Carol voltou correndo ao local do pedregulho junto com Lucas e Douglas. Todos ensanguentados devido ao ataque dos zumbis.

Gabriela não estava mais lá. Nem sua mochila. Nem o cachorro. Apenas zumbis caídos ali, com um mar de sangue pela grama.

– GABRIELA SUMIU! –Gritou Carol, olhando ao redor.

Gabriela estava deitada na grama da floresta. Suas roupas encharcadas de sangue, tanto na frente e atrás. Suas calças e botas também. Até seu rosto tinha sangue. Abriu os olhos assustada, olhando aos lados, mas não estava mais perto do pedregulho aonde havia ficado da ultima vez.

Uma mulher encravava um machado na barriga de um zumbi jogado no chão. Passando seu sangue em seu próprio vestido cinza, velho e esfarrapado, o encharcando todo de sangue, logo as pernas e seu próprio rosto. Seus cabelos eram castanhos escuros longos e ondulados. Tinha terras em seu joelho e em seu rosto. Ao perceber que Gabriela a olhava assustada, olhou para a garota, sorrindo torto e se aproximando.

–Calma. O sangue dos zumbis irá nos esconder deles. Não se preocupe, filha. –Disse a mulher, com uma voz rouca.

Gabriela arregalou os olhos e quando iria se levantar e correr, percebeu que sua mão estava presa a correntes, que ligava a até o pulso da mulher.

***

Gabriela caminhava ao lado da mulher estranha, tentando correr as vezes, mas sem sucesso com as correntes que a faziam voltar para ela.

– Você nunca mais vai fugir de mim, sua bobinha. –Disse a mulher, dando um riso. –Desculpe pelas coisas que falei para você, só fique com sua mãe, ok? Não irá aguentar ficar sozinha nesse apocalipse. Nossa...você está tão...pequena.

– Não sei do que você está falando. Eu não conheço você...d-deixe eu voltar para meus amigos...-Disse Gabriela, tremula.

– Não. Você vai ficar comigo. Não faça brincadeirinhas com sua mãe! –Disse a mulher aumentando o tom de voz, estressando-se.

– Você não é minha mãe! –Gritou Gabriela.

A mulher deu um tapa no rosto da garota forte.

– É pra você aprender a não aumentar o tom de voz comigo!

Gabriela virou o rosto, chorando.

– E nada de choramingar senão, não verá o jantar! –Disse a mulher ,batendo a mão nas costas de Gabriela, a empurrando para frente.

Os zumbis caminhavam pela floresta, gemendo e olhando ao redor, procurando de onde vinha o som.

A mulher andava ao ladinho de Gabriela, vagarosamente, para os zumbis não notá-las. Um zumbi passou ao ladinho de Gabriela, que fechou os olhos fortemente, virando o rosto para o lado ao sentir o bafo do zumbi.

Caminharam em uma única direção na floresta e não foram notadas pelos zumbis. Gabriela estava agoniada por não ver seus amigos e gritar por ajuda. E as duas estavam indo cada vez mais para dentro da floresta.

– O que você quer comigo...? –Perguntou Gabriela.

– Você é minha filha, não vou deixar você fugir de novo. Só quero cuidar de quem é meu. –Disse a mulher, cansada.

– Não sou sua filha...

– Desculpe pelo o que disse antes, mas...

– D-disse...? Está me confundindo com alguém...

Um zumbi avançou na direção delas. A mulher desviou e trouxe Gabriela junto. Tirou uma faca do bolso do vestido e encravou na cabeça do zumbi.

– Teremos treino com zumbis hoje. Como nos velhos tempos. Você irá melhorar. –Sorriu a mulher.

Gabriela não queria dizer mais nada. Estava assustada e tinha medo de irritar a mulher e levar outro tapa na cara.

Depois de mais alguns minutos caminhando, Gabriela observava uma caverna escondida entre as árvores, com folhas escondendo ela.

– Adivinhe onde eu moro. Quer dizer...nós moramos. –Disse a mulher.

– Ali. –Apontou Gabriela para a caverna escondida com as folhas.

– Esperta. Vamos, iremos comer. –Sorriu a mulher, entrando na caverna, tirando as folhas que atrapalhavam a entrada.

A barriga de Gabriela roncou ao ouvir “comer”. Até se animou um pouco.

A caverna era escura, mas se iluminava com as velas que tinham nas paredes. Era larga e grande. Mesas de madeiras eram cobertas por um pano branco, com bonecos de enfeite quebrados em cima.

Ouviu gotas caindo no chão, foi se aproximando do som, mas estava longe demais da mulher e a corrente a impediu de chegar.

– Você viu...desculpe-me, filha. –Lamentou a mulher se aproximando.

