A batida do coração

12 O Vazio das Paredes e as Linhas de Carvão



​A primeira semana após o sepultamento de Jace arrastou-se como um inverno sem fim. Na casa dos Drake, o silêncio era tão denso que parecia palpável. Rose e Arthur tentavam andar nas pontas dos pés, conversando em sussurros na cozinha, com medo de que qualquer som mais alto pudesse romper o equilíbrio frágil da filha única.

​No andar de cima, trancada em seu quarto, Anya passava as horas sentada no chão, encostada na lateral da cama. A faculdade de artes parecia uma lembrança distante e sem sentido. Diante dela, um bloco de desenho de lona permanecia aberto, com várias folhas arrancadas e amassadas ao redor. Ela tentava desenhar. Seus dedos, manchados de grafite e carvão, moviam-se por instinto, mas o resultado era sempre o mesmo: traços caóticos que tentavam, em vão, reconstruir o formato do sorriso de Jace ou a linha precisa do seu maxilar. Nada saía certo. A frustração misturava-se à dor, e Anya enterrava o rosto nos joelhos, sentindo o peito sufocar com a certeza de que as memórias pareciam estar escorregando por seus dedos.

​O quarto dela guardava os fantasmas daquele amor: o urso de pelúcia que ele ganhou em uma quermesse, os ingressos antigos de cinema colados no mural, o cheiro sutil do perfume dele que insistia em evaporar do moletom que Jace havia esquecido ali na semana anterior ao acidente. Anya vestia aquele moletom cinza, que ficava enorme em seu corpo miúdo, buscando desesperadamente um rastro de calor que a terra já havia levado. Ela não sabia o que doía mais: a saudade dilacerante de Jace ou a culpa avassaladora que subia por sua garganta cada vez que lembrava do toque de Derick. Ela sentia que estava traindo a memória do namorado, mas, ao mesmo tempo, a única pessoa no mundo que entendia a dimensão daquele buraco preto era justamente o irmão dele.

​Na quarta-feira, o celular de Anya vibrou sobre o tapete. Era uma mensagem de Paola. A escrita vinha cheia de erros de digitação, denunciando o estado emocional da mãe de Jace: "Anya, minha querida... eu preciso de ajuda. Não consigo entrar no quarto dele. Você poderia vir me ajudar a organizar as coisas?".

​Anya fechou os olhos, o coração dando um salto doloroso. Ela sabia que aquele momento chegaria, mas não se sentia pronta. Ainda assim, por Paola, ela reuniu o resto de forças que possuía. Vestiu uma calça es jeans, manteve o moletom de Jace e saiu de casa, caminhando sob a garoa fina em direção à residência dos Laurentis, sem saber que o verdadeiro confronto com o passado e com o presente a aguardava atrás daquela porta de madeira.


​A atmosfera na casa dos Laurentis era de um luto estático. Paola recebeu Anya com um abraço apertado e demorado na sala de estar, as duas chorando silenciosamente sem precisar de palavras. Carlos estava no escritório, tentando se afogar nos papéis da empresa para não ter que encarar os cômodos vazios.

​— Eu não consigo, Anya... — Paola sussurrou, limpando as lágrimas com um lenço de papel. — Toda vez que olho para a maçaneta daquele quarto, minhas pernas falham. O Derick está lá em cima. Ele disse que ia começar a colocar as roupas nas caixas, mas... ele precisa de você. Vocês dois precisam fazer isso juntos.

​Anya engoliu em seco. Ela subiu as escadas de madeira lentamente, cada degrau parecendo pesar uma tonelada. O corredor do andar superior estava silencioso. A porta do quarto de Jace estava semiaberta, revelando uma fresta de luz amarelada.

​Quando Anya entrou, a cena a fez parar no lugar. O quarto estava exatamente como Jace o deixara na noite de sexta-feira: a cama bagunçada, algumas partituras espalhadas pelo chão, a capa da guitarra encostada na parede. No centro do cômodo, cercado por três caixas de papelão grandes, estava Derick. Ele usava uma camiseta preta simples, com as mangas dobradas, e segurava uma das jaquetas de couro de Jace contra o peito. Ele estava imóvel, olhando para o nada, com os olhos fixos na parede cheia de pôsteres de bandas de rock.

​O som dos passos de Anya na soleira fez Derick despertar. Ele engoliu em seco, recompondo-se imediatamente, embora as olheiras profundas e o rosto pálido denunciassem que ele também não vinha dormindo.

​— Você veio... — Derick disse, a voz saindo baixa e áspera. Ele colocou a jaqueta cuidadosamente dentro de uma das caixas.

