Notas iniciais
Acho que pode-se dizer que é a minha primeira fanfic e... não me atirem pedras çç(?) Agradeço a lgirlsclub, que betou e me incentivou. (Obrigada mesmo, L-chan!) e a Tefany, que eu fico perturbando via msn.

"Aquela estrela brilhante lá no céu é o planeta de onde eu vim."

Ludwig, com certa surpresa, pegou-se sentindo saudades ao lembrar dessas palavras.

Sentia que algo estava faltando.

Não era algo que ele pudesse definir bem ou sequer explicar com palavras, tampouco sabia o que é que faltava. O vazio, então, tomou sua mente e seu coração, espalhando-se como uma ferida que não estancava.

Tentando pensar em outra coisa, o jovem que se encontrava em roupas desconfortáveis olhou em volta, para então mirar um céu tão diferente daquele que conhecia. Sorrindo, ele imaginou que talvez seu amigo com caraminholas na cabeça fosse gostar de estar com ele, vendo aquilo: eram milhares e milhares de incontáveis estrelas num céu que parecia nunca ter fim.

Pensou também no irmão. Por mais que não dissesse com palavras, sabia que o irmão estava muito orgulhoso dele: era só olhar seu rosto quando chegou com as notícias em casa. Se estivesse com ele agora, diria "Mas é só isso? Nem todo o espaço é páreo para toda a grandeza do seu irmãozão aqui!".

Para ele, era difícil pensar que agora estava a milhares e milhares de quilômetros de casa — anos-luz.

Mas aquele era seu sonho, não era? Então, oras, por que sentia as pernas tremerem como se não houvesse chão sob seus pés? Por que seus olhos umedeciam?

Era medo.

Foi a primeira vez em toda sua vida em que sentiu medo de perder tudo que lhe era realmente importante.

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— Hm, acha que ele entende alguma coisa do que a gente fala? — Ela tinha no rosto um quê de curiosidade genuína.

— Com esse sorriso bobo e essa cara de idiota, duvido muito — respondeu o moreno e suspirou, ajeitando os óculos que teimavam em escorregar até a ponta do nariz. — E olhe o jeito como come! Alguém vai ter que ensiná-lo que nessa casa se usa talheres.

— Uhu, é verdade. — ela deu uma risada, como quem se divertia.

— ... Acho que não tenho mesmo opções, não é? — Suspirou de novo.

Os dois se referiam ao menino que agora devorava, como se não tivesse visto um prato de comida por anos, pão com manteiga e um pedaço de bolo que haviam lhe oferecido como café da manhã.

Na noite anterior, Elizabeta surpreendeu-se ao ver o garoto na varanda da mansão. A princípio, percebeu somente um vulto se mover, fazendo as folhas das plantas do jardim remexerem, e achou que fosse algum animal ou um curioso qualquer, quem sabe até mesmo uma piada do vizinho metido a engraçado.

Mas fosse o que fosse, não deixaria que nada ou ninguém estragasse as flores as quais havia dado tanto carinho para florescerem belas.

Elizabeta, então, muniu-se com uma frigideira — o primeiro objeto que achou pela frente — e saiu de casa de pontas de pé. Uma, para Roderich não vê-la, porque levaria uma bronca por sair de casa sozinha naquele breu, e outra, porque, se fosse Gilbert se escondendo nos arbustos, ele iria pagar.

Ao se aproximar das plantas, escondeu a panela por entre dos panos do vestido que usava e moveu as folhas sorrateiramente. Deu de cara com o menino caído entre os galhos e por pouco não lhe atingiu com sua "arma mortal". Apesar do dia frio de inverno, ele tinha o peito desnudo, tornando vísiveis as bandagens que lhe cobriam o corpo, além das outras que cobriam-lhe a testa. Desmaiado, pensou ela. E provavelmente não sobreviveria uma noite inteira ali fora.

Em passos apressados, voltou pra casa e avisou a Roderich nervosamente, que foi acudi-la meio revoltado, resmungando-lhe sermões no caminho. O moreno, mesmo não sendo forte, conseguiu levantar o menino desmaiado com alguma facilidade. Comentou mais tarde que o garoto estava bem mais magro do que seria saudável para a idade que aparentava e que "não ajudaria Elizebeta a acolher todos os mendigos visse pela rua", só que se deixasse aquele ali morrer no quintal, certamente a polícia iria causar uma bela dor de cabeça.

