No dia seguinte, Sarah chegou à sala de História da Magia e encontrou, mais uma vez, a cadeira ao lado de Draco vazia.

Parou diante da mesa.

As outras duas cadeiras próximas estavam ocupadas: uma pela mochila dele; a outra, por uma pilha de livros e pergaminhos que claramente poderiam estar em qualquer outro lugar.

Sarah olhou para a única cadeira disponível.

Depois para Draco.

— Você está fazendo isso de novo.

Ele ergueu os olhos do livro.

— Fazendo o quê?

Sarah apontou para as cadeiras ao redor.

— Guardando lugar para mim.

Draco acompanhou o gesto, como se estivesse vendo a própria mochila e os livros pela primeira vez.

— Não coloquei nenhuma placa.

— Você literalmente eliminou todas as outras opções.

Ele olhou para a mochila.

Depois para a pilha de livros.

— Que coincidência inconveniente.

Sarah ficou encarando-o por um segundo, mas acabou puxando a cadeira vazia e se sentando.

— Muito sutil, Malfoy.

Draco voltou ao livro.

Sarah abriu o próprio material, mas a questão continuou incomodando o suficiente para que ela tornasse a olhar para ele.

— Só para constar, você sabe que eu disse para Snape que a gente estava se beijando, não que estava namorando, certo?

Draco fechou os olhos por uma fração de segundo.

— Lembro dolorosamente bem do que você disse.

— Então quem transformou isso numa história de namoro foi você.

Dessa vez ele fechou o livro e virou um pouco na direção dela.

— Foi você quem inventou o beijo, Griller. Eu só estou tentando impedir que a história desmorone em cima de nós.

Sarah apontou discretamente para a cadeira em que estava.

— Isso ainda não explica o lugar reservado.

— Você pode aceitar ou procurar outro.

Ela olhou ao redor.

A sala começava a encher, e dois alunos algumas fileiras atrás já prestavam atenção demais na conversa.

Sarah tornou a encará-lo.

— Mandão.

— Demorada.

— Eu não estava demorando. Estava questionando minhas escolhas.

Draco abriu novamente o livro.

— Recomendo fazer isso com mais frequência.

Antes que Sarah pudesse responder, o professor Binns atravessou o quadro-negro e começou a falar no meio de uma frase sobre conflitos entre comunidades bruxas no século XVII.

Ninguém pareceu saber se aquilo era continuação da última aula ou se ele simplesmente tinha passado os últimos dois dias discursando sozinho em algum lugar do castelo.

Sarah abriu o pergaminho e começou a escrever.

Durante alguns minutos, conseguiu acompanhar de verdade. Copiou datas, nomes e acontecimentos com alguma atenção, mas a voz monocórdica de Binns foi aos poucos se misturando ao som das penas arranhando pergaminhos e ao calor sonolento da sala.

Quando percebeu, havia desenhado três círculos no canto da página enquanto copiava uma data.

Estava começando o quarto quando alguma coisa branca pousou ao lado de sua mão.

Sarah parou.

Um pequeno pássaro de papel bateu as asas uma última vez antes de ficar imóvel sobre o pergaminho.

Ela olhou para Draco.

Ele continuava escrevendo como se não tivesse absolutamente nada a ver com aquilo.

Sarah pegou o pássaro e desfez as dobras com cuidado.

Você está prestes a dormir.

Ela virou o rosto novamente.

Draco não olhou.

Sarah pegou a pena e escreveu logo abaixo:

Estou prestando atenção.

Tentou refazer as dobras.

Falhou na segunda.

Tentou outra vez.

O resultado parecia menos um pássaro e mais alguma criatura que tivesse sofrido um acidente grave durante o voo.

Foi isso que finalmente fez Draco olhar.

Sarah colocou o papel deformado diante dele.

— Nem uma palavra.

O canto da boca dele quase se mexeu.

Quase.

Draco pegou o bilhete, escreveu alguma coisa, refez as dobras em poucos movimentos e tocou o papel com a ponta da varinha. O pequeno pássaro ganhou vida novamente e atravessou a curta distância entre os dois.

Sarah o abriu.

Abaixo da própria resposta, havia uma nova frase:

Você desenhou quatro círculos enquanto escrevia que estava prestando atenção.

Sarah olhou para o pergaminho.

Quatro círculos.

Droga.

Pegou a pena outra vez.

