A bela e a fera 9ª dimensão
6 Um plano de mestre
Notas iniciais
O sol já estava nascendo e eu continuava sentada em uma parte bem afastada da casa de Omma, queria um tempo só para mim pensar em um plano de como agir a partir desse exato momento. Estava pensando no próximo passo a ser dado quando em minha mente apareceu a imagem de Kai quando me beijou, lembrei de como me senti durante aquele beijo longo e calmo, comecei a me sentir estranha em relação à ele, uma espécie de saudades apesar de o ter visto segundos antes. Meus sentimentos estavam a mil e não queria pensar naquilo agora, porém não tive tempo de afastá-lo de meus pensamentos já que ele chegou e sentou ao meu lado no mesmo segundo em que meu coração batia forte por sua lembrança.
– Por que sempre se afasta para pensar depois de algum conflito ou descoberta? – ele perguntou observando os raios de sol saírem de trás de algumas montanhas que os cobria.
– Me sinto mais a vontade em organizar meus pensamentos quando estou só – disse me segurando para não o olhar –, devia tentar fazer o mesmo já que toda vez que o vejo parece indeciso se deve me matar ou beijar.
– Sinto muito por isso – ele baixou a cabeça como um cãozinho arrependido e eu o fitei tentando ler sua postura –, acho que talvez eu te odeie porque te amo.
– Isso não faz muito sentido. Faz? – disse, ele levantou a cabeça e me olhou.
– Faz, pois eu te amo muito desde o dia em que te vi pela primeira vez, mas me sinto um tolo por gostar de uma rainha e isso me faz odiá-la por ter feito eu me apaixonar por você – sua expressão era de sinceridade e tristeza, mas eu não pude evitar sorrir de leve após suas palavras.
– Infelizmente você vai ter que continuar se sentindo um bobo, porque durante a profecia de Omma eu vi que estamos destinados a ficar juntos durante a eternidade – eu disse sem perder o leve sorriso inocente em meu rosto e sua expressão mudou totalmente para surpresa e felicidade, igual a uma criança que ganha exatamente o que queria de natal.
Ele não teve tempo de responder nada a mim, pois assim que ia abria a boca para falar algo alguns raios de luz tocaram minha pele me causando desconforto, isso me fez levantar e correr para uma sombra ali perto. Kai não se levantou ou disse algo, apenas permaneceu sentado no mesmo lugar observando o sol tomar conta do céu mais um dia. O fiquei olhando com interesse por algum tempo, porém logo uma mão me puxou para mais dentro da sombra e quando me virei dei de cara com Thereza com um olhar preocupado.
– Precisamos conversar. Agora! – ela disse e eu comecei a me preocupar.
– O que aconteceu? – perguntei.
– Ana me contou que Kris e mais umas 10 pessoas passaram por aqui te rastreando há um mês – quando o nome de Kris foi mencionado meu coração quase parou.
– Isso é impossível, Omma já teria nos contado – disse um pouco cética sobre aquela informação.
– Ela disse que Rafaela não te contou porque temia que você se preocupasse mais ou ficasse mais assustada – seu olhar em quanto me contava tais coisas era como espelhos em que me via gritando e correndo para o mais longe possível.
Nada mais foi dito, eu apenas fiquei imóvel tentando me controlar para não ter um ataque cardíaco naquele momento. Não que eu tivesse tanto medo de Kris a ponto de morrer só em saber que ele estava a minha procura, mas é que aquela informação queria dizer que naquele exato segundo aquele monstro estava a minha procura e logo nos acharia, assim que nos achasse ele aniquilaria qualquer um que tentasse me defender e isso não podia acontecer.
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– COMO PODE ESCONDER DE MIM UMA COISA DESSAS OMMA? – gritei histericamente em quanto olhava para o rosto de Omma que se assustava a cada grito que saia de minha boca – COMO PODE ESCONDER ESSE PERIGO EM QUE EU COLOQUEI TODOS? TENTAVA NÃO ME ALARMAR OU ASSUSTAR? NÃO ME CONTAR SÓ PIOROU A SITUAÇÃO – lágrimas rolavam pelo meu rosto sem dó nem piedade, elas lavavam minhas bochechas e pingavam em minha roupa, uma nova roupa que havia colocado quando chegamos aqui.
– Minha pequena, por favor, eu estava pensando no seu bem... – ela dizia tentava me acalmar segurando minhas mãos tremulas, mas eu me soltava dela com raiva.
