2339.

O Planeta-Mãe — Terra, como outrora fora chamado — já não tinha mais condições de dar abrigo aos seus filhos.

E morriam aos poucos. Os humanos; o planeta.

Centenas e centenas de homens engajaram-se por pouco mais que duas décadas em um plano que parecia absurdo: colonizar o espaço.

Para isso foi escolhido Marte (mais tarde rebatizado de Einheit. “Unidade”). Tinha condições de habitação, mas parecia ainda assim fantástico demais aos olhos de parte da população.

E a partir daí dividiu-se em duas a humanidade: os colonos de Marte e os habitantes da Terra.

Mantiveram contatos por aproximadamente dois séculos, até um começar a negar a existência do outro.

“A população ainda existente no Planeta-Mãe foi dizimada”, dizia o governo da colônia (o que não diferia muito da verdade), “não há mais condições de vida no planeta”.

E, então, cortaram de um todo as relações.

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Suava frio.

Ludwig sentia os olhos frígidos do oficial o analisarem de cima a baixo — poderia dizer com facilidade que nunca se sentira tão nervoso, nem sequer ao prestar ou checar o resultado dos exames.

Estava agora no escritório do diretor da Academia Militar.

Tinha algo de aconchegante, o lugar, mas achava-o intimidador, de alguma forma. Uma janela larga que dava para o pátio do colégio, um jardim logo adiante e, se olhasse com atenção, encontraria uma infinidade de coisas nas paredes e prateleiras: medalhas, troféus, fotos, dedicatórias grafadas em placas douradas e prateadas.

Era, definitivamente, a imponência daquele lugar que o fazia estremecer.

Ali estava, diante de seus olhos, seu sonho — quase como se pudesse tocá-lo.

Mas ali também estava mais uma chance de fracassar.

Entregou ao mais velho, logo depois que este lhe cumprimentou e fez sinal para que entrasse (acomodou-se no assento que lhe foi indicado, e o assento, de tão largo e acolchoado que era, parecia engolir-lhe), a carta de recomendação da atual escola em que estudava. Era aluno bolsista de um colégio caro, mantinha suas notas acima da média (embora ganhasse a aprovação no aperto, quando se tratava de algumas matérias) e não havia em seu histórico registros de mau comportamento. Um aluno exemplar, de fato.

Aquela não era a forma como gostaria de ingressar a instituição, mas era uma burrice dispensar uma oportunidade como aquela, pois entrar para a Academia Aeronáutica o deixaria mais próximo da Força Aérea, e, além de tudo, uma desfeita com o tio, que foi quem conseguiu encaminhá-lo (“Um amigo dele que tinha contatos lá dentro”, ou algo assim).

Friedrich, o tio — Fritz, como Gilbert o chamava com uma quase veneração — era mesmo um bom homem. E o parente mais próximo que tinha, sem contar a mãe e o irmão.

Não eram íntimos, porém. Seus diálogos se limitavam ao que era de rotina, trivialidades. Ganhava dele sempre uma pequena quantia em dinheiro nos aniversários e cartões nos feriados. Ludwig tinha por ele bastante gratidão e fazia o possível para não importuná-lo com superficialidades.

E consideraria-o mais ainda, se ganhasse a aprovação.

Permaneceu em silêncio até que o superior lhe dirigisse a palavra.

— Beilschmidt, certo?

— Ja — confirmou, em um tom resoluto. Aquela era outra lição que Ludwig tentava seguir à risca: sempre olhar nos olhos de quem lhe falava; sempre responder com firmeza; nunca demonstrar fraqueza.

— Beilschmidt — repetiu. — Coronel Eisenberg.

O coronel lhe deu um firme aperto de mão e discorreu brevemente sobre as normas da instituição e o que ela oferecia, o perfil de aluno que ali era exigido e sobre as notas que Ludwig tivera em seus testes passados (“Nunca vi notas tão brilhantes e, ao mesmo tempo, tão desastrosas”, dissera o coronel, acrescentando um sorriso ao ver que o garoto se remexeu, irrequieto, na cadeira).