Talvez seja um ritual para fazer você desaparecer.

Dessa vez nem tentou dobrar. Apenas empurrou o papel na direção dele.

Draco leu.

Não escreveu imediatamente.

Em vez disso, pegou a pena da mão de Sarah antes que ela pudesse impedir e acrescentou uma última linha:

Precisa melhorar a execução. Continuo aqui.

Sarah leu.

Depois olhou para ele.

— Infelizmente.

Draco devolveu a pena.

— Presta atenção na aula, Griller.

— Você começou.

— E já estou arrependido.

Sarah dobrou o papel uma vez e o escondeu debaixo do pergaminho.

A conversa deveria ter terminado ali.

Binns continuou falando, Sarah voltou às anotações e, por alguns minutos, conseguiu acompanhar de verdade. Quando os olhos começaram a pesar outra vez, ajeitou-se na cadeira e obrigou a mão a continuar copiando uma sequência de datas que provavelmente esqueceria antes do jantar.

— Griller.

Ela continuou escrevendo.

— O quê?

— Você pulou uma.

Sarah parou e conferiu o quadro.

Tinha mesmo.

Acrescentou a data no espaço certo.

— Obrigada.

Draco virou outra página.

— Não transforme isso num evento.

Sarah olhou para ele de lado. Ele franziu ligeiramente o cenho.

— O quê?

— Por que você fica prestando atenção no meu pergaminho em vez da aula?

Draco baixou os olhos para a mesa.

— Seu pergaminho está ocupando metade do meu espaço. É difícil não perceber.

Sarah acompanhou o olhar.

Estava mesmo.

Puxou o pergaminho alguns centímetros para o próprio lado.

— Resolvido.

— Finalmente.

Ela voltou a escrever.

Dessa vez, não conversaram mais.

Quando Binns atravessou o quadro-negro ainda falando sobre alguma disputa que ninguém parecia disposto a acompanhar até a próxima sala, os alunos começaram a guardar o material.

Sarah enrolou o pergaminho e encontrou o pequeno pássaro achatado embaixo dele.

Pegou-o.

Era só um pedaço de papel. Algumas frases idiotas trocadas durante uma aula entediante. Não servia para absolutamente nada. Sarah poderia ter jogado fora.

Ficou olhando para ele por um instante a mais do que precisava.

Então dobrou o papel outra vez, sem qualquer tentativa de reproduzir o pássaro, e o colocou no bolso das vestes.

Draco já guardava o próprio livro e, se percebeu o que ela tinha feito, não comentou.

Sarah fechou a mochila.

— Hoje não vai sequestrar minhas coisas?

Ele ergueu os olhos.

— Ontem estávamos saindo do Grande Salão na frente de metade da escola.

Sarah colocou a mochila no ombro.

— Então era só atuação.

Draco demorou um instante antes de responder.

— Era esse o acordo.

Sarah ajeitou a alça.

— Ótimo.

— Ótimo.

Nenhum dos dois pareceu particularmente convencido.

Saíram da sala junto com o restante dos alunos e, durante alguns metros, caminharam lado a lado mais porque o corredor estava cheio demais para qualquer outra coisa do que por escolha.

Quando chegaram à primeira bifurcação, Sarah começou a virar à esquerda.

— Griller.

Ela parou.

Draco apontou com o livro para o corredor oposto.

Sarah olhou para onde estava indo.

Depois para onde ele indicava.

— Eu sabia.

Draco ergueu ligeiramente as sobrancelhas.

— Então estava fazendo um desvio recreativo?

Sarah mudou de direção com toda a naturalidade que conseguiu reunir.

— Exatamente.

— Fascinante.

Ela lançou-lhe um olhar atravessado enquanto voltava a andar.

— Você é muito irritante para alguém que passou a aula inteira me mandando bilhetinhos.

Draco acompanhou o passo.

— Foi um bilhete.

— Foi e voltou.

— Continua sendo o mesmo pedaço de papel.

Sarah pensou por um instante.

— Tecnicamente, foram várias mensagens.

Draco revirou os olhos, sem olhar para ela.

— Estou registrando os fatos, apenas. — Afirmou Sarah.

— Isso é preocupante.

Sarah ignorou e continuou falando:

— E você fez um passarinho.

— Era o método de transporte.

— Um passarinho.

— Griller.

