A besta que habita em nós

14 Jogo de sobrevivência - 18 de abril


Notas iniciais
Helloo Espero que tenham uma boa leitura!

18 de abril de 2018

Era aproximadamente umas duas horas da madrugada e Arthur estava sentado em sua cadeira na sala de estar, com uma garrafa na mão e alguns pacotinhos de salgadinhos jogados no chão. Ele estava olhando para a tv, mas seus olhos estavam tão embaçados pelo álcool que ele não conseguia focar nisso. Tudo o que ele viu foi uma névoa azul. Ele levantou a mão para tomar outro gole de sua cerveja, sentindo falta dos lábios e, em vez disso, derramando tudo sobre si mesmo.

— Droga...

Ele colocou a poltrona para baixo e sentou-se, olhando confuso para si mesmo e para o local úmido e bastante fedorento que ele tinha feito em sua camisa xadrez. Ele se aproximou da mesa à esquerda em busca de um guardanapo ou toalha, mas nunca encontraria um; a janela atrás da televisão subitamente explodiu, o vidro voando em um milhão de pedaços enquanto uma figura se chocava como um trovão na sala. Arthur estava tão bêbado, o som estava abafado em seus ouvidos, e ele mal teve tempo de registrar o que tinha acontecido antes que um homem alto e sem camisa se levantasse a toda a altura a poucos metros dele, encarando-o com todo o poder de Deus dentro de si.

Arthur tentou fugir, desajeitadamente saltando da cadeira para pegar a espingarda que mantinha escondida debaixo do sofá e, por algum milagre, conseguiu. Ele agarrou a arma e a girou para disparar contra o intruso, mas suas esperanças foram frustradas quando o homem bateu na arma com as mãos e a enviou voando pela sala. Ele assistiu enquanto batia contra a parede, agora inútil para ele, tão longe então, sua atenção foi rapidamente trazida de volta para o homem enquanto ele o pegava pela garganta, apertando-o enquanto o levantava mais alto e mais alto do chão.

O homem olhou para ele, as narinas se dilatando como um boi zangado enquanto seu peito se erguia e caía dramaticamente, e Arthur jurou por um momento que não estava olhando para um homem, mas um animal. Uma besta.

Arthur gritou quando foi jogado pela sala, com a cabeça batendo no canto da poltrona e estourando algumas garrafas vazias. Algo quente e escorregadio começou a escorrer por sua testa, mas em seu estado de embriaguez ele não conseguia descobrir o que era. Sua cabeça nadou do álcool e da adrenalina, e os dois misturados o deixaram enjoado. O homem se aproximou dele e Arthur se afastou, lutando para ficar de pé e colocar alguma distância entre eles, mas foi infrutífero. Mãos bárbaras se envolviam mais uma vez ao redor de sua garganta e a única coisa que ele podia ver era a imagem borrada de um completo estranho, e o ódio vívido por trás de seus olhos enquanto eles lentamente e dolorosamente o sufocavam até a morte.

Um grito estridente soou à direita de Arthur, e ele e seu atacante olharam para ver Elizabeth parada na porta.

— Elizabeth — ele sufocou, sua voz quase inaudível pela pressão em sua traqueia – Me ajude, por favor...

Elizabeth apenas vislumbrou aquela cena sem sentir absolutamente nada, não conseguia ver o rosto do atacante, mas percebeu que era um homem alto e careca, quanto a Arthur, ela não tinha questões com ele, mas ele a atacou quando teve oportunidade e por essa ação, ela ficou presa durante dias. Não queria ajudá-lo. Era sua oportunidade de sair de uma vez daquela casa, já que Jorge havia desaparecido após uma visita da polícia à mansão, aparentemente havia uma razão por qual Bethânia e Ibelza haviam sumido. Não iria ceder, correria até a polícia e tudo se resolveria, assim ela esperava. Elizabeth resolveu ignorar tudo e correu para o outro lado da sala. Arthur compreendeu naquele momento que seu tempo havia acabado, ninguém viria para socorrê-lo, ninguém.

****

Então o seu tio manteve você no porão? – O policial batia a caneta na mesa de ferro enquanto fitava a menina a frente com desconfiança.

— Por vários dias – Ela correu até a delegacia, ficou esperando por horas até que finalmente um homem chegou e a encarou em um misto de confusão e duvidas, o delegado Corrêa – Ele e os meus tios, são todos loucos!

— Escuta Elizabeth – Seu olhar era severo – Enviei homens a mansão e o corpo do jardineiro foi encontrado morto e agora você está aqui falando besteiras sobre o seu tio?

