A balada de Jar de Corvo
1 Morte ao nascer do sol
Seguindo ao norte, no caminho que liga Valdocaso à Lagoa da Donzela, a estrada perigosa que corta caminho longe da costa amanhecia impune como era de se esperar. Um corpo jazia entregue aos corvos que granavam agitados amontoando-se sob o cadáver enquanto o sol alvorecia à oeste. Uma pequena trilha de sangue poderia indicar o caminho realizado do rastro de dor e morte que saía da estrada para dentro da vegetação.
O metal brandia no ar, zunia e o som ecoava ainda mais alto espantando os corvos mesmo não sendo tão próximo da estrada. A respiração pesarosa dos envolvidos parecia um músico perdido na dislexia daquela orquestra macabra. As figuras que emergiam com o nascer do sol esgueiravam-se e saltavam, gritando e grunhindo feito animais descontroláveis enquanto seus corpos se moviam para evitar o choque da espada em seus corpos. A carne cansada e magoava prendia-se por delicadeza através de roupas aos trapos e músculos e tendões que insistiam em lutar contra os ferimentos.
Num impasse de fúria uma das figuras avançou descontroladamente contra a outra, brandindo sua espada com a bandeira de tropas aliadas atravessando o campo em direção à batalha. Num rodopio preciso, um obrigou o outro a passar direto enquanto prendia a respiração para aparar o golpe da outra espada que descia do alto, como a luz do céu cortando a escuridão. Gemidos de dor e angústia, inspirar e aspirar a tensão formada no ar a muito sobrecarregando os pulmões exaustos. A quanto tempo estavam naquele confronto? E qual o motivo de tal barbárie? Pouco seria dito sobre isso naquele momento. Em verdade pouco seria relatado sobre o ali acontecido. Entre bandidos e malfeitores não há canções de bardos e seus bandolins. Não se contam sobre heróis anônimos ou homens que simplesmente ergueram-se contra a imposição. Não, se canta nas tavernas sobre amores roubados e perdidos, generais e reis trágicos, mas nada sobre os caipiras que com ancinhos e foices lutam desesperados pela vida.
A maioria dos viajantes evitava usar aquela estrada. Preferiam a rota pela costa, não para aproveitar das praias e costumeiras vilas pesqueiras que ocupavam a extensão da Baía da Água Negra até Derivamarca. Talvez você até acha a senhora Margaery colhendo conchas ou crustáceos em algum dia de sol seguida por seus homens leais. Porém, na estrada terreno adentro, onde as patrulhas a mando do rei são escassas, só se escuta sobre bandidos e outros marginais, insistentes no assalto e pilhagem. Por mais costumeiro que aquilo possa parecer, o corpo jogado à beira da estrada não era de um inocente, mas sim de um malfeitor.
A batalha seguia implacável, a figura de túnica parda – pelo tempo e talvez falta de lavagem adequada – mostrava de uma habilidade incomum para manter um duelo contra dois oponentes, no entanto ele era um homem, e não tão diferente dos outros de sua raça, o cansaço começa a bater a porta. O ataque seguinte veio sorrateiro, mesmo que de forma atrapalhada, seus inimigos conseguiram achar a congruência entre seus ataques. Defesa não era uma opção viável, apenas que perder um dos braços fosse a resposta para o problema. Ele foi de encontro ao chão, jogando-se de modo abrupto e caindo de tamanho mal jeito que por um instante a espada curta escapou de seus dedos.
A sombra da longa espada atingiu seus olhos, criando uma penumbra entre o aço e os raios do sol. Os olhos azuis esbugalharam-se como os da criança que jura ter visto um fantasma, mas quando o fio da espada desceu feito a fúria de uma tempestade um som tão estridente como o de um trovão ressoou uníssono pelo local. O escudo de madeira banhado em bronze cumpriu o seu propósito, aguentou o primeiro golpe, o segundo golpe e até o terceiro, mas por mais que o armamento lhe fosse útil, o homem atrás do escudo sentia os braços pesarem e tremerem como fruta madura pronta a cair da árvore.
Ele rolou para a direita escapando do golpe em seguida, com agilidade prendeu a lâmina no chão utilizando o escudo e chutou com a sola do pé exatamente na região entre as pernas de seu adversário. Eram dois e não um, e essa lembrança foi tudo que o fez manter a cabeça no pescoço. Enquanto um cambaleava desarmado com as mãos entre as pernas o outro avançou urrando barulhento como anteriormente. Num salto não somente esquivou-se, mas flanqueou seu oponente, arriscado, porém preciso. A lâmina passou rente seu tórax deixando o desenho de uma linha fina na altura de sua última costela.
A dor foi engolida com sabor amargo e tempero forte, mas não foi o bastante para impedi-lo de saltar e rolar até a espada no chão. Temendo que não aguentaria lutar contra dois oponentes por mais muito tempo ele arremedou o escudo, que acertou com precisão o rosto do outro homem. Sangue escorreu pelo nariz quebrado, manchando rosto e dentes amarelos. Sangue também começou a escapar de sua barriga, onde as vísceras foram perfuradas pela espada maior que uma adaga e menor que uma espada longa. Não satisfeito o loiro de cabelos curtos e túnica encardida puxou sua espada para o lado. Os gritos de dor tornavam o som da pele, órgãos e ossos se rompendo inaudíveis. Não demorou para a espada saísse de dentro do corpo, como não demorou para o corpo cair ao chão ou os corvos voltarem a sobrevoar o local. No entanto, a luta não havia terminado.
O puro instinto do homem o salvara, parecia pressentir o perigo e assim abaixar a cabeça. Os pelos da nuca ficaram arrepiados ao sentirem o vento do golpe da estada que mirava seu pescoço pelas costas. Um suspirou longo esvaiu os lábios sujos de terra enquanto o homem recuperava o equilíbrio e a distância de seu inimigo. Foi por pouco, muito pouco, tão pouco que se sentia na obrigação de, caso sobrevivesse, prestar seus respeitos e agradecimentos aos novos e velhos deuses, talvez até a Cabra Negra de Qohor, pois a única explicação plausível para ter escapado daquele golpe seria mística.
Questões sobrenaturais a parte os adversários se encararam, a análise não era difícil. Ambos feridos e cansados, ambos no limiar entre a fadiga total e a ausência de dor provocada pela adrenalina pulsante em suas correntes sanguíneas. A diferença principal é que um segurava uma lâmina que passava fácil de um metro de comprimento, enquanto o outro empunhava uma espada que talvez nem chegasse aos sessenta centímetros de comprimento.
Ambos avançaram, cada qual com seu grito, prontos para que aquele fosse o último se necessário. A espada longa novamente cortou o ar, de baixo para cima e acertando o mais nítido nada. O senhor túnica imunda conseguiu mais uma vez a esquiva, no flanco de seu oponente a vitória parecia a recompensa, tal qual a virgem prometida. Porém, numa ação desesperada seu inimigo teve forças para puxar a lâmina acertando com tudo o corpo da espada em sua lateral. Ambos se chocaram, mais por esforço do loiro do que por sorte. Rolaram quase um metro e desarmados começaram a se estrangular mutualmente.
Sangue e saliva escorriam de suas bocas, o antigo dono da espada longa, por baixo e o loiro de vestes sujas por cima. O combate parecia que terminaria com os dois, quando um decidiu parar de tentar estrangular o outro e passar a mão por entre os braços alheios para força-los na direção oposta. Livre das amarras ele iniciou uma sequência de socos que desciam feito marteladas de um ferreiro na armadura de um nobre proeminente. Não foram cinco ou seis, foram quinze, vinte. Socos que continuavam e continuavam mesmo depois que seu oponente não exibia mais reação e parecia nem mesmo conseguir respirar.
— Senhor? – a voz indagou sem tremular, o que mostrava incrível frieza apesar de estranhamento por parte de seu dono. – Ele está morto.
Ao loiro que mostrava bastante talento para sovar massas coube o lento olhar para trás, avistando a figura enorme, rústica e musculosa atrás de si. Ele olhou, pareceu se confundir se via uma mulher de feições no mínimo diferentes ou um homem extremamente feio, mas nem se deu muito ao trabalho de pensar. Apenas gargalhou e voltou à ação anterior. Socar e socar, e ali ficou, socando e socando o rosto do morto, mesmo que seu punho estivesse machucado e dolorido. Estava decidido a tornar impossível que reconhecessem o rosto do homem.
E eles socava e socava, até finalmente ir socando menos e trocar os risos pela respiração acelerada.
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