Ela olhou para ele com um sorriso que já começava a aparecer.

— Achei delicado.

Draco parou por uma fração de segundo.

Foi pouco.

O suficiente.

Sarah percebeu e continuou andando antes que ele encontrasse uma resposta.

— Anda, cobrinha.

Dessa vez, foi Draco quem ficou para trás.

— Não.

Sarah começou a rir.

Virou-se parcialmente enquanto caminhava.

— O quê?

Ele a alcançou alguns passos depois, visivelmente pouco impressionado.

— Isso não vai acontecer.

— Espera. Você pode me chamar de leãozinha, mas eu não posso te chamar de cobrinha?

— Exatamente.

Sarah fez uma careta.

— Regra injusta.

— Sobreviva.

Ela ainda sorria quando chegaram à escada seguinte.

Só então percebeu duas coisas.

A primeira era que o corredor já tinha esvaziado bastante. Não havia ninguém perto o suficiente para prestar atenção neles, nenhum motivo para sustentar aparência alguma, e mesmo assim Draco continuava caminhando ao seu lado como se não tivesse ocorrido a nenhum dos dois que poderiam simplesmente seguir caminhos separados.

A segunda era o pequeno volume amassado no bolso das vestes.

O pássaro de papel ainda estava ali.

Sarah passou os dedos rapidamente sobre o tecido, apenas para confirmar.

Não comentou nenhuma das duas coisas.

Draco também não.

Na aula seguinte, o período passou sem bilhetes, apelidos ou qualquer nova tentativa de Draco de monopolizar as cadeiras ao redor. Sarah chegou a considerar aquilo um progresso.

Quando o sino finalmente tocou, a sala inteira se levantou num atropelo de capas, livros e bolsas. Sarah começou a juntar suas coisas enquanto Draco enrolava o próprio pergaminho sem qualquer pressa.

Ela estava prestes a alcançar a mochila quando ele a pegou primeiro.

Outra vez.

Sarah ficou com a mão suspensa no ar.

— Malfoy...

Draco colocou a mochila no próprio ombro.

— Vamos, leãozinha.

Sarah fechou os olhos por um instante.

— Não.

— Não queremos que a nossa paixão tórrida dure apenas dois dias, queremos?

Ela tornou a encará-lo.

— Você está gostando demais disso.

— Da sua humilhação pública?

— Da historinha.

Draco começou a andar em direção à porta.

— Não se iluda.

Sarah o acompanhou, e bastou os dois aparecerem no corredor, Draco carregando a mochila dela como se aquilo já fosse rotina, para alguns cochichos recomeçarem ao redor.

— Maravilha. — A menina resmungou.

Draco inclinou ligeiramente o rosto para ela.

— Tente parecer menos miserável. Está comprometendo a credibilidade da nossa paixão devastadora.

Sarah virou para ele.

— Se você falar "paixão" mais uma vez, eu vou—

Eles ouviram uma risada alguns passos atrás e a voz de Pansy cortou o corredor antes que Sarah terminasse.

— Você está se divertindo um pouco demais com essa situação, Draco.

Os dois pararam.

Pansy caminhou devagar, porém firme, e parou na frente dos dois, posicionada de um jeito que tornava impossível continuar sem passar por ela. Seu olhar foi primeiro para Draco, depois para a mochila de Sarah pendurada no ombro dele.

Demorou ali um pouco mais do que precisava.

— Não sabia que tinha desenvolvido gosto por carregar as coisas dos outros.

Draco soltou o ar devagar.

— E desde quando minhas escolhas dependem da sua aprovação, Parkinson?

Pansy ergueu o queixo.

— Não dependem. Só achei que você tivesse critérios melhores.

A irritação de Sarah veio rápido.

Até a noite da explosão, Pansy praticamente se recusava a reconhecer sua existência. Agora parecia subitamente muito interessada.

— Engraçado. Até ontem você fazia um esforço impressionante para fingir que eu não existia.

Pansy voltou o rosto para ela.

— Até poucos dias atrás você não estava desfilando pelos corredores com Draco Malfoy.

Sarah olhou para a própria mochila no ombro dele.

— "Desfilando" me parece um pouco dramático.

— Você sempre tem alguma coisa para dizer?

Sarah deu de ombros.

— Quando falam comigo, geralmente.

Ao lado dela, Draco murmurou:

— Griller.

Sarah ignorou.