A menina não se conteve e sorriu. Por mais que suas palavras fossem duras, sabia que ele não era ruim. Pelo contrário.

Os dois viviam há alguns anos na mesma casa e ela já se acostumara com o jeito de Roderich, reservado e às vezes meio esquentado. Viraram espécies de "irmãos de criação" quando a mãe dele se casou com seu pai e desde então os dois se tornaram amigos inseparáveis.

Elisabeta perguntou-se se a madrasta iria ficar brava com os dois no outro dia, mas Maria Theresa recebeu bem a notícia. Certamente não podiam jogar o menino na rua daquele jeito. Deixaria ele ficar em casa por um tempo, até que acionassem o governo. O único problema é que nem sequer conseguiram descobrir nome dele, quando acordou, pela manhã. Elizabeta tentara falar com ele, mas recebeu como resposta palavras que não entendia — um dialeto bem diferente do seu. E até agora ele permanecera quieto, fazendo só barulhos ocasionais para comer (Alguém vai ter de dar um jeito nisso, Roderich balbuciou).

Era verdade que não entendia o que diziam ao seu redor, mas, ainda assim, o menino parecia se divertir com o modo que falavam, dava um meio-sorriso de vez enquando, olhando os dois conversarem.

Deram-lhe banho e substituiram-lhe as bandagens assim que chegou. Tivera o cabelo penteado e ganhara as roupas antigas de Roderich, que ainda assim parecia ficar-lhe larga demais no corpo — fato que foi ainda mais acentuado pelos laços e babados da parte superior da roupa. Elisabeta riu em pensamentos, o garoto era um rapaz bonito, afinal de contas. E ficara realmente engraçado com aquelas roupas.

Tentou imaginar Roderich vestindo aquilo e deixou uma gargalhada escapar.

— O que é, Eliza? — perguntou ele, franzindo o cenho, meio desconfiado.

Ela olhou para o rosto sério do moreno e entrou em uma crise de risos. Mais tarde, com certeza procuraria no albúm da família por algo do tipo.

— Nada, nada mesmo — respondeu Elizabeta, depois de se acalmar.

Os olhos castanhos do menino que terminara o café da manhã em menos de três minutos saltavam de um para o outro, tentando entender o que se passava.

— Pelo visto, é inútil mesmo tentar nos entender dessa forma, não é? — ela começou. — Ah, tem um pouco de comida no seu rosto.

Ela limpou o pouco de manteiga do queixo dele com um lenço, recebendo um sorriso em troca.

— Ah... eu só queria saber que raios de língua é essa que ele fala... — Sentindo-se um pouco excluído, o moreno levou as mãos aos cabelos, jogando-os para trás, com um suspiro derrotado.

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— Ei~! Bruder, cê ainda tá vivo aí dentro?

Sua tentativa de fazer o irmão mais novo sair do quarto falhara miseravelmente mais uma vez. Começava a ficar preocupado com ele — passara praticamente o dia todo lá dentro.

— Eu sei como é, já tive nessa fase também. — Gilbert deu uma gargalhada zombeteira. — Quer dizer, é comum garotos da sua idade passarem por isso, mas cê não pode exagerar nesse lance aí, não, viu?

Não recebeu resposta. Ah, mas o Incrível Gilbert jamais desistia do que queria!

— Ok, seu grande irmãozão estará na sala, esperando Vossa Senhoria assim que ela quiser dar as caras. Aliás, lá na cozinha tem um jantar über-incrivelmente-delicioso que a mamãe fez — quase tão delicioso quanto eu aqui. Se Vossa Senhoria quiser, ela que vá pegar.

Esperou um pouco, na esperança de ouvir qualquer coisa que fosse. E ouviu: um grunhido quase inaudível de "Me deixe em paz" e algo se chocando fortemente contra a porta.

O albino deu um suspiro longo e dolorido. Não era a primeira vez que aquilo acontecia e temia que não fosse a última. Sentia uma fisgada no coração só de pensar nisso: odiava ver o irmão daquele jeito.