— Besteiras? – Elizabeth já estava se arrependendo de procurar ajuda, ninguém jamais acreditaria nela – Eu vou resumir o que aconteceu – Ela respirou fundo – O Arthur me acertou na nuca e todos eles me prenderam no porão, todos sabiam, com exceção de Arthur, cada dia, um ia me levar as refeições. Ontem eu consegui fugir do Jorge, acertando uma caixa de madeira nele, só que ele estava com o Apolo e eu não podia abandoná-lo. Pode parecer estranho, mas apesar de todas as loucuras do Jorge, sei que ele não faria mal a mim e por isso resolvemos sentar e conversar – Elizabeth tomou um gole de água – Com uma arma mirada para a minha cabeça, mas mesmo assim conversamos e quando você chegou lá, para avisar que Ibelza e Bethânia haviam desaparecido, ele ainda estava com a arma apontada para mim! Entende o quanto ele é um bom mentiroso e manipulador?

— Primeiro, quem é Apolo? – Corrêa anotava algumas informações em um bloco de notas.

— Meu cachorro, Jorge odeia ele e se eu saísse da casa, ele o mataria.

— E o que você fez quando Jorge saiu de casa para resolver a situação das irmãs?

— Ele prendeu Apolo em um lugar que até agora não sei onde é, e deixou o Arthur responsável por mim – Elizabeth sorriu irônica – Responsável, vulgo “não deixe ela fugir”.

— Mas Arthur não estava bêbado?

— Ele bebia as vezes – Ela engoliu em seco – Por que essa pergunta?

— Porque ele foi encontrado morto e com grande quantia de álcool no sangue – Corrêa estralou os dedos – Não precisaria de um exame para isso, a sala estava repleta de garrafas de cerveja, todas vazias.

— Tudo bem, ele estava bebendo e daí?

— Se você era uma prisioneira, por que não aproveitou que ele estava bêbado para tentar fugir?

— Eu estava no quarto, não sabia... – E ela foi interrompida pelo impacto do punho de Corrêa sobre a mesa – Chega! – Ele disse bravo.

— Sua tia morreu, o seu tio também – Ele a fitava incrédulo – Duas tias suas, estão desaparecidas e possivelmente, foram sequestradas pelo maníaco que matou seus tios e muitas outras pessoas pela região, agora o Arthur está morto na sala da casa de vocês! Isso não parece estranho para você?

— Olha é horrível que tantas pessoas tenham sido assassinadas, mas não espere que eu vá chorar a morte de algum Alencastro! Eu estou dizendo que fui mantida no cárcere e você não parece se importar...

— Talvez porque não houve nenhuma prisão no porão, porque isso é tudo coisa da sua cabeça, que você inventa para ferrar o Jorge – O delegado entregou algumas folhas a Elizabeth – Jorge fez a denúncia da pistola que você roubou e apontou para ele, sei que ele te colocou de castigo por isso, então não diga que foi uma prisão.

Estava naquelas folhas coisas absurdas sobre ela, coisas que nem mesmo ela sabia. – Isso é ...

— É estranho que você sempre esteja envolvida com crimes, ainda se lembra do homem no beco? – Corrêa endireitou a postura – Lembra do que ocorreu no orfanato? Do que houve na sua casa, antes do incêndio? Porque se você não lembra, por ser uma criança “inocente” – E ele fez questão de imitar as aspas quando falou em inocente – Eu me lembro, o Jorge sempre te livrou dos problemas e eu como um bom amigo, sempre deixei passar, mas a partir de hoje, não será mais assim. Você vai voltar para casa e vai ser a boa filha que o Jorge merece, console ele por suas perdas, já que aparentemente, você não teve nenhuma.

****

Aquela viagem estava durando mais que o esperado, a estrada estava péssima, cheia de buracos e barro, Elizabeth mantinha os olhos fechados, em uma tentativa frustrada de dormir. Estava voltando para casa. Não a casa de Vera, mas sim sua casa. Sua e de Jorge. Não estava pronta para voltar a sua rotina, mas o que poderia fazer? Tinha que estudar e com os últimos acontecimentos que ocorreram a sua volta, o melhor era voltar para a antiga casa e tentar seguir normalmente com sua vida. Jorge ainda estava resolvendo as pendências em relação ao desaparecimento das irmãs e agora, a morte de Arthur. Todos estavam pensando que havia sido ela, uma forma de fuga que encontrou, contudo Elizabeth sabia quem tinha assassinado Arthur e se perguntava se aquele homem seria o mesmo mascarado que encontrou outras vezes.

De repente o carro parou com brusquidão, Elizabeth bateu a cabeça com força no vidro, massageou o local dolorido enquanto olhava com atenção a estrada. Havia um homem no meio do caminho, com uma marreta nas mãos. Com a mesma máscara de bode. Elizabeth arfou esperando alguma instrução do policial que estava ao volante. Ele a encarou tão assustado quanto ela e sussurrou antes de abrir a porta – Não saia do carro.

O homem andou em direção ao mascarado com a arma em punho, Elizabeth analisava a situação receosa, era visto que o desconhecido estava ali com intenções de mata-los e ela não seria burra o suficiente para esperar ele vir pegá-la dentro do carro. Com discrição, abriu a porta vagarosamente e focou na floresta de pinheiros, teria de correr e encontrar um local para se esconder, porque aquela criatura com a marreta em mãos a queria e ela tinha medo de saber o porquê.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.