A busca pela Estrela Gelada

5 5. Novo ano de vida, nova idiotice


Notas iniciais
Mais capitulo fresquinho para todos os leitores, espero que gostem :)

5. Novo ano de vida, nova idiotice

Antes que Rose pudesse tentar pensar em sair de dentro daquela cúpula de pó dourado o próprio pó começou a se dispersar e a garota pensou que estava tudo normal, mas pelos olhares que recebeu não parecia tão normal assim. A garota olhou para si mesma e notou que seu cabelo tinha mudado um pouco, parecia um pouco maior e o seu vermelho lembrava agora algo próximo de uma fogueira. O verde de seus olhos estava ainda mais intenso e antes ela batia no peito de Ulf, agora batia um pouco mais acima, não mais que três centímetros, mas ainda assim eram três centímetros que agora a fazia bater próxima do seu queixo.

A última das doze badaladas soou e então todos pareceram sair de um transe e tentaram se aproximar da garota, mas ao verem Ulf ainda perto dela apenas o rei ousou avançar:

–Pelo que escutei hoje é o se aniversario, Rose – disse rei Auberon se aproximando

–Sim, vossa majestade, quinze anos

–Não é essa a idade para se entrar no ilder? – Lia assentiu com a cabeça e o rei sorriu – Excelente, então você já é uma mulher e deve receber presentes de uma mulher, mas agora não é o momento para isso, agora daremos um banquete em seu nome

–O que quer dizer, rei?

–Tragam o javali

Seis garçons trouxeram a enorme bandeja de prata que suportava o enorme corpo do javali. A criatura era enorme e seu corpo estava coberto de gordura enquanto carregava na boca uma gigantesca maça vermelha brilhante. O rei pegou Rose pelo braço e a guiou para seu lugar anterior, mas dessa vez o príncipe Dovre não tentou nada com ela:

–O primeiro pedaço será para a aniversariante – disse Auberon pegando um enorme pedaço de carne macia, suculenta e gordurenta e colocando no prato que estava a frente da cadeira da ruiva

–Muito obrigada, rei – disse a garota sorrindo e pegando o garfo e a faca correto que aprendeu rapidamente com Lia

A garota comeu um pequeno pedaço e sentiu aquela deliciosa carne passando pela sua boca e garganta, nunca ela tinha sentido tal sensação e poucas vezes a sentiria depois. Depois disso o rei tirou um pedaço para si, depois o príncipe, depois Ulf e então todos os outros começaram a se servir do enorme animal enquanto bebiam as novas bebidas que estavam sendo servidas.

O banquete do javali durou mais de uma hora e quando terminou nenhuma outra comida foi servida a seguir porque após provar tão maravilhosa carne qualquer outra coisa teria o pior gosto imaginável. Apenas bebidas agora circulavam pelo salão e o som dos músicos se tornou ainda mais animado como o bobo da corte parecia ainda mais bobo.

Todos estavam rindo e se divertindo ainda mais e quando Rose percebeu havia uma mão estendida a frente de seu rosto e ao ver aquela mão com cicatrizes e antigos calos ela não precisou nem olhar para o rosto da pessoa para saber que aquela era a mão de Ulf. A mão de um homem que lutava pelo que queria.

A garota não falou nada enquanto pegava a mão dele e ele a guiava novamente para o salão para dançar dessa vez uma dança mais animada. Depois de longos minutos dançando e mudando as vezes de par não mais do que por alguns segundos até antes que alguém pudesse formular uma frase ou elogio Ulf pegasse a moça de volta para si. Antes que Rose pudesse perguntar o porquê de tais atos a música mudou de ritmo e ambos começaram a dançar uma valsa que a ruiva nunca tinha escutado antes, mas que parecia saber dançar desde que nasceu:

Is this the real life? Is this just fantasy? – perguntou a garota sorrindo ao ver aqueles olhos vermelhos intensos sobre si e sentindo aquele calor corporal que lhe pareceu tão bom e estranho, naquele momento a lembrança daquela música a pareceu a mais correta possível

