A canção do lobo e da leoa
5 Capítulo 4-Aquela que foi esquecida
Notas iniciais

Acordou mais cedo que o comum. Pelo menos dessa vez seu sono não foi acompanhado por pesadelos. Levantou-se de sua pequena e desconfortável cama. O quarto era amplo mas era dividido por quatro meninas. Ao menos era m boas companhias e essa parte da adaptação foi fácil. Dacey tinha um rosto quadrado, longas orelhas, cabelos castanhos e ondulados e lábios carnudos além de se ser mais velha que ela, tendo 18 anos. Marin tinha cabelos lisos em tom escuro de loiro e um corpo mais esguio além de uma pequena cicatriz em sua testa que ela se recusava a falar como conseguiu. A mais velha das quatro era Helena Flowers com um corpo esguio e cabelos escuros e sempre contava uma história diferente para como estava ali. Alguns diziam que ela já havia sido prostituta.
"Mais um dia como Joanna Hills! Ao menos ainda estou viva"
Mas Joanna não sentia-se viva a muito tempo. De fato, sentia-se apenas em um estado de não-morte. O maldito Aegon tomou tudo dela e só lhe restava uma vida de fugitiva como camponesa ou serva para alguém que um dia foi a princesa de Westeros. Desde que o novo jovem Dragão derrotou Sor Robert Forte no julgamento de sua mãe e foi coroado rei sua vida transformou-se em um pesadelo quase surreal. No princípio quando fugiu ainda acrediatava que de alguma forma a mentira deslavada de Aegon seria desmacarada e alguém viria resgatá-la e levá-la para casa. Mas sonhos eram para as ingênuas e a ex-princesa Myrcella logo aprendeu isso da pior forma enquanto a realidade tratatava de esmigalhar seus sonhos e decepar suas esperanças como o machado de Areo Hotah fez com seu valente cavaleiro branco, Arys Oakheart. Primeiro ela soube que sua mãe havia sido submetida a caminhada da vergonha, completamente nua e de cabeça-raspada. Teve vontade de socar a cara do homem que lhe disse enquanto ria da humilhação da mãe dela, mas aí teria estragado seu disfarce. Logo depois soube que sua mãe e seu irmão haviam sido perdoados e levados como refém para o Rochedo Casterly e suspirou de alegria. Até mesmo essa alegria durou pouco quando ela soube que foras-da-lei haviam atacado a caravana e ninguém sabia ao certo o destino de sua mãe e de seu irmão.
Ela acordava as suas companheiras e se aprontava para quebrar o jejum com os outros funcionários da estalagem. A dona se chamava Genma e já era uma mulher beirando seus cinquenta anos de idade. Era magra e avarenta, mas, também era bem acolhedora com ela e as outras meninas e cuidava bem delas. O bobo Tom como chamavão era o único homem na estalagem, marido de Genma, roliço e risonho. O chamavam de bobo porquê adorava contar piadas tanto para as meninas quanto para os fregueses. Haviam também as quatro filhas do casal e eram elas a filha mais velha Yara, uma moça bonita que diziam ter conquistado o coração de um cavaleiro, Nina, uma moça extremamente tímida e um pouco desajeitada mas que Myrcella gostava bastante, Gina, sempre vaidosa e autoritária, Jenny, que sempre olhou para Myrcella como os meninos costumam olhar meninas bonitas.
–O jejum acabou! A estalagem já vai abrir-Anunciou Genma-Tratem de trabalhar, preguiçosas.
Myrcella sabia bem o que isso significava. Pegou seu capuz azul e o vestiu seguindo direto para a cozinha sem prestar atenção em ninguém e começar seus afazeres diários. Todas as serventes da estalagem "Donzela fugitiva" usavam um capuz com uma cor diferente do arco-íris para representar os Sete. Embora, ela repita a cor azul pelo número de serventes ser oito.
Os dias da ex-princesa como servente começavam cedo e terminavam tardiamente e exaustivamente. Após varrer o chão da cozinha ela deveria ajudar a preparar os pratos quando os fregueses ocasionamente apareciam e servi-los com todos a cortesia que se esperava de uma boa servente. O pior eram os comentários grosseiros que muitas vezes acompanhavam-na. Piadas sobre sua cicatriz e o corte de sua orelha. No começo, ela quase derramava lagrimas, mas, agora aprendeu a suportar.
