A batida do coração
31 O Eco do Asfalto em Santa Bárbara
A turnê internacional havia chegado ao fim após uma sequência de shows históricos na Europa. Para a pequena e charmosa cidade de Santa Bárbara, o retorno de seus filhos ilustres era o assunto de todas as rodas de conversa. Guga mal havia desembarcado no aeroporto internacional e, movido pela saudade avassaladora que se acumulara em semanas de ligações por vídeo, decidiu não esperar. Deixou as malas grandes com a equipe de apoio, pegou sua velha motocicleta customizada de 600 cilindradas que estava guardada na garagem do aeroporto e pegou a rodovia sentido Santa Bárbara. Ele queria fazer surpresa para a noiva.
Naquela tarde de sexta-feira, o céu de Santa Bárbara exibia um tom cinzento e abafado, anunciando uma chuva que insistia em não cair. Na Galeria Moldura & Arte, o expediente estava calmo. Anya Drake andava de um lado para o outro no salão principal, ajeitando alguns catálogos. De cinco em cinco minutos, ela parava diante da imensa vitrine de vidro que dava para a Avenida das Tulipas, a principal via que cortava o centro histórico. Ela sabia que ele chegaria naquela tarde, e seus olhos castanhos vigiavam o movimento dos carros com uma expectativa que fazia seu anel de noivado reluzir sob as luzes da galeria.
— Você vai acabar abrindo um buraco nesse piso de tanto andar, Anya — Helena brincou, descendo do mezanino com o pequeno Theo no colo. — Ele já deve estar entrando na cidade.
— Eu estou com um pressentimento estranho, Helena. Uma ansiedade que não cabe no peito — Anya sorriu de canto, limpando o suor frio das mãos no jeans antes de voltar a olhar para o vidro.
Lá fora, o som característico e grave do motor da moto de Guga ecoou ao longe, subindo a avenida. Anya reconheceu o ronco instantaneamente. Seu coração deu um salto de alegria. Ela se aproximou ainda mais do vidro da vitrine, vendo a silhueta do namorado despontar na reta, vestindo sua jaqueta de couro preta, o capacete escuro e um aceno leve com a mão esquerda ao avistar a fachada da galeria.
Para acessar a entrada da Moldura & Arte, Guga precisava contornar a curva acentuada que ficava exatamente em frente ao estabelecimento. Ele reduziu a marcha, inclinando a moto com a perícia de quem conhecia cada centímetro daquele asfalto.
Foi no milésimo de segundo seguinte que o mundo de Anya Drake congelou.
Um SUV escuro, cujo motorista vinha distraído mexendo no celular, cruzou a preferencial da transversal sem parar. O impacto foi inevitável e violento. A lateral do carro colidiu direto contra a frente da moto. O corpo de Guga foi arremessado por cima do capô, voando por metros no ar antes de impactar brutalmente contra o asfalto rígido da avenida, rolando até parar inerte perto do meio-fio. A moto arrastou-se pelo chão, soltando uma chuva de faíscas e um estrondo metálico que ecoou por toda a quadra.
O Grito no Vazio
Dentro da galeria, o som do impacto pareceu estourar os ouvidos de Anya. Suas pupilas se dilataram. A pasta de catálogos que ela segurava caiu no chão, espalhando papéis por toda parte.
— ¡GUGA! — o grito rasgou a garganta dela antes mesmo que ela pudesse processar o movimento do próprio corpo.
Anya empurrou a porta de vidro com tanta violência que o sininho de latão quase se desprendeu. Ela cruzou a calçada correndo, alheia ao tráfego de carros que freavam bruscamente ao redor do acidente. O pânico que ela passara cinco anos tentando enterrar subiu por suas veias como um veneno gelado.
Ela caiu de joelhos no asfalto quente, bem ao lado do corpo dele. O capacete de Guga havia rachado com o impacto e rolado para longe. O músico estava deitado de lado, com os olhos fechados, uma expressão de dor congelada nas feições pálidas e um rastro de sangue escuro que começava a escorrer de sua têmpora, manchando o chão de Santa Bárbara.
— Não... Não, por favor! De novo não! — Anya gritava, as lágrimas jorrando de seus olhos enquanto suas mãos trêmulas pairavam sobre o peito dele, com medo de tocá-lo e piorar as lesões. Ela aproximou o rosto do dele, sentindo a respiração fraca e descompassada. — Guga, olha para mim! Acorda, meu amor! Por favor, Deus, não faz isso comigo de novo! Jace, não leva ele... por favor!
O motorista do carro saiu horrorizado, pessoas começaram a se aglomerar, e Helena ligava desesperadamente para o resgate do fundo da calçada. Anya continuou ali, segurando a mão de Guga contra o próprio peito, sentindo os dedos dele frios, implorando para que o compasso daquele coração não parasse.
O Corredor dos Fantasmas
Quarenta minutos depois, a atmosfera era o reflexo exato do pior pesadelo de Anya. O corredor do Hospital Municipal de Santa Bárbara parecia o mesmo de cinco anos atrás: as luzes fluorescentes de tom branco-frio, o cheiro de antisséptico e o som abafado de passos rápidos de médicos e enfermeiras. Guga havia entrado direto para a sala de estabilização e trauma com suspeita de traumatismo craniano e hemorragia interna.