– O-oquê? –Perguntou Gabriela assustada, olhando para a escuridão da caverna, logo chegando aonde as gotas caíam. Eram vermelhas quase pretas. Caiam do teto.

– Seu irmão...-A mulher olhou para cima.

Gabriela acompanhou o olhar da mulher, olhando para cima. Um bebê morto e sem um dos braços estava pendurado em uma corda que envolvia sua cabeça até o teto. Seu corpo estava ensanguentado.

Gabriela deu um grito alto e caiu no chão.

– ME DESCULPE, FILHA! EU ESTAVA COM FOME! –Gritou a mulher, chorando, cobrindo o próprio rosto.

Gabriela a olhava de olhos arregalados, tremendo.

– V-você...NÃO É MINHA MÃE! –Gabriela gritou, chorando.

– EU SEI, EU SEI! EU SOU UM MONSTRO! –Se lamentou a mulher, chorando. –Mas você....ainda é minha filha, não vire as costas para mim!

– ... LOUCA! –Gabriela correu até aonde conseguiu perto da saída.

A mulher agarrou as correntes, puxando-as até a garota se aproximar, sendo arrastada por elas.

– EU NÃO VOU ATURAR ESTE TIPO DE COMPORTAMENTO! Agora você irá para o quarto do castigo! –A mulher agarrou o braço de Gabriela forte, entrando mais a dentro da caverna, com a escuridão engolindo elas.

A mulher acendeu um fósforo, vendo grades na metade da caverna. Abriu a porta e tirou uma chave pequena do bolso do vestido, destrancando as correntes que ligavam o pulso da Gabriela e o da mulher. Empurrou Gabriela para o outro lado da grade, e fechou a porta de grades, a trancando.

– Não reclame. Pelo menos tem seu cachorro de companhia.

Tommy estava encolhido no chão, tremendo e sujo, latindo ao ver a garota.

Gabriela o pegou, o acariciando.

– Vamos sair daqui...só precisamos saber como. –Disse Gabriela olhando o cachorrinho.

Gabriela cochilou. Quantas horas deviam ser? Meia noite? Gabriela não tinha ideia. Quando acordou, seu cachorro lambeu seu rosto, olhando para o lado de fora das grades, para o centro da caverna e para a saída.

Gabriela procurou pela a mulher. Estava mexendo em uma panela em cima de troncos e uma mini fogueira por baixo. Jogou água no fogo e colocou o caldo da panela e metade do que estava dentro dela em um potinho.

Se aproximou até a prisãozinha de Gabriela, assoprando o potinho.

– Comida chegou. –A mulher destrancou as grades e entregou para a menina.

Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, a mulher fechou rapidamente a porta e se afastou, sorrindo.

Gabriela olhou para a sopa estranha. Não tinha um cheiro muito bom. Bebeu e logo cuspiu tudo.

Tommy até provou um pouco da sopa e recuou.

Gabriela colocou o dedo na sopa, a mexendo.Logo tirando um dedo cortado dela cheio de molho estragado. Arregalou os olhos ao tocar o dedo humano e jogou a sopa longe.

– A sopa que fiz com tanto carinho...você é uma péssima filha! –Reclamou a mulher ao terminar de beber toda sua sopa.

Gabriela se afastou das grades ao a mulher se aproximar. Olhou para o teto do outro lado, havia facas e garfos e mais alguns objetos afiados pendurados no teto de cabeça para baixo.

– Eu realmente não sei mais o que eu faço com você! -Gritou a mulher chorando e batendo na grade. –Tenho um tipo de castigo que irá ajudar você...

– Q-que castigo? –Perguntou Gabriela, assustada.

– Já volto. –Sussurrou a mulher, rindo e saiu da caverna.

Gabriela ficou ali, esperando a mulher louca voltar com seu cachorro ao seu lado, também esperando por algo.

Gemidos se aproximaram. A mulher entrou na caverna agarrando dois zumbis pelo pescoço com facas agarradas em suas nucas. Abriu a cela de Gabriela e jogou eles lá dentro e a trancou rapidamente.

– Sobreviva.

Gabriela correu com seu cachorro atrás. Um zumbi a atacou, caindo em sua direção, mas ela desviou e correu até as grades novamente, tentando abri-las, mas sem sucesso. Os dois zumbis seguiram ela juntos, pulando na direção da garota ao mesmo tempo. Gabriela correu para o lado rapidamente e puxou uma faca que ainda estava agarrada na nuca de um dos zumbis.

Segurou na faca fortemente, olhando para os zumbis sem saber o que fazer. Tremia e estava paralisada. O cachorro latiu para eles e correu para perto da grade. Os zumbis o seguiram, famintos. Antes que pudessem pegar ele, enquanto o cachorro distraia os zumbis, Gabriela reuniu toda sua força e encravou com tudo a faca na cabeça de um dos zumbis que o perseguia.

