A casa de ébano.

Nossa união era forjada. Não havia elo algum entre nós, mas a calmaria falsa nos enganava muito bem. Eu não tive família, o que eu tive foi algo muito mais pragmático, insensível. Eu não fui um filho, fui só a extensão das ambições de meu pai. Só lamento pelo barão, pois nunca fui o homem de negócios que ele idealizou. Não fui capaz de mentir, não fui capaz de extorquir, minhas mãos nunca suportaram o peso do ouro falso. Compartilhávamos do mesmo sangue, mas nossas semelhanças não iam além disso. Éramos quatro vivendo sob o mesmo teto, mas nunca tínhamos tempo uns para os outros. O barão tinha suas garrafas, a baronesa tinha seus quadros, a filha dela tinha seu jardim, e eu os meus livros. Ilhados. Nossos interesses nunca se misturavam, e nossa união ilusória era o suficiente, mesmo que só durasse até a próxima briga. Tinha dias... No quais eu via os portões do inferno abertos. A guerra ecoava no ébano, mas não éramos os guerreiros que nela lutavam, éramos os prisioneiros dela. Nesses dias, eu largava os livros, pois neles as palavras turvavam diante de meus olhos. Nesses dias, nada ousava brotar nos jardins. Dias em que nem uma gota de tinta ousava tocar as telas. Vivíamos o cárcere sem termos cometido crime algum. Pó de arroz. A baronesa virava a própria arte, cobria de branco cada estrago, mirava o espelho e jurava que nunca ia acontecer de novo. E assim seria. Esteve lá durante a tarde, já de noite, não mais. Anos mais tarde, seu filho de outro sangue também seguiu seu exemplo. Jovem e tolo eu era. Dezenove anos, pouca idade, mas muito desespero. Numa noite em que o vento abafava qualquer passo ou galope, pulei da janela e montei. Pouco importava onde ou como, nem quanto tempo duraria. Só deixei a crina me guiar: Desapareci.

Tempos difíceis foram aqueles, mas quando a guerra foi substituída pela paz, percebi que uma cabana abandonada poderia ser muito mais valiosa que um casarão de ébano. O frio era sufocante, mas passava. A comida era pouca, mas saciava. Meus pertences eram humildes, mas todos conquistados com minhas próprias mãos. Infelizmente, com o tempo as dores diminuem, as memórias fenecem e nos fazem de tolos... Hoje isso tudo passou, mas lhe contarei como foi voltar àquele lugar, e no fim você verá o preço que pagamos quando ousamos quebrar nossas próprias promessas.

Vivi isolado na cabana até então. No entanto, num certo dia recebi uma carta, adornada na frente e verso com a letra de Éris, minha irmã. “Nunca antes se deram o trabalho de me procurar, então por que agora? O que buscam?” Me perguntei. Quase nada fora escrito na carta, sem desculpas ou esclarecimentos, apenas a letra dela e um convite curioso. Senti nostalgia... De quê? De se sentir um intruso na própria casa? Não tinha nada para mim naquele lugar, minha promessa era jamais voltar, mas mesmo assim... Eu quis quebrar essa promessa. Muito tempo já tinha passado. “Muita coisa deve ter mudado, não é mesmo?” Eu me convencia. Me preparei para a viagem enquanto sentia meus medos e paranoias correrem a solta dentro de mim. Voltei a eles da mesma maneira que os deixei: Montado em minha égua cinza que, assim como eu, carregava as marcas deixadas pelo barão. “Que Deus seja piedoso com aqueles que lá ficaram...”. Pedi baixinho.

O que eu tinha na cabeça? Me pergunto até hoje. Quão ingênuos podemos nos tornar quando controlados pela solidão? Por que nos jogamos em armadilhas óbvias? Eu realmente acreditei que o barão tinha largado seus vícios? E que minha irmã finalmente largara suas tramas doentias? Eu era o mais estúpido dos fugitivos. Corria em um momento e no outro oferecia as mãos para os grilhões. Tarde demais para mudar de ideia. Minha cabana estava a dias de caminhada atrás de mim, já o casarão só a alguns passos. Eram os mesmos portões negros, só mais envelhecidos. O lugar era luxuoso, adornado com um enorme jardim, mas nem as belas flores conseguiam deixá-lo menos cinzento, nem o cheiro estonteantemente doce das glicínias conseguia disfarçar a névoa fúnebre que habitava a casa de ébano. Desmontei num salto, os empregados me olharam. Sujo, um pouco magro; foram cinco anos talvez? Eu estava mais alto? Me reconheceram? Sim, me reconheceram.

