A cidade das fantasias
4 Shopping com Jess
Notas iniciais
Acordei com alguém batendo na porta, estava morrendo de dor de cabeça por ter ficado até tarde acordada. Me levantei e gritei que já ia abrir. Troquei de roupa e dei de cara com Jess na porta. Antes que pudesse falar alguma coisa, ela já veio me abraçando.
– Oi! Foi mal não ter ficado ontem para te ajudar, é que fui colocar um piercing — estava sorridente, apontava pro nariz orgulhosa — mas hoje, para compensar, nós vamos sair juntas.
– Para onde nós vamos?
– Fazer compras, claro. Tenho certeza que você não se sente nada bem nesse quarto, pois como sou seu anjo, consigo saber o que sente. Sou a sua "ajudante" enquanto você ainda estiver se adaptando aqui.
Fiquei um pouco nervosa pela idéia de uma pessoa que sabe o que sinto, sem ao menos me conhecer. Estava pensando o quanto isso era constrangedor, mas aí percebi que ela tinha voltado a falar.
– Então... vamos às compras?
– Mas eu nem tenho dinheiro.
– Ah! Não tem problema, para recém integrantes do país, tem um cartão especial que contém crédito para comprar coisas para casa e roupas novas. Agora vamos logo antes que as lojas fiquem cheias.
Fomos à pé até o centro da cidade, lá tinha um shopping enorme, como no mundo real, mas sem lanchonetes e restaurantes. Foi só ao notar isso que percebi que não comia há, pelo menos, um dia e mesmo assim não sentia fome nenhuma.
– Eu sei o que você deve estar pensando. Nesse mundo, os seres não precisam comer, já que somos o que os humanos chamam de "espíritos". Espíritos só precisam purificar a alma, reorganizar os pensamentos para viver em paz, mas nós fazemos isso, normalmente, dormindo. Até temos comida por aqui, para as pessoas que gostam de comer ou para se encontrar com os amigos em bares, restaurantes e outros lugares, mas comer não tem nem de longe os mesmos efeitos de uma boa noite de sono.
– Nossa! Você lê a mente das pessoas também? — falei bastante surpresa por ela saber o que eu estava pensando.
– Hahaha! Não, mas eu bem que queria. Eu sou anjo há bastante tempo, e essa é uma das perguntas que sempre me fazem. Bem, você quer primeiro comprar roupas ou móveis?
– Móveis. Prefiro ajeitar o meu quarto primeiro, porque aquele branco todo já está me deixando louca.
Fomos em várias lojas, compramos vários móveis que fariam meu quarto virar o de uma princesa, pelo menos isso me faria me sentir em casa.
Logo depois, nós fomos para a parte de roupas. Foi estranho ter que comprar roupas especiais, que tivessem um furo para o meu rabo poder se mexer livremente, ainda mais que ele era muito cheio, assim como o meu cabelo.
Se eu fosse 100% gato, com certeza eu seria um daqueles que parecem gordos e enormes por causa da quantidade de pelo. Aquele gato que sempre está deitado pedindo carinho, o que conquista qualquer um.
Acabei comprando várias roupas, de tudo quanto é tipo, pois sempre fui de mudar bastante meus estilos de roupa.
Aquele passeio estava sendo mais divertido do que eu imaginava. Jess, apesar de ter cara de durona e valentona, era engraçada e descontraída,talvez havíamos começado a virar amigas.
– Bem, eu tinha marcado de sair com os meus amigos daqui a pouco, você tem duas opções: pode voltar para casa, eu te levo de volta numa boa, ou sair comigo para conhecê-los. O que você escolhe?
Já que eu não conhecia nada e nem ninguém da cidade, então decidi aceitar, mesmo sabendo que iria ficar morrendo de vergonha, uma hora eu teria que encarar isso mesmo, então melhor agora, assim não perco tempo.
–Claro que sim! — apesar do nervosismo, estava ansiosa para conhecê-los — aonde nós vamos?