–Não tenha dúvidas de que isso é muito real – a voz do rapaz saiu calma como sempre, mas de alguma forma Rose sabia que ele tinha entendido a referencia musical – Pensei que entendesse que o conceito dos humanos normais de realidade é muito equivocado, aquilo que eles chamam de magia, sobrenatural, místico, é algo absurdamente comum neste mundo e em vários outros

–Eu sei e por no fundo eu saber disso e por ver além da realidade é que eu via aquelas coisas

–Apenas reflexos de Arcádia e de outros mundos na Terra, mas reflexos de coisas reais e que mostravam a você que havia algo além do seu mundo, chamando você para percorrer os caminhos que os homens comuns nem sabem que existem

–Acho que gostei de aceitar esse chamado

–É porque você ainda não conhece esse mundo, você viu apenas um mercado e o melhor pedaço de um castelo, you know nothing Rose – novamente o tom de escárnio que a garota já estranhamente sentia falta acompanhado de uma referencia que ela adorou perceber que tinha entendido

–E como é esse mundo na verdade, Ulf?

–Eu vou dizer uma coisa que você já sabe, o mundo não é um grande arco-íris, é um lugar sujo, é um lugar cruel que não quer saber o quanto você é durão, vai botar você de joelhos e você vai ficar de joelhos para sempre se você deixar – a garota riu ao lembrar daquela citação de um dos filmes predileto de seu pai adotivo, ele era fanático pela “trilogia de seis” filmes e aquele era sem dúvidas um de seus diálogos favoritos

–Bem senhor Jon Balboa o senhor tem bom gosto para filmes e livros

–E você um bom gosto para música senhorita Mercury – a garota riu de novo, não sabia porquê, só simplesmente ria ao escutar a voz dele e ao ver um leve sorriso no rosto dele percebeu que ele não era tão velho quanto seu rosto cansado e cortado aparentava

–Quantos anos você tem?

–Dizem que essa é uma pergunta indelicada a se fazer

–Para uma dama, não para alguém como você

–Alguém como eu? – Rose sentiu ele apertar seu corpo contra o dela e até teria reclamado se não tivesse gostado do calor que sentia – Como é alguém como eu, Rose?

–Alguém que não consegue dizer a própria idade

–Eu tenho dezoito anos, Rose – novamente o escárnio, mas naquele momento o foco da garota foi na idade dita, ela jamais daria dezoito anos para ele, talvez vinte e um num momento de loucura, mas jamais dezoito – Surpreendente, não?

–Realmente é, nunca pensei que teria essa idade

–Ninguém pensa, nunca – a ruiva tocou de leve o rosto rapaz como uma espécie de consolo silencioso e ele abriu um sorriso curto e tímido e naquele instante ela viu um rapaz de dezoito anos ali naquele homem

–Você parece já ter vivido e visto muita coisa

–Mais do que homens que chegam a um século de vida, já matei coisas que alguns nem pensam mais existir, domei wargs, roubei um lich, subi um pé de feijão gigante para derrotar um gigante, aprendi o nome do fogo, matei o maior dos assassinos, dizem que para eu me tornar o maior da história falta apenas matar um dragão, mas eu discordo, ainda a muito mais a fazer e ver

–Você tem muitas histórias para contar não é mesmo?

–Você não tem idéia – naquele momento Ulf havia falado próximo do ouvido de Rose e o hálito dele chegou até as suas narinas enquanto ela sentia um forte arrepio acertá-la – Poderia passar mil e uma noites lhe contando minhas aventuras

–Algo me diz que seriam noites bem agradáveis e surpreendentes

–Como seriam – agora a boca dele estava mais próxima do seu pescoço e o arrepio aumentava – Você até ficaria sem dormir

–É mesmo?

–Sim, de medo das feras que descreveria que já enfrentei, de pena pelos mortos que cobrem meus caminhos aos montes, de excitação pelas noites que já passei em certas camas...