Pansy cruzou os braços e voltou a atenção para ele.

— Sinceramente, Draco, você pretende continuar com isso por quanto tempo?

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Com o quê?

— Não se faça de idiota.

— Vai precisar ser mais específica.

Pansy lançou um olhar breve na direção de Sarah.

— Isso.

Sarah abriu a boca, mas Draco respondeu antes.

— Meu relacionamento com Griller não é assunto seu.

Por pouco Sarah não virou o rosto para encará-lo.

Relacionamento.

Até então, Draco insistira em chamar aquilo de álibi, versão, controle de danos, qualquer palavra que não se parecesse remotamente com namoro.

Agora, diante de Pansy, aparentemente tinha decidido abraçar o vocabulário.

Sarah não sabia se aquilo fazia parte da encenação ou se ele só estava tentando irritá-la.

Provavelmente os dois.

Pansy ficou em silêncio por um instante.

— Você não pode estar falando sério.

— Posso.

— Ela é uma grifinória.

Sarah levantou uma mão.

— Presente.

Pansy nem olhou.

— E, caso tenha esquecido, seu sobrenome ainda é Malfoy.

Draco ajeitou a alça da mochila de Sarah no ombro.

— Obrigado pelo lembrete. Tenho o hábito terrível de esquecer.

— Não é engraçado.

— Também não achei que fosse.

Pansy apertou os braços contra o peito.

— Todo mundo está falando de vocês.

— Percebi.

— E você simplesmente não se importa?

Draco demorou um pouco antes de responder.

— Com as fofocas?

— Com o que isso parece.

Dessa vez, a pausa foi maior.

Sarah percebeu a mudança antes mesmo de ele falar.

— Para quem?

Pansy não respondeu de imediato.

Por alguns segundos, Sarah teve a sensação desconfortável de estar presenciando uma conversa que começara muito antes de ela chegar ali.

Olhou de um para o outro.

— Isso está ficando estranhamente pessoal.

Pansy voltou-se para ela.

— Não ache que você é importante, Griller.

Sarah soltou uma pequena risada.

— Está um pouco difícil, considerando que você nos parou no meio do corredor para fiscalizar com quem ele anda.

— Eu não estou discutindo sua vida amorosa.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— Então você está fazendo um trabalho péssimo em demonstrar isso. Até agora, reclamou que ele carrega minha mochila, que passa tempo comigo e que todo mundo está falando da gente.

Pansy apertou os braços contra o peito.

— A questão não é você.

Sarah apontou para Draco.

— Ótimo. Então reclama com ele. Foi ele quem resolveu aderir ao serviço de carregador.

Draco olhou de uma para a outra.

— Não me use como argumento numa discussão que vocês duas claramente decidiram transformar numa competição.

Sarah virou-se para ele.

— Você é literalmente o assunto da discussão.

— Esse é exatamente o problema.

Pansy pareceu perder o resto da paciência.

— Vocês acham isso engraçado?

Sarah tornou a encará-la.

— Na maior parte do tempo, não. Mas você está ajudando bastante.

— Griller—

Sarah já estava cansada.

— Olha, Parkinson. Se você tem algum problema mal resolvido com o fato de Draco preferir passar o tempo comigo, desconta sua frustração em outro lugar.

Pansy se calou.

Dessa vez, de verdade.

A frase pareceu acertar algum ponto que Sarah não tinha previsto.

Ela aproveitou o silêncio.

— Agora, se nos der licença, eu já perdi tempo suficiente numa discussão que nem deveria ser minha.

Sarah fez menção de passar, mas Pansy deu um passo à frente.

— Você não faz ideia de onde está se metendo.

Sarah parou.

A irritação desapareceu quase imediatamente.

Por um instante, não estava mais naquele corredor cheio de alunos.

Viu novamente a mão fechada de Pansy, o reflexo prateado entre os dedos e a mudança em seu rosto quando ouvira a patrulha se aproximando.

Curiosidade demais costuma acabar mal por aqui.

Talvez Pansy estivesse falando apenas de Draco.

Talvez não.

Sarah observou-a com mais atenção.

— O que isso quer dizer?

— Chega.

A voz de Draco veio ao lado dela.

Sarah olhou para ele.

A expressão dele havia mudado também.

Draco não esperou resposta de Pansy. Apenas passou por ela e começou a andar pelo corredor, levando a mochila de Sarah consigo.