As portas estavam abertas, mas não ousei entrar pois eu estava imundo; ou talvez eu usasse desse argumento para me convencer, mas o motivo era outro. Enquanto esperava que chamassem minha irmã, me sentei no jardim e admirei a variedade de cores e formas que ali tinha, no entanto, algo me incomodou. Eu reconheci aquele cheiro desagradável de tantos anos atrás, vinha debaixo dos ramos de hera, ela ainda a escondia... A muda de beladona. A visão daqueles frutos negros e brilhantes me causava desgosto. Não tinha nada que eu detestasse mais do que essa erva do diabo; minha irmã sabia muito bem o porquê, mas se recusava a arrancá-la de seu arranjo. Não suportei ficar nos jardins, então fiquei no batente da porta, de onde pude me distrair com o maravilhoso cheiro de chá que vinha da cozinha. Fiquei a admirar os quadros deixados pela baronesa; que ilustravam flores também, e os móveis de ébano, nos quais eu fingia não ver os arranhões de um passado violento.

Como nossas vidas poderiam ser tão luxuosas e miseráveis ao mesmo tempo? Me sentia muito confuso, pois por mais que as lembranças fossem ruins, eu não conseguia negar que aquele lugar me trazia conforto. A luz tênue que pairava na casa, o silêncio, as tapeçarias e quadros, formava um conjunto agradável. Só mais tarde eu notei que o lugar em si nunca fora um inferno. Era nas pessoas que habitava o inferno. As escadas de madeira, rangeram com o baque do salto-alto de minha irmã, que descia apressada, sacudindo um vestido vermelho que nunca antes tinha visto usar. A jovem me olhou dos cabelos pretos desgrenhados até minhas botas sujas e sorriu alegremente, de um jeito que também não costumava fazer.

Homens tinham vozes imponentes, mulheres tinham vozes belas, já eu, nem um nem outro. Minha voz mais parecia um doloroso sussurro entalado na garganta, isso devido a um problema de saúde de muitos anos... Um problema que me fez de cobaia. Meu cumprimento rasgou minha garganta até chegar a ela. Eu sempre preferi escrever, pois a escrita me poupava da dor de falar, mas naquele dia não me restou opção. Ela mal descera o último degrau e já me mandava uma saraivada de perguntas sobre o que fiz, o que vi, como me senti, e eu sempre dava as mais rasas das respostas, pois não gostava de ser o assunto. A ausência de passos no restante da casa me deixava curioso, então fiz um esforço e comentei num sibilo baixo:

— Não vi o barão...

O sorriso dela despencou do rosto.

— Você viu o barão? — Perguntou surpresa.

— Não... Aconteceu alguma coisa? — Minha voz falhava, fazendo sons feios.

Ela suspirou; não sei se de preocupação ou alívio, discretamente voltou a sorrir e informou:

— No mesmo dia que lhe enviei a carta, eu preparei um jantar para que pudesse contar a ele sobre você, e ele, sem nem terminar... Disse que ia até a casa dos Thânatos, mas ainda não voltou.

Esperei que ela continuasse, mas tudo o que ela fazia era me lançar um olhar que eu não conseguia decifrar. Do nada o clima se tornou pesado e estranho, então tentei continuar:

— Éris... Você não perguntou aos Thânatos sobre ele?

Talvez fosse impressão minha, mas ela pareceu decepcionada com minha pergunta, e respondeu entristecida:

— Segundo o que um de meus empregados disse, o barão se recusava a voltar para cá. Eu disse a ele para não... Mas ele nunca ouve... Ele deixou a casa dos Thânatos há cinco dias, mas uma tempestade varreu os rastros...

De fato, as estradas pelas quais passei estavam úmidas e reviradas, o barão podia facilmente se perder, principalmente se estivesse... Bêbado. Mesmo assim não posso dizer que fiquei comovido com seu desaparecimento. Quase nada sentia pelo velho homem; sendo que o pouco que sentia não era bom. No entanto, quando olhava minha irmã nos olhos não pude deixar de notar que... Seu luto era falso. Seu luto verdadeiro tinha outra forma, outra intensidade; lembro bem. Ela só ficava trancada na dispensa com suas flores e vidrinhos de essência, com os quais fazia misturas e remédios; alguns para minha garganta... Acreditava eu na época. A verdade é que ela sempre esteve se escondendo do barão, evitando seu olhar, evitando suas mãos, evitando sua ira. Assim era o luto de Éris. Assim foi quando a baronesa, a mãe dela, nos deixou há anos atrás, Éris ficou inconsolável por meses, mas quando o barão, desapareceu por cinco dias, ela logo se conformou?