"Ainda sou uma Baratheon e minha será a Fúria, não as lágrimas. Ainda sou uma Lannister também, e leões não devem chorar" -Ela repetia para sia mesma, como um mantra, na esperança de torná-las verdadeiras.
Contudo, servir tinha seu lado bom, pois assim ela podia escutar o que se passava nos sete reinos. Hoje não seria diferente. Primeiro um homem baixo, porém, corpulento sentou-se em uma mesa e disse estar esperando os companheiros. Ele ostentava a caveira banhada em ouro da Companhia Dourada. Os mercenários ascenderam ao poder juntamente com o novo rei quando o trouxeram para Westeros através das Terras da Tempestade e o levaram até o derradeiro combate que lhe garantiu o Trono de Ferro. Myrcella acahava uma grande irônia que o pai dele, Rhaegar, tivesse perdido o trono em uma luta enquanto Aegon o conquistou com uma luta.
Logo quando começou a fugir ela sempre temia que algum soldado da Companhia Dourada pudesse reconhece-la e leva-la para Porto Real onde teria sua cabeça decepada por Aegon ou qualquer coisa pior do que isso. Ao que parecia Aegon não se importou em procurá-la. Somente nos seus primeiros dias de fuga, quando ainda estava em Dorne, alguns soldados dorneses procuraram por ela. Esse foi um dos poucos momentos em que a jovem sentiu-se com sorte. Estava agora no limite entre as terras da tempestade e Dorne.
Pouco depois dois homens pertecentes a companhia dourada chegaram. Um deles tinha uma barba e um cabelo verde tingidos ao estilo Tyrosh enquanto o outro tinha uma pele cor de Oliva e pelo sotaque parecia um Dornês. Sentaram-se na mesa do primeiro mercenário e começaram a conversar. A vida de fugitiva a ensinou que prestar atenção a conversas alheias era uma excelente fonte de conhecimento. Seu tio Tyrion as vezes dizia que o conhecimento pode ser uma arma mais afiada que espadas.
–Pensei que iria para o Norte junto com aquele nortenho.-Falou primeiro o Dornês para o homem mais baixo que chegará antes-
–Ir ao Norte em pleno inverno?-Ele deu uma sonora gargalhada-não nasci para ser fodido pela neve.-Em seguida tomou uma caneca de cerveja-que Robert Snow congele naquele deserto de neve.
–Ouvi dizer que o bastardo agora se chama de Robert Greystark.-Falava agora o homem com barba e cabelo verdes-
–Que se chame do que quiser desde que nos traga a cabeça de Edric Storm.-Tomou mais gole da bebida antes de voltar a falar-aquele bastardozinho já nos deu trabalho demais.
–Bah! Vocês se preocupam demais. Que chance o bastardo terá contra os Nortenhos, os Freys e agora a companhia dourada?Aposto minha barba que foi sorte ele ter tomado Winterfell.-O Tyrosh falou enquanto jogava charme para as serviçais do local-
O coração dela disparou quando ouviu a notícia sobre Edric. Ouvir o nome dele sempre inundava seu dia de felicidade e esperança. Já havia conhecido seu meio irmão bastardo em algumas viagens que fez para Ponta da Tempestade com o pai muitos anos atrás. Quando o conheceu era o dia do nome dele e Edric escreveu para o pai insistindo para que ele leva-se os irmãos para conhece-lo e assim ele o fez. Ela tinha apenas seis anos na época. Na viagem de volta ficou perguntando porquê de Edric não voltar com eles até Joffrey responder rispidamente.
–Porque ele é só um bastardo.
Ela sempre teve uma boa relação com o meio-irmão e os dois trocaram cartas por um bom tempo até ela ir para Dorne. Fazia pouco mais de um ano desde que o irmão jurou vingar seu tio Stannis e foi ao Norte dar batalha aos Boltons e aos Freys. Se metade do que ela ouviu for verdade, o pai deles esta sorrindo orgulhoso ao ver como ele esta se saindo. Ainda assim, ela temia por sua segurança e principalmente por saber que esta cercado no norte e agora a Companhia Dourada entrou na batalha e até mesmo antes de ser destronada já conhecia a reputação que precede esses mercenários em especial.