Depois de alguns passos, chamou:

— Griller.

Sarah continuou parada por mais um segundo, ainda olhando para Pansy.

— Anda.

Dessa vez, ela foi.

Acompanhou Draco sem dizer nada, mas a frase de Pansy seguiu com ela pelo corredor.

Os cochichos começaram quase imediatamente atrás deles.

Sarah precisou acelerar um pouco o passo para alcançar Draco, que seguia pelo corredor com a mochila dela ainda pendurada no ombro como se nada tivesse acontecido.

— Você sabe que eu conseguia terminar aquela discussão sozinha.

Draco lançou-lhe um olhar breve.

— Eu sei.

Sarah esperou alguma coisa além daquilo.

Não veio.

— Então por que interrompeu?

— Porque você ia continuar até uma das duas sacar a varinha.

Sarah pensou por um instante.

— E você resolveu proteger quem?

Dessa vez, Draco virou um pouco mais o rosto para ela.

— Minha tarde.

Sarah soltou uma risada curta.

— Egoísta.

— Prático.

Ela olhou por cima do ombro.

Pansy ainda estava parada onde os dois a haviam deixado, embora outros alunos já passassem ao redor dela. Por um instante, os olhos das duas quase se encontraram.

Sarah virou novamente para a frente.

Andou mais alguns passos antes de falar:

— Malfoy.

— Hm?

— O que ela quis dizer?

Ele não perguntou imediatamente. Continuou andando por alguns segundos, como se realmente precisasse pensar no assunto.

— Vai precisar ser um pouco mais específica. Parkinson disse várias coisas desagradáveis nos últimos cinco minutos.

— "Você não faz ideia de onde está se metendo."

Draco continuou olhando para a frente.

— Ela gosta de ameaças vagas.

Sarah esperou.

— Só isso?

— Só.

— Isso não respondeu à pergunta.

Ele soltou o ar pelo nariz.

— Era o máximo que você ia conseguir.

Sarah ficou observando o perfil dele enquanto caminhavam.

— Você é péssimo nisso.

Draco franziu ligeiramente o cenho.

— Em quê?

— Em fazer alguém parar de fazer perguntas.

— E você é péssima em perceber quando não vai receber uma resposta.

Sarah sorriu de lado.

— Então estamos empatados.

Draco balançou a cabeça.

— Não estamos.

— Por quê?

Ele finalmente olhou para ela.

— Porque você continua perguntando.

Sarah abriu a boca para provar exatamente o ponto dele.

Draco apontou para a frente com um movimento do queixo.

— Aula.

Só então ela percebeu que tinham chegado à escada.

Sarah diminuiu o passo.

— Essa conversa também não acabou.

— Imaginei.

Draco continuou andando.

Foi aí que Sarah reparou que sua mochila ainda estava com ele.

— Pode devolver agora.

Draco olhou rapidamente ao redor.

— Ainda tem gente olhando.

Sarah acompanhou o movimento e percebeu dois alunos alguns metros atrás, aparentemente interessados demais numa conversa própria que ninguém acreditaria que estavam tendo.

— Você está levando esse trabalho muito a sério.

— Um de nós precisa levar.

Sarah soltou um suspiro, mas não tentou pegar a mochila de volta.

Continuaram andando em silêncio por alguns metros.

O problema era que, sem a discussão para distraí-la, a frase de Pansy voltou imediatamente.

Você não faz ideia de onde está se metendo.

Talvez fosse só mais uma ameaça vazia.

Pansy era boa nisso.

Mas Sarah também tinha visto aquela mesma garota fugir de uma patrulha com um objeto prateado escondido na mão poucas horas antes de uma parte da Ala Norte explodir.

Aquilo tornava um pouco mais difícil simplesmente ignorá-la.

Sarah tornou a olhar por cima do ombro.

Pansy ainda estava no corredor.

E observava os dois se afastarem.

Sarah voltou lentamente para a frente.

— Malfoy.

Draco fez um som baixo, indicando que estava ouvindo.

— A Parkinson sempre fala como se soubesse alguma coisa que ninguém mais sabe?

Dessa vez, ele demorou.

Não o bastante para que Sarah pudesse acusá-lo de hesitar.

Mas mais do que uma pergunta tão simples exigia.

— Frequentemente.

Sarah esperou mais um pouco.