De súbito, o conforto que senti antes desapareceu. A casa pareceu mais escura, os quadros vibrantes que adornavam as paredes pareciam feitos de um colorido falso; e só percebi mais tarde que, o cheiro que vinha da cozinha disfarçava um outro muito desagradável e cada vez mais forte... Beladona. Éris exalava aquele cheiro e me encarava com as pupilas dilatas, percebendo meu incomodo, mas não sua fonte. Ela se aproximou e tentou me consolar:

— Irmão, não se culpe! Você é bem vindo nessa casa, foi o barão quem se recusou a ficar! Não é culpa sua. — Disse enquanto tentava me abraçar.

Eu detestava essa intimidade que ela tentava forjar, principalmente por saber das coisas que ela era capaz de fazer quando alguém lhe virava as costas. Não retribui o abraço, só encarei o chão em silêncio.

— Enviei-lhe a carta porque sei que sente minha falta... E eu também quero sua companhia irmão... Eu o amo muito.

— Você sabe o porquê fui, e porque não posso ficar... Mas não vou deixá-la sozinha, vou trazer o barão de volta. — Ela se contraiu no nosso abraço, e eu pude sentir suas unhas.

— O barão nos esqueceu... Então por que nós não o esquece também...? Ele foi embora com a tempestade, porque quis. Me deixou sozinha, mas você não vai fazer isso... Fique. — De cabeça baixa ela me lançou um olhar sutil e perigoso, um olhar que escondia muitas coisas das quais eu nada sabia. O silêncio também era perigoso para mim. Eu conhecia a loucura de minha irmã, e não queria provar daquilo outra vez, então, mesmo contra minha vontade, entrei em seu jogo:

— Você tem razão, Éris... Vou ficar... — Ela me observou por uns instantes até ficar convencida, enfim sorriu, dando o assunto como acabado e firmando o abraço. A minha volta rendeu comemoração entre os criados e jantares fartos, nos quais eu aparentava calma, mas estava paralisado. Nas manhãs, eu praticamente implorava para que os criados me dessem o que comer enquanto Éris não estivesse vendo, pois durante os jantares, em cada prato ou taça estava impregnado com o aroma de beladona. A própria Éris também não tocava na comida, só fixava suas pupilas dilatas em mim, enquanto mordiscava uma maçã, provavelmente imaginando que a fruta que ela esmagava com os dentes era eu.

Todas as noites, me sentia jantando com o diabo. Foi assim por três dias, porque ela não me deixava brechas, não importava onde eu fosse, sempre tinha a sensação de que seu olhar queimava em minhas costas, a sensação de que ela até lia meus pensamentos. Ela me sufocava, mas reservava o pior para as noites, quando os criados se recolhiam e só sobravam eu e ela, que se sentia livre para me assombrar com suas investidas. Eu barrava a porta de meu quarto com uma estante; pois sabia que ela tinha todas as chaves, e mesmo assim ouvia a maçaneta girando com suas tentativas. Eu sei o que Éris pensava. Pensava que poderíamos ficar juntos porque não éramos irmãos de sangue. Sei que estava solitária, afogando-se em loucura, mas eu não suportava seu jeito estranho e destrutivo de demonstrar amor; se é que assim posso chamar. Me recusava a essa intimidade doentia. Na terceira noite cheguei ao meu limite.

Nem mesmo esperei o sol raiar, pulei pela janela e fugi galopando mais uma vez. Pensei. Eles sempre souberam onde estive; só que nesses cinco anos de minha ausência, o barão nunca moveu um dedo sequer para reparar o que quebrou. Nunca se arrependeu do que fez. Minha cabana nunca foi segredo algum, e então tomei a estrada oposta, na esperança de que ela não me seguisse. A trilha ficou cada vez mais fechada até se tornar uma floresta de abetos, fria e úmida. Após alguns minutos, ouvi um murmúrio vindo de alguns arbustos, guiei a égua naquela direção até encontrar um velho enroscado em raízes. Desmontei, dei apoio para que ele se virasse; estava magro, abatido e confuso. Seus olhos estavam embaçados, mas neles faiscou um reconhecimento.

— Darvaz... — Resmungou o velho, quase enojado, como se meu nome tivesse um gosto amargo e podre.

— Sim, barão do ébano... Sou eu mesmo. — Falei baixo, como a dor em minha garganta ditava que fizesse, e reparei no objeto que brilhou nas mãos dele — Que cena familiar... Você e uma garrafa...

Nunca vou entender por que os homens gostam de se destruir. O senhor elegante e imponente que era o barão se foi, o que restou dele agora rastejava na minha direção, mais parecendo um mendigo.

— SS-Seu pivete ingrato! Dei-lhe um teto sobre a cabeçaa e... d-dei-lhe a comida que tu engolia! — Gritou ele, de um jeito confuso enquanto fazia uma tentativa débil de se levantar, acabando no chão de novo.— E se... Dei-lhe as roupas que te vestem, dei-lhe tudo e tu me dá as costas! Como se tua irmã já não bastasse... — A voz dele era rouca; pelo jeito as palavras também lhe rasgavam a garganta.

