A Voz do Silêncio
5 Capítulo 5
“Conhece-te a ti mesmo.”
Foi seu professor quem lhe disse essa frase durante uma de suas aulas e, desde então, ela não lhe saíra mais da cabeça.
Não que estivesse prestando atenção a aula — de fato, não estava —, mas as palavras de certo modo o hipnotizaram. Não sabia qual exatamente era o significado delas, mas achava que tinham um quê de profético, de colossal.
Conhece-te a ti mesmo.
Mas, além de tudo, a frase o fazia sentir-se um pouco estranho.
“Vazio”. Essa era a palavra certa. Um pedaço dele mesmo que ainda faltava.
Para Feliciano, era terrível olhar para trás e não ter nada de concreto para se apegar, nada que pudesse suprir aquele vazio.
Mesmo que amasse aquelas pessoas, era como se não fizesse parte daquele lugar. Era, de alguma forma, como ser um eterno estranho.
Certa vez, comentou com Elizabeta e tentou argumentar sobre a tonalidade daquele céu estranho e sobre as duas luas disformes que nele orbitavam. Feliciano era teimoso — não lhe saía da cabeça que havia ali algo de errado.
Ela apenas sorriu.
“Você deve estar confuso, meu amor”, disse-lhe.
Foi um sorriso tenro, amável, quase divertido, que o feriu, porém. Não foi por mal, sabia disso. Ela o olhou como se ele estivesse dizendo alguma loucura muito grande.
Mas ele não estava falando nada de mais. Nem de absurdo.
Ele estava certo, afinal.
Ele estava... não estava?
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Feliciano Vargas fora o seu nome, naquela época.
Era ainda criança. De família, lembrava-se apenas do irmão mais velho e, mais tarde, de Don Antonio, por quem tivera muita afeição. Houvera também um avô, tinha quase certeza, mas deste não conseguia mais se lembrar com exatidão.
Hoje, ainda não se lembrava de muita coisa, no entanto, eram bastante vivas as memórias que tinha.
Dos dois irmãos Vargas, Feliciano era o único que sabia ler. Mas escrever era outra conversa — papel e caneta eram absurdamente mais caros que tintas e pincéis.
Também não freqüentava a escola. Se lhe perguntassem, não saberia dizer sequer o que era uma.
Era essa a vida que levava antigamente.
Detestável.
Mesmo que fosse ainda desconhecedor das maldades do mundo, tinha tato para reconhecê-lo.
Talvez não usasse a palavra “detestável”, porque via seus dias com olhos infantis cheios de esperança de que aquela realidade um dia ainda fosse mudar, mas, na prática, isso de nada melhorava ou piorava sua situação.
E o ambiente ao seu redor era de um todo muito simplório — ruelas e becos num labirinto que Feliciano conhecera como as palmas das mãos — e até mesmo sua casa era feita de uns tijolinhos vermelhos que constituíam uma estrutura irregular, inacabada e pouco espaçosa.
Vivia, até então, em uma vila. Ou aldeia. “Um amontoado de casas”, na verdade, seria o que melhor descreveria o lugar que via em suas memórias. Era um lugar onde nunca chovia, e estava sempre alegre (uma alegria lânguida, mas que lhe era alegria da mesma forma) e resplandecente. E miserável também: aquele povo tinha nos olhos somente a fome e a esperança.
Mas, ainda assim, via alguma beleza naquele lugar.
Talvez esse fosse o motivo pelo qual o irmão tantas vezes o chamasse de idiota.
E talvez realmente o fosse.
Mas achava melhor ser um idiota feliz, no final das contas.
Um sonhador: algo que o fazia forte, por não sentir tanto as tristezas que viessem a afligi-lo, mas também algo que o tornava inútil, por pintar uma realidade que era colorida demais.
E pintar era algo que sabia fazer bem, de fato: sua felicidade era conseguir vislumbrar pequenos detalhes que ninguém parava para reparar e, depois, colocá-los numa tela. Eram coisas comuns, mas que o encantavam, como plantas que fossem incomuns para determinada estação do ano ou paisagens bonitas.
O mar e o que mais pudesse achar vindo dele eram dessas coisas. Poderia encontrá-lo depois de andar um pouco, porque boa parte do lugar era banhada por ele, mas, por algum motivo que hoje lhe era vago, não podia mergulhar.
Mas nada se podia comparar com o céu.
Tinha uma quase fixação por mirá-lo e contemplá-lo quando não havia mais nada para se fazer.
Se o olhasse na direção do horizonte, poderia ver ao longe vários de algo que os mais velhos chamavam de “arranha-céu”. Parecia-lhe ser um nome bem acertado: as construções davam-lhe a impressão de serem dedos titânicos com unhas afiadíssimas prestes a rasgar as nuvens. Tivera uma vez até a oportunidade de ver um de perto, numa de suas travessuras — por dentro, porém, era mais concreto e ferragens retorcidas, acabando com a imagem de imponência que tinha deles.
