A Whole New World
6 Capítulo VI
Notas iniciais
Jack logo tratou de espreitar-se em meio aos aldeões e comerciantes que locomoviam-se rápida e incessantemente de um lado para outro pela longa avenida.Esgueirando-se através da aglomeração barulhenta,Jack tinha o rosto coberto pelo capuz e mantinha os olhos fixos em seus pés,sabendo que se viesse a fazer contato visual com quem quer que fosse,seu plano de deixar Arendelle sorrateiramente seria completamente arruinado;pois graças aos cartazes espalhados pela aldeia que continham sua identificação,ele poderia ser facilmente reconhecido por qualquer um.Jack misturou-se á multidão e esperou que isto fizesse-o passar despercebido aos olhos dos cidadães e guardas que estavam-o caçando desde seu último furto.
Frost abria caminho por entre a multidão agitada e mantinha o ritmo de seus passos regular para não levantar suspeitas.Jack prosseguiu até o final da avenida e finalmente pôde vislumbrar seu caminho para um atalho através de uma rua curvada á esquerda.Havia uma passagem para outra rua localizada á sua direita e dela,em alta velocidade,vinha uma carroça cujo o condutor atrapalhado e afobado esforçava-se para conter o jumento desembestado que perdera o controle de seu caminhar e agora corria descontroladamente,sacolejando com violência o pobre idoso que o guiava e despejando pelo solo de pedra da rua a mercadoria existente sobre a carroça.
Jack deparou-se com o veículo desgovernado que estava prestes a chocar-se contra si.No entanto,devido á velocidade precitada com a qual o jumento corria,fora impossível que Jack tivesse tempo para frear seus passos e proteger-se.Ao colidir com o animal,Frost fora lançado á vários metros para frente e chocou-se brutalmente contra o consistente asfalto de pedra.Jack franziu o cenho fortemente em uma careta de dor e desconforto.Após o impacto,ele remexeu-se para tentar se levantar e ao fazê-lo,grunhiu baixo quando seus membros feridos e fragilizados protestaram devido ao esforço repentino,cutucando-o com uma aguda pontada de dor nas articulações.Ainda no chão,Frost virou-se para trás e deparou-se com a carroça que o atropelara.O jumento de alguma forma desprendeu-se do veículo e agora prosseguia com sua corrida desembestada pelas ruas.O velho senhor tinha-se sentado sobre o chão,juntamente com a mercadoria que espalhou-se á seu redor.O homem levantou-se e passou a balbuciar palavras incompreensíveis enquanto recolhia os produtos.
Jack desviou o rosto e ofegante,suspirou pesadamente,novamente esforçando-se para tentar se levantar.Os demais aldeões que presenciaram o acidente,aproximaram-se hesitantes do rapaz que tinha-se sobre o chão com o intuito de oferecer-lhe ajuda caso ele estivesse ferido.No entanto,ao identificá-lo como o ladrão que estivera sendo incansavelmente procurado pelos guardas á semanas,os aldeões rapidamente trataram de entregá-lo.Ao apontarem o dedo na direção de Jack,gritaram pelos guardas,denunciando-o explicitamente para todos que estavam em volta.
Jack rapidamente adiantou-se para se levantar e ao fazê-lo,descobriu que torcera o tornozelo.Mas mesmo com a dor dilacerante que logo espalhou-se por toda aquela região,Frost,de cenho franzido,apanhou sua trouxa e cajado e seguiu a passos rápidos e cambaleantes para longe dali antes que os guardas pudessem pegá-lo.No entanto,sua tentativa de fuga fracassou miseravelmente.Os guardas surgiram rapidamente e o encurralaram por todos os lados,pressionando as lâminas afiadas e pontudas de suas espadas rente ao rosto de Frost.Jack correu com os olhos pelos guardas,procurando por uma brecha por entre os cavalos dos quais tinham-se montados para tentar escapar.Ele direcionou um olhar raivoso ás autoridades reais e bufou pesadamente em sinal de derrota,visto que não havia como fugir.
— Te pegamos,desgraçado... — Sussurrou entre dentes o oficial general,sorrindo de forma satisfeita ao finalmente ter encurralado Frost e o deixado sem saída depois de semanas de perseguição.