– A gente está pretendendo ir num restaurante muito bom e barato. Ele se chama " Ilusion Club", mas nós chamamos de "covil", já que nós sempre nos encontramos lá, pois ele seria o "covil secreto" do nosso grupo — achei engraçado a relação deles com o lugar, eles deviam ter passado bastante coisa juntos lá, só de imaginar chegava a ser comovente — Bem, agora vamos para casa arrumar suas coisas, os móveis devem chegar daqui a pouco.
Quando chegamos em casa (já estava começando a aceitar que aquela era minha casa), assim que abri a porta, olhei para as rosas, havia ganhado mais uma, e me lembrei o que queria perguntar no dia anterior, quando peguei no sono.
– Tem algum jeito de saber quem deu as flores? — falei apontando para as elas.
– Só o seu anjo, que no caso sou eu, pode ver quem deu as rosas. Mas nós decidimos o que devemos contar sobre o passado de nossos protegidos, que no caso seria você, e em que momento se deve contar, por isso, por enquanto, não sei se posso falar quem deu para você.
– Então você sabe sobre o meu passado? — perguntei esperançosa.
– Claro que sei! Antes do meu protegido acordar, eu devo estudar tudo sobre ele. Sei o seu passado, quem te conhecia, de quem você gostava, como você agia, sei tudo sobre seu antigo dia a dia.
– NÃO ACREDITO!!! Então você pode me falar porque estou aqui? — perguntei animada. FINALMENTE TERIA A RESPOSTA!!
– Na verdade, eu não tenho autorização para falar, só o conselheiro pode responder essa pergunta.
NÃO ACREDITO!! ESSAS PESSOAS SÓ PODIAM ESTAR DE BRINCADEIRA COMIGO! EU ESTOU EXPLODINDO DE RAIVA.
Foi ai que eu lembrei que podia visitá-lo hoje. Peguei o meu celular, vi que eram duas horas, daria tempo de ir para lá depois de organizar meu quarto.
– Eu vou vê-lo então, depois de arrumar o apartamento.
– Mas e o restaurante?
– Outro dia eu vou lá. Você disse que vocês se encontram sempre, né?
– Mas estava tão divertido ficar contigo... — Jess disse fazendo a cara mais triste que podia.
– Aposto que você se diverte assim com todas as suas "protegidas" — falei com raiva daquela situação — fala sério, né? Você não entende que eu já estou de saco cheio de vocês me enrolarem?
– Vocês são chamados de "protegidos" porque eu seria uma espécie de "anjo da guarda", como falam na Terra. Mesmo tendo que ser gentil, por causa do meu trabalho, eu não me divirto assim com todos... Eu realmente te achei bem legal, mas parece que você prefere descobrir coisas que ainda não estão no momento de saber — Jess estava claramente brava, bem nessa hora o interfone tocou.
– Deve ser os seus móveis, vou mandar subir e pedir para alguém vir ajudar — falou bem seca.
Enquanto nós duas e um homem que trabalhava no hotel arrumávamos as coisas, eu fiquei pensando nas palavras dela.
Era realmente importante descobrir mais coisas de quando eu era viva? Claro que sim, mas eu teria mais chances de ver isso com mais calma, porém eu só tinha uma chance de conquistar a amizade dela e eu com certeza não queria perder essa oportunidade.
Assim que arrumamos tudo, o homem saiu do quarto para votar a trabalhar e eu fui falar com Jess, que já estava se dirigindo à porta.
– Não vá! Eu ainda tenho que trocar de roupa, não quero encontrar seus amigos toda desarrumada...
Assim que falei isso, as bochechas dela ficaram rosadas, ela abriu o maior sorriso e começou a revirar as gavetas do meu novo armário para achar uma roupa perfeita para mim. Eu estava muito ansiosa para conhecê-los e feliz por não ter estragado a amizade que tinha acabado de fazer.
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