– NÃO É APENAS EM MIM QUE VOCÊ TEM QUE PENSAR OMMA, ISSO PÔS AQUELES RAPAZES EM PERIGO! COLOCOU ALEX E THEREZA EM PERIGO! E ATÉ MESMO COLOCOU VOCÊ E ANA EM PERIGO – gritei com todas minhas forças.
– Mas você é mais importante. Você é a única que importa aqui... – ela sempre me dizia isso, achava que não importava o fim das outras pessoas se isso me ajudasse a recuperar meu reino, mas não era pra ser assim.
– Omma... – respirei fundo e me acalmei – Nunca mais me esconda nada desse tipo e pare de pensar dessa forma, quero reinar ao lado de todos meus amigos VIVOS – disse enfatizando a palavra “vivos” pra que ela entendesse.
Eu saí do quarto em que Omma estava e fui até Alex e Thereza que me esperavam do lado de fora da casa, parei na frente deles e sem dizer uma única palavra eles já sabiam como eu estava me sentindo. Olhei em seus olhos, que estavam cheios de solidariedade, e assenti tentando não expressar nenhuma emoção alem de seriedade. Eles entenderam meus sinais e logo foram buscar a todos para que discutíssemos alguns assuntos.
Não demorou muitos minutos para estarmos juntos na sala de novo, porém desta vez havia cochichos por todos os lados, principalmente entre Suho e Ana que, neste pouco tempo, parecia terem ficado muito próximos um do outro, o amor deles me alegrava e também me preocupava pelo medo disso os enfraquecer. Os sussurros e cochichos tomavam conta do ambiente e aquilo estava me deixando maluca.
– Já chega de enrolar – falei ficando em pé na frente de todos –, chega de ficar de cochichos e vamos para a ação.
– Eu já planejei um ataque ofensivo ao castelo central, mas não faço ideia de como vamos chegar até as trevas – disse Alex que estava sentado no chão do outro lado da sala com o note no colo.
– Eu vou abrir o portal hoje essa noite e nós entraremos nas trevas... – eu iria continuar explicando, mas Omma me interrompeu.
– Você não vai fazer isso – ela disse segurando meus braços e me virando para encará-la –, vai atrair eles pra você e a deixará fraca por alguns dias.
– Desculpe Omma, mas eu não pedi sua opinião e nem mesmo mudarei o plano – disse me soltando dela e voltando a olhar para os rapazes –, iremos treinar durante os dias em que me recupero.
– Mas Jess... – ia dizer Alex, mas o interrompi.
– Já disse que não pedi opinião, Alex... – falei em um tom de voz mais elevado – Agora arrumem suas coisas e se preparem para entrar nas trevas, só não garanto que todos saíram de lá...
– Se vocês forem... Eu também vou – disse Omma passando por mim e sentando ao lado de Ana e Suho que estavam juntos no sofá.
– Pra que? Pra esconder segredos que poderiam salvar as nossas vidas? Não obrigada... – disse em um tom de esnobe e de desdém.
– Desculpe pequena, mas eu não pedi sua opinião – ela disse e eu não sabia mais como responder, então apenas saí da sala sem dizer mais nada.
Voltei para o lugar onde vi o sol nascer e desta vez fiquei suportando a luz do sol que penetrava minha pele tão profundamente que parecia queimar até mesmo meu coração. O fazia como um tipo de punição a mim mesma, me sentia mal por ter agido daquela forma com a Omma, mas eu também sentia uma raiva infinita que crescia cada vez mais dentro de mim.
Fiquei olhando aquela luz tão bela e tão mortal para mim subir no céu, era tão difícil olhar para a bola de fogo que emanava aqueles raios majestosos, mas não podia deixar de fitar a beleza estonteante do tão imenso azul do céu. A dor que chegava aos meus ossos era lancinante e me deixava zonza, mas não iria sair dali sem que sentisse o remorso esvair de meu corpo por completo.
– Ei “pequena” – uma voz masculina vinha de trás de mim e tentou imitar a voz da Omma quando me chamava de pequena. Olhei e vi Kai em pé com um guarda-chuva, quase tão grande quanto um guarda-sol.
– Ta delirando é? Qualquer pingo de chuva iria evaporar com esse sol – disse tentando dar um pequeno sorriso, porém aquilo doía tanto em minha pele queimada que não durou mais que um segundo.
– Na verdade o guarda-chuva é pra menina que se esqueceu de trazer protetor solar fator um milhão – ele falou sorrindo. Kai andou até minha frente e colocou o guarda-chuva gigante na minha frente, assim bloqueando o sol, depois se sentou ao meu lado – Omma contou que você tem o péssimo costume de querer pegar uma corzinha quando fica chateada.
