?
Ele ponderou se realmente merecia essa confiança. E não, sabia que não tinha feito o bastante. A vergonha de tê-la condenado sem julgamento não permitiu ir atrás dela com mais empenho, por que mesmo se a achasse, o que poderia fazer para se redimir?
Ele passou meses observando seu filho e Agatha através da agencia que contratou para vigiá-los. Descobriu que Agatha trabalhava com o irmão e que antes das lives viveu quase 7 anos no mais absoluto anonimato. Usando seu nome de batismo, em uma cidade próxima a capital do estado onde nasceu. Começou as lives por causa da pandemia. Os negócios não estavam indo bem. As lives ajudavam, mas ainda assim os dois viviam de uma maneira que beirava a modéstia, muito diferente do conforto e luxo que Agatha passou anos usufruindo.
Ele tentava achar uma forma de ajuda-los enquanto não conseguia um jeito de aproximar-se dos dois. Foi quando seu irmão veio visita-lo e falou a respeito de sua ex-cunhada Charlotte. Falou que a ex-esposa dele tinha finalmente conseguido utilidade para as histórias que inventava sobre a vida imaginária das celebridades que acompanhava.
Henry sempre soube do talento de Charlotte escrevendo, apesar de achar um desperdício dela apenas fazer histórias usando personagens de outras obras em fanfics online.
- Ela conseguiu adaptar uma das histórias mais famosas dela e transformar em algo comercial. – Seu irmão abordou o assunto de maneira um pouco desdenhosa – Agora, você não vai acreditar em quem é baseado a personagem principal da obra. Agatha Davis, aquela sua ex sumida!
De repente Henry ficou 10 vezes mais curioso sobre tudo relacionado a história. Depois que seu irmão saiu ele comprou o livro online e o devorou em horas, descobrindo depois que se tratava de uma trilogia. Após ler e absorver todo o conteúdo da obra, e ver o potencial da história, Henry achou a solução para todos os problemas que estava tendo.
Ele transformaria aquela obra em um filme... ou melhor! Em uma série! Ele chamaria Agatha para fazer o personagem inspirado nela mesma! Agatha teria que voltar para os Estados unidos com o filho, e nisso ele teria mais oportunidades para se aproximar dela novamente.
Ele daria um jeito de conseguir manter um relacionamento amigável, para depois convencê-la que os dois juntos poderiam cuidar do filho e formar uma co-parentalidade saldável!
Ele usaria a produtora que fez para começar a montar pequenos filmes de ação. Não era o ramo que trabalhavam, mas diria aos sócios que seria uma jogada para atrair um público diferente e diversificar o negócio.
De forma mais anônima possível foi juntando todas as partes daquele plano. De primeira sabia que sem uma pessoa de confiança a frente da produção, seu trabalho seria muito mais difícil. De cara soube que não haveria uma pessoa mais adequada para dirigir a série que Julius Carter.
O recém consagrado diretor de séries românticas era amigo de Henry e Agatha separadamente a pelo menos 18 anos, ele tentou por diversas vezes juntá-los, mas os dois sempre estavam em um relacionamento ou outro. Quando um acaso os uniu e os dois formassem um casal, não teve pessoa que comemorou mais que ele.
Depois que Agatha sumiu, Julius não foi mais o mesmo com Henry.
Nunca mais lhe procurou como amigo e quando o encontrava em eventos havia sempre uma alfinetada, uma citação a Agatha e aos velhos tempos. Henry entendeu que Julius o culpava de alguma forma pelo sumiço dela.
Então não teve um pingo de receio em levar a Julius todo o seu plano louco para traze-la de volta aos Estados Unidos. Sabia que Julius, depois dele próprio, era a pessoa mais saudosa de sua amiga na mídia. E ele estava certo. Julius acatou todo o plano sem nem pensar, além do quê, a História de Charlotte era visada por ele desde o lançamento.
Julius tomou pra se todas as demais tratativas sobre a obra, conseguiu comprar os direitos do livro de Charlotte para a produção áudio visual, sem que ela soubesse que era para a produtora de Henry. Agarinhou patrocínios, montou uma equipe consistente fez com que aquele projeto ganhasse forma real além do objetivo principal. Ele fez com que o projeto de fato viesse a luz como algo comprável e aceito! Foi por ele estar a frente que o maior streaming da atualidade abriu suas portas para aquilo. Aos poucos Henry foi ganhando confiança que mesmo por um caminho meio torto estava realizando algo além do que almejava, ainda assim nada daquilo faria sentido se Agatha não aceitasse estar ali no meio deles.
O último passo dessa história toda se deu a dois meses atrás. Agatha aceitara! Tinha assinado um contrato para a primeira temporada, como é de praxe. O que deixou Henry temeroso mais uma vez.
Quando a primeira temporada acabasse teriam que convencê-la de novo a assinar outro contrato. Julius disse que ela não aceitou mais que isso. Mesmo ele insistindo que ela era a personagem principal e que era normal um contrato até o final da série. Toda tentativa de ir além dos limites dela era um retrocesso nas negociações, então Julius por fim aceitou o risco.
Outro duro golpe nos seus planos foi o fato de Agatha não ter trazido Alexandre com ela desde o início.
- Ela falou que não poderia tirar o menino de uma escola brasileira para uma americana sem qualquer tipo de preparação. – Falou Julius em uma das inúmeras reuniões que teve com Henry — E ainda no período em que ele estava, mesmo Alexandre já sendo bem fluente em inglês, esperaria ele terminar o ano letivo em dezembro e depois o matricularia e uma escola internacional no Brasil durante 6 meses para adaptação.
Isso equivaleria a todo período de gravação da 1ª temporada. Ou seja, teriam que fazer com que a série fosse um sucesso, que Agatha se mantivesse satisfeita com tudo e voltasse para a segunda e terceira temporada.
- Temos que amaciar a gata e a audiência. – Disse Julius com um sorriso de quem tinha um longo e pesado trabalho à frente...
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