Antes que ele pudesse continuar sua frase e Rose queria que ele continuasse, pois enquanto falava mais sua boca se aproximava de sua pele e mais próxima de seus seios ia indo, uma mão afastou bruscamente Ulf. Devro apareceu na frente da ruiva e a pegou pela cintura aproximando-a de si, o cheiro de vinho estava mais forte:

–Gostaria de me dar o prazer desta dança? – perguntou o rapaz sorrindo abertamente

–Não – respondeu Rose com o máximo de desprezo que conseguiu colocar, ela sabia que não era alguém na posição de recusar um pedido do príncipe, mas não importava o que as leis diziam, nenhum bêbado idiota agiria daquela forma com ela só por ser um nobre qualquer

–Eu acho que não entendi o que você falou

–Eu disse não

O sorriso no rosto do príncipe sumiu e seu rosto ficou furioso, suas artérias saltaram pelo aumenta da pressão causado pela raiva, o vermelho da bebedeira se reforçou pelo vermelho da fúria e seu braço apertou o de Rose com força:

–Você tem idéia de quem você é e de quem eu sou sua pirralha que fede a humana? – os olhos violeta do príncipe brilharam em um tom mortal e ele teria cravado uma tapa, ou talvez até um soco, no rosto dela se não conseguisse mais mover sua outra mão

Quando o príncipe se virou percebeu que alguém apertava sua mão e esse alguém era Ulf. O elfo nobre tentou mover sua mão, mas ao perceber que era inútil largou o braço da moça e então muito lentamente o rapaz soltou o dele:

–Eu acho que você é que não deve mais saber quem é, príncipe – disse o moreno encarando o outro – Esse papel ridículo que acabou de encenar não é digno do primogênito do rei

–O que você sabe o que eu devo ou não devo fazer?

–Ele pode não saber, mas eu sei muito bem Devro – disse o rei Auberon se aproximando e diferente do filho ele estava perfeitamente sóbrio para reconhecer aquele ato estúpido que poderia ter terminado de uma maneira nem um pouco agradável – Vá para o seu quarto agora e nem pense em falar alguma coisa, só ainda não foi castigado publicamente porque foi você que derrotou o javali e nos providenciou tão magnífico jantar, mas isso não significa que aceitarei faltar com respeito uma convidada minha

O príncipe não pararia naquele momento, nada o faria parar agora principalmente sendo confrontado pela pessoa que mais odiava, aquele que ele considerava o pior entre a pior raça, o maldito Ulf. Devro avançaria na direção de seu alvo se não percebesse uma peça metálica deslizar pelos dedos de Ulf e então um arrepio medonho percorreu sua espinha:

–Desculpe-me meu pai – disse o príncipe fazendo uma leve reverencia e se retirando do salão as preces, muitos ali presentes já estavam muito bêbados, mas outros ainda estavam sóbrios o suficiente para se lembrar do ocorrido e falariam sobre aquilo por um longo tempo, o príncipe humilhado pelo pai por uma convidada qualquer, mas ninguém além do rei percebeu o real motivo de sua fuga

–Guarde essa coisa agora Ulf, sabe que não permito essa coisa no meu reino – disse Auberon observando seu campeão que girou a moeda pelos dedos e então a guardou dentro do manto

–Mil perdões rei, sei que seu povo não aprecia ferro frio, mas não vi outra escolha no calor do momento

–Não o julgo domador de wargs, só mantenha ela bem guardada, você deveria ser morto por ter uma coisa dessas consigo

–E quem mataria o maior assassino desse reino? – o rei sorriu e se virou na direção de sua convidada

–Perdoe a meu filho por suas ações e a mim por ter falhado em sua criação minha adorável Rose – disse o rei fazendo uma reverencia a ruiva, mas a garota fez questão de impedir o nobre de fazer tal ato

–A culpa não foi sua rei e se assim deseja perdôo seu filho

–Quero que saiba que ele sofrerá uma punição adequada e não tardará para que lhe entregue seu presente

–Não necessito de algo assim

–Claro que precisa, o dia de nosso nascimento é um dia sagrado, Rose, principalmente o dia do nascimento de um ser tão belo e adorável quanto a senhorita

A ruiva sentiu seu rosto corar com o elogio do rei que rapidamente se juntou a alguns nobres tentando conversar com eles para afastar das bocas deles pelo menos por enquanto sobre o ato do príncipe bêbado. Rapidamente Rose e Ulf estavam livres para dançar em paz novamente, mas naquele momento a curiosidade da garota estava alta e sua atenção estava voltada para uma única coisa:

–O que era aquilo que tinha consigo? – ela perguntou enquanto dançavam alguma música que lhe pareceu irrelevante no momento

–Uma moeda de ferro frio, uma raridade quase tão grande quanto seu anel de pedrardente – o rapaz disse encarando a garota – Poucos são aqueles que têm uma dessa e por um bom motivo, ferro é veneno para seres feéricos, mas ferro frio é pelo menos dez mil vezes mais potente se utilizado da maneira correta

–Qual é a diferença entre os dois?