Anya andava de um lado para o outro pelo piso de borracha cinza, com as mãos cruzadas sobre o peito, os dedos apertando o tecido do casaco manchado com o sangue dele. Seus soluços haviam cessado, dando lugar a um estado de choque catatônico.
O som das portas duplas da emergência se abrindo chamou a atenção. Os pais de Guga, o casal Murilo e Sônia Telles, cruzaram o corredor. Sônia estava pálida, sendo amparada pelo marido, cujos olhos expressavam a dor de ver o único filho correr o risco de ter o mesmo destino de Jace.
— Anya! Minha filha, como ele está? — Sônia chorou, jogando-se nos braços da nora.
— Ele entrou direto para a cirurgia, dona Sônia... ele estava desacordado, não respondia aos meus estímulos — Anya respondeu, a voz saindo num sussurro trêmulo, abraçando a sogra com força, buscando uma solidez que nenhuma das duas possuía naquele momento.
— O Murilo tentou falar com o diretor do hospital, eles estão fazendo tudo o que podem, Anya. O nosso menino é forte — Murilo disse, a voz embargada, tentando manter a postura de pai enquanto colocava a mão no ombro da esposa.
Segundos depois, a multidão no corredor aumentou. Paulinho e Léo, os meninos da banda que haviam acabado de chegar de viagem em outra van, entraram correndo na sala de espera. Seus rostos traziam o cansaço da estrada misturado ao horror da notícia. Paulinho não disse nada; ele apenas envolveu Anya em um abraço de urso, apertado e protetor, enquanto Léo se juntava a eles, os três formando um círculo de apoio físico e emocional no meio daquele corredor árido.
A Notícia e a Presença
Na parede da sala de espera, uma pequena televisão de LED ligada em um canal de notícias local quebrou o silêncio do ambiente com a vinheta de plantão urgente. OGC (gerador de caracteres) na parte inferior da tela trazia letras garrafais vermelhas:
URGENTE: ASTRO DA MÚSICA GUSTAVO TELLES SOFRE ACIDENTE GRAVE E LUTA PELA VIDA
A imagem da jornalista na tela mostrava o isolamento da Avenida das Tulipas, com os destroços da moto de Guga sendo recolhidos.
— ...O baterista e líder da banda que conquistou o circuito europeu recentemente deu entrada no Hospital de Santa Bárbara após ser colhido por um veículo. Segundo informações preliminares da equipe médica, o estado de Gustavo Telles, o Guga, é considerado crítico. Fãs de todo o país começam a se mobilizar nas redes sociais...
Anya olhou para a tela, sentindo o estômago revirar. O roteiro era cruelmente idêntico.
As portas da recepção se abriram novamente. Para a surpresa de Anya, Derick Laurentis cruzou o ambiente. Ele não vestia seu terno de empresário; usava apenas um casaco escuro e trazia Letícia pela mão. O rosto de Derick estava sério, mas não trazia o julgamento ou o veneno do passado. Havia apenas uma preocupação genuína pelo amigo de seu falecido irmão e pela mulher que ele finalmente aceitara que não era sua.
Derick caminhou até o grupo, parando a uma distância respeitosa. Letícia aproximou-se de Anya primeiro, oferecendo um abraço terno e silencioso, que Anya aceitou com a cabeça encostada no ombro dela.
Em seguida, Derick olhou para Anya. Os olhos escuros dele encontraram os castanhos dela, e houve uma trégua mútua, um entendimento de que ali não havia espaço para egos ou dores antigas.
— Eu vi a notícia na televisão da empresa, Anya — Derick disse, a voz grave e pausada, o tom de quem queria ser útil no meio do caos. — Eu já liguei para o chefe da neurocirurgia do estado. Ele está pegando um helicóptero de São Paulo para vir auxiliar na cirurgia do Guga. O que vocês precisarem de estrutura, de transporte, qualquer coisa... a família Laurentis está aqui. O Guga é nosso irmão também.
Anya limpou uma lágrima que insistia em descer, olhando para Derick com uma gratidão profunda e sincera.
— Obrigada, Derick. De verdade... — ela conseguiu falar, a voz falhando.
Derick assentiu com a cabeça, dando um passo atrás para se juntar aos pais de Guga, oferecendo palavras de conforto a Murilo.
Anya voltou a se sentar na cadeira de plástico da sala de espera, cercada por Paulinho, Léo, Sônia e Murilo. Ela olhou para o anel de noivado em seu dedo, a pedra reluzindo sob a luz fria do hospital. Ela sabia que a história parecia querer se repetir, mas, ao olhar para as pessoas ao seu redor — para a banda unida, para os sogros e até para o apoio limpo de Derick —, Anya sentiu que, desta vez, ela não estava sozinha na chuva. O compasso da vida de Guga estava em jogo naquela mesa de cirurgia, e ela passaria cada segundo daquela noite lutando para manter a batida acesa.
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