Pais são limitados, só podem lhe dar o básico. Um teto sobre a cabeça já é muito, já é tudo. Digno de pena... Nós dois na verdade. Nós todos. Pouco me importava como ele tinha parado ali ou há quanto tempo estava. Eu só queria confirmar uma ideia, mas precisava chegar mais perto. Acalmei a égua deixando-a longe dos tropeções do velho, e me atentei a um detalhe que me deixou curioso:

— Barão, me diga uma coisa... De onde pegou essa garrafa? — Dei mais um passo.

— Da minha c-asa é claro... Onde a vv-agabunda da sua irmã es... esconde as coisas — Ele respondeu irritado — Primeiro ela esssfrega isso na minha cara e depois diz que... tenho que largar, se eu não parasse por conta própria... Que eu ia me arrepender! Aquela víbora.

— Essa bebida... Tem um gosto doce não é? — Fiquei bem de frente para ele. — Éris te deixou sair com isso em mãos?

— Quem você pensa q-que eu sou pra precissss... precisar de permissão pra pegar as coisas... E esse negócio num me fez bem... Aquela...

Me agachei e fiquei quase na mesma altura que o barão, senti o cheiro envenenado que vinha dele e da garrafa; que estava quase cheia. Na mesma hora eu soube. Essa era a resposta de Éris àqueles tantos anos de violência. Ela usou o vício dele para envenená-lo, ou melhor, fazer com que ele envenenasse a si mesmo. Nunca cheguei a descobrir todos os componentes da mistura de flores que ela fazia, lembro-me que era doce e só podendo ser identificada pelo único cheiro que não dava para disfarçar: O de Beladona. O fruto das desgraças, o cheiro que gerou essa paranoia em mim. O veneno doce que quase me tirou a vida várias vezes. Fui marcado para sempre com o hábito de sentir o odor das coisas, não me sentia seguro até reconhecer os componentes das coisas que eu comia ou bebia, já o barão, sempre ébrio, não se perguntava nada, apenas virara garrafa atrás de garrafa. Naquele momento, tudo se encaixou. Eles se mereciam... O barão não suportava ser um ídolo falso; uma fraude, não suportava seu filho covarde, sua enteada indolente, por isso se afogou no vermelho vinho, perdeu-se e fez eles se perderem também, até que não restasse mais ninguém. Despedaçou a própria família, nos tirou uns dos outros, mas um de nós se recusou a deixá-lo impune. Éris o culpava pela insuportável ausência da mãe, do irmão, do amor... Sua alma doente ansiava por algo mais, por vingança. Queria vê-lo bebendo até a última gota do veneno que ele amava mais do que a própria família. Um arrastava o outro para baixo, e no fim, todos caíram.

— Vv... Você veio aqui por que, aquela cadela quer que você me mate? Não é? Vocês querem a casa... Não seja parte disso... — Ele resmungou, com um olhar gélido; não sei se suplicava ou ameaçava.

Na época que eu mais precisei de alguém que me salvasse, ninguém veio, e anos depois meu carcereiro rastejava aos meus pés, precisando que alguém o salvasse também. E lá estava eu, com a vida dele em uma das mãos e a vida dela na outra. Eu era capaz de fazer o mesmo? Será que a mesma frieza que existia nele, existia em mim? Se o deixasse para morrer, então teria realizado a vontade de Éris, teria recompensando suas tramas doentias, no entanto, se o trouxesse de volta, ele se vingaria dela quando voltasse à consciência... Nem certo e errado, só duas pessoas tentando se destruir, como sempre aconteceu na história da humanidade. Ou seriam três? Eu era capaz de me incluir nisso? Eu era parte disso, pois tinha uma decisão... Sentenciar ou salvar? E se eu; guiado por loucura ou ganância, tivesse distorcido minha decisão, que som ecoaria nos corredores da casa de ébano? Os meus passos, ou os deles?

Você, o estranho que me visita hoje. Você, a quem escrevo essas linhas, é capaz de fazer a si mesmo as perguntas que sempre fiz e delas extrair as lições que nunca esqueço? Ouse duvidar do amor incondicional que dizem sentir por você, faça essa pergunta que você tanto teme:

“Sou digno de ser amado de verdade? O que é uma família senão um simples acaso genético; muitas das vezes acidental? Senão o sangue, o nome, a dependência, então o que nos uniria?”

Não sou só eu ou você. A humanidade é uma grande família, e ela não sabe amar.

Notas finais
Planejo fazer algumas alterações futuramente, mas por enquanto é só isso. Espero que tenha gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!