–Ferro frio é ferro comum submetido a uma forja mística tão antiga e secreta que apenas uma pequena parcelas de homens ainda sabe produzir, eles são conhecidos como os Mestres do Ferro por um bom motivo, dizem que todos sabem o Nome do ferro

–Nome do ferro?

–Lia pode explicá-la isso melhor, ela é que é a especialista daqui

–Você sabe o nome do fogo não é? Você disse isso a pouco tempo

–Sim eu sei e garanto que não foi algo fácil de obter, é necessário se pagar um preço muito grande para obter algo tão grande, mas o importante não é isso agora, o importante foi o que você fez agora a pouco, você tem idéia do que fez?

–Confrontei alguém infinitamente superior a mim?

–Você fez algo muito maior e muito mais estúpido, algo que custaria sua vida se eu não estivesse com minha moeda aqui

–O ferro frio é tão ruim a ponto de parar a fúria de alguém?

–O medo é algo primordial, quase subconsciente e instintivo em alguns seres vivos como é o caso do ferro frio para os feéricos, é quase como se o DNA deles estivesse programado para mantê-los afastados disso mesmo que seja algo impossível de se fazer no momento

Os dois continuaram a dançar, mas antes que uma nova pergunta surgisse Ulf se separou dos braços da jovem e sumiu na escuridão se cobrindo com seu capuz, era como se ele pudesse prever as perguntas da jovem e não quisesse, ou não devesse, respondê-las.

Rose iria procurar fazer algo quando Lia surge ao seu lado e lhe oferece a mão guiando-a para fora do salão:

–Já passou da nossa hora, apenas as cortesãs continuam aqui entre as mulheres e somente aquelas que iram fazer algo com seus senhores mais tarde – disse a elfa guiando a garota pelos corredores do castelo rumo a seu quarto

–Tenho muitas perguntas

–Eu sei, mas tenho só uma para você, por que não me obedeceu? – Lia parecia visivelmente ofendida – Lhe disse para não tentar coisas estúpidas, ser educada e se mostrar tão pequena quanto é nesse reino, ai quando vejo você nega um pedido do príncipe, não faça todo o que lhe disse antes se torne inútil

–Então me diga algo realmente útil, me ensine mais sobre esse mundo, sobre seus seres, sobre os nomes das coisas como o fogo e o ferro

–Você faz perguntas demais, perguntas perigosas e poderosas demais – disse a loira sorrindo, ela via a si mesma naquela garota, quando era pequena seu pai agia da mesma forma com ela por ela fazer perguntas demais sobre coisas demais – Você vai ter suas respostas amanhã, que tal?

–Não sei se vou conseguir dormir assim

–Vai sim, não tenha dúvidas que vai, você pode ainda não sentir, mas logo mais os efeitos de ser uma ilder virão afetar você e não me refiro a insignificantes mudanças físicas

Rose queria contestar mais, mas ao olhar ao seu redor começava a ver as coisas diferentes, as armaduras e quadros não pareciam mais os mesmos, pareciam aos poucos ganhar vida. Seus sentidos queimavam enquanto ela começava a sentir coisas novas e então se via como aquela pequena garota que foi no passado, aquela pequena Emily que corria para mãe com medo do desconhecido e acabava indo visitar psiquiatras. Mas ela não era mais Emily, aquela garota tinha morrido no consultório a menos de um dia. Ela agora era Rose e Rose não iria reclamar de nada disso, não iria abaixar sua cabeça perante alguém só por ele ter mais títulos e as leis disserem que isso é o correto a fazer, não iria mais ser uma garotinha fraca que precisa dos amigos para protegê-la. Ela não seria nada daquilo. Rose seria muito mais e naquele momento com tudo mudando ao seu redor e o passado retornando a garotinha virou mulher.

Notas finais
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