​— Sua mãe me pediu ajuda — Anya respondeu, dando alguns passos para dentro do quarto, mantendo os braços cruzados ao redor do próprio corpo. — Ela não consegue entrar aqui.

​— Nem eu — Derick confessou, olhando ao redor com uma expressão de pura exaustão. — Cada objeto aqui parece que tem uma voz, Anya. Parece que ele vai entrar por aquela porta a qualquer minuto brigando porque mexi nas coisas dele.

​Eles começaram a trabalhar em silêncio. Anya aproximou-se da escrivaninha, recolhendo os cadernos de acordes e os cabos de amplificador espalhados. A proximidade forçada naquele espaço tão íntimo começou a gerar uma eletricidade pesada. Eles evitavam se tocar, mas cada objeto que passava de uma mão para a outra vinha carregado com o peso da noite do motel e da dor do hospital.

​— O que vamos fazer com as guitarras? — Anya perguntou, com a voz trêmula, segurando o instrumento principal de Jace, a Fender Stratocaster vermelha que ele tanto orgulho tinha.

​Derick caminhou até ela e pegou o braço da guitarra para ajudá-la a colocá-la no suporte de chão. Suas mãos se tocaram por um breve segundo sobre a madeira polida. O contato foi como um choque elétrico. Anya recolheu os dedos rapidamente, recuando um passo, os olhos arregalados de medo e vulnerabilidade.

​— Anya... — Derick deu um passo à frente, a voz falhando. — Nós não podemos continuar agindo como se aquela noite na estrada não tivesse acontecido. Esse silêncio entre nós está me matando.

​— Não, Derick, por favor — Anya pediu, as lágrimas finalmente transbordando, cobrindo o rosto com as mãos. — Nós estamos no quarto do seu irmão. O caixão dele acabou de ser coberto de terra. Olha para as roupas dele aqui! O que aconteceu naquele motel... foi um erro. Foi o cansaço, o desespero. Nós estávamos fragilizados.

​Derick aproximou-se mais, ignorando a distância que ela tentava impor. Ele segurou os pulsos de Anya com suavidade, forçando-a a abaixar as mãos para olhá-lo nos olhos. Os olhos dele, geralmente tão frios e impenetráveis, estavam cheios de uma intensidade desesperada.

​— Foi um erro porque era o Jace, Anya? Ou foi um erro porque você sentiu o mesmo que eu? — ele questionou, a voz baixa, urgente, o hálito quente tocando o rosto dela. — Eu passei os últimos dois anos fingindo que não te via, fingindo que você era só a namorada do meu irmão mais novo porque eu precisava me manter longe. Mas aquela noite... aquela noite foi a única coisa real no meio de todo esse pesadelo. Eu não consigo mais fingir.

​— Derick, para! Isso é doentio, nós estamos sofrendo por ele! — Anya soltou os pulsos do aperto dele, dando as costas, os ombros sacudindo com o choro. — Eu amava o Jace! Eu ainda amo! Eu sinto que estou traindo a memória dele toda vez que olho para você e lembro do seu toque. Eu não sei o que sinto, eu só sinto culpa!

​Derick deu um passo atrás, a rejeição dela batendo contra o seu peito como um soco. Ele olhou para as caixas de papelão, para as roupas do irmão morto e depois para Anya, que vestia o moletom cinza de Jace. O contraste daquela cena era uma tortura psicológica pura.

​— Culpa... — Derick repetiu, a voz caindo para um tom sombrio e doloroso. — É só isso que nos resta, então? O Jace levou toda a luz dessa casa e deixou a gente aqui, no escuro, dividindo os restos de um segredo que vai nos destruir.

​— Talvez a gente precise ficar no escuro, Derick — Anya sussurrou, virando-se para ele com o rosto banhado de lágrimas, os olhos expressando uma dor infinita. — Talvez a gente precise se afastar. Para o bem da sua mãe, do seu pai... e da nossa própria sanidade.

​Derick olhou para ela por um longo minuto, a mandíbula travando novamente, a máscara de frieza voltando a se moldar em suas feições, peça por peça, como uma armadura de sobrevivência.

​— Se é isso o que você quer, Anya... então nós vamos terminar de guardar essas roupas. E depois disso, eu não cruzo mais o seu caminho.

​O silêncio voltou a se instalar no quarto de Jace, mas agora não era mais o silêncio do luto. Era o silêncio de uma rachadura definitiva entre as duas únicas pessoas que poderiam ter se salvado mutuamente daquela escuridão. Eles continuaram dobrando as roupas, peça por peça, fechando as caixas com fita adesiva, enquanto o eco do passado garantia que nenhum deles saísse daquele cômodo ileso.