Mas era do céu noturno que mais gostava, porque adorava a luz das estrelas: trazia-lhe uma sensação de paz inigualável. Andava às vezes olhando mais para o céu do que para o chão — o que era, na maior parte das vezes, motivo de inúmeros tombos e topadas.
Aquela mania tinha, no entanto, um motivo. Era na luz das estrelas que achava a salvação nas noites escuras proporcionadas pela má iluminação da casa — e como odiava a escuridão!
Agarrava-se no irmão (que antes ele achava que tinha o sono pesado demais, e acabava não percebendo, mas, mais tarde, descobriu que ele apenas fingia não ter conhecimento), na única cama que possuíam, e contava as estrelas que via através da janela em uma das paredes até adormecer, se esquecendo do medo.
Até que não era tão ruim.
Não, não era. Sua felicidade foi plena e intensa um bom tempo, mesmo que não tivessem o suficiente para viver uma vida com conforto.
Seu irmão, no entanto, não pensava da mesma forma. Queria poder dar a eles uma boa vida, um pouco de “luxo”.
“Não se preocupe comigo, seu imbecil, nem me olhe com essa cara. Vai ficar tudo bem.”
Aquele mentiroso.
Era tão bom poder ao menos se lembrar dele.
Lovino, seu irmão.
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"Aquela estrela brilhante lá no céu é o planeta de onde eu vim."
— Eu sabia que você não acreditaria num negócio desses. Engraçado, né? Pois é a verdade. Quer dizer, eu acho que é. — Ele riu, mas Ludwig sentiu que aquela era uma risada amarga.
Hoje, já não se lembrava de quando é que acontecera o ocorrido, mas tinha a certeza de ter lançado ao menor um olhar irritadiço, achando que este estava tirando uma com sua cara.
Achava que Feliciano era menos propenso a irritá-lo quando não sabia o idioma, porque passava maior parte do tempo calado. Agora era uma matraca — tinha umas conversas assim, sem pé nem cabeça, tanto que Ludwig às vezes achava dificuldade até em acompanhar o ritmo das conversas que tinha com ele.
Feliciano, no entanto, nem reparou na reação do outro. Permaneceu apenas mirando debilmente o céu.
Piada não era. Até preferia que fosse, mas não era. Das muitas expressões que tinha aquele seu amigo, nem uma delas era parecida com a que agora carregava no semblante, de modo que não podia deixar de perturbar-se um pouco com o fato.
O moreno estivera com aqueles olhos tristes durante todo o dia (preferia também que estivesse chorando, aos berros e soluços, porque chorar, chorava à toa) e, quando Ludwig foi lhe perguntar se estava bem, se algo de ruim lhe aconteceu, o outro crispou-se e baixou a vista.
“Não se preocupe comigo, Lud. Estou bem”.
Era um demônio, aquele Feliciano.
Chegava a sua casa como um vendaval: se estivesse por perto, era impossível não notá-lo, ruidoso como era. E não conseguiria dar atenção a nada que não fosse ele, por mais que não quisesse. Era uma espécie de charme, de dom, que Feliciano tinha e que não percebia — era de sua própria natureza trazer as pessoas para perto de si.
E estavam juntos, mesmo que não soubesse bem como se sucedeu tal coisa, na maior parte do tempo que permanecia em casa. Tinha a impressão até de que Feliciano passava mais tempo em seu lar do que no dele próprio.
No verão, ele vinha sempre mais falante que o normal.
Na primavera, gostava de fazer passeios a pé.
No outono, dormia em qualquer canto que pudesse ser feito de cama.
E, no inverno, ah, do inverno Feliciano não gostava! Na verdade, não gostava era do frio — fazia com que se sentisse mal, de alguma forma. Não estava acostumado com aquele clima e até mesmo o tom de sua pele, antes de um tom trigueiro, desbotara um tanto. Preferia se aquecer dentro de casa, e, normalmente, se tornaria “mais pegajoso que o comum”.
As esperanças que Ludwig tinha de entender o que se passava na mente do outro eram quase nulas, mas o fato era que, mesmo que tentasse, não podia ignorar os olhos tristes daquele garoto.
“Você está mentindo, Hérdeváry” — Hérdeváry, pois se sentia pouco à vontade chamando-o pelo primeiro nome. — “Diga-me a verdade.”
Teve certeza de estar enrubescendo, pois, normalmente, seria alheio ao fato ou sequer o notaria (por não ter muito tato quando se tratava de notar e cuidar das chagas de próximos), mas ver Feliciano alegre era tão comum quanto o sol nascer pela manhã.
E talvez fosse também porque aquela alegria fosse contagiante e isso o fizesse sentir-se um pouco mais alegre quando ele estava sorrindo ao seu lado, mas isso Ludwig nunca admitiria.
Vendo que não haveria escapatória, Feliciano deu um meio-sorriso. Sabia que aquele não era um pedido, era uma ordem. E Ludwig não gostava que desobedecessem a suas ordens.