❄ ❄ ❄
A brisa salgada e refrescante proveniente do mar que rodeava os domínios das terras de Arendelle,adentrava pela janela aberta e preenchia a atmosfera do espaçoso e luxuoso quarto requintado.De frente para a janela,sentada sobre uma banqueta banhada á ouro revestida com almofadas vermelhas,estava Elsa com as pernas perfeitamente cruzadas e as mãos educadamente apoiadas sobre o colo.Os claríssimos pingentes de gelo de suas órbitas cristalinas,tinham-se focados em um bando de gaivotas que pairavam acima das torres do palácio.As aves que voavam em perfeita sincronização,seguiam para além dos limites de Arendelle,aproximavam-se das montanhas ao norte onde provavelmente,encontrariam seu destino através delas.Elsa suspirou pesadamente quando as gaivotas finalmente desapareceram de seu campo de visão.A Rainha fechou os olhos e inspirou profundamente o aroma inebriante exalado pela maresia.Em seu íntimo,Elsa imaginou-se como uma das gaivotas que vira agora pouco.A loira permitiu-se sorrir minimante ao fantasiar si mesma sobrevoando Arendelle e rumando em direção para qualquer outro lugar que fosse capaz de livrá-la de suas preocupações,temores ou problemas.Um lugar onde pudesse ser quem realmente era sem restrições,um lugar que trouxe-lhe paz e conforto e que fizesse-a sentir-se acolhida e amada pois aquele era o lugar ao qual pertencia;seu lar.
No entanto,Elsa,como a mulher centrada e responsável que sempre fora,jamais poderia permitir-se sonhar com tais coisas impossíveis.Desde muito cedo ela fora ensinada a manter os pés no chão,pois este é um dos principais fatores que uma boa soberana deveria ter para governar seu reino com sabedoria e justiça.Elsa não poderia permanecer muito tempo habitando seu mundo particular,pois quanto mais criasse falsas expectativas a respeito de uma mudança de vida,mais se machucaria quando fosse trazida de volta á triste realidade com a qual convivia;e com ela,dar-se conta de que não haviam esperanças para alcançar um tolo sonho de liberdade.Elsa estava presa,afinal.Presa á uma vida solitária recheada de deveres e regras;e as correntes que a prendiam á essa vida era sua coroa.Não havia escapatória,pois nem mesmo seus mais belos sonhos eram capazes de livrá-la de todo o fardo que carregava nas costas por conta do segredo que tinha de manter absolutamente oculto.Em seu dedo anelar da mão direita,reluzia fracamente a pequenina pedra de diamante existente no anel de ouro dado por Robert.A delicada e belíssima joia parecia pesar toneladas sobre a mão da jovem Rainha,e parecia querer incessantemente fazê-la lembrar-se do próprio casamento que aconteceria em trinta dias.Elsa fizera menção de retirar o anel de seu dedo e deixá-lo guardado em sua caixinha de joias até o dia da festa de noivado,para então usá-lo novamente.No entanto,pesando que ao encontrá-la sem seu presente poderia chatear Robert,a loira decidira permanecer com ele,embora desejasse mutuamente jogá-lo no lixo.O anel não somente pesava sobre sua mão mas também sobre sua consciência,pois ele representava a vida infeliz que estendia-se á sua frente após casar-se com alguém que não amava.Elsa preferiu simplesmente ignorar a existência da joia em seu dedo,embora essa tenha se tornado uma árdua tarefa após a data do casamento ter sido marcada.
A Rainha ficou a observar o Sol se pôr ao longe no horizonte,escondendo-se através das pontudas montanhas de terra ao leste e com isto,trazer ao claro e límpido céu de Arendelle variadas tonalidades de laranjas que misturavam-se;criando um magnífico espetáculo de cores.Do alto da sacada da janela aberta,Elsa podia ter uma visão quase completa de toda Arendelle.Á medida que seus pensamentos vagavam para planos distintos,a loira deparou-se com uma questão em particular que trouxe certa angustia á seu coração ao ser trazida á tona.Elsa engoliu em seco,respirou fundo e decidiu que não iria mais manter isto oculto nas profundezas de sua mente,afinal,ela estava prestes a se casar e teria de lidar com aquilo por mais doloroso e frustante que parecesse ser:Elsa tinha de aprender a controlar seus poderes.Ela nunca tivera a oportunidade de fazê-lo,nem sequer tinha plena e total consciência a respeito de todas as habilidades que possuía.E mesmo que preferisse continuar sem nunca descobrir o que havia escondido em seu interior,a loira sabia que precisava ao menos encontrar uma forma de manter seus poderes sob controle sem necessitar do uso das luvas.Após casada com Robert,seria inevitável que este viesse a questioná-la a respeito das luvas e Elsa teria de encontrar uma resposta convincente.Mas,o quê diria á ele? Também havia o fato de que teria de se deitar com ele para realizarem a consumação da união matrimonial.E como iria tocá-lo sem machucá-lo? Se Elsa quisesse ao menos manter um relacionamento saudável com o futuro marido,ainda que não o amasse,teria de aprender a controlar seus poderes.Não havia outra forma já que a ideia de contar á ele a respeito de seu segredo estava totalmente fora de cogitação.Elsa ainda possuía um mês inteiro até o dia do casamento e graças á isto,poderia disponibilizar de tempo o suficiente para tentar aperfeiçoar suas habilidades.Porém havia um pequeno (grande) detalhe:Elsa não tinha a menor ideia de como poderia começar a manusear seus poderes,e nem onde faria isto sem chamar atenção.