— Quais são seus objetivos conosco? Pretende seguir carreira?

— É meu dever, senhor. Servir à minha pátria.

Eisenberg estava acostumado àquele tipo de resposta pronta, mas podia ver que o menor falava com alguma sinceridade.

— Tem ambições, certo, filho?

Aquela era uma pergunta que o aspirante a militar não esperava, mas não hesitou em responder que sim.

O oficial cofiou seu basto bigode grisalho, um pouco surpreso. Rapaz interessante, aquele.

Quando o loiro viu o mais velho estender-lhe as folhas de papel que estavam em cima da mesa do escritório, pensou que estava lhe devolvendo a carta de recomendação e o histórico escolar, que seria rejeitado novamente, mas sentiu o coração acelerar quando olhou com mais atenção e viu que aquele era o contrato de admissão.

“Não pense que vai ter folga”, disse-lhe Eisenberg. “Cobraremos que conceda um pedaço de sua vida para nós”.

Ludwig não chegou a prestar atenção de fato, mas, se tivesse prestado, responderia que, se quisessem, não importaria que fosse sua alma. E não se importaria mesmo.

Estava genuinamente feliz.

Começaria assim que fossem entregues os papéis da matrícula com a assinatura de seu responsável e que tivesse o uniforme da escola. O gasto dos livros seria arcado pela própria Academia.

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Sentia-se agora um pouco melancólico.

E era notável, pois executava com menos ânimo as tarefas que já fazia por rotina e até mesmo seus sorrisos pareciam ter um quê de forçados.

A frequência com que via Ludwig diminuíra e as lições que tinha com ele, que antes já estavam se tornando mais escassas, visto que já falava e escrevia relativamente bem, eram agora inexistentes. Parece que já não tinha mais tanto tempo disponível como antes, também.

Passou a tomar aulas com um professor particular: um homem de meia-idade e fala arrastada. Dava-lhe aulas mais ortodoxas, indicou-lhe uns livros que lhe seriam “de grande ajuda” e apresentou a Feliciano umas ciências que este último achava chatas.

Bem esforçado, mas maçante. Tinha quase certeza de que seu novo mentor tinha tanta vontade de estar tirando um cochilo quanto ele próprio, em vez de estar ali falando todas aquelas baboseiras.

Já não achava as aulas de Ludwig um primor, mas pelo menos se divertia um pouco com o loiro. Sentia falta delas mais do que tudo ao encarar os livros que tinha de ler agora.

Esforçava-se, porém. Não queria decepcionar seus guardiões, principalmente Magyar, que botava tanto empenho em vê-lo aprender. Fazia questão de checar se o menino estava mesmo fazendo os deveres das aulas, pois “Feliciano era muito ardiloso, mas ele também sabia sê-lo”.

Magyar era um homem bastante alegre e tinha os mesmo olhos verdes gentis da filha, Elizabeta. Fora um dia magro, até forte, mas, com o passar dos anos, parou de preocupar-se tanto e viera ganhando peso. Queria “aproveitar a vida, pois todo homem de sua idade tinha esse direito”.

Alto, corpulento e alegre. Feliciano gostava muito dele.

E daria para ele, que o encarava com uma careta engraçada, um sorriso, não fosse o desânimo que sentia frente aos livros que lhe davam um nó na cabeça.

— Que cara é essa, filho? Enrolado de novo?

— Não é isso. Estou... Como é que se diz mesmo...? — Coçou a cabeça, tentando achar a palavra certa. —... Chato?

— Entediado — corrigiu o mais velho. — Não o culpo. Por mim, só existiriam as boas e velhas quatro operações fundamentais e o alemão. Vá descansar. Mas amanhã não vai ter refresco, está bem?

Deu ao mais novo uma piscadela, que respondeu com um sorriso.

— Sim, senhor! Já comentei que o senhor parece mais magro hoje?

— Não tente puxar o saco do velho, filho. — Deu uma risada. — Não funciona.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Feliciano saíra da sala como um raio.

Era mesmo uma peça aquele menino.