"Será que Edric acreditaria nas mentiras que contam sobre mim? E se eu for até ele apenas para ser rejeitada e acusada de ser uma bastarda nascida do incesto por ele também?"
Tentou não pensar nisso e apenas apegou-se a ínfima esperança de que Edric venceria suas batalhas e ela poderia ir até seu irmão. Edric certamente a trataria bem e não acreditaria nas inverdades de Aegon. Mas acreditar era uma coisa e torna-la verdade era totalmente diferente. As chances de vitória de seu meio-irmão estavam abaixo de infímas agora. Só um milagre poderia salvá-lo da derrota.
–Qual é o seu nome, mocinha?-Perguntou o Tyrosh para ela-
–Joanna Hills, senhor-Ela se virou tentando esconder a cicatriz-
–Uma bastarda, é? Sabe o que dizem dos bastardos?
–Não presto atenção a esses comentários, senhor! São tão infundados que jamais me esforcei para sequer ouvi-los.
–Veja que palavriado bonito a bastarda tem. Certamente além do nascimento nobre foi criada em um bom lugar.
Ele sorriu enquanto o coração da jovem batia acelerado e o medo a dominava por completo. Nenhuma palavra saiu de sua boca e , na verdade, ela não tinha o que dizer diante desta situação. A oportuna aparição de Tom salvou seu disfarce.
–Ora deixe a menina em paz. Em vez de incomodar a pobrezinha poderia escutar uma de minhas piadas.
–Uma de suas piadas?Não mesmo, Tom!-Respondeu o Dornês-meu humor já esta bom demais sem elas.
–Então conte-me vocês estiveram nas grandes batalhas contra a escória do mar?
Ouvir falar dos Greyjoys ainda a assutava. Os homens-de-ferro haviam declarado indpendência durante a "Guerra dos cinco reis" e mesmo depois da morte de Balon Greyjoy, seu irmão Euron assumiu a coroa por ele e lançou audaciosos ataques por todo o reino, em especial, na Campina. Contudo, quando Aegon assumiu o trono tratou de combater os piratas na Campina com sua Companhia Dourada e a frota marinha de um ex-pirata bastardo chamado Aurane Waters, agora atendendo pelo nome de Aurane Velaryon, atacaram e expulsaram o restante dos homens-de-ferro da Campina e o jovem dragão consolidou o apoio dos Tyrell em seu reinado. Com o apoio dos Tyrell, ele marchou para o norte aonde pessoalmente lidou com a batalha contra Stannis Baratheon dando fim as pretensões de seu tio.
–Ha! Sangrei a garganta de mais de dez daqueles homens-de-ferro imundos durante a batalha de Lannisporto.
–Mais de dez?Digo que foi , no máximo, cinco. Os outros eram apenas taberneiros que você brigou quando estava bêbabado.
Uma onda de risos se seguiu depois que o Tyrosh falou para o companheiro dornês e até mesmo o alvo das piadas riu. Myrcella não deu um sorriso sequer. Em sua mente ela lembrava das histórias dos ataques dos homens-de-ferro. Ela serviu de copeira em uma taberna localizado na vila que ficava ainda em Dorne, logo quando fugiu, e ficou lá por um período de um ano, era fácil perder a noção do tempo quando se vivia fugindo, então alguns homens-de-ferro que haviam fugido das batalhas na Campina atacaram a aldeia. Lembrou-se dos gritos, do som de aço cortando a carne, da cor sangue derramado, mulheres sendo arrastadas. Ela apenas escapou porque se escondeu embaixo de um cadáver. Os olhos frios e mortos dele a encaravam por horas. Ela devia ter onze anos naquele período. Demorou pouco mais de um ano para que Aegon expulsar os homens-de-ferro da Campina e depois matar Stannis no norte. Euron Greyjoy contiunou com sua rebelião e fez ataques cada vez mais ousados por todo o reino até sua derrota em Lannisporto o forçar a voltar para as Ilhas-de-ferro aonde Aegon o surpreendeu com fogo e sangue. Demorou dois anos para Aegon esmagar por completo a rebelião de Euron Greyjoy.