A Rainha teve sua linha de raciocínio abruptamente interrompida ao ouvir três rápidas batidas contra a porta.Elsa virou-se para trás e concedeu a autorização para que o indivíduo abrisse a porta.A criada abriu uma pequena fresta da porta e colocou a cabeça timidamente para dentro do recinto,anunciando que a guarda real chegara ao palácio e que requisitavam a presença de Elsa para que esta viesse a dar ao rapaz apreendido como ladrão,sua sentença.Suspirando,Elsa agradeceu á criada e a dispensou.A loira levantou-se e após ajeitar seu vestido,desceu as escadas em direção á sala do trono.
❄ ❄ ❄
Os guardas arrastaram Jack grosseiramente pelos braços pelo extenso salão de mármore,em direção ao trono banhado á ouro existente no centro do recinto.A expressão de Frost era de desinteresse;quase beirava ao tédio.Ele tinha-se ajoelhado sobre o chão com a cabeça pendendo para o lado,bufava nervosamente e de momento em momento,levantava aos olhos e verificava o quão os guardas que o mobilizavam estavam atentos á ele.A possibilidade de uma tentativa de fuga ocorreu-lhe por um breve instante,porém,Jack não levou-a adiante e rapidamente desistiu da menção de executá-la;pois a probabilidade de fracasso era imensa,considerando que haviam guardas armados por toda parte.Mesmo que conseguisse desvencilhar-se do aperto esmagador que as mãos grandes dos guardas exerciam sobre seus braços,ele sequer conseguiria chegar aos portões de entrada do palácio;mas se o fizesse,na certa seria apanhado ou morto antes que alcançasse a saída.
Frost soltou o ar pesadamente pelas narinas dilatadas e abaixou a cabeça,fitando com frustração o refinado tapete vermelho que tinha-se estendido sobre o chão abaixo de si.Mesmo á contra-gosto,Jack decidiu simplesmente aceitar que não haviam meios de escapatória,e que independente da decisão da Rainha,sua sentença seria a morte ou anos á fio trancafiado em uma cela.Por opção própria,Frost desejaria ser morto pois a ideia de ser mantido sobre quatro paredes,limitando ao confinamento da solidão e restrição como um animal selvagem,era-lhe insuportável.
O som ritmado e suave de pés pequeninos revestidos por scarpins azuis contra o solo pedroso que vinha aproximando-se cada vez,fez Jack erguer a cabeça em curiosidade para contemplar a figura da Rainha.Assim que seus olhos pousaram sob a belíssima loira jovem que elegantemente sentou-se sobre o trono á sua frente,seu queixo foi ao chão.Jack deixou escapar um inaudível:"Nossa...!".Não fora preciso duas olhadas em Elsa para que Frost tivesse certeza que nunca vira uma mulher tão linda em toda a sua vida.Por um momento,ele pegou-se um tanto descrente,e quase chegou a acreditar que o tivessem levado para o lugar errado,ou que aquela que tinha-se a sua frente fosse filha ou mesmo neta da dita soberana.A palavra "Rainha" intuitivamente trazia-lhe á mente a imagem de uma senhora com algo entorno dos 60 anos de idade,pele flácida e enrugada,fala mansa e cabelos grisalhos.No entanto,a mulher sentada sobre o trono não deveria ter mais do que 20 anos de idade.Jack jamais poderia imaginar que se tratava de uma Rainha jovem,considerando que na maioria dos casos,as soberanas dos domínios reais eram mulheres bem mais velhas do que a tinha-se a sua frente.
Pelos próximos instantes,Frost apenas permitiu-se encará-la mutuamente em uma mistura de encanto e surpresa.Seus olhos vagaram pelo rosto estonteante da mulher,inspecionando minuciosamente os pequenos e grandes detalhes que haviam nele.Seu rosto em formato de coração era emoldurado por cabelos na tonalidade de um ligeiro loiro-pálido,que naquele momento tinham-se presos em um coque apertado no alto da cabeça com algumas mechas onduladas que caíam-lhe ao redor do rosto angelical.Ainda que seus olhos fossem um tanto desproporcionais ao rosto,pois eram muito grandes,combinavam perfeitamente com os delicados lábios finos pintados de rosa e o longo nariz levemente arrebitado na ponta.A claridade delicada de sua pele possibilitava o vislumbre de algumas sardas sob o nariz e bochechas.As maças do rosto tinham-se naturalmente coradas e pareciam favorecer ainda mais sua beleza etérea.Jack demorou-se nos olhos da Rainha,pois fora o aspecto de seu rosto que mais chamara-lhe atenção.O vívido e hipnotizante azul-celeste em suas órbitas se assemelhavam á cristais de gelo brilhantes,tão magníficos quanto qualquer pedra preciosa que houvesse no mundo.Jack nunca vira olhos iguais aos dela e nunca houvera nenhuma outra mulher que fosse capaz de prender sua atenção por tanto tempo devido á beleza notável.