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Acordava mais cedo e voltava mais tarde do colégio, mas estava satisfeito consigo mesmo e vestia com orgulho o uniforme da Academia Aeronáutica — uma farda de aparência similar a da Força Aérea, que Gilbert acha que lhe caía melhor, “pois o blazer da outra escola o deixava com cara de mauricinho”.

Teve também de cortar o cabelo, mas essa mudança quase não era perceptível, pois já o mantinha curto antes.

E andava menos mal-humorado também. Saber que não teria de enfrentar mais aqueles testes o fazia ficar bem mais tranqüilo. Fizera-lhe muito bem realizar aquele sonho, de fato.

Mas havia algo que deixava Ludwig no mínimo desconfortável.

Ele era apenas um entre noventa e seis alunos de sua turma, mas, apesar disso, a notícia de que não foi admitido pelas notas que obtivera nas provas da Academia espalhou-se mais rápido do que imaginava.

Com a misericórdia do oficial superior, diziam.

Diziam-no e cochichavam-no pelos cantos. Parece que, aos olhos dos colegas de classe, Ludwig era alguma espécie de “protegido” (apesar de que ele mesmo não recebia tratamento especial algum, ao contrário, sentia até que alguns professores o pressionavam mais).

Ludwig, que já não era lá muito popular no antigo colégio, se perguntava agora se era algo de errado que fazia e deixava alguma má impressão nos outros, mas logo deixou de lado a conjectura, pois já estava acostumado a condição de anti-social e, além do mais, até começara a conversar com um colega ou outro que compartilhava com ele alguns pontos de vista.

Não se importaria com comentários nem nada parecido. Estaria bem, não fosse uma pequena pedra em seu caminho.

Uma pedra com nome, sobrenome e endereço. Um molecote atrevido com uns modos que lhe irritava. Sigmund, como veio a descobrir rapidamente.

Começara com implicâncias bobas, “coisa de garoto que quer chamar atenção”. Fazia com Ludwig umas chacotas desagradáveis e botou-lhe o apelido de “Recruta” (apelido que acabara por ser adotado por outros alunos também), mas o loiro era indiferente, evitava dar-lhe muito papo.

Mas não se tocava o tal de Sigmund. Provocava o calouro com alfinetadas sempre que tinha chance.

Pioravam as brincadeiras, também.

Deram para esconder o material de Ludwig — uma borracha, um lápis, o estojo. Acabava sempre achando depois de se estressar um bocado ou de alguém acabar contando-lhe onde estava o objeto escondido.

Passou também a retribuir às provocações à altura, soltando farpas a torto e a direito, coisa que só lhe servia para piorar a reputação.

Aquilo ainda não era, no entanto, suficiente para tirar o loiro do sério. Estressava-se, sim, mas fazia o que podia para não arranjar confusão, pois, em um ambiente onde a disciplina era mais prezada do que tudo, uma delas poderia facilmente acabar em expulsão (e era fundamentalmente por isso que Sigmund o provocava tão abertamente, sem medo de represálias).

Pois que seu rival também não era de desistir, isso lá não era! Resolveu, em uma certa e derradeira vez, seguir o outro ao final das aulas. Estavam ambos na condição de externos, pois ainda havia os alunos internos, que residiam nos dormitórios até o final do ano letivo.

“Recruta! Que bom te ver!”. Ludwig não pensava o mesmo. “Hoje resolvi tomar o mesmo caminho que você, pra trocar umas idéias, sabe?”

E caíram em um silêncio mórbido, quase aterrador. Estavam até então em sala de aula e seguiram lado a lado até o portão da frente. Ludwig encarava-o, enquanto Sigmund sorria meio faceiro.

“Irritante” era a única palavra que parecia servir para descrevê-lo.

O loiro já tinha dentro de si a certeza de que as coisas não iriam dar certo naquele dia, quando veio a pergunta:

— Sempre tive a curiosidade saber... Como você entrou, Recruta? Não é muito comum, sabe? Não é todo mundo que consegue entrar pelas portas dos fundos...