Mais pessoas entravam na estalagem. Algumas apenas para ceiar, outras alugavam quartos. Os homens da companhia dourada já haviam saído a esta altura e a maioria dos fregueses eram conhecidos por Joanna Hills. O lugar estava cheio enquanto ela servia pratos de comida e bebidas para todos ali. Sentiu alguém passar-lhe a mão nela e se assustou quase deixando cair a caneca que estava segurando(O que lhe garantiria algumas pauladas na mão com uma colher-de-pau). E quanto mais pessoas chegavam mais informações sobre Westeros também chegava.
–Soube que a rainha Arianne esta grávida e por isso o rei Aegon ainda não foi combater o bastardo pessoalmente.
–Estou lhes dizendo, os Tully estão planejando uma rebelião.
–Estava passando pelas terras fluviais quando vi um cadáver enforcado. Era um maldito Frey.
–O jovem falcão vai se juntar a rebelião contra o maldito bastardo.
–Chacais foram vistos próximos do Oeste.
Ouvir isto a deixou apreensiva. Durante anos a companhia do Chacal foi o ultimo impedimento da total paz para o reino logo depois que Aegon matou Stannis e Euron. Ninguém sabia ao certo de onde vieram. Alguns acusavam Stannis de tê-los contratado caso morre-se, outros diziam que foi Euron Greyjoy, já que surgiram pouco antes de sua rebelião ser completamente apaziguada. Havia quem disse-se que o fantasma do jovem lobo os havia invocado do mundo dos mortos e alguns até mesmo acusavam seu tio Gerion Lannister, o leão sorridente e atual senhor do Rochedo Casterly. As acusações não faziam sentido, pois os chacais atacavam todo o reino sem fazer distinção. O rei e seu exército haviam conseguido uma grande vitória contra os chacais e os dispersaram até Edric Storm chegar com sua rebelião.
–SENHORES!
A voz do rapaz interrompeu os festival de snoridades do ambiente e chamou a atenção de todos eles para si. Era apenas um rapaz que nçao devia ter mais do que dezoito anos e vestia uma túnica bem pobre , mas, seu sorriso exalava confiança. Seu rosto não era desagradável de se contemplar e já havia uma fina barba no rosto. Quando as demais vozes haviam silenciado para ouvir o que o rapaz tinha a dizer ele finalmente se pronunciou.
–Senhores muitos disseram que o chacal esta se escondendo no Oeste agora. Já enfrentei esse bando de covardes antes e nenhum deles vale a merda que caga.-Sonoras gargalhadas tomaram o lugar enquanto o discursante levantava a mão para pedir por uma palavra.-O rei Aegon recompensa aqueles que lutam bravamente por sua causa. O dragão esmagou a maior parte dos chacais e tudo o que restou agora são trapos. Digo-lhes que devemos juntar cada bravo homem que puder empunhar uma espada e trazer como presente ao bom e bravo rei a cabeça do líder da matilha dos chacais. Assim falou Galleon, o Bravo.
Uma agitação tomou conta da Donzela fugitiva enquanto diversos homens levantavam seus cornos de bebida ao alto como um brinde a proposta. Desenbainhavam seu aço e o erguiam. Myrcella corria para trás do balcão assutada com as espadas. Ela ouvia homens dizendo "Ao rei Aegon"; "Ao leão sorridente";"A Galleon, o bravo". O rapaz tomou a atenção novamente para si.
–Pois então digo que devemos reunir nossa caravana rumo ao Oeste e a glória. Após triunfarmos sobre o chacal teremos nossos nomes imortalizados pelos cantores.
Galleon desebainhou sua espada ao alto enquanto os outros homens se agitavam junto a ele. Só então ela percebeu a oportunidade que tinha nas mãos.
"Uma caravana para o Oeste e assim eu poderia ir para Rochedo Casterly. Meu tio esta lá, estarei segura. Ele vai me aceitar, mesmo que acredite nos boatos de Aegon eu ainda seria do mesmo sangue que ele."
Olhou para o jovem cavaleiro mais uma vez e sorriu. Era um caminho perigoso , é verdade, mas já tinha idade o suficiente para saber que a vida era perigosa. Talvez, afinal, os deuses não haviam se esquecido dela e finalmente estavam sorrindo agora. Com um pouco de sorte tudo iria dar certo.
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