“Lud, você acreditaria se eu te dissesse a verdade? Acreditaria em mim?”
Olhou-lhe com uns olhos que agora eram de um quase desespero.
“Acreditaria.”
Soube logo dizer que o amigo não estava dizendo a verdade, porque o loiro era uma daquelas pessoas “que não conseguem deixar de ser honestas”. Mas sentia que podia falar com Ludwig, afinal, sabia que, mesmo que ele não acreditasse, não riria nem o desmentiria.
“Posso te contar uma história, então, Lud?”
“Faça como achar melhor.”
Chamou-o até a janela, apontou para o céu e disse-lhe algo sobre ter vindo de um planeta diferente. Não deu chance de Ludwig abrir a boca e logo enveredou numa narrativa fantástica que mais parecia coisa vinda de livro.
O absurdo era enorme, mas, pela riqueza de detalhes com que ele contava, ou era um louco, ou um ator extraordinário de imaginação incrivelmente fértil. Preferiu acreditar na primeira hipótese.
Ouviu-o, no entanto, até o fim, sem interrompê-lo, o que de fato deixou-o aliviado — sentia que não teria novamente a coragem de contar sobre aquelas coisas (“coisas”, pois não sabia ainda se era certo chamá-las de sonho ou de passado).
Terminou seu relato com uma voz trêmula. Evitava também olhar nos olhos do outro.
Esperar por sua reação dava-lhe um pouco de agonia.
Silêncio.
— É por causa disso tudo que você anda aflito? — perguntou, por fim.
Negou, balançando a cabeça. Deu também um sorriso meio triste.
— Sabe, Lud... Eu tenho medo.
Deu um longo suspiro antes de continuar:
— Seria tão bom se tudo continuasse do jeito que está... Quer dizer, não que vá mudar, mas não sei o que eu faria se acabasse perdendo mais alguém. Digo, eu tenho certeza que iria enlouquecer se tivesse de me separar de você, ou do seu irmão, ou da Eliza, ou da Dona Maria, ou...
— Ei, ei, já entendi. Não há motivo para temer esse tipo de coisa.
Na verdade, não fazia a mínima idéia do que se passava ali. Se era para atenuar as dores de Feliciano, no entanto, entraria naquele jogo (mesmo que tivesse a impressão de que aquilo terminaria com o menor rindo da facilidade com que o enganou).
— Hérdeváry — chamou o loiro. Esticou o mindinho de uma das mãos para Feliciano, ganhando de volta um olhar confuso.
— Humm... O que é isso, Lud...?
— Estenda o seu também.
O outro obedeceu, reproduzindo o gesto ainda sem entender muito bem. Viu seu dedo ser enroscado pelo do loiro.
— É uma promessa — explicou. — Prometo não te deixar sozinho, está bem?
Aquela certeza de estar enrubescendo lhe veio mais uma vez, mas se sentiu satisfeito em ver um sorriso alegre se abrir no rosto de Feliciano.
— Está bem! Eu também prometo que nunca, nunca, nunca vou me afastar de você.
Não saberia dizer se aquilo era motivo para se alegrar ou se era para se desesperar. Preferiu, contudo, não pensar muito naquilo.
Chegou certa vez a perguntar a Feliciano, mais por curiosidade de ver a reação do que por qualquer outra coisa, qual foi o motivo de “ter vindo de tão longe”, já que nunca “esclareceu” muito bem esse ponto. Respondeu-lhe que fugiu, porque ali “havia boa comida e garotas bonitas” e motivo melhor que esse não existia.
Começou a pensar que, por mais absurda que pudesse ser a explicação, talvez ela tivesse um fundo de verdade: aquele desmiolado não podia ser daquele planeta.
Hoje, faziam uns cinco (seis ou sete, talvez; não era mais capaz de lembrar) anos desde o ocorrido, e ainda não era capaz de se perdoar por ter quebrado sua promessa.
Foi coisa de criança, mas Ludwig não esquecera. E duvidava que Feliciano houvesse esquecido também.
Perguntava a si próprio se, quando retornasse, ele o receberia com mágoas ou com o mesmo sorriso alegre que dera naquele dia.
Notas finais
Enfim, desculpem-me por não ter atualizado essa estória antes, mas, finalmente, aqui está. E agora as tags estão atualizadas :3
Ah, e "Conhece-te a ti mesmo" é uma frase inscrita na entrada do templo de Apólo, em Delfos, na Grécia. Ela serviu como base para a filosofia construída por Sócrates, que dizia que conhecer a si mesmo é a forma como chegaríamos a verdade. Apesar de eu não simpatizar com Filosofia, gosto muito da frase.
Se consegui te divertir/prender aqui por uns cinco ou dez minutinhos, já fico muito feliz.
Mas, se quiser fazer essa que vos fala mais feliz, um review cai bem o3o
Bem, até mais o/
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