– Ah... Ela te contou? Quem sabe ela também não te conta todas as outras coisas que não conta para mim – puxei meus joelhos até mim e os abracei, apoiei minha testa nos joelhos escondendo meu rosto e comecei a chorar, talvez de raiva, talvez de tristeza, ou talvez dos dois juntos.
– Ei – disse Kai tocando minha mão que ardia por causa da exposição longa ao sol – Me deixa te ajudar... Olhe para mim, por favor. – sua voz era triste, levantei meu rosto e o olhei nos olhos – Deixa eu te ajudar com esses ferimentos. – ele disse enfiando uma das mãos no bolso do casaco e tirando de lá um vidrinho com um líquido pastoso.
– O que é isso? – disse entre soluços.
– É para deixar a minha rainha favorita cem por cento de novo – ele sorriu e limpou minhas lágrimas.
Assim que ele tirou a tampa do pequeno vidro senti um cheiro adocicado que me fazia lembrar de quando Omma cuidava dos meus ferimento, ela devia ter o dado para Kai. Fiquei lembrando de momentos bons e comecei a sorrir toda vez que ele passava aquele líquido em minha pele, a dor já começava a sumir aos poucos e eu me sentia um frescor gostoso no corpo. Ao perceber que a sensação estava me deixando feliz Kai sorriu de uma forma tão fofa e linda, não pude resistir e sorri de volta para ele.
– É tão bom te ver sorrir – ele disse ainda se focando nos machucados.
– Acha que peguei pesado com a Omma? – perguntei e ele me olhou gentilmente.
– Brigas entre pais e filhos são comuns, logo as duas esquecem e continuam a agir normalmente – falou ainda me olhando.
– Espero que esteja certo – disse deixando uma única lágrima escapar de meu rosto.
– Ei... – ele secou mais uma vez meu rosto com seus dedos macios e depois repousou sua mão sob minha bochecha -, não derrame lágrimas de tristeza, isso machuca tanto meu coração.
– Não diga coisas assim, por favor, não quero machucar a mais ninguém – fechei meus olhos e senti mais lágrimas lavarem meu rosto sem pudor.
– Me desculpe Jess... Não tive a intenção de te deixar triste – abri meus olhos e seu rosto expressava uma dor emocional forte.
– Então prove que te alegra estar ao meu lado – sorri um pouco e ele sorriu de volta.
Não me respondeu nenhuma palavra, apenas se aproximou de mim devagar e me pôs nas nuvens mais uma vez com um beijo calmo, porém cheio de amor e afeto. Aquele momento durou pouco, mas logo que terminou nós dois não tínhamos o que falar, apenas sorrimos um para o outro e eu não consegui controlar minha vergonha, corei e fiquei muito vermelha.
– Tem vergonha de me beijar? – perguntou Kai e eu tampei meu rosto com as mãos para esconder a vermelhidão que tomava conta.
– Não, mas sinto vergonha de sempre agir como uma criança revoltada e ainda assim receber um presente tão grande que é você, eu não te mereço – falei, ouvi um riso abafado e senti suas mãos segurando meus pulsos e os puxando para revelar meu rosto.
– Não sinta vergonha, você é uma criança adorável – rimos com este seu comentário.
Passou-se um tempo e nós ficamos conversando coisas bobas e rindo feito loucos, porém já estava escurecendo e nós precisávamos encontrar os outros para abrir o portal das trevas, só esperava naquele momento, que eu estivesse pronta para fazer isso.
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– Minha pequena, por favor... Escute sua Omma – implorou Omma em quanto estava me concentrando em abrir o portal.
– Não tem outro jeito Omma, e não se preocupe, ficarei bem – disse me concentrando ainda mais.
A 13ª marca começou a queimar, como nunca havia queimado antes, e eu comecei a sentir que meus pés param de tocar o chão, mas quando abri os olhos vi que não havia nenhum centímetro entre mim e o chão. Meus pensamentos estavam focados nas trevas e eu senti minha vida se esvaindo de meu corpo, quase não aguentava mais ficar de pé, não havia força em mim capaz de aguentar aquilo por muito tempo.
Quando finalmente vi o portal se formando em minha frente me rendi e caí no chão de joelhos, até tentei me levantar de novo, mas não me havia sobrado forças para fazer qualquer coisa. Mas pelo menos eu tinha conquistado o meu objetivo, abri o portal, iniciei a profecia.
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