A bit of magic
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ok, minha vida nunca foi boa, mas desde que fui comer uma batata mega no McDonald's, tudo piorou. Sério. Eu nunca brinco.
Olhar o número 471 na porta do meu armário pela milionésima vez foi o que despertou aquele desejo primitivo de fugir. Jogo de volta todo o material que tinha pego pra aula de Química e só levo dali minha mochila com itens pessoais antes de bater a porta com força. O sinal metálico soa pelo largo corredor da High School (Musical? Não.) St. Thomas & Clark. Movo os ombros em movimentos circulares pra aliviar a tensão e arrumar a postura. É difícil parecer durona com menos de 1,60m, acredite.
Mais difícil ainda é parecer simpática e fazer amigos, mas não vamos falar disso.
Observo os grupos de amigos dirigindo-se para as respectivas salas. Conheço a maioria dos rostos. Sigo com os olhos o garoto-lindo-que-não-sei-o-nome e que faz algumas aulas comigo apenas para idealizar algo que fuja da minha realidade. Estralo os dedos pela terceira vez naqueles dez minutos. Quero parecer forte, segura, alguém que está bem sem amigos? Óbvio. Ninguém precisa conhecer minhas fraquezas.
Reviro os olhos para duas garotas escandalosas e cheias de si que sempre estão acompanhadas por um garoto alto, com cabelos louros e lisos e olhos azuis cristalinos que vez ou outra encontram meu rosto. Não foi diferente dessa vez, entretanto, havia uma tensão nos músculos de seu rosto. Ele parece notar algo em mim e, assim que aperto o passo e saio de seu campo de visão, passo a mão no rosto inteiro pra garantir que não está sujo.
Respiro aliviada quando sinto o vento jogar meus cabelos negros pra trás. Sinto o cheiro de gordura que vem do outro lado do estacionamento: um McDonald's mais antigo que a Declaração de Independência ainda resiste bravamente com a missão de engordar a nação norte-americana. Puxo os dólares do fundo do bolso pra ver se consigo comprar uma batata mega quando um ronco metálico ressoa vindo do oeste. Só tenho tempo de me jogar no chão quando o carro da Srta. Hernandez passa voando no lugar onde antes estava a minha cabeça.
Apoio o queixo machucado no asfalto pra ver o que aconteceu. E acredito estar louca quando vejo uma criatura que parece que saiu de Game of Thrones direto pro subúrbio do Brooklyn. Pisco com força pra provar que estou tendo uma alucinação. Eu não devia ter tomado aquele energético às sete da manhã.
Mas não. Ele continua lá e pior: continua vindo na minha direção. Arrasto-me como uma lagartixa epiléptica tentando alcançar um conversível antigo de algum aluno veterano, mas antes de chegar lá, a criatura com tronco de touro e pernas de homem, com mais de três metros de altura, bufa pra mim e se prepara para me atacar. Algum instinto primitivo me força a ficar de pé e quando vejo, eu e o homem-touro estamos prontos para avançar um contra o outro.
Não sinto medo ou coragem. Só pânico e uma determinação que não me é comum. Algum tipo de poder — adrenalina, talvez? — corre por todo meu corpo e antes que minhas pernas se movam, alguém surge vindo de trás de mim, correndo tão veloz que parece que seus pés não tocam o chão. Preciso piscar três vezes pra notar que, literalmente, aqueles pés flutuam.
O garoto loiro que vi no corredor da escola é anti-gravidade.
Não só ele voa, como também porta uma longuíssima espada de bronze que reluz no piercing no septo do touro. Observo atônita enquanto o menino investe contra o homem-touro, utilizando gingadas e truques que parecem saídos de um filme hollywoodiano. Porém, a criatura consegue acertar o garoto, que cai com força no asfalto e sua espada sai deslizando pra perto dos meus pés.
