Setzer ouvia vozes.

Não eram vozes sem corpo, como as que vêm das desilusões dos loucos, cada voz era continha uma parte do seu dono. Eram como pedacinhos de cada um deles que ele carregava consigo. Já estava tão acostumado que mal dava atenção a elas, mal as sentia. Faziam parte da sua existência assim como o ar e a noite.

Aquela voz não foi diferente. Setzer imaginava que não deveria notar, mas estava chamando por ele. Era mais uma voz raivosa em um mar de outras. Era a voz de um garoto e de um homem. Era um choro e um grito. Acima de tudo, era uma solidão desconsolada que não parecia ser consciente da própria existência.

Ele nunca saberia dizer com exatidão o porquê daquilo tudo levá-lo até a origem da voz, ou talvez simplesmente preferisse continuar ignorando a razão. O fato é que ele foi, e lá o encontrou. Não ficou desapontado ou surpreso. Era aquilo que Setzer já sabia. Um garoto e um homem. Ódio e solidão.

Metaforicamente o envolveu em seus braços, carregando-o para dentro de si e da vida que o rodeava. Viu enquanto ele mudava, afastava-se da pessoa que inicialmente encontrara, tornando-se cada vez mais a si mesmo. Talvez não houvesse diferenças visíveis para aqueles ao redor deles. Mas Setzer não via. Ele ouvia.

E assim, mesmo quando por caso estavam longe um do outro, aquele pedacinho dele sempre estava lá. Era como dos outros, mas não era. Pois o simples fato de fazer parte da massa de vozes o tranqüilizava, com sua presença rotineira e sem graça. Ele apreciava esse aspecto, a falta de novidades e surpresas indicava constância. Era sua companheira tanto quanto o corpo jovem e nervoso.

Não percebera isso, mas simplesmente passara a contar com aquela voz, sempre lá. Sempre lá.

No dia em que a voz sumiu, Setzer estava com as outras crianças. Gostava de ouvi-las falar e de vê-las reagindo, mesmo que ele próprio apenas mantivesse o sorriso enigmático. Tal sorriso sumiu praticamente junto com a voz, perturbando-o de maneira que ele não esperava e não previra. E era uma ocorrência muito rara que Setzer não soubesse de alguma coisa de antemão.

Já chegara a vislumbrar a possibilidade daquele silêncio ocorrer. Não era algo tão difícil de acontecer, se parasse para pensar. Mas talvez tenha preferido acreditar que aquilo ainda demoraria a acontecer. Talvez tenha acreditado que seria capaz de estar lá e evitar algo do tipo.

Acima de tudo, ele não previra as duas lágrimas silenciosas que escorreram pelo seu rosto.

Acima de tudo, ele não previra o quanto aquele silêncio era mais alto e ensurdecedor do que todas as vozes juntas.

so stay in my memory
you can hide out there
dont take all my thoughts today
so i can start to begin again

Notas finais
Sempre agradecimentos à amora Dri pela betagem. Sempre linda, sempre.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!