Elsa pôde sentir os olhos do ladrão capturado fixos em si,e uma leve pontada de incômodo cutucou-a em seu íntimo mediante a intensidade de seu olhar.Ele não parecia demonstrar pudor em relação áquela atitude,e permitia-se encará-la profundamente.Não havia hesitação ou mesmo vestígios de intimidação em seu rosto;apenas um misto incompreensível de curiosidade e admiração.Somente o simples fato de ele ter sido ousado o bastante para fitá-la de tal forma,fora o suficiente para deixar Elsa intrigada quanto ao rapaz.Não era natural que as pessoas olhassem-na tão diretamente.Todos procuram evitar contemplar a frieza impiedosa sempre estampada em sua face.Elsa somente limitou-se a sustentar o olhar do rapaz,incapaz de desviar os olhos mediante a intensidade que provinham do congelante azul-safira de suas esferas cristalinas.Elsa pegou-se surpresa com sua aparência peculiar,em especial com a coloração branca como neve de seus cabelos levemente bagunçados.A loira perguntou-se do que poderia se derivar tal estranha cor ou se aquilo talvez pudesse ser resultado de algum tipo de maldição ou feitiçaria.Elsa no mínimo pegou-se intrigada e surpresa ao dar-se conta de que o rapaz era de fato muito bonito.O rosto masculino marcado por traços suaves porém marcantes e levemente juvenis,quase poderiam fazê-lo parecer um príncipe.Era tão curioso quanto era interessante que um delinquente fosse portador de tal boa aparência.
A troca de olhares silenciosa estendeu-se pelos próximos longos momentos que pareceram ser intermináveis para Jack e Elsa.Ao avaliarem a postura e aparência um do outro,ocuparam-se com suas próprias suposições e dúvidas a respeito do que tinha-se diante de si.Por fim,o oficial comandante que estava á esquerda segurando Jack pelo braço,tratou de chamar a atenção da Rainha com um pigarro.Elsa piscou,atordoada;e direcionou seu olhar para o guarda fardado,parecendo finalmente lembrar-se de que o rapaz estava ali para receber sua sentença como castigo pelos crimes que cometera contra o povo da aldeia.
— Majestade,este andarilho adentrou aos domínios do reino de Arendelle ilegalmente á algumas semanas atrás.E como se já não bastasse isto,ele têm causado inúmeros furtos aos comerciantes.Acreditamos que também seja portador de algum tipo de feitiçaria. — Dissera o comandante após Elsa virar-se para ele.
— Esta feitiçaria seria uma consequência proveniente de seus cabelos brancos? — Questionou a loira ao estreitar os olhos,demonstrando genuíno interesse em relação ao ladrão.
— Não sabemos ao certo,minha senhora.Mas este rapaz de fato têm sido um empecilho para os cidadães de nossa aldeia.Seus furtos não somente causaram prejuízos aos mercadantes,mas também têm promovido caos entre a população que está aflita e assustada mediante á possibilidade de terem seu dinheiro ou bens materiais furtados a qualquer momento.
Elsa assentiu ao que fora dito pelo comandante,ponderando sobre suas palavras;pôde reconhecer um ponto crucial de verdade em seu relato.Perante ao que fora dito pelo guarda,era vital que algo fosse feito em relação ao andarilho.Ele não poderia simplesmente permanecer livre e com isto continuar a atormentar seu povo.
Elsa novamente direcionou seu olhar para o rapaz e este ainda tinha-se encarando-a.Com um suspiro,ela dirigiu-se á ele:
— Tem algo á dizer em sua defesa,andarilho?
Jack apenas permaneceu olhando-a pelos próximos instantes,expressando apatia.Por fim,ele soltou um suspiro e disse,despreocupadamente:
— Você tem belos seios.Posso tocá-los?
A Rainha arregalou os olhos,tão surpresa quanto ofendida com a fala inesperada proferida pelo homem.Ela franziu as sobrancelhas,ultrajada com extrema falta de respeito,no entanto,novamente mostrou-se intrigada para com sua atitude ousada.Os guardas rapidamente trataram de desferir alguns socos contra Jack,e o repreenderam severamente após ter dito tal coisa para a Rainha.