— Pegue-a! — O louro grita, enquanto o touro volta-se contra mim. Dessa vez não hesito. Encaixo minha mão no punho da lâmina e corro na direção do monstro. Já percebi que ele só se movimenta pra frente. Espero ele se aproximar mais e mais e então deslizo por entre suas patas e cravo a espada num lugar que posso garantir que dói se você for menino.
O homem-touro vira pó diante dos meus olhos. Caio rolando numa poeira amarelada que devem ser os restos mortais do bicho e olho para o céu: límpido e sem nuvens. Da mesma cor dos olhos que agora me encaram de perto.
— Você está bem? — diz ele num tom suave, entregando-me o que acredito ser o chifre direito do monstro.
Empurro o souvenir contra a barriga magra dele e me levanto.
— Não! Não estou bem! — Meu tom de voz é violento. — O que raios aconteceu aqui?!
Ele respira fundo após meu ataque, como que para se controlar.
— Era o Minotauro. — Sua resposta é seca.
— Seja mais claro. — digo entredentes.
Ele revira os olhos.
— Os mitos gregos são reais. Você provavelmente é filha de algum deus grego. Monstros são reais. Você não está segura aqui.
Preciso lembrar de soltar o ar.
— Isso foi bem... direto.
— Precisamos ir para o Acampamento. — A expressão dele é séria.
— Como posso ir a qualquer lugar com você? Eu nem sei o seu nome!
Ele suspira como se estivesse perdendo a paciência.
— Meu nome é Tony.
Não sei se é apelido, então sou discreta também quando digo:
— Sou Marnie. Que acampamento é esse? Não sou escoteira.
— Te explico no caminho. Tudo bem?
— E se eu não for? — Cruzo os braços com firmeza.
— Podem aparecer outros destes. — Tony sacode o chifre do Minotauro e o entrega pra mim. Desta vez, aceito.
Respiro fundo.
— Seu palito de bronze gigante não me impede de arrancar seus órgãos caso você me ataque.
Pego minha mochila que havia caído no chão e começo a andar em direção ao McDonald's. Verifico meu bolso e, incrivelmente, meus dez dólares ainda estão lá.
— Onde você vai? — Tony questiona. — Temos que ir pro acampamento.
— Não vou a lugar nenhum sem um pouco de fritura. — respondo com os mãos estendidas pra cima.
— Me espere lá dentro então. Vou chamar reforços.
— Que tipo de reforços? A ONU?
Tony revira os olhos pra mim.
— Não, minha irmã. Ela vai saber como fazemos para chegar ao acampamento.
Decido não discutir. Meu pai já havia comentado sobre um acampamento antes de ir pra Coréia, há um ano. Ele tinha dito algo como "um lugar especial e tranquilo pra você viver". Entro sozinha na loja e busco o contato de Louisa enquanto espero as batatas fritarem.
— Alô, Lou. É a Marnie. — falo enquanto sento numa mesa alta e deposito as batatas na minha frente.
— Querida, algum problema? Você nunca me liga.
Dou um sorriso ao ouvir o sotaque carregado do sul.
— Nenhum. Quer dizer, acho que não. Aconteceu uma coisa muito estranha hoje. — Narro o ocorrido com o homem touro. Lou cuida de mim desde que eu tinha três anos e ela entende de todas as coisas estranhas que já me aconteceram, como mulheres-cobra no jardim de infância e zumbis na viagem à barragem de Hoover há uns anos.
— Um garoto me ajudou e falou de me levar a um acampamento. — Finalizo olhando as janelas pra ter certeza de que Tony não voltou ainda.
— Você acha que é o acampamento que seu pai falou? — a voz de Lou é firme.
— Acho que tem uma chance.
O chiado do telefone é o único som por um breve instante.
— Você quer que eu fale com seu pai?
— Seria ótimo, Lou. Me dê informações assim que puder.
— Claro, querida. Vou arrumar uma mala pra você, te mando assim que você se estabelecer.