Nada.

— Irritante.

— Bastante.

Ela deixou o silêncio se prolongar, dando a ele a oportunidade de acrescentar alguma coisa.

Draco não acrescentou.

Continuou andando ao lado dela, com os olhos voltados para a frente e a mochila de Sarah ainda no ombro.

E, por algum motivo, a falta de resposta fez aquela conversa parecer muito menos encerrada do que antes.

O sol da tarde entrava pelas janelas altas da biblioteca, espalhando faixas douradas sobre as mesas e estantes. Sarah estava diante de um tratado de Transfiguração Avançada havia tempo suficiente para ter lido o mesmo parágrafo quatro vezes e compreendido menos a cada tentativa.

A cadeira ao lado rangeu.

Draco se sentou.

Sarah não tirou os olhos do livro.

— Não tem nada melhor para fazer?

Ele se acomodou na cadeira como se tivesse sido convidado.

— Neste momento? Não.

— Que vida triste.

— Disse a garota que está na mesma página há dez minutos.

Sarah ergueu os olhos.

— Você estava contando?

— Não precisava. Você faz aquela cara quando está tentando intimidar o texto até ele se explicar sozinho.

Ela fechou o livro um pouco mais forte do que o necessário.

— Eu sei perfeitamente o que estou lendo.

— Então a situação é ainda mais preocupante.

Sarah ergueu o tratado.

— Quer apanhar com ele?

Draco olhou para a grossura do livro.

— Provavelmente seria a interação mais produtiva que você teve com esse capítulo até agora.

Ela desistiu de responder e voltou ao pergaminho, começando uma anotação qualquer apenas para não lhe dar a satisfação de continuar.

Draco estendeu a mão e puxou o pergaminho alguns centímetros para o próprio lado.

Sarah parou de escrever.

— O que você está fazendo?

Ele leu uma das linhas.

— Isso está errado.

— Não está.

— Está.

— Eu conferi.

— Então conferiu errado.

Sarah tentou recuperar o pergaminho.

— Me dá.

Draco puxou-o um pouco mais.

— Não.

— Malfoy.

— Griller.

Ela avançou a mão no mesmo instante em que ele fez o mesmo.

Seus dedos se encontraram sobre o pergaminho.

Os dois pararam.

Sarah baixou os olhos.

Draco não a segurava. Era apenas o toque de seus dedos contra os dela, leve e quase acidental, pequeno demais para justificar o silêncio que de repente parecia ter tomado conta daquela parte da biblioteca.

Mesmo assim, nenhum dos dois afastou a mão.

Sarah foi a primeira a falar.

— Isso faz parte do álibi também?

Draco olhou ao redor.

As mesas próximas estavam vazias. Não havia ninguém entre aquelas estantes, ninguém prestando atenção neles.

— Não tem ninguém olhando.

Sarah tornou a encará-lo.

— Então por que...

Parou.

Draco esperou.

— Por que o quê?

Ela puxou um pouco os dedos, mas não o suficiente para realmente interromper o contato.

— Nada. Esquece.

— Você começou.

— E desisti. Isso acontece.

Draco se inclinou um pouco mais sobre a mesa.

— Covarde.

Sarah estreitou os olhos.

— Eu não sou covarde.

— Então termina.

Ela queria responder.

Deveria responder.

Em vez disso, percebeu que ele estava perto demais e que, por alguma razão, nenhum dos dois ainda tinha afastado a mão.

Sarah desviou os olhos para a boca dele por um instante e imediatamente se irritou consigo mesma.

— Você fala demais — murmurou.

— Essa acusação, vindo de você, chega a ser ofensiva.

— Cala a boca.

Draco ficou quieto.

Sarah deveria ter ficado satisfeita.

Não ficou.

O silêncio durou alguns segundos.

Então ele arqueou uma sobrancelha.

— Viu? Nem cinco segundos.

— Idiota.

— Barulhenta.

— Convencido.

— Griller.

— Malfoy.

Dessa vez, quando o olhar dele desceu, Sarah percebeu.

A próxima provocação simplesmente desapareceu.

Draco se aproximou.

E a beijou.

Não havia explosão.

Nenhum Snape dobrando a esquina.

Nenhuma mentira que precisasse ser sustentada e absolutamente ninguém para quem provar coisa alguma.

Sarah ficou imóvel por um segundo.

Depois—