Elsa lançou um olhar de desprezo ao rapaz e exibindo uma postura autoritária,declarou:
— Levem-no para o calabouço e mantenha-o lá até que eu decida o quê faremos com ele.Se eu não for generosa o bastante para ordenar que o executem,ele passará o resto de seus dias miseráveis trancafiado lá até a morte.
— Como quiser,Majestade. — Respondeu o comandante e juntamente com o outro guarda,ergueram o corpo de Jack do chão e o levaram para longe de Elsa.Antes de deixar o recinto,Frost lançou um olhar repleto de cólera para a loira,odiando-a por ter escolhido trancafiá-lo ao invés de somente ordenar que ele fosse morto.
❄ ❄ ❄
Naquela noite,Elsa e Anna reuniram-se para o jantar e após o término da refeição,Elsa conduziu Anna até seu quarto,alegando precisar discutir algo importante com ela.A ruiva apenas concordou e não antecipou o assunto despejando-lhe perguntas,embora estivesse extremamente ansiosa para descobrir o quê havia de tão importante que a irmã precisava lhe contar.Após certificar-se de que ninguém as ouviria ao fechar as janelas,cortinas e a porta do quarto,Elsa virou-se para Anna que estava aguardando pacientemente sentada sobre sua cama.Elsa juntou-se á ela e com suspiro,contou-lhe a respeito do pensamento que lhe ocorrera naquela tarde sobre o fato de não saber como controlar seus poderes,e sobre como isto seria um empecilho futuramente para ela e Robert depois que estivessem casados.Elsa admitiu á irmã estar confusa sobre o quê fazer em relação á isto,e pediu-lhe conselhos sobre o quê poderia fazer para impedir que Robert nunca viesse a descobrir seu segredo.
Anna cutucou seu queixo com a ponta do dedo indicador por alguns instantes,com um beicinho,ela revirou os olhos enquanto ponderava sobre as palavras da mais velha.Elsa olhava-a em expectativa,aguardando buliçosamente que ela fosse capaz de dar-lhe uma resposta satisfatória e plausível.
Por fim,a Princesa declarou:
— Você poderia treinar um pouco.
Elsa,á princípio,nada esboçou e nada disse.Porém,após enxergar certo fundamento na proposta dada pela irmã,perguntou:
— Treinar?
— Sim.Poderia procurar por algum lugar seguro no palácio onde pudesse manusear seus poderes sem levantar suspeitas.Assim,você poderia aprender como controlá-los e não precisaria mais utilizar as luvas,e Robert nunca saberá de nada.
Elsa estreitou os olhos,pensativa,cogitou a ideia de Anna por alguns instantes até que por fim concluiu que poderia valer a pena investir nisto.Ela não tinha a nada a perder afinal,e caso viesse a obter êxito em seu treino,seria capaz de abandonar o uso das luvas para sempre.Tocaria Robert e permitiria que ele a tocasse sem quaisquer tipos de restrições e nunca seriam levantadas suspeitas a respeito de seu comportamento reservado.
A loira decidiu que faria conforme fora dito pela irmã e,naquela mesma noite após despedir-se de Anna e garantir que todos os criados encontravam-se em seus respectivos aposentos dormindo,Elsa vestiu um longo roupão de seda transparente na cor lilás por cima de seu vestido branco e deixou seu quarto no meio da madrugada.Portando um lampião em mãos que daria-lhe a luz necessária para se locomover pelo palácio silencioso e escuro,a Rainha seguiu a passos rápidos,porém cuidadosos,em direção ao único local que sabia ser sigiloso o suficiente para dar início á seu treino.
❄ ❄ ❄
Elsa chegou aos limites da extensa propriedade ao ultrapassar a última porta restante para enfim chegar ao lado de fora.Ao deparar-se com a ventania gélida da noite estrelada,a loira nada esboçou;afinal,o frio jamais lhe incomodaria de qualquer forma.
Elsa suspirou ao adentrar ao amplo espaço aberto existente no pátio de pedra,localizado na ala onde estavam as celas do calabouço do palácio.A Rainha tinha completa certeza de que não haviam prisioneiros ali pois aquela ala estava em reforma após a última tentativa de fuga de um dos confinados.Ninguém a veria ali,e considerando que o lugar não estava sendo utilizado,não haviam nem mesmo guardas vigiando o local.
A loira depositou o lampião sobre o chão e suspirando,ergueu as mãos e deu início aos manuseio dos poderes que ela nunca utilizara.