– ARGH! –Gritou, forçando a faca mais para baixo.

O zumbi parou de se mexer e caiu no chão, ao Gabriela tirar a faca da cabeça dele.

Gabriela olhou para o outro que já avançou em cima dela a fazendo cair no chão com ele por cima.

– S-Sai! –Gabriela lutava para empurrar ele de cima dela. Não era tão forte, estava quase perdendo.

O cachorro saltou sobre o rosto do zumbi. O zumbi tentou ataca-lo. Gabriela aproveitou e se levantou chutando o rosto do zumbi. Mais sangue escorreu do rosto dele. Ele levantou e avançou em Gabriela, mas ela estava agarrada a faca e a ergueu no momento exato, encravando-a no pescoço do zumbi, espirrando sangue em seu rosto todo.

Ele ainda se mexia. Mexeu mais afaça por dentro do pescoço dele e sua cabeça soltou, caindo no chão.

Gabriela cambaleou para trás e caiu no chão, tremendo, respirando ofegante, olhando os zumbis mortos em sua frente.

Tommy correu até seu colo, ficando por baixo da mão da dona, que estava na cabeça do animalzinho.

– Parabéns, filha. –A mulher se aproximou da grade e a destrancou. –Seu castigo passou.

Gabriela saiu da cela lentamente, olhando ao redor assustada. Quando o cachorro iria atravessa-la, a mulher fechou a porta novamente.

– Ei...o Tommy!

– Ele faz muito barulho, você visita ele depois.

Gabriela iria correr, mas não podia deixar seu cachorrinho para trás. Não sabia do que aquela louca era capaz de fazer com ele, quando ela não estivesse ali, procurando por ajuda.

Sentaram no chão da caverna em volta da fogueirinha. Gabriela encarava a mulher e o teto, onde tinha os objetos afiados virados de cabeça para baixo. A mulher estava concentrada em algum tipo nova de sopa doida.

– Prometo que essa vai ter um gosto melhor. –Sorriu ela, pegando alguns temperos, jogando na panela.

Gabriela olhou para saída que era coberta pelas folhas. Estava tão distraída pensando nos amigos e na irmã, que assustou-se ao ouviu um barulho de algo trancar em seu pulso. A mulher havia prendido-a de novo com aquelas correntes que ligava até o próprio pulso da mulher.

Gabriela a olhou, franzindo a testa.

– Eu não fiz nada.

– Mas iria, não é? Eu conheço você. Só estou fazendo pelo seu bem. –Ela passou a mão suja e ensanguentada no rosto da Gabriela, que recuou.

A mesma olhou para a própria mão presa e começou a chorar baixinho.

Carol andava pela floresta com Lucas, João e Douglas ao seu lado.

– Ótimo, João e Mariana não voltaram...perdemos Isabella, Renan e Gabriela...tudo perfeito. –Disse Carol, exausta, parando aos poucos. –Chega, gente. Eu cansei de gritar pela Gabriela. Continuamos amanhã, estou com sono.

– Você tem razão...se eu não estiver aqui de manhã, estou procurando por ela, ela não pode ter ido muito longe. –Falou Lucas.

– Não. Ninguém vai se separar mais, entenderam? –Carol fuzilou cada um com o olhar.

– Certo...mas não vamos dormir no meio desses...zumbis, né? –Perguntou Douglas.

Carol olhou para cima, para as longas árvores.

– Vamos escalar e dormiremos cada um em uma arvorezinha. –Sorriu e começou a subir uma árvore.

Subiu os troncos baixos até os mais altos, ficando quase no topo da árvore, que não era muito grande comparada as outras. Colocou a mochila no tronco grosso e deitou a cabeça, fazendo a mochila como travesseiro.

Lucas subiu uma árvore ao lado de Carol, que era mais alta que a dela, por isso , ficando na metade da árvore, para ficar na mesma direção de Carol.

Douglas escalou uma árvore que ficava a frente deles, encostando as costas no tronco da árvore, olhando para os lados, parecendo sem sono.

– Porque protege tanto Gabriela? –Perguntou Carol, olhando Lucas.

– Ela é uma criança. Não vai sobreviver sozinha, por isso a preocupação de saber onde ela está. –Falou ele, olhando de canto.

– Sim. Porque se preocupa?

Lucas suspirou.

– Eu tinha uma irmã mais nova. Moreninha de cabelos cacheados, nove anos, igual ela. Só que mais velha...

– Ah...onde ela está?

Lucas ficou em silêncio por um tempo.

– Depois do apocalipse zumbi...ela pegou uma gripe.