Ludwig parara de caminhar para encarar melhor o outro.

— Isso só diz respeito a mim — retrucou.

Sigmund, por sua vez, soltou uma gargalhada. Atreveu-se ainda a dar uns tapinhas no rosto do mais alto.

— Ora, Recruta, não seja tímido! O coronel não é de fazer esse tipo de coisa, sei disso porque não é meu primeiro ano aqui.

Ludwig retomou sua caminhada. Ia deixá-lo falando sozinho, mas ouviu os passos do outro segui-lo.

— O que teve que fazer, Recruta? — tinha um tom sarcástico na voz. — Dar o cuzinho pro coronel ou lamber o pau dele?

Ludwig largou no chão a pasta que carregava com o material da escola.

Sua paciência acabara-se de uma vez por todas.

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Gilbert o encarava com um olhar meio atônito.

—... Tenho até medo de perguntar, mas o que, em nome de Deus, aconteceu com você...?

Nem mesmo Ludwig sabia exatamente o que ocorrera. Tinha um uniforme sujo e amassado, coberto de terra e poeira da mesma forma que o rosto (que começara a inchar), um joelho ralado que ardia e cabelos despenteados.

— Ah, cala a boca. — Viu o olhar atônito do irmão tornar-se agora surpreso.

... Fora um dia de cão.

Atacou ao antagonista com tanta fúria e ímpeto que foram necessárias três pessoas para separarem a briga.

E ainda deu o azar de não ter se afastado o suficiente da escola: a briga foi presenciada por alunos que também saíam do colégio. Fora parar no gabinete do diretor como num passe de mágica (mas teve tempo de reparar que os três que separaram a briga andavam com Sigmund e foram também eles os delatores).

Teve sorte de ganhar uma somente uma suspensão. Sigmund já tinha o histórico de ser problemático, pelo que entendeu.

E não melhorava em nada ter Gilbert em casa para recebê-lo (apesar de ficar aliviado de que a mãe não estivesse presente).

— Bruder... Nunca esperava te ver envolvido em uma briga idiota dessas...

Ludwig não pôde fazer mais nada senão envergonhar-se um pouco. Não gostava de ouvir sermões, principalmente um vindo do irmão.

— Estou tão orgulhoso de você!

— Como é?

Gilbert partiu para cima de Ludwig com um abraço.

— Achei que fosse virar um maricas, igual ao quatro-olhos. — Bagunçou mais ainda os cabelos já despenteados do irmão menor.

Ludwig se culpou por não esperar que o irmão fosse dizer algo do tipo.

— Já chega! Solte-me! — Precisou reunir o resto das forças que tinha para empurrar o irmão para longe, fazendo uma careta de dor.

Pensou que seu dia não podia piorar, quando Feliciano chegou (tinha o costume de esperar o loiro chegar da escola). Gilbert estava ajudando-o com curativos, então, o menor resolveu ajudar também.

Cansou-se mais um pouco com gritos e berros e acabou cochilando, no sofá mesmo, até o final da tarde.

Quando acordou, Feliciano já havia ido embora e Gilbert (ou assim foi que presumiu) o cobrira com um lençol.

Sorriu consigo mesmo. Não podia negar que estava um pouco orgulhoso e satisfeito. Fora prazeroso dar uma lição naquele sujeitinho. Parece até que teve de tomar uns pontos no queixo.

Da vez que se encontraram depois do ocorrido, nem sequer lhe encarou o outro. Os outros alunos também passaram a lhe olhar com um pouco mais de respeito.

E, dali pra frente, as coisas só melhoraram para Ludwig.

Notas finais
Para alegria (ou infelicidade) da nação, a pequena Seven-chan ainda não morreu! Cês ainda vão ter que me aturar por um bom tempo, ó u_u Err... espero escrever estórias menos bobinhas um dia, mas me faz tão feliz escrever essa aqui ^^ Aw, capítulo não betado, de novo ;; Então, vou revisar mais tarde e pedir pra beta passar aqui. Qualquer erro, já sabem... Ah, mereço reviews? *-*