Não muito longe dali,Jack tinha-se tremendamente angustiado e frustrado ao andar de um lado para o outro pelo minúsculo espaço de sua fria cela de concreto,ocupada somente por uma pequenina cama de solteiro cujo as barras de ferro tinham-se enferrujadas e descascadas,e por um vaso sanitário que aparentava estar tão velho e abandonado quanto a cama.Frost bufava nervosamente de momento em momento.Agitado,ele via-se prestes a desmaiar ao ser consumido pela sufocante sensação de claustrofobia que aquele lugar lhe trazia.Ele definitivamente detestava lugares pequenos,e estar preso em um cubículo úmido repleto de insetos e que exalava um fétido odor de urina;fazia sua cabeça girar em uma náusea insana.Frost não suportaria mais nenhum segundo naquele lugar.Porém,todas as suas tentativas de fuga até aquele momento fracassaram miseravelmente.Ao ser preso,Jack fora separado de seu precioso cajado,portanto,não seria capaz de congelar as paredes de concreto,quebrá-las;para então fugir.Mesmo que não houvesse nenhum guarda vigiando o local no momento,pois aquela tornara-se uma área restrita devido á reforma,o lugar era uma verdadeira fortaleza.Haviam milhares de corredores e nenhum deles pareciam levar á saída.Era como um verdadeiro labirinto.Jack ainda estava a perguntar-se por que fora colocado em uma ala em reforma.Provavelmente os guardas já sabiam que suas chances de escapar ali seriam quase nulas,ou simplesmente porque as demais alas de celas já tinham-se completamente ocupadas.Mas seja lá qual fosse o motivo,Jack já odiava os malditos guardas por terem-no colocado naquela droga de lugar.Lembraria-se de ensiná-los uma lição quando e se conseguisse fugir dali,e também á loira responsável por seu confinamento.
Jack dirigiu-se á pequenina janela e meteu a cabeça sobre o espaço estreito entre as barras de ferro.Ele bufou pesadamente e agarrou com força nas barras,desejando possuir a força necessária para destruí-las.Jack fechou os olhos e respirou fundo,desejando poder morrer antes que acabasse por enlouquecer ali.Quando novamente ergueu o rosto,Frost estreitou os olhos e franziu o cenho em confusão ao visualizar uma figura feminina que movia-se no pátio existente do lado de fora da cela.Por um momento,Frost achou que já havia enlouquecido;pois mesmo após piscar e coçar os olhos,a imagem permaneceu ali.Ao concentrar-se em observar mais atentamente a imagem,Jack logo pôde identificar a mulher como sendo a Rainha,ou como ele preferia chamá-la:"Loirão".
Logo a dúvida sobre o quê diabos ela poderia estar fazendo ali áquela hora da noite habitou sua mente.
Foi então que Jack viu.
A Rainha liberava cristais de gelo em profusão de suas mãos sobre o solo do pátio.Sua inexperiência e desequilíbrio eram perceptíveis ao tentar manusear o gelo de forma atrapalhada.O queixo de Frost foi ao chão,e ele permaneceu imóvel pelos próximos longos instantes enquanto observava fixamente a Rainha que criava névoas congelantes com as mãos.Em toda a sua vida,Jack sempre acreditara ser o único capaz de possuir habilidades de controlar o gelo.Portanto,seu espanto foi imenso ao ver que Elsa também era capaz de fazê-lo.A descoberta inesperada e surpreendente de que havia alguém como ele trouxe-lhe uma breve sensação de conforto,e por um momento,Frost não sentiu-se tão perdido e só no mundo.Rapidamente ele viu-se agitado mediante áquilo,ansiando loucamente saber como e por quê ela também podia controlar o gelo.Será que ambos pertenciam á mesma..."raça"? Poderiam até possuir algum tipo de laço sanguíneo como primos ou algo do tipo?
A irônica coincidência fizera Jack soltar um riso debochado e com isto,ele perguntou-se se deveria sentir ódio ou simplesmente sentir-se grato pela mulher que o condenou á prisão naquele maldito lugar,possuir habilidades iguais ás suas.
Elsa estava de costas para ele,portanto,nem sequer notara que estava a ser observada e que não estava totalmente sozinha ali.
Por fim,Jack resolveu chamar atenção dela com um alto riso sarcástico.
— Não sei se isto é tremendamente irônico ou estupidamente surpreendente.Então acho que vou ficar com ambas as opções.Nunca poderia imaginar que um dia viesse a encontrar alguém como eu,especialmente uma Rainha. — Disse ele em voz alta.
Elsa paralisou ao ouvir a voz masculina repleta de sarcasmo que vinha detrás de si.A loira arregalou tanto os olhos que pouco faltou para que estes saltassem das órbitas.Arfando exasperadamente,Elsa desejou que a voz que acabara de ouvir fosse apenas algum tipo de ilusão proveniente de sua mente preocupada.A Rainha atreveu-se a virar e olhar em direção de onde a voz viera.Ao fazê-lo,Elsa deparou-se com o ladrão que fora levado ao palácio hoje mais cedo para ser julgado.O rapaz tinha o braço apoiado sobre a janela e direcionava-lhe um sorriso convencido e despreocupado.Elsa não ouvira com clareza o que ele dissera,no entanto,isto não era o que realmente importava pois se Jack a vira utilizando seus poderes,ela urgentemente teria de fazer algo para suborná-lo de alguma forma para que ele não contasse á ninguém a respeito de seu segredo.