– Gripe? –Carol franziu a testa.

– A gripe mata a gente. Então...ela se transformou. –Lucas fez uma pausa, suspirando. –Quando meu pai voltou com os remédios...era tarde demais. E agora...meus pais morreram. Eu não tenho mais ninguém.

– Ei. Você também está com a gente, não é? –Disse Carol.

– Ás vezes me sinto excluído aqui, como se ninguém me quisesse.

– Todo mundo se sente assim. Mas você tem amigos, eu...Gabriela...

– Ela só fica comigo porque eu a protejo. Só ficaram comigo pelo carro que nem temos mais. –Lamentou Lucas.

– E nós ainda estamos com você. Não é? –Carol sorriu.

– Ah, você ganhou. –Lucas virou para o outro lado, fechando os olhos, dando um sorrisinho. –Boa noite.

– Boa noite. –Carol ficou acordada por mais um tempo, olhando a floresta e ouvindo o barulho dos gemidos dos zumbis. Logo adormeceu.

Carol acordou com a luz do sol batendo em seu rosto entre as folhas da árvore aonde estava deitada. Coçou os olhos, olhando ao redor.

– Bom dia. –Disse Lucas, bebendo uma garrafa d’água, logo jogando para Carol. –Encontrei isso por aí. É do Rafael, não deve estar muito longe.

Carol agarrou a garrafa, a abrindo e bebendo a água com um tanto de desespero.

– E o Douglas? –Perguntou ela.

Lucas apontou para a árvore aonde Douglas babava, ainda dormindo.

Carol riu e desceu da árvore. Não havia zumbis por aquele lado.

– Ei, babão! –Gritou Carol, chamando Douglas que nem se mexeu.

Lucas desceu de sua árvore também, jogando uma pedra nele. Douglas não se mexeu.

Carol escalou a árvore segurando a garrafa d’água, a abrindo e jogando um pouco de água no rosto dele.

– Ah...quê, aonde?! –Perguntou Douglas, rapidamente, assustado, acordando. –Ah...

– Vamos. Temos mais um dia pra viver. –Carol sorriu.

Ficaram andando pela floresta, logo ouvindo gritos familiares.

– TATIANA, CORRE! –Gritou Bruna correndo longe da amiga, enquanto um grupo de zumbis a seguiam.

Tatiana corria o mais rápido que podia, respirando ofegante.

– PARA AONDE VAMOS?! –Gritou Tatiana. Tropeçou em uma pedra e caiu no chão, ralando a mão e os joelhos. –BRUNA!

Bruna olhou ao redor.

– BRUNA! TATIANA! –Gritou Carol, correndo até as garotas, junto com Lucas e Douglas.

Lucas atirava nos zumbis que se aproximavam de Tatiana, dando tempo o suficiente para ela se levantar e correr novamente.

– Aonde estão os outros?! –Perguntou Bruna enquanto corria lado a lado com os adolescentes.

Lucas corria de trás as vezes, atirando em alguns zumbis e recarregando a arma várias vezes, até sobrar apenas mais uma caixinha de balas.

Agora sobraram quatro. Lucas atirou em mais um e quando iria atirar no outro, não tinha mais balas. Carol avançou e acertou o martelo na cara de um deles que caiu no chão. Douglas correu e partiu a cabeça do ultimo com seu facão.

Pararam de correr, pousando as mãos nos joelhos, respirando ofegante.

– Ufa. –Suspirou Bruna. –Aonde...estão os outros?

– Também queria saber...cof, cof. –Tossiu Carol. –Pensei que estivessem com Rafael.

– O perdemos no caminho. Aquele idiota. –Reclamou Tatiana, limpando o suor do rosto.

– Ótimo...sem balas. –Disse Lucas, colocando as mãos nos bolsos, vendo que estava vazios, sem bala alguma.

Espreguiçou-se e acabou batendo o braço em grades. Olhou para trás, vendo um grande e estendido quartel. Pessoas passavam por ali bem mais a frente, não notando-os. Era como uma comunidade para refugiados.

– Oh...bem na hora. –Sorriu Carol.

Alessandra corria pelo quartel com Jorge ao seu lado.

– Ouvi tiros minutos atrás vindo da floresta. Tem pessoas por aqui. –Falou Alessandra, apressando o passo, logo parando de correr aos poucos ao se deparar com Carol, Douglas, Lucas, Tatiana e Bruna atravessarem as grades.

Alessandra ergueu a arma.

– Quem são vocês, e o que vocês querem?!

– Alessandra! Abaixe a arma. –Falou Jorge, seriamente. –São amigos do meu filho. Acho que precisam de um banho, ou já tomaram um banho de sangue? Haha.