A carta imaginária

1 A verdade dói - A carta


Los Angeles, EUA, 18 de novembro de 2019.

Estava na minha cama, na nossa cama, a tentar adormecer, naquele dia, quando aconteceu.

Ainda não estavas em casa, e não foi, de todo, a melhor surpresa que já tiveste, depois de um longo e exaustivo dia de trabalho.

Vi a minha vida a mudar radicalmente no ínfimo espaço de 2 segundos.

Adormeci e, por mais que tentasse, não conseguia acordar. Ou melhor... não conseguia falar, mexer-me...

Ouvia tudo o que se passava, mas não conseguia abrir os olhos. A frustração apoderou-se de mim.

Ouvi a tua voz, chorosa, a pegar em mim e a levar-me para o carro, assim que percebeste que eu não respondia aos teus chamamentos nem leves encontrões.

A seguir, só me lembro de perguntares ao médico o que se tinha passado... e ouvi a resposta grossa que ele te deu. "Está em coma.".

"Coma? Mas como é possível eu ouvir-vos em coma?"

Fiz esta pergunta um número incontável de vezes.

Mas eu não abria a boca. Não esperei uma resposta.

Depois disto, ouvi-te todas as noites a chorar na minha cama, com a tua mão na minha, a dizer que ia ficar tudo bem. Mas eu sabia que não ia. E tu também sabias.

"Eu estou bem, amor. Pára de chorar."

A minha boca nunca se abria, mas eu tentei confortar-te várias vezes com essa mesma frase.

Chegavas ao meu quarto, à minha cama, e a primeira coisa que fazias era perguntar como eu estava.

Respondia-te sempre da forma mais positiva possível, mas tu nunca ouvias.

O médico disse-te várias vezes ao longo de vários dias que "hoje estava melhor", mas eu senti-me sempre da mesma forma.

Ouvi as tuas rezas várias vezes depois de almoço, quando voltavas para me visitar. Deves ter passado metade da tua vida aqui, parado, a olhar-me com os teus lindos olhos castanhos.

Continuo totalmente imóvel. Tal como desde há 4 meses atrás.

Tenho lutado para estar contigo e tenho lutado para melhorar. Mas isto não vai durar para sempre.

Sinto o meu cérebro frágil a desligar com o passar dos dias... das semanas... dos meses. Sinto a minha pulsação a diminuir gradual e lentamente e estou a começar a desfalecer aos poucos, com falta de tudo.

Com falta de tudo menos de amor.

Sei que nunca vais ler isto na tua vida, sei que é impossível, mas a minha consciência não me deixa pensar em tudo o que tens feito por mim sem me fazer sentir culpada. Repugnante. Talvez esteja a fazer isto em mais um golpe de egoísmo, só para me tentar fazer sentir melhor... mas acho que não vai resultar. Decidi, então, escrever-te esta carta mental de despedida porque fui, sempre fui, cobarde. Porque fui egoista. Porque fui egocêntrica. Porque fui tudo isto e mais, enquanto ainda tinha a opção de te dizer toda a verdade na cara.

Sei que não me vais odiar, porque não vais conseguir ouvir uma palavra do que te vou dizer... sei que vais viver a tua vida a odiar-te a pensar que és o culpado deste terrível incidente... mas há coisas que tu não sabes.

Sei como vou ser a culpada de passares o resto da tua vida nesse estado, infeliz e a torturar-te constantemente. A corroeres-te de culpa. Mas agora... não o consigo mudar.

Eu amo-te mais do que tudo. Mais do que a mim mesma. Mais do que te consigo dizer por palavras ou pensamentos. Peço-te já, desde já, perdão.

E é por tudo isso... que acho que chegou a altura de saberes o que aconteceu. O que realmente aconteceu...

Notas finais
Espero que gostem!