A batida do coração

2 O Peso dos Dias Comuns



​A rotina de Anya nos dias que se seguiram ao jantar na casa dos Laurentis parecia seguir um roteiro confortável e previsível. Como filha única, a calmaria da casa de seus pais, Rose e Arthur Drake, era o seu porto seguro, mas era na faculdade, entre as telas de pintura e o burburinho dos corredores, que sua vida realmente ganhava cores. E a maior parte dessas cores vinha de Jace.

​Eles tinham aquele tipo de sintonia que fazia as pessoas ao redor sorrirem — ou revirarem os olhos.

​Na tarde de terça-feira, o campus estava inundado por um sol de outono preguiçoso. Anya estava sentada no gramado, terminando um esboço em seu caderno, quando duas mãos cobriram seus olhos por trás. O cheiro de chiclete de hortelã e jaqueta de couro entregou o dono instantaneamente.

​— Deixa eu adivinhar... — Anya riu, jogando a cabeça para trás até encostar no peito de Jace. — O pior guitarrista do bloco de música?

​— Ei! Mais respeito com o futuro astro do rock — Jace protestou, contornando o banco para se sentar ao lado dela. Ele roubou um selinho rápido, fazendo o coração de Anya dar aquele salto bobo que ela já conhecia bem há dois anos. — Minha banda vai tocar num barzinho no centro sexta-feira. Você vai, né?

​— Como se eu tivesse escolha. Quem ia segurar a sua jaqueta e afastar as suas fãs? — ela brincou, fechando o caderno de desenhos e ganhando um abraço apertado dele.

​Jace era leveza pura. Ele não se preocupava com o amanhã, não guardava rancores e transbordava uma energia que contagiava Anya. Eles passaram o resto da tarde dividindo um fone de ouvido, planejando uma viagem de acampamento para o feriado seguinte e rindo de piadas internas. Era fácil. Amar Jace era a coisa mais fácil do mundo.

​O problema começava quando aquela bolha de facilidade estourava. E ela sempre estourava quando envolvia o irmão mais velho dele.

​Mais tarde daquela mesma semana, Jace pediu para Anya buscá-lo na casa dos Laurentis para irem a um aniversário. Quando Anya estacionou o carro dos pais na entrada da garagem, Jace mandou uma mensagem avisando que ainda estava terminando de se arrumar e pediu para ela entrar.

​A porta principal estava encostada. Anya entrou, a bolsa tiracolo balançando no ombro. A casa estava silenciosa, exceto pelo som baixo de um telejornal vindo do escritório.

​— Jace? — ela chamou, dando alguns passos em direção à escada.

​— Ele está no banho. De novo — uma voz vinda da cozinha a fez sobressaltar.

​Derick apareceu no corredor, segurando uma xícara de café preta. Ele usava um suéter cinza escuro e óculos de leitura que Anya nunca tinha visto antes — o que lhe dava um ar ainda mais maduro e inacessível. Ele parou a poucos passos dela, os olhos escuros avaliando-a com aquela neutralidade irritante.

​— Ah. Oi, Derick — Anya limpou a garganta, cruzando os braços de forma defensiva. — Ele me disse que já estava pronto.

​— O Jace não tem muita noção de tempo. Você já devia saber disso depois de dois anos — Derick respondeu, dando um gole no café. Não havia grito ou grosseria na voz dele, apenas aquela constatação fria que sempre fazia Anya se sentir como se estivesse sendo avaliada e reprovada.

​— Eu conheço bem o namorado que tenho, obrigada — ela rebateu, sentindo o estômago revirar. A antipatia entre os dois era quase magnética. — E ele compensa o atraso sendo uma ótima companhia.

​Derick baixou os olhos para a xícara, e os cantos de sua boca se moveram em um quase-sorriso que pareceu desdenhoso para Anya.

​— Claro. A diversão é a prioridade dele — Derick comentou, a voz mansa. Ele deu um passo para o lado, indicando a sala. — Pode sentar se quiser. Mas vai demorar uns vinte minutos. Se quiser um café, a cafeteira está ligada.

​— Não, obrigada. Estou bem aqui.

​Um silêncio desconfortável e denso se instalou no hall. Anya fixou os olhos na decoração da parede, enquanto sentia o olhar de Derick sobre ela por mais alguns segundos antes de ele dar meia-volta e retornar para o escritório sem dizer mais uma palavra.

​Anya soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo. Ela não entendia. Por que ele a tratava como se ela fosse uma intrusa? Como se o namoro dela com Jace fosse uma perda de tempo infantil? Ela tinha dezoito anos, Jace dezenove; eles estavam vivendo a vida no ritmo deles, mas Derick, com seus vinte e um, agia como se carregasse o peso do mundo nas costas e desprezasse qualquer um que quisesse apenas sorrir.

​Quando Jace finalmente desceu as escadas, correndo, com o perfume forte e aquele sorriso culpado, a tensão se dissipou. Ele pegou a mão de Anya, deixou um beijo estalado em sua bochecha e a puxou para fora.

​— Vamos? O pessoal já deve estar cobrando a gente!

​Anya olhou para trás uma última vez antes de fechar a porta. Pela fresta do escritório, ela viu o vulto de Derick focado nos livros na escrivaninha, completamente alheio à euforia do irmão caçula.

​Naquela noite, enquanto ria e dançava com Jace sob as luzes pisca-pisca da festa, Anya se sentia completamente segura. O mundo era deles, o amor era jovem e o futuro parecia uma estrada longa e ensolarada. Ela não tinha como saber que, em poucos dias, uma tempestade violenta mudaria completamente o sentido daquela estrada, e que o homem silencioso que ela tanto evitava seria a única pessoa capaz de segurar sua mão no escuro.