A casa de tijolos amarela

1 Em uma rua sem cor, uma casinha


Quando era criança, eu era diferente e obviamente ainda sou. Nunca me encaixei em lugar algum, não importava se compartilhava alguns gostos em comum com outras garotas e garotos da minha idade, era sempre eu a criança sozinha e deixada de lado.

Brincando com alguns amigos de pique-pega, lembro-me de que, em meio a uma rua cheia de casas tradicionais e chiques, uma casinha de tijolos amarelos era a única que chamava mais atenção, e não por ser pequena, mas sim pela sua cor; um amarelo lindo e brilhante, ao invés do tradicional e opaco branco. Algumas das crianças que estavam comigo acharam a casa feia e infantil demais. "Não devia ter uma casa assim aqui, olha só para aquela grandona ali, imagina como seria feia se fosse amarela também!" Um deles me disse, mas eu permanecia vidrado na pequena casa amarela. Enquanto eles riam dela por ser diferente, eu ria deles por serem tão bobos. Amarelo é uma cor tão linda e, mesmo que eles caçoassem dela, era a única que chamava atenção de qualquer um que passasse por aquela rua.

A senhorinha que morava lá cuidou do meu joelho ralado, quando uma garota me empurrou na calçada dizendo que foi "sem querer". Enquanto ela enxugava minhas lágrimas — no banquinho que ficava na frente do muro da casa — eu, como uma criança curiosa, perguntei-lhe o porquê de sua casa ser amarela. Ela respondeu com um simples: "É uma linda cor, não acha?". Eu também achava, mas respondi com mais perguntas: "A casa é linda e a cor é perfeita, mas ela chama tanta atenção. Todas as crianças riram dizendo que é feia! Por que você não pintou de branco como a da frente? Ou cinza como a do lado? Não é triste todos rirem dela?". Ela riu, o que me fez ficar envergonhado e até irritado. Todos riam de mim, e eu odiava isso, porém a resposta dela veio entre os risos: "Então, só porque algumas crianças e os donos dessas casas tem mau gosto que eu também preciso ter? Sabe, eles riram da minha casa colorida, mas só falaram e olharam para ela. Ser diferente traz atenção desejada e indesejada, mas isso não importa, eu a amo desse jeitinho e não mudo por nada, amarelo é minha cor favorita! Será que essa sua curiosidade não é porque você é a pequena casinha de tijolos amarelos, baixinho?". Eu não sabia como responder, até porque no momento não entendi o que ela realmente queria dizer. Quando fui perguntar, ela apenas sorriu mais uma vez e me disse para voltar a brincar antes que meus amigos fossem para próxima rua e eu ficasse para trás.

Eu era uma pessoa e as pessoas não podem ser casas, certo? E quem ela chamou de baixinho?! Foi só aos quinze que fui entender o que ela quis dizer, eu não me identificava com os outros e era chamado de esquisito assim como aquela casa. Então, talvez… em um mundo preto e branco, eu fosse a casa amarela, aquela que era diferente e chamava atenção de todos, que brilhou ainda mais depois que se aceitou. Um amarelo tão vivo que era convidativo para outros esquisitos e que cegava os olhos dos normais. E sendo sincero? Ser uma casa de tijolos amarelos é muito mais divertido, mesmo que seja mais difícil, é assim que sei que estou vivo.


Notas finais
Quero agradecer a linda da, Su — @Takt no spirit — por ter feito a betagem para mim, te amo minha linda <33
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!