— Você é boa demais pra ser de verdade. Tenho que desligar. Obrigada!
Desligo o telefone assim que Tony passa pela porta acompanhado de uma loura muito alta, como uma modelo sueca. Ela usa uma calça preta de cintura alta, camisa branca e leva uma bolsa pequena a tiracolo. Seu cabelo está preso num coque colado à cabeça, de uma forma muito elegante. Ela parece ter uns vinte e seis anos.
— Vocês demoraram. — É o que digo quando eles se aproximam.
— Marnie, essa é minha irmã, Clémence.
A loura me encara de alto a baixo, me analisando como um verme. Apesar dos dois serem loiros, não há muita semelhança entre eles.
— Vocês não parecem irmãos. — é meu comentário ácido. A verdade é que estou bem assustada.
— Somos meio-irmãos. — Clémence afirma com a voz entediada. — Já terminou ou prefere ficar aqui pra ser devorada?
Uma batata fica pendurada entre meus dentes.
— Como assim "devorada"?
Clémence e Tony se entreolham. Ela olha através da janela, preocupada. Apesar da roupa glamorosa, sua postura é de um tigre: pronta pra atacar.
— Pelo menos três cães infernais estão vindo pra cá. Precisamos ir pro acampamento agora mesmo.
Não sei o que é um cão infernal, mas só o nome já me fez tremer. Jogo a batata inacabada no lixo e sigo os dois até um carro azul bem antigo estacionado na esquina. Apesar da idade do carro, parece bem conservado. Nós três entramos, com Clémence no volante, e disparamos pela avenida.
— Por que estão nos seguindo? — pergunto.
Tony vira-se pra mim do banco da frente.
— Eu e Clémence somos filhos de Zeus, ou seja, atraímos monstros por conta de nosso pai ser o Senhor dos Céus. Mas já estamos acostumados a estar no radar. Dessa vez é diferente. Você é poderosa, só não entendo por que nunca foi atacada antes.
— Eu já fui atacada, mas faz uns dez anos.
Clémence me olha rapidamente pelo retrovisor.
— Você já tem, o quê, dezessete anos? Deveria ter entrado no radar por volta dos 13 anos.
— Talvez os poderes dela afloraram por conta da situação... — Tony supôs aos sussurros, mas Clémence o silenciou com o olhar.
— Que situação? — pergunto, olhando de um para o outro.
— Nada com que se preocupar. — Tony sorri, mas esconde o nervosismo. — O Olimpo só está mais agitado do que de costume.
Dou um meio sorriso pra ele, fingindo acreditar em suas palavras. Pego meu celular e dou uma olhada rápida nas mensagens. Há uma de Lou que diz: "Seu pai confirmou a possibilidade. Disse pra conversar com um homem chamado Quíron. Boa sorte, querida."
Enfiei o celular de volta na bolsa. Percebi que estávamos saindo dos limites da cidade e algumas plantações tomavam o lugar do cimento.
— Onde exatamanete fica esse acampamento? — pergunto.
— Não muito longe daqui. — Tony responde.
— Vou ter que ficar lá muito tempo?
— Provavelmente o verão todo. Se não for seguro, talvez nem volte ao mundo mortal tão cedo. Mas a escolha é sua.
— Mas eu não tenho roupa nenhuma! E como vou pagar esse tempo todo? Eu não sabia de nada disso! Ai, para o carro que eu não quero mais.
Só então que eu notei o olhar preocupado de Clémence. Ela não parava de olhar o retrovisor.
— O que foi, Clémence? — Tony questiona, virando-se para olhar pelo vidro de trás.
— Eles estão se aproximando.
Viro pra trás a tempo de ver um cachorro do tamanho de uma picape virar a curva da estrada de terra. Ele corre muito rápido e logo nos alcançará. A pior parte é que seus olhos vermelho-sangue pareciam fixos em mim.
Fale com o autor