Essa era a quarta vez que Ludwig, seu irmão, fizera o exame para ingressar na Academia Aeronáutica da Nação do Norte. E a quarta vez que fora reprovado.

E não foi por falta de estudo, nem falta de atenção, muito menos de esforço. Afinal, Ludwig era o que se podia chamar de "menino prodígio".

Suas roupas, impecáveis.

Seus cabelos, nenhum fio fora do lugar.

Seus estudos, quatro horas por dia, todos os dias, às tardes.

Seu lazer: ler.

Apesar da pouca idade, seus olhos eram determinados e sérios. Aliás, ele era um rapaz bastante sério, tanto que era raro ver ou ouvir algo como uma gargalhada ou um sorriso sincero vindo dele.

Uma vida muito chata, pensava Gilbert. Às vezes parava para imaginar se o garoto era feliz daquele jeito ou se era alguma forma de encobrir uma ferida, mas acabava concluindo que aquela era a alegria dele. Uma forma estranha de alegria, mas uma alegria.

Mas o fato é que o menino era um gênio. Executava problemas matemáticos com perfeição, adorava Física e Química lhe era brincadeira de criança. A grande questão é que falhava em quase todo o resto. Por mais que estudasse, por mais que tentasse, por mais que virasse noites acordado, nada daquilo lhe entrava na cabeça. Nada.

Certa vez, um professor de Ludwig disse a família que não se preocupasse. Era comum pessoas com talentos como os dele passarem por algumas dificuldades, mas que o loirinho, esforçado como só ele, ia brilhar na vida.

Seja lá como fosse, Gilbert estava sofrendo junto com o irmão, e acamparia na porta do quarto se fosse preciso (ele deixou uma barraca de camping à mão). Mas... deixaria ele um sozinho pouco. Talvez se animasse depois de comer, porque, afinal de contas, ninguém jamais ficava triste depois de comer a comida de sua Incrível Mãe!

Levou o prato ao o chão, deixando-o em frente à porta do quarto, e se afastou. Parou na escada, onde Ludwig não podia percebê-lo mais.

Ouviu o rangido da porta se abrindo. A comida da mamãe nunca falhava!

— A propósito — gritou Gilbert, em um tom que o irmão pudesse ouvir bem —, o riquinho mimado ligou, acho que quer que você passe lá amanhã, só não falou o que queria com você.

Não obteve resposta, mais uma vez, mas dessa vez aquele parecia ser um silêncio de quem considerava uma idéia. Segundos depois ouviu a porta bater, fechando-se.

— Sinceramente! — bufou o albino consigo mesmo. — Ele não toma mesmo jeito! E espero que ele e aquele riquinho mimado não andem de segredinhos pelas minhas costas! Espero mesmo.

Resolveu dar uma trégua e deixar o menor em paz pelo resto da noite. Mas o atacaria com força total pela manhã, assim que o visse do lado de fora.

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Já eram quase três semanas desde o dia que acharam o pobre menino no jardim e só agora Roderich começava a considerar que a ganharam um novo morador: o garoto tornara-se o xodó da casa.

Fosse ajudando com a comida ou com a limpeza e até mesmo bagunçando alguma coisa sem querer, nunca parava quieto. Até que, apesar de não se entenderem com palavras, estavam se saindo relativamente bem com mímicas e gestos.

Feliciano era o seu nome. Nome que era, aliás, bem incomum, mas acabaram adotando-o por fim. Descobriram-no através de desenhos — talento em que ele parecia ser muito bom, ao que curiosamente não sabia muito bem como se manejavam canetas e lápis.

E o mais estranho é que o departamento encarregado pela infância e juventude não achou registros, identificações ou informações relacionadas ao jovem: era como se não tivesse existido antes.

Mas Roderich tentava não pensar em nada disso, apenas concentrando-se nas teclas do piano que tocava habilidosamente.

Era um exercício diário para manter e aumentar a prática, indipensável. Começara havia quinze minutos e, quando dera por si, lá estava o menino, sentado num banquinho, ouvindo atentamente a música. Se Roderich virasse de costas naquela hora, poderia ver um Feliciano de olhos vidrados e excitados. E, por mais incrível que parecesse, quieto.