A Rainha,hesitante,aproximou-se á passos lentos da janela da cela do prisioneiro.Com os olhos fixo nele,cada membro de seu corpo tinha-se rígido após o choque de ter sido pega no flagra.Jack,por outro lado,parecia estranhamente tranquilo embora em seu interior,estivesse corroendo-se para saber mais sobre Elsa e seus poderes similares aos dele.
— Estou surpreso,Rainha.Pelo visto não sou o único "Monstro de Gelo" existente no mundo. — Prosseguiu ele quando ela finalmente parou de frente para as barras da janela.
Elsa suspirou e fechou os olhos por um segundo.
— Escute...eu não sei o quê você pensa que viu,mas... — Começou ela,visivelmente nervosa.
Jack revirou os olhos e rapidamente tratou de interrompe-lá:
— Não se preocupe,eu não vou contar á ninguém.Mesmo por quê se o fizesse,estaria denunciando á mim mesmo também.
Elsa franziu o cenho em confusão.
— O quê quer dizer com isso?
Jack aproximou-se mais das barras de ferro que o separava da loira e disse,agora expressando seriedade:
— Eu sou como você.
Elsa mostrou-se ainda mais confusa mediante áquela revelação.Ela estudou a expressão do rapaz por mais alguns instantes,procurando por qualquer vestígio que denunciasse uma mentira oculta existente em seus olhos.No entanto,ele não parecia estar mentindo,ainda assim,Elsa não foi facilmente convencida de suas palavras.Jack suspirou e resolveu dar-lhe uma prova,visto que a Rainha ainda parecia desconfiada.Ele ergueu ambos os braços e tocou as barras de ferro da janela.Ao fazê-lo,estas rapidamente foram congeladas por completo.
Elsa arfou exasperadamente e observou assombrada o quê fora feito pelo andarilho.A loira ficou tão chocada quanto o próprio Jack mediante aquela incrível descoberta inesperada e assim como ele,ansiou loucamente saber mais sobre como e por que possuíam as mesmas habilidades.
Elsa deu um passo a frente do rapaz e perguntou num sussurro:
— Como consegue fazer isso?
— Eu não sei.Eu nasci assim.
— Eu também.Será que...alguns de nossos familiares ou ancestrais podiam fazer a mesma coisa? Será que somos parte de algum tipo de clã ou raça?
— Eu não sei,eu nunca soube.
— Você tem família? Alguém além de você em sua família também é como nós?
— Não.Somente eu tenho esses poderes.
— Por que acha que somos assim?
— Eu nunca tive muitas oportunidades para me aprofundar a respeito disso.Mas minha teoria é de que talvez tenhamos descendência com algum tipo de feiticeiros.
— ...Ou monstros... — Elsa abaixou seus olhos para suas mãos e suspirou tristemente.
— O quê você estava tentando fazer ali? — Jack resolveu mudar de assunto visto que o rumo da conversa pareceu chatear a Rainha.Mesmo que ambos tivessem tido uma primeira má impressão um sobre o outro,aquela revelação foi capaz de sobrepujar qualquer ressentimento que estivesse nascendo em seus corações,quase tornando-os cúmplices de alguma forma.
Elsa reergueu os olhos para ele.
— Eu vou me casar no final do mês e preciso encontrar uma forma de controlar meus poderes para que meu marido nunca suspeite de nada.
— Então ninguém em toda Arendelle sabe a respeito de seus poderes?
— Somente minha irmã caçula.
— Como conseguiu esconder isso de todos por tanto tempo?
— Eu estou sempre usando luvas.Cortei minha interação com as pessoas,diminuí o número de empregados no palácio e passo a maior parte do tempo em meu quarto quando não estou ocupada com meus afazeres pessoais.
— Isso...parece horrível. — Jack fora tocado por uma pontada de piedade perante a declaração da Rainha ao tentar imaginar como deveria ser a vida dela na luta constante para manter seu segredo á salvo.
Elsa somente soltou um suspiro pesado.
Mesmo que ambos ainda fossem desconhecidos um para o outro,sentiam-se estranhamente a vontade em conversarem a respeito de seus problemas pessoais devido ao fato de serem iguais.
Jack avaliou a situação da Rainha e repensou sobre algo que ela havia dito sobre ter de aprender a controlar seus poderes pois casaria-se em breve,e não poderia permitir que seu marido descobrisse.Isto trouxe uma ideia genial á Frost da qual ele poderia aproveitar-se do frágil estado de Elsa para conseguir sua tão desejada liberdade.