Ao terminar a música, ouviu o som de palmas. Virou-se e encontrou Feliciano.

- Stupendo! — disse; os olhos castanhos brilhando.

O mais velho sorriu e acenou de volta com a cabeça. Ao menos aquele pequeno glutão sabia apreciar boa música.

Ia começar outra música, mas Elisabeta, que entrava na sala agora, o chamou.

— Ludwig acabou de chegar — ela disse. — Na verdade, ele chegou há uns minutos atrás, só que... não tive coragem de interromper a música, mandei ele esperar um pouco.

— Não incomodaria se me chamasse antes — respondeu ele, deixando um sorriso de satisfação se formasse no rosto, sem fazer questão de escondê-lo.

Elisabeta saiu e, quando voltou, estava acompanhada por Ludwig, que fez um cumprimento rápido e permaneceu parado até que o outro o indicasse uma cadeira para se sentar.

Mesmo tendo faixas de idade divergentes (a diferença era de seis anos), Roderich e Ludwig se davam bem de uma forma que só os dois entendiam. Eram bastante formais um com o outro e tinham entre si algo que só podia se chamar admiração.

Conheceram-se por intermédio de Gilbert, mas acabaram consolidando a amizade através das aulas de música que vieram a ter juntos, algum tempo depois. Então, volta e meia Ludwig lhe fazia uma visita ou outra e acabavam por passar a tarde conversando frivolidades com chá, café e algum bolo.

Mas, daquela vez em especial, Roderich queria a ajuda do menor. Esperava que ele conseguisse alguma informação a mais sobre aquele garoto estranho que aparecera sem pai, mãe, nem juízo (e que por algum motivo evaporara da sala para sabe-se-lá-onde). Acreditava que seria mais fácil para ele de alguma forma, pois a idade dos dois parecia regular.

Explicou a situação para Ludwig, que considerou um pouco e resolveu ao menos tentar. Roderich pediu também que tentasse avaliar o nível de conhecimento do garoto e, se possível, ensinar-lhe algo.

Talvez fosse uma experiência que valesse a pena. Ao menos, mal não faria.

Ou foi assim que pensou no início.

Roderich lhe apresentou a "cobaia", que lhe cumprimentou com um "olá" trêmulo, meio artificial e, tirando o tom de pele — um moreno de quem se acostumou a passar os dias sob o sol —, não parecia ter muito de anormal.

Teve um pouco de progresso no começo. Era bem fácil, meio chato até. Usava um livro que Roderich lhe conseguira, daqueles infantis para ensinar coisas bobas às crianças, com figuras para pintar e tudo o mais.

Pretendia fazer o outro associar as imagens às palavras, para que aprendesse ao menos o básico.

As coisas andaram bem por vinte minutos e depois disso o "aluno" começara a se dispersar demais. Ludwig tentava chamar a atenção dele, mas Feliciano não conseguia colaborar por muito tempo.

Até que a coisa tornou-se irritante. Um suplício.

Tão irritante que sua paciência esgotara-se.

Quando Roderich voltou, só teve tempo de ver os dois garotos berrando palavras indiscerníveis — Feliciano não se fazia entender pelo idioma que falava, já Ludwig, simples e puramente por estar com os nervos à flor da pele. Um de braços cruzados, o outro, gesticulando loucamente.

Feliciano, ao notar Roderich, agarrou-se em suas roupas como quem tentava se esconder.

— Ei, vocês! Parem já com isso! — Tentou sobrepor sua voz a dos outros dois, sem muito sucesso. Sentiu um rubor subir às faces. Nunca fora muito bom com aquele tipo de coisa.

— Roderich! Esse verme... esse... esse! — Ludwig balbuciava. Era a primeira vez que Roderich viu-o agindo assim, o que, de fato, era até meio normal para aquela idade.

Pensou ter ouvido Elizabeta dizer "Acho que estão se dando bem", mas deve ter sido coisa de sua cabeça.

Demorou algum tempo para conseguir apartar a briga e concluiu que aqueles dois acabariam matando um ao outro se ficassem mais algum tempo juntos.

Aquela não foi mesmo uma boa idéia.