Portanto,Jack abriu um pequeno sorrisinho sacana e comentou,despreocupado:
— Parece que você tem dificuldades em manusear seus poderes.Duvido que conseguirá aprender a controlá-los completamente até o dia de seu casamento.
Elsa revirou os olhos e bufou,irritada.
— Obrigada.Isso foi muito motivador. — Disse ela com a voz gotejando sarcasmo.
Jack ignorou-a.
— Com certeza suas chances de obter êxito seriam maiores se houvesse alguém que pudesse lhe ensinar...
Elsa podia ser loira,mas sem sombra de dúvida não era burra! Não fora difícil identificar o duplo sentido nas palavras de Frost e onde ele pretendia chegar ao dizer aquilo.Rapidamente,a Rainha fechou a cara e limitou-se a balançar a cabeça em negação,reprimindo qualquer tentativa de Frost de propor-lhe algo tão absurdo como oferecer-se para ensiná-la a controlar seus poderes.
— E este "alguém",com certeza não será você!
— E por que não? Eu mantenho perfeito e absoluto controle sobre meus poderes.Convivo com a sociedade livremente a anos,e ninguém nunca desconfiou de nada.
— Não importa! Não quero sua ajuda;não preciso de sua ajuda!
— Você sabe que precisa.Pense bem:Quem melhor do que eu para ajudá-la com isso?
— E como posso confiar em você a ponto de permiti-lo me treinar? Você é um ladrão! Um pistoleiro que tirou a paz de meu povo!
— Mas sou o único igual á você no mundo inteiro.Você claramente não faz a menor ideia de como utilizar seus poderes.Você nem sequer sabe o que é necessário para mantê-los sob controle.Jamais irá conseguir fazer isso sozinha.
— Já disse que não preciso de você!
— Tudo bem.Faça como quiser,Vossa Majestade.Mas não venha querer me procurar quando congelar o rosto de seu marido por acidente.
— Isso não vai acontecer!
— E o quê te garante isso? Você nem sequer sabe o que é capaz de fazer...
Elsa não argumentou mais.Comprimiu os lábios numa careta nervosa ao fitar o rapaz atrás das barras de ferro da janela.A loira não pôde deixar de reconhecer um ponto inegável de verdade nas palavras de Frost.Ele de fato poderia ser-lhe muito útil ao ensiná-la a controlar seus poderes e com isto,adiar o processo de aprendizagem antes do casamento.Mediante isto,Elsa rendeu-se ao quedar os ombros;suspirou e temendo que pudesse acabar por se arrepender desta decisão,perguntou:
— Qual é o seu nome?
— Frost.Jack Frost.E você é...Elisa,certo?
— Elsa.
— Claro...Elsa...
— Jack Frost...eu aceito tê-lo como meu..."professor".
Jack sorriu,satisfeito ao conseguir fazê-la ceder á sua proposta.
— Ótimo.No entanto,não irei ensiná-la de graça.Quero algo em troca.
Elsa suspirou pesadamente e franziu as sobrancelhas.Já podia imaginar que ele diria algo do tipo.Porém,agora que havia aceitado,não haveria como voltar atrás.Decidiu que daria o que ele quisesse,contanto que fosse-lhe algo tolerável e justo.
— O quê você quer?
— Minha liberdade.Eu a ensino tudo que precisar saber a respeito de seus poderes,mas em troca,você irá me libertar.
— Nada feito! Se você for solto continuará roubando.Não posso permitir que volte a causar prejuízos aos comerciantes da aldeia novamente.
— Você não precisará se preocupar com isso,pois assim que for solto,vou dar o fora dessa droga de lugar para sempre.
— E o quê me garante isso?
— Eu te garanto isso.Te dou minha palavra.Eu a ensinarei tudo que sei e após ter concluído meu trabalho,você me libertará e vou embora de Arendelle.Nem você e nem ninguém na aldeia ouvirá falar de mim novamente.Os deixarei em paz...de uma vez por todas.
Elsa estudou-o por alguns instantes,porém não havia nada em seus olhos que lhe dissessem se era seguro ou não confiar nele.A Rainha,no entanto,não pensou muito sobre isso.Resolveu ariscar,afinal,não tinha nada a perder.
— E então? Temos um acordo?
Elsa apenas assentiu em resposta.
Jack esticou seu braço por entre a barra de ferro da janela para selar o acordo com cumprimento de mão.Mesmo hesitante,Elsa apertou minimamente a mão dele e pegou-se um tanto assustada ao sentir uma corrente eletrizante percorrer-lhe o braço numa sensação inexplicavelmente gostosa.Jack sentiu o mesmo,porém